A Fidelidade é o espírito e o espírito a fidelidade… [1]
“Fidelidade, Fidelidade, Fidelidade” [3]
A virtude da Polidez é a origem das virtudes; a Fidelidade, o seu princípio; a Prudência, a sua condição. E será ela mesma uma virtude? A tradição responde que sim, e é o que cumpre explicar-se em primeiro lugar. A prudência é uma das quatro virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média. E é a mais esquecida, talvez… [1]
Portanto, a Polidez é a origem das virtudes; a Fidelidade o seu princípio, e a Prudência a sua condição.
Conforme a Bíblia Sagrada, no Livro da Sabedoria, Capítulo 8, Versículo 7 (“E se alguém ama a justiça, saiba que as virtudes são frutos da Sabedoria: ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza, que são os bens mais úteis na vida“), existem quatro virtudes cardinais (ou virtudes cardeais) que polarizam todas as outras virtudes humanas. O conceito teológico destas quatro virtudes foi derivado inicialmente do esquema de Platão e adaptado por Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho de Hipona e São Tomás de Aquino.[2] [4]
A Prudência é a virtude que nos ensina a regular as nossas vidas e acções de acordo com os ditames da razão, e é através deste hábito mental que os homens julgam com sabedoria, cautelosamente determina todos os factores relativos à sua felicidade temporal e eterna. Esta virtude deve ser a característica distintiva de todo Maçom Livre e Aceito, não apenas pela boa ordem das acções da sua própria vida, mas como um exemplo devotado para aqueles no mundo que não são Maçons, e deve ser agradavelmente praticado com estranhos ou com grupos conhecidos, nunca deixando escapar ou deslizar a menor parcela de indiscrição, através da qual, os nossos segredos Maçónicos possam vir a ser ilegalmente obtidos. [3]
No Ritual do Rito de York Gr. 1, de AFM, recomenda-nos, como homens, a prática de todas as virtudes, não só privadas como públicas: a Prudência vos guie, a Temperança vos purifique, a Fortaleza vos sustente e a Justiça seja o guia de todas as vossas acções. Sede especialmente cuidadoso em manter no seu maior esplendor, aqueles ornamentos verdadeiramente maçónicos, que já foram amplamente ilustrados – a Benevolência e a Caridade. [3]
A Prudência é a disposição que permite deliberar correctamente sobre o que é bom ou mau para o homem (não em si, mas no mundo tal como é, não em geral, mas em determinada situação) e agir em consequência, como convier. É o que poderíamos chamar de bom senso, mas que estaria a serviço de uma boa vontade. Ou de inteligência, mas que seria virtuosa. É nisso que a Prudência condiciona todas as outras virtudes; nenhuma, sem ela, saberia o que se deve fazer, nem como chegar ao fim (o bem) que ela visa. Santo Tomás [2] [4] bem mostrou que, das quatro virtudes cardeais, a Prudência é a que deve reger as outras três: a Temperança, a Coragem e a Justiça, sem ela, não saberiam o que se deve fazer, nem como; seriam virtudes cegas ou indeterminadas (o justo amaria a justiça sem saber como, na prática, realizá-la, o corajoso não saberia o que fazer da sua coragem etc.), assim como a Prudência, sem elas, seria vazia ou não seria mais que habilidade. A Prudência tem algo de modesto ou de instrumental; ela se põe a serviço de fins que não são os seus e só se ocupa com a escolha dos meios. Mas é isso que a torna insubstituível: nenhuma acção, nenhuma virtude – em todo caso, nenhuma virtude em acto – poderia prescindir dela. A Prudência não reina (mais vale a justiça, mais vale o amor), mas governa. Ora, que seria um reino sem governo? Não basta amar a justiça para ser justo, nem amar a paz para ser pacífico; é preciso, além disso, a boa deliberação, a boa decisão, a boa acção. A Prudência decide e a coragem provê. [1]
Prudentia, observava Cícero [8], vem de providere, que significa tanto prever como prover. Virtude da duração, do futuro incerto, do momento favorável (o kairós dos gregos), virtude de paciência e de antecipação. Não se pode viver no instante. Não se pode chegar sempre ao prazer pelo caminho mais curto. O real impõe a sua lei, os seus obstáculos, os seus desvios. A Prudência é a arte de levar isso tudo em conta, é o desejo lúcido e razoável. Os românticos, por preferirem os sonhos, torcerão o nariz. Os homens de acção sabem, ao contrário, que não há outro caminho, mesmo para realizar o improvável ou o excepcional. A Prudência é o que separa a acção do impulso, o herói do desmiolado. No fundo, é o que Freud chamará de princípio da realidade, ou pelo menos a virtude que lhe corresponde: trata-se de desfrutar o mais possível, de sofrer o menos possível, mas levando em conta as imposições e incertezas do real, por outras palavras (tornamos a encontrar a virtude intelectual de Aristóteles), inteligentemente [5]. Assim, no homem, a Prudência faz as vezes do que é, nos animais, o instinto – e, dizia Cícero [8], do que é, nos deuses, a providência. [1]
A Prudência dos antigos (phronésis, prudentia) vai, portanto, bem além da simples evitação dos perigos, a que a nossa praticamente se reduz. As duas, no entanto, estão ligadas, e esta, de facto, aos olhos de Aristóteles ou de Epicuro [5] [6], pertenceria ao domínio daquela. A Prudência determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar. Ora, o perigo pertence, na maioria dos casos, a esta última categoria; daí a Prudência, no sentido moderno do termo (a Prudência como precaução). Todavia, há riscos que são necessários correr, perigos que é preciso enfrentar; daí a Prudência, no sentido antigo (a Prudência como “virtude do risco e da decisão”). A primeira, longe de abolir a segunda, depende dela. A Prudência não é nem o medo nem a covardia. Sem a coragem, ela seria apenas pusilânime, assim como a coragem, sem ela, seria apenas temeridade ou loucura. [1]
Cumpre observar, aliás, que, mesmo no seu sentido restrito e moderno, a Prudência continua a condicionar a virtude. Somente os vivos são virtuosos ou podem sê-lo (os mortos, no máximo, podem ter sido); somente os prudentes são vivos, ou o permanecem. Uma imprudência absoluta seria mortal, sempre, em prazos brevíssimos. Que restaria da virtude? [1]
Moral sem Prudência é moral vã ou perigosa. “Caute”, dizia Spinoza [7]: “Cuidado.” É a máxima da Prudência, e é preciso ter cuidado também com a moral, quando ela despreza os seus limites ou as suas incertezas. A boa vontade não é uma garantia, nem a boa consciência uma desculpa. Em suma, a moral não basta à virtude; são necessárias também a inteligência e a lucidez. É o que o humor recorda e a Prudência prescreve. A Prudência é uma Arte Virtuosa Maçónica da precaução e da inteligência; da razoabilidade e do bom senso; do equilíbrio e do discernimento. [1]
Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI
Fontes e referências
[1] COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo. 1999.
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Virtudes_cardinais
[3] RITUAL DO RITO DE YORK – AFM. GOB. 2020.
[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Tom%C3%A1s_de_Aquino
[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles
[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Epicuro
[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Baruch_Espinoza
[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%ADcero

- O Maçom Mozart
- Maçonaria: mitos
- O Rito Ismaelita
- A União dos Maçons
- As quatro virtudes cardeais na visão Maçónica

