Qualquer que seja a verdade ela sempre é preferível a qualquer falsidade!
Lindolf Bel [10]
Hodiernamente é muito difícil escapar da influência das mídias electrónicas, estejamos onde estejamos, façamos o que façamos; se fosse partidário de conspirações, diria que estamos sendo vigiados, perseguidos e mesmo, estimulados para caminhos não buscados ou não desejados nas nossas lides.
Estaríamos, pois, vivendo uma era de desliberdade?
Conceito aqui utilizado sem viés político [1], mas dentro de um significado, também neologístico, de apenas restrição ou limitação da liberdade.
Há não muito tempo atrás, após um desafio, escrevi e foi publicado um ensaio fantasioso – “O Cérebro e a Loja Maçónica” [4], comparando aspectos anatómicos e funcionais entre uma loja maçónica e o nosso cérebro; uma analogia, pois, como dito, meditativa e metafórica.
Ali foram imaginadas outras analogias: anatómica, somatória, iniciática, executiva e de multifuncionalidade.
Anatómica, quando comparava o posicionamento e funções dos irmãos em loja com os lobos cerebrais. Somatória, quando focava a busca do trabalho conjunto com única forma de obter melhores resultados. Iniciática, quando alertava para o risco da automatização dos processos. Executiva, quando usada na formulação dos objectivos, com antecipação, planeamento, monitoração e desempenho efectivo da administração da loja – e – por que não? – da própria instituição. E, por fim, a Multifuncionalidade, pois uma loja maçónica, como o cérebro, é multifuncional, onde sempre encontraremos ao lado das variadas funções ritualísticas, um mosaico enriquecido por múltiplas inteligências [4].
É o cérebro em acção modulando e organizando o trabalho maçónico!
Mas desafortunadamente, dentro da escuridão da emocionalidade, a razão comporta-se apenas como uma luz repentina, que fornece momentos de súbita clareza mental, compreensão ou inspiração.
Por que tanta dificuldade de entendermos que temos à nossa disposição uma engenharia tão inimaginavelmente esplêndida onde secretamos substâncias, os renomados e míticos neurotransmissores [5], que possuem estacionamentos (receptores) tão específicos – analogamente, fechadura/chave – que não permitem que outra molécula ali se encaixe de forma adequada, produzindo uma verdadeira e divina corrente que nos presenteia, entre outras infinitas possibilidades, com o dom de pensar, comparar, racionalizar, julgar e tantas outras capacidades que nos deveriam diferenciar e distanciar, incondicionalmente, do restante do reino animal?
Mas continuamos, rotineiramente, assistindo a derrota por goleada da razão para a emocionalidade.
E isto que temos um “sofisticado filtro cerebral” [2], o Sistema Activador Reticular Ascendente (SARA), rede de núcleos encefálicos que actua como um grande “filtro de atenção”. Para evitar uma sobrecarga sensorial com os milhões de bits de informações que recebemos por segundo, o SARA actua de forma semelhante a um algoritmo de mídia social: categoriza e prioriza as informações com base no que nos é mais importante num determinado momento.
Até nos pode confinar “… às nossas certezas passadas, certamente optimizando as nossas escolhas, mas limitando severamente os nossos horizontes… quando, por vezes, não nos aprisiona na radicalização” [2], mas também, regula a consciência e a vigília, afectando directamente a percepção, a aprendizagem e a produtividade; o SARA foca no que você prioriza, dando-nos aquilo que se denomina viés de confirmação [7]. Se você acredita fortemente que algo será difícil, o sistema destacará obstáculos para confirmar a sua crença – e se fácil, idem. Além disto, reorganiza a percepção para evidenciar sinais e oportunidades compatíveis com o que você deseja, desde que se tenha objectivos claros.
“Em resumo, ela funciona como os algoritmos das nossas redes sociais. Sempre concordamos com o que lemos porque essas plataformas filtram o conteúdo para nos permitir ver e ler o que já gostamos” [2].
Espero que este seja o caso desta leitura que o irmão, ora faz!
Então por que não ler Maçonaria? Por que acreditar que os contactos das mídias modernas são suficientes para as nossas relações sociais e saúde mental?
E enfim a pergunta que move a transformação deste pensamento num texto meditativo: o que seria de um neurónio sozinho?
Antístenes, o discípulo rebelde de Sócrates, defendia a ideia de que o indivíduo deve ser auto-suficiente, por outro lado, mesmo nesta modernidade anárquica, convivemos diuturnamente com a premissa de que ninguém se basta apontando para o facto de que nascemos, crescemos e nos desenvolvemos através do outro [8].
A premissa de que o homem não se basta a si mesmo, se manifesta, pois, na estrutura e na sobrevivência diária, estando envolta numa dimensão social quando, como um animal político, segundo a definição de Aristóteles, necessitamos de cooperação, troca de afectos, partilha de conhecimento e vida em comunidade para prosperar
Enquanto o isolamento extremo gera solidão, a interdependência saudável nos permite reconhecer que a presença e o apoio de outras pessoas são partes integrantes da nossa jornada e busca da felicidade [9]; esta interdependência social é facilmente constatável, seja na divisão do trabalho, onde cada profissional depende do serviço de outro para que a rotina funcione, seja na aprendizagem de pensar e comunicar-nos por meio do convívio social – linguagem e cultura -, seja em redes de apoio na participação em instituições, convívio com amigos e familiares que garantem a segurança emocional e física – Maçonaria! [6], seja, por fim, quando mesmo, renunciamos a liberdades individuais absolutas em troca de protecção mútua [8]. E, imagino, que somente isto possibilitou a nossa permanência como espécie neste globo – que não é plano – vagando no espaço por motivos e razões, redundância estilística, que nunca iremos deslindar.
O individualismo actual gera a falsa ilusão de auto-suficiência devido às facilidades tecnológicas.
No entanto, o isolamento social severo resulta em crises de saúde mental, provando que o cérebro humano exige conexão real. A verdadeira autonomia não significa isolamento, mas sim a capacidade de saber conviver e escolher como contribuir para o colectivo [6,8,9].
Não vou me aventurar e me perder em conceitos tentando responder à questão “o que seria de um neurónio sozinho?” – obviamente, é possível brincar e dizer que apenas teríamos uma cabeça vazia.
O cérebro humano é composto por bilhões de neurónios – “indivíduos” -, que são as unidades básicas de processamento. Contudo, funcionam como uma rede neural biológica – ou de “indivíduos” interconectados -, constituindo a base física de como os organismos vivos processam informações, armazenam memórias, aprendem e controlam comportamentos. É uma estrutura complexa e dinâmica.
Assim somos nós, indivíduos maçons – ou neurónios, que dentro da instituição, comparativamente ao cérebro, forma uma ampla rede, a comunidade maçónica – que analogamente à rede neural, é complexa e dinâmica na interacção de irmãos com múltiplos saberes, percepções desejos e aspirações.
O que seríamos, pois, sozinhos?
Quando o caminho é prazeroso, é difícil parar de caminhar.
Como, pois, podemos tornar prazerosa a caminhada maçónica sem envolver-nos com a nossa presença? Como gostar de algo, criar laços, descobrirmos os atalhos e as belezas do entorno se ficarmos parados no ponto de partida?
“A Lei de Brandolini, também conhecida como o ” Princípio da Assimetria do Absurdo “, formulada em 2013 por Alberto Brandolini, afirma que é necessário um gasto desproporcional de energia para refutar ou corrigir informações erróneas em comparação com a energia necessária para produzi-las” [3].
Este é, em outras palavras, o preço da desinformação.
Contudo, na tentativa de justificar a abordagem deste preceito fora do seu senso comum, quero focar nas mazelas do dia a dia de uma loja maçónica: o pouco envolvimento no entendimento estrutural da própria entidade – o que não conhecemos, não damos valor; tendemos a estacionar na dicotomia do duelo entre o presente necessário e o futuro incerto: “Só vejo o que acredito e o que já sei“.
A desinformação aqui, não está directamente relacionada ao factor energético de “refutar ou corrigir informações erróneas” do princípio de Brandolini, mas a perplexidade do facto, facilmente constatável em qualquer loja maçónica, da falta de energia para esforçar-se e conhecer – filosófica e estruturalmente, uma instituição que desejamos pertencer, mas que não chegamos a apreciar os sabores, porque o tempo – cuja percepção já nos fez perder o paraíso -, não nos permite provar adequadamente [2].
Sem nos fazermos presentes, sem estimular as nossas curiosidades, sem estudar as suas leis e filosofias, nunca a conheceremos e, por corolário, nunca desfrutaremos de todos os benefícios de um abraço fraternal.
Como dizia o poeta Lindolf Bel [10]:
Menor que meu sonho não posso ser.
Citação esta, que expressa a recusa em limitar a nossa existência a algo inferior às nossas aspirações mais elevadas; reflecte a convicção de que o potencial humano deve ser alinhado à grandeza dos seus sonhos [10].
Dizia um antigo e saudoso irmão de loja que, para conhecer e amar a Maçonaria, deveríamos estudar, estudar e estudar.
Utilizando uma corruptela desta afirmação, diria que, para amar e saborear as suas reais benesses, devemos frequentar, frequentar e frequentar.
Walter Roque Teixeira – CIM 184.372 – ARBLS Palmeira da Paz nº 2121, Benfeitora da Ordem – GOB/SC – GOB
Referências
[1] Franco, Augusto de – O conceito de desliberdade – 22/01/2017.
[2] D’Allergida, Pierre – Duel entre Fil à Plomb et Réticulé Activateur – 31/08/2025.
[3] D’Allergida, Pierre – La Loi de Brandolini appliquée à la Franc-maçonnerie – 03/08/2025.
[4] Teixeira, Walter R. – O Cérebro e a Loja Maçónica – 08/04/2022.
[5] Sapolsky, Robert M. – “Comporte-se: a biologia humana em nosso melhor e pior” (Behave – The Biology of Humans at Our Best and Worst); pág. 665. Editora Companhia Das Letras, SP/SP, 2021.
[6] Teixeira, Walter R. – Maçonaria como Terapia! – 15/12/2023.
[7] Viés de confirmação: o que é, exemplos e como evitar na pesquisa – QuestionPro.
[8] Noções retiradas de resumos de pesquisas direcionadas em programas de IA.
[9] Teixeira, Walter R. – Maçonaria, Etarismo e Jovencentrismo – uma meditação e uma tese! – 10/02/2023.
[10] Bel, Lindolf – Frases.

- As quatro virtudes cardeais na visão Maçónica
- Reflexões sobre a espada
- Juramento e compromisso maçónicos
- A castração da Maçonaria – um ponto de vista americano
- Formação – Elementos da Câmara de Reflexão

