Uma pequena visão além da grade do oriente e do “sagrado”, “a título de instrução”…
O conceito de sagrado é complexo e transita entre a antropologia, a sociologia e a filosofia, mas a sua definição clássica gira em torno de uma ideia central: a separação.
Etimologicamente, a palavra vem do latim sacer, que se refere a tudo o que foi cortado, consagrado ou isolado do uso comum. Portanto, o sagrado não existe sozinho; ele se define em oposição directa ao profano (o mundo quotidiano, ordinário e secular).
Para compreender o conceito de forma abrangente, vale a pena olhar a perspectiva de três grandes pensadores que moldaram essa discussão:
Rudolf Otto: O “Numinoso” e o Mistério
Para o teólogo e filósofo Rudolf Otto, o sagrado é uma experiência humana profunda, visceral e irracional, que ele chamou de numinoso. Não se trata apenas de seguir regras morais, mas de sentir a presença de uma realidade totalmente diferente de nós (Das Ganz Andere ou “O Totalmente Outro”).
Otto divide esta experiência em dois sentimentos simultâneos:
- Mysterium Tremendum: O mistério que faz tremer, que gera temor reverencial, espanto e a percepção da nossa própria pequenez diante do absoluto.
- Mysterium Fascinans: O mistério que fascina, atrai irresistivelmente e magnetiza o indivíduo.
Émile Durkheim: A Perspectiva Sociológica
Para o sociólogo Émile Durkheim, o sagrado não vem do além, mas da própria sociedade. Ele define as coisas sagradas como aquelas protegidas e isoladas por proibições.
O sagrado, para Durkheim, é uma projecção da força colectiva. Quando uma comunidade se une em torno de um símbolo (seja um totem, uma bandeira ou um altar), ela está, na verdade, venerando a sua própria unidade e os seus valores sociais. O sagrado cumpre a função essencial de criar coesão social.
Mircea Eliade: A Hierofania
O historiador das religiões Mircea Eliade introduziu o conceito de hierofania (a manifestação do sagrado no mundo profano). Para Eliade, o sagrado é o oposto do caos; ele traz ordem, sentido e fundação à realidade.
- Uma pedra, uma árvore ou um pedaço de terra comum podem se tornar sagrados no momento em que “algo” transcendente se revela neles.
- A partir desta manifestação, aquele ponto deixa de ser um espaço qualquer e passa a ser o “centro do mundo” (axis mundi) para quem crê, orientando a sua existência.
Portanto, laconicamente, sagrado é tudo aquilo que é retirado da esfera do uso comum e utilitário, sendo revestido de um valor absoluto, respeito incondicional e mistério. É a dimensão que dá sentido último à vida e à ordem do cosmos, estabelecendo uma ponte entre o homem e a transcendência.
Nesta nau e neste navegar por um oceano de tema profundo, perguntaram-me certa vez, já quase numa convicção subjectiva categórica, sem olhar além da amurada dessa embarcação, que o Oriente é um lugar sagrado, aquele espaço em tablado, geralmente em relevo elevado e separado por uma grade, a grade do oriente, (nos ritos de corrente ou influência francesa) e que, por isso, Aprendizes e Companheiros Maçons não poderiam ali pisar.
Sabe-se, entretanto, que os Aprendizes e Companheiros Maçons podem e ali pisam noutras situações específicas litúrgicas autorizadas, como por exemplo, quando das suas iniciações e outras promoções de grau em que teriam de jurar ou fazer os seus compromissos maçónicos…
Precisamos ver além das nossas amuradas… Existem, pois, duas condições para uma análise preliminar para este caso em específico: 1) A de uma consideração metafórica, conotativa a respeito do ponto cardeal Oriente – a de que o Oriente seria um lugar especificamente delimitado e sagrado, “especial”, esotérico; e, 2) A da analogia e consagração – a de que, por ser o templo ou salão de uma loja maçónica uma analogia ao Templo de Salomão ou Templo de Jerusalém, e também fazer-se referências a conceitos, passagens e personagens considerados sagrados, e por ser um local consagrado maçonicamente, em sessão ritualística de liturgia específica de consagração, também ser considerado o templo maçónico (todo ele e não um único ponto cardeal de elevado relevo) um lugar de solo sagrado (e isto está escrito e descrito em vários rituais maçónicos).
Mas, há também uma outra questão no mínimo muito curiosa: Os Mestres Maçons que podem transitar e assumem lugares no Oriente, possuem alguma “permissão transcendental” para ali se posicionarem? Ou são pessoas quase “sagradas” para poderem ali circular ou tomarem assento? E quanto aos Aprendizes e Companheiros Maçons, seriam “pseudo-profanos”, muito embora sejam também Irmãos regularmente iniciados? – Evidentemente que não!
Trata-se apenas de uma regra ou norma de hierarquia e respeito de mérito e de simbologia do percurso de evolução do Oeste para o Leste, em busca de Luz. O Leste é onde nasce e parte a luz do Sol para todos e para tudo no nosso planeta. Representa simbolicamente a Luz Maior, de Virtude, de Conhecimento e de Sabedoria. Os Aprendizes e Companheiros Maçons, os nossos Irmãos, por não estarem (ainda) devidamente preparados, simbolicamente não possuem ainda a devida capacidade de estarem no Oriente, exercendo funções ou cargos. (E não somente no Oriente, como também, igualmente, não o podem exercer cargos no Ocidente). O Oriente é lugar, simbolicamente, de grande intensidade e irradiação de Luz e iriam estes Irmãos, metaforicamente, ferir as suas vistas, ofuscar-se-iam.
É preciso, cogito, ater-nos ao que está escrito nos nossos Rituais Maçónicos. Se as Instruções neles contidas não indicarem ou prescreverem que deverá haver um “a título de instrução” – algo que ali, se não residir, simplesmente não se deve fazer, e muito menos criar em Loja aberta circulações e quejandos com o malabarismo de se frenar e/ou estacionar Aprendizes e Companheiros em pé à beira da entrada do Oriente, na parte Ocidental do templo, numa circulação comumente dita “a título de instrução”, para um ofício maçónico exclusivo ou próprio de Mestres Maçons, a Aprendizes Maçons ou para Companheiros Maçons.
Na verdade, não há absolutamente qualquer menção nas suas respectivas instruções do grau nos principais rituais maçónicos conhecidos, essa tal instrução “a título de instrução” no preparo de Irmãos em graus que não podem assumir cargos, (segundo a normatização dos Ritos e da maioria dos Regulamentos Maçónicos existentes, que inclusive até veda), para prepará-los para rotinas e acções, manipulações ou usos de instrumentos de trabalhos de oficiais, onde somente Mestres Maçons é que podem fazê-lo.
Os Irmãos Aprendizes Maçons e Companheiros Maçons já possuem os seus respectivos assuntos maçónicos, temas próprios dos seus graus e delimitados nos seus rituais do grau em que se encontram, para aprenderem e serem devidamente instruídos, assim como, da mesma maneira, para os Mestres novéis, que possuem também as suas instruções e os seus campos de temas específicos do seu grau, para assim aprenderem, como as suas acções práticas preparatórias para assumirem futuramente, (ou a qualquer momento), os cargos em Loja, sejam estes electivos ou não. Logo, por que não ensinar, então, um “a título de instrução”, aos Mestres Maçons novéis e a quaisquer Mestres que desejarem aprender e/ou aprimorar-se nas acções dos cargos do seu Rito em Loja?
Não estariam estas Lojas que se preocupam tanto com as circulações ritualísticas de desempenho de ofício, ofício exclusivamente feito por Mestres Maçons, negligenciando com o correcto ensinamento ou com a oportunidade ideal de aprendizagem para Mestres Maçons, principalmente aos Mestres Maçons Juniores, que podem legalmente desempenhar, (- e até devem fazê-lo), e ocupar futuramente cargos maçónicos em Loja?
É preciso, portanto, verificar-se se os conceitos e explicações pré-estabelecidas sobre o “sagrado”, nalguns Ritos, realmente estão sendo considerados à luz dos seus rituais maçónicos e se os famigerados ensinamentos “a título de instrução”, para principalmente circulações de oficiais maçons, estão pedagógica e ritualisticamente voltados correctamente para Aprendizes e Companheiros Maçons; se estão realmente previstos e descritos nas Seções das Instruções dos Graus 1 e 2 dos seus respectivos Ritos tais “a título de instrução”. É preciso ver além das amuradas das nossas naus…
Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI
Referências
- DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totémico na Austrália. Tradução de Paulo Neves. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
- ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Tradução de Rogério Fernandes. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Constituição do Grande Oriente do Brasil. Brasília: GOB, 2008.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Regulamento Geral da Federação. Brasília: GOB, 2019.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Aprendiz Maçom: REAA. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Companheiro Maçom: REAA. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Mestre Maçom: REAA. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Aprendiz Maçom: Rito Adonhiramita. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Companheiro Maçom: Rito Adonhiramita. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Mestre Maçom: Rito Adonhiramita. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual do Grau 1 – Aprendiz: Rito Brasileiro. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual do Grau 2 – Companheiro: Rito Brasileiro. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual do Grau 3 – Mestre: Rito Brasileiro. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Aprendiz Maçom: Rito Moderno. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Companheiro Maçom: Rito Moderno. GOB, 2009.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual de Mestre Maçom: Rito Moderno. GOB, 2009.
- OTTO, Rudolf. O sagrado. Tradução de Walter O. Schlupp. São Bernardo do Campo: Ciências da Religião; Petrópolis: Vozes, 2007.

- Grau 7 – Preboste e Juiz (REAA)
- Simbolismo dos números na Maçonaria – O número Cinco
- Grau 18 – Soberano Príncipe Rosa-Cruz
- Maçonaria em Israel onde os árabes e os judeus se abraçam como Irmãos
- As abreviaturas maçónicas (os três pontos da Maçonaria ∴)

