Meus Queridos Irmãos,
Eis-nos aqui juntos para mais uma celebração do Equinócio comemorando o renascimento da vida, nesta altura festiva para a Humanidade desde o início dos tempos. Como saberão, há em Portugal variadíssimos monumentos megalíticos orientados na direcção do nascimento da Lua Cheia, que se segue ao Equinócio da Primavera, assinalando um calendário ritual associado à renovação da natureza e ao reinício de um novo ciclo de nascimento-morte-renascimento para os cristãos, reafirmado também na Páscoa pela revisitação da morte e ressurreição de Cristo.
Para nós, maçons, esta é também uma data da maior importância e simbolismo. Uma ocasião perfeita para reafirmar – precisamente 300 anos após as Constituições de Anderson – os valores que mantem também ela, sempre viva, a nossa Augusta Ordem. E, entre esses valores, o valor maior da Fraternidade, assente na vivência partilhada de experiências transformadoras, de uma prática iniciática por vezes incomunicável, mas sempre fortemente evolutiva, a par daquilo que é o nosso fazer Maçonaria em comunidade, assente no diálogo, na solidariedade, na tolerância, e na fraternidade.
Esta é uma altura ideal, como poucas outras, para olharmos para dentro de nós mesmos e reflectirmos sobre o que ainda remanesce em nós dessa pedra polida que com trabalho, esforço e dedicação polimos permanentemente na nossa essência e na nossa existência. Na essência, dando a merecida atenção a nós mesmos, à nossa evolução no sentido de nos mantermos homens livres e de bons costumes que dizemos ser, guiados nesse sempre inacabado caminho pelo Grande Arquitecto do Universo. Na existência, fazendo da nossa vida perante os outros um exemplo de humanidade e de cidadania, tendo como pilares a entreajuda e o apoio dedicado a quem de nós necessita e que, infelizmente, são em grande número e estão no nosso quotidiano; nas nossas famílias, nos nossos empregos, na nossa sociedade.
A Maçonaria Regular, fraternidade iniciática, repudia o egoísmo. E o egoísmo integra a palavra ego, porque é o ego o nosso maior obstáculo à evolução que mencionei. É o ego que apela tantas vezes a que coloquemos os nossos próprios interesses e desejos à frente daquele que é o Bem maior. Fraternidade é sinónimo de harmonia e união entre aqueles que vivem em proximidade ou que lutam pela mesma causa. E é essa harmonia e essa união que devem ser preservadas e reforçadas, com perseverança e dedicação, para que se garanta a justiça e a perfeição que almejamos em cada uma das nossas sessões em Loja.
Sei bem que lá fora o mundo profano permanece instável, perigoso até, pejado de ameaças e carregado de nuvens que ensombram a proximidade da Luz que hoje aqui celebramos.
As nações evoluídas do mundo aceitam e orgulham-se de a Maçonaria estar presente nos seus Países. Sabem que a Fraternidade é o seu valor maior e inalienável. E que a prática da Maçonaria jamais interfere com política e a religião, mesmo tendo ao longo do tempo sido perseguida por ambos.
Somos membros de uma organização singular que se assume pelo seu passado – e por tudo o que ele representa – como uma das maiores organizações democráticas a nível mundial. Os maçons são respeitadores das leis do Estado, defensores da Liberdade e promotores da Fraternidade.
É neste contexto que a Maçonaria universal foi e continua a ser um motor da evolução humana, agindo na educação, no ensino, na reflexão e no estudo, burilando as arestas das imperfeições e elevando o pensamento político e organizacional das sociedades a um nível nunca antes atingido, forjando líderes e obreiros de enorme gabarito, que catapultaram a humanidade para nobres desígnios e belas obras que transformaram e melhoraram o mundo.
Fomos e somos fautores do progresso, mas também teremos de ser o garante dos valores que suportam esses desenvolvimento e progresso, entre os quais a liberdade, a fraternidade, e a igualdade, mas ainda, a solidariedade, a temperança, a tolerância, a compreensão, em suma a amizade.
Sem compreender nunca poderemos perdoar, e isso é preciso para gizar planos inclusivos e agregadores da humanidade, que bem necessita de promotores de entendimento e concórdia. A nossa condição de maçons obriga-nos a nunca deixar de porfiar e resistir perante o desalento, as tribulações, a maldade, o ódio, as desavenças e as discórdias.
É verdade que o maçon pode viver um dilema pelo facto de ser parte de uma organização arraigada no passado, com um modelo institucional concebido há mais de três séculos – num ambiente social, cultural, político, religioso, económico e histórico completamente diferente. O modelo maçónico cumpria, então, um propósito específico como forma de difusão de ideias influenciados pelo iluminismo.
Mas é esse mesmo modelo, naquilo que tem de intemporal, que faz da Maçonaria umas das poucas organizações a nível mundial, que tem a capacidade para enfrentar os actuais desafios.
Chegados a 6023, como é que nós, maçons, vemos o mundo actual e quais os desafios que a todos se colocam, sobretudo os desafios mais urgentes e inadiáveis, ou os mais candentes, que carecem de esforços acrescidos para os enfrentar?
Ora, como bem sabemos, nos últimos anos o mundo tem vindo a piorar drasticamente, sobretudo a partir da pandemia e depois, com a guerra abominável e a invasão da Ucrânia pela Rússia, cujo desfecho não se descortina para breve.
Esta constatação reporta-se a acontecimentos que nos afectam porque os humanos interferiram na natureza, alterando a biologia celular, e porque – no caso da guerra – os humanos provocaram o conflito e mantêm-no de forma bárbara, contra todas as regras civilizacionais. Podemos, assim, afirmar que vivemos mal e em convulsão, por culpa das lideranças humanas, sejam políticas e até religiosas – ou outras, desprovidas de bom senso e de bondade.
E digo isto para me referir aos antídotos necessários a estas calamidades. Claro que só os humanos poderão impedir estes tantos desarranjos provocados por humanos. Isto quer dizer que a Maçonaria está, esteve e estará sempre certa, quando definiu e define, como cerne da sua promoção existencial, trabalhar em cada homem, fazê-lo evoluir, crescer, aprimorando-o e polindo-o, para então somarmos cada um ao todo e melhorarmos a humanidade. É isto que a Maçonaria pretende, objectiva e faz.
Ao elegermos o homem como centro concreto do nosso trabalho, estamos a consolidar a construção do Templo, nos seus mais diversos matizes, tarefa ingente, constante e nunca terminada, porque a complexidade do género humano assim obriga.
É desta forma que surge a ideia e a consumação da Fraternidade, porquanto embora cada homem seja um universo é preciso enquadrá-lo nos desígnios maiores da humanidade que avança a caminho da Luz do GADU, e tal só se consegue com porfiados esforços de todos, e com todos é que nos teremos de iluminar.
Somos uma Fraternidade, independentemente de outras definições e atributos. Mas para nos sentirmos Irmãos, urge associarmo-nos em Templos que resplandeçam a luz divina que recebemos, fazendo obra a partir desse presente sentido e especulativo que nos anima. Trabalhando como obreiros reflectores que vão clareando as trevas que abundam no nosso planeta, provocadas pela escuridão das mentes humanas que lideram os países e as diversas instituições.
Afinal, os que fomentam o ódio, a xenofobia, a exploração, as desigualdades, o racismo, as guerras, a humilhação, a pobreza, a fome, as doenças, o genocídio, as drogas, as tiranias e ditaduras e outras mais que seria despiciendo aqui enumerá-las.
Bem se vê que todos estes males possuem origem humana e é neles que temos de agir. Pela lei, pela ordem, pelas instituições livres, pelo estado de direito, pela democracia, pelos valores humanistas, pela espiritualidade que nos confirma, pelo bom senso e pela nossa determinação.
A Maçonaria é uma organização iniciática com um sistema de graus, orientada para o aperfeiçoamento humano através do ensino e pratica de valores. Mas, a escala infinita de graus, de certificados, de medalhas, de colares, aventais e títulos podem gerar um sentido de importância fictício e a avidez de os coleccionar, em detrimento do aperfeiçoamento pessoal e da própria organização. Desvalorizando assim o verdadeiro significado de “viagem introspectiva” de descobrimento pessoal de cada membro, inibindo o processo de assimilação fundamental dos princípios e valores maçónicos geradores de uma contribuição social positiva.
Só a Fraternidade humana pode salvar o mundo, porquanto só o homem tem consciência desse mundo, nele nasce, vive e morre. Se somos o arquétipo maior do mundo em que habitamos, e até de outros mundos cujas viagens encetamos já para os começarmos a visitar, parece-me acertado continuarmos a concebermo-nos como os ocupantes e utilizadores temporários destas paragens no cosmos, esta onde estamos e de outras mais próximas que nos permitem almejar chegar. Se assim é, não há dúvidas de que, mais uma vez, a Maçonaria está devidamente correcta nos seus propósitos quando procura atingir o “Ecce Homo” singular, instruindo-o, elucidando-o, cotejando e burilando as arestas, para depois ocorrer a melhoria da humanidade.
Por tudo isso, hoje, quero falar-vos do nosso lado de dentro, das colunas em que assenta a nossa força e vigor, das qualidades que marcam a Maçonaria Regular como uma egrégora, um conjunto de irmãos que partilham um caminho comum na nossa plural diversidade. Caminho esse que só quem é maçon percorre. E que só quem é maçon verdadeiramente vive.
A nossa Grande Loja recuperou o fulgor do tempo anterior à pandemia, e verificamos mesmo o maior crescimento de sempre. Somos hoje a maior potência maçónica, respeitada, reconhecida e um exemplo para as potencias maçónicas regulares, diga-se Maçonaria Universal. Mas há ainda muito trabalho para o qual estamos todos mobilizados e motivados.
Os maçons, com os seus “Landmarks” e o eclectismo transversal da sua espiritualidade, muito para além das verdades absolutas que bastas vezes as religiosidades impõem, conseguem como portadores da luz magnificente provinda da matriz criadora do mundo, ou seja, do GADU, atingir mais celeremente e com mais acutilância o género humano que se dispõe a aceitar manejar as ferramentas do progresso: o esquadro, o compasso, o nível.
É que não basta querer, é preciso saber utilizar as ferramentas para que elas possam agir sobre a pedra bruta, sobre os defeitos, as ignorâncias, os preconceitos, a incultura, a prepotência, o egoísmo, a intolerância e os abusos.
Ora, os maçons são homens como todos os outros irmãos desta Terra comum, só que por vontade própria decidiram integrar a nossa Augusta Ordem procurando aprimorar-se para depois intervir na sociedade, ajudando a eliminar as insuficiências e necessidade dos outros. Então, munidos das nossas ferramentas, passam a poder agir. É isso mesmo que queremos que façam!
No mundo há poucas organizações como a nossa, com um potencial imenso, com tantos valores e recursos humanos e tantas reservas intelectuais e morais. Estas características convertem a Maçonaria num grande destino para qualquer homem e dá-nos a oportunidade de trabalhar no benefício da nossa sociedade e no desenvolvimento humano, fazendo o necessário para despertar em cada um o verdeiro sentindo de pertença à Ordem e um sentimento profundo que representa o orgulho de ser maçom.
Nós, maçons, não temos nada a esconder, não há segredo na Maçonaria, nem sequer pertencemos a uma Ordem discreta, temos ritos e práticas ritualistas que são só do conhecimento dos maçons. Por isso assumam-se, respondam à chamada dizendo: “Presente! Sou Maçom com muito orgulho”. Se todos assumirem a sua condição, os detractores e os preconceituosos deixarão de falar de nós, e a sociedade irá alterar, a pouco e pouco, a percepção errada e intoxicada que tem da Maçonaria.
Ao sair hoje daqui, mais uma vez, pensemos naqueles nossos irmãos que o Grande Arquitecto do Universo chamou já até ao Oriente Eterno. Mas pensemos também na oportunidade inexcedível que é estarmos vivos, plenos ainda de potencial, capazes de dar e receber. Nesta fraternidade, cada um dos meus Queridos Irmãos reconhece o Outro como tal. Somos, cada um de nós, espelho dos restantes. Somos, cada um de nós, reflexo das acções e pensamentos desse algo maior que é o nosso conjunto. Percorrendo a História. Fazendo a História. Vivendo-a como antes de nós a viveram, ao longo de séculos, aqueles que nos antecederam.
Como nos recorda o equinócio, há vida e morte e depois novamente a vida, num ciclo eternamente renovado. Muito depois destas minhas palavras se terem já dissolvido com a passagem dos anos, a Maçonaria Regular continuará a preservar estas mesmas mensagens e estes mesmos valores. Porque aquilo que hoje vos digo não pretende ser original, mas sim operativo. E, as palavras, apenas o pretexto para as reflexões e intuições, as decisões e as acções, com que cada um orientará a sua vivência, porque é nesse Oriente que se encontram as luzes que alumiam o nosso caminho desde o surgimento da Maçonaria.
Que cada um de nós siga essas luzes. Que cada um de nós recorde a mensagem da sua iniciação e reflicta novamente no significado da inscrição V.I.T.R.I.O.L.: “Visita o Centro da Terra, Rectificando-te, Encontrarás a Pedra Oculta”. Essa pedra polida que temos todos, em potência, dentro de nós. Mas que só atingiremos para além dos egos, abraçando o verdadeiro sentido da fraternidade que nos trouxe até aqui.
Armindo Azevedo – Grão-Mestre da Grande loja Legal de Portugal /GLRP
Lisboa, 25 de Março de 6023

- Comunicação do Grão-Mestre da GLLP / GLRP – Solstício de Inverno – 2022
- Comunicação do Grão-Mestre da GLLP / GLRP – Equinócio de Outono – 2022
- A GLLP/GLRP preside à 6ª zona da CMI e o seu Grão-Mestre, Armindo Azevedo, assume a Presidência da organização
- A Grande Loja Legal de Portugal / GLRP lançou o 4º número da revista “Grande Loja”
- Os Grão-Mestres da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP


Grande palabras de un Gran Maestro. TAF
Bem haja,
Carissimo as suas palavras são a “pedra de toque” neste deserto de sentimentos e respeito pelo seu congenere.
Obrigado pela partilha,