Em seu “Dicionário Senso Incomum: mapeando as perplexidades do Direito” o jurista Lenio STRECK brinda o leitor com diversos textos em que procura desvelar o senso comum, as estultices do mundo jurídico tupiniquim. Analogamente, iniciamos um exercício para desvelar as mazelas da fraternidade maçónica nos tempos actuais, notadamente, aquilo que denominamos “nescionaria”.
Nesse sentido, constata-se que a Maçonaria, por meio dos seus diversos sistemas e metodologias de ensino (ritos e rituais) se vale do cognitivismo e não cognitivismo moral como termos relacionados à possibilidade de conhecimento no campo dos valores. De facto, como classificações da metaética, o cognitivismo e o não cognitivismo moral estudam os fundamentos e as propriedades dos juízos morais. Assim, é possível afirmar, como fez Lenio STRECK, que: “o cognitivista acredita em factos; o não cognitivista, com a sua visão céptica, diz que só existem narrativas sobre os factos”.
Assim, temos que a metaética debruça-se sobre o que é possível conhecer a respeito de valores, como conhecer, como demonstrar conhecimento e outros. Logo, os conceitos de cognitivismo e não cognitivismo também são úteis para evidenciar que uma dogmática maçónica, que não se preocupa com critérios ou em buscar discursos de verdade, é igualmente não cognitivista. Aliás, é possível afirmar que no seio de uma crítica hermenêutica da Maçonaria (pelo viés da filosofia), não haverá saída para a Maçonaria a partir da adopção de posturas não cognitivistas.
Aliás, cumpre apontar que é até possível adoptar teses sobre a Maçonaria que sejam não cognitivistas, mas é impossível esconder o seu carácter céptico. Eis a razão de, em terrae brasilis, a dogmática maçónica estar sempre tangenciando o não cognitivismo moral, pois as suas respostas, na grande maioria das vezes, são de acordo com o que o autor/irmão pensa. Logo, como adverte Lenio STRECK, “nisso não reside qualquer critério de coerência e integridade, tampouco preocupação com a verdade”.
Vamos além! O não cognitivismo moral implica na não-preocupação do intérprete com as respostas verdadeiras, já que transforma a Maçonaria num jogo de palavras que atendam às suas convicções.
Assim, tomamos a liberdade de adaptar os conceitos de cognitivismo e o não cognitivismo da metatética trazendo-os à fraternidade maçónica: no plano da Maçonaria, o não cognitivismo está em toda a postura (teórica ou prática) que abre mão da própria possibilidade de construir critérios. Logo, uma teoria não cognitivista maçónica, é uma teoria que não se importa com os conceitos maçónicos, que se preocupa apenas em descrever um conceito abstracto a partir de um ponto arquimediano. Um conceito maçónico não cognitivista é um conceito que abre mão de qualquer padrão normativo da linguagem pública e estabelece como cerne de tudo um retumbante “porque sim”, sem qualquer preocupação com critérios que sejam efectivamente relacionados à fraternidade, para a sua compreensão.
O não cognitivismo maçónico está para além de não separar o joio e trigo (na esfera do conceito maçónico e na da construção de uma teoria maçónica) – O não cognitivismo maçónico não se importa em separar joio e trigo, ele está preocupado apenas em impor goela abaixo as suas justificativas pálidas sobre os conceitos maçónicos.
Assim, resta a pergunta: a quem interessa uma Maçonaria estúpida (nescionaria), onde, nas suas práticas ocorrem apenas a repetição dos rituais de forma estéril, sem nada agregar de conhecimento ou valores aos seus praticantes? Reflictamos!
Rui Aurélio de Lacerda Badaró, M. M. – Alt StuhlMeister da Justa e Perfeita Loja de São João nº 680 – Grande Loja Maçónica do Estado de São Paulo

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