Comunicação do Grão Mestre da GLLP/GLRP – Solstício de Verão – 2021

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Armindo Azevedo - Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP, solstício
Armindo Azevedo – Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

Meus Queridos Irmãos,

Festejamos hoje mais uma efeméride, como é tradição na nossa Fraternidade, carregada de simbolismo para a Maçonaria Universal: o Solstício de Verão de 6021, que nesta oportunidade ocorre a 21 de Junho, marcando o início do Verão. Assim, vivemos no hemisfério norte o dia mais longo do ano. O Solstício de Verão é como todos sabemos, o momento em que o Sol atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do Equador.

Mas se a Maçonaria comemora as efemérides que consubstanciam a sua história e dão sentido à sua ritualidade, fortalecendo a sua prática quotidiana ao longo dos tempos, também é certo que ao fazê-lo, todos estamos a dar sequência às obrigações que nos incumbem, por via da grandeza das obras de todos aqueles que nos precederam nos desafios do progresso da humanidade. Embora os combates nunca terminem em absoluto, bem sabemos que foi pelo labor dos nossos predecessores que fomos saindo das profundas trevas em que o mundo se ancorava.

Somos os herdeiros da Luz, que os ancestrais nos legaram, mas que nos obriga a fazermos o nosso trabalho, propiciando cada vez mais uma maior claridade ao mundo do nosso tempo, também ele carregado de nuvens bem escuras que dificultam a iluminação, que necessariamente precisamos de irradiar.

Mas, como sempre dissemos ao longo deste tempo de pandemia, a crise tem sido profunda, todavia os homens estão a conseguir vencer tão tenebroso mal e as suas vastas consequências negativas. Esta problemática vai ainda persistir, mas é já claro que iremos vencer.

E nisto, cabe dizer que a nossa Augusta Ordem colaborou um pouco por todo o mundo, pois mantivemos sempre os nossos princípios e as nossas acções ao serviço do bem-fazer, sem nunca descurar o bem-pensar.

É recorrente nestes tempos maus, os extremos aproveitarem-se para imporem as tiranias e as exclusivas formas de dominarem as pessoas, os países e o mundo, usando as necessidades e as fragilidades de quem precisa de amparo ou auxílio.

A dimensão da pandemia COVID-19 trouxe à evidência situações que não estavam à vista. Os desafios éticos da saúde, da economia, da política e dos direitos humanos pesam agora mais do que nunca. É preciso decidir sobre o desconhecido e, muitas das vezes, sem informação suficiente, pelo que decidir sobre o futuro nunca foi tão difícil.

O agravamento das condições económicas e sociais devido à pandemia, trouxe ao populismo um terreno fértil para continuar a crescer. Deverá haver uma resposta que não passe por ignorar, mas pela compreensão e firmeza no combate às desigualdades sociais, para evitar o sentimento de um isolamento permanente e de exclusão social.

É necessário enfrentar a pandemia com medidas eficazes, como o isolamento social e o investimento massivo na saúde pública, mas também com o combate às notícias falsas e aos discursos dos negacionistas, que minimizam a gravidade da doença.

É claro para todos nós, que as medidas de isolamento social determinadas pelas autoridades de saúde, geraram um acalorado debate, a realização de manifestações públicas contrárias a esta situação, e em alguns casos ao uso de forças de segurança, como única forma de manter a ordem pública.

E isso vale também para as instituições, governos ou países, forjando-se mentiras, difundindo-se boatos, acusando-se inocentes, vilipendiando-se os justos e assaltando estruturas, serviços, organizações e até governos, distorcendo a verdade, delapidando recursos, provocando injustiças, maltratando as pessoas e aumentando a miséria.

O extremar de posições, a crise de valores de instituições sociais e políticas, abriu um vazio que será seguramente preenchido por movimentos com uma dimensão radical.

A Maçonaria que é alheia aos universos de radicalidade deve fazer pedagogia, através da valorização de alternativas mais tolerantes e pacificas.

Impõe-se, pois, uma verdadeira interpretação e reflexão sobre a ideia de liberdade.

E tal pode e deve ser feito recorrendo a eméritos pensadores e filósofos, que nos precederam, e que há muito estudaram as fragilidades humanas no que concerne à luta para o progresso da humanidade, sobretudo na assunção da cidadania plena, em que as liberdades, os direitos humanos, a igualdade, a tolerância pelas diferenças e o respeito pelo próximo sejam marcos inalienáveis que nós, Maçons, nunca poderemos deixar de defender.

Thomas Hobbes, na sua obra “Leviatã” define liberdade como “a ausência de resistências externas que poderiam obstruir os movimentos possíveis aos corpos simples”. Na visão de Hobbes o homem livre “é aquele que, naquelas coisas que graças à sua força e engenho é capaz de fazer, e não é impedido de fazer o que tem vontade de fazer”, é gerido pela sua vontade e capacidade. Essa ideia de liberdade para Hobbes assume outros contornos, principalmente quando os indivíduos associam também a ideia da regulação das acções dos homens interposto por um “homem artificial”, como impedimentos para fazer valer a sua vontade.

Kant, apresenta-nos, no entanto, uma outra ideia de liberdade: “o sujeito humano deve ser considerado “livre”, uma vez que possui fortuna e na medida que tem a capacidade de dar leis ou agir e fazer-se activo em conformidade com elas”. Nesse sentido a liberdade interliga-se com a autonomia do indivíduo, e aproxima a ideia de uma moralidade baseada nas nossas acções racionais. Muito embora a liberdade individual seja fundamental, ela não pode predominar sobre o interesse colectivo, e assim a defesa pelo fim do isolamento social torna-se a defesa das idiossincrasias, que é uma marca dos grupos contrários a esta situação, independentemente do género, classe social, raça e ideologia.

Desse modo prevalecendo a insígnia da individualização como sinónimo de liberdade, nenhum avanço social será possível.

Arthur Schopenhauer, “filósofo da vontade”, defendeu a ideia de que o homem não é um ser unificado e racional, que age conforme os interesses, mas um ser fragmentado e passional, que age influenciado por forças que fogem ao seu controle.

Hoje, admite-se que existem instâncias não racionais que influenciam enormemente as nossas vidas, e que de alguma forma, precisamos lidar com elas. Assim, a visão schopenhaueriana de um ser não estritamente racional parece mais actual do que nunca.

O historiador e jurista, António Araújo, não tem dúvidas que a pandemia de Covid-19 acentuou as desigualdades em Portugal, a vários níveis: “O que esta crise foi evidenciar em traços mais graves aprofundou e vai aprofundar a desigualdade. Esta crise tornou patente alguma desigualdade étnica em Portugal. Vemos amiúde pessoas de outras etnias a trabalhar nas ruas, que não tiverem os benefícios do confinamento”.

António Araújo, concluiu que “entre a liberdade e a igualdade, a afectação da igualdade ficou mais exposta do que a afectação da liberdade”.

Viktor E. Frankl, assistiu no pós-guerra ao crescimento económico da Europa e previu que as pessoas, à medida que vissem as suas necessidades básicas satisfeitas, começariam a esquecer-se do sentido da vida, e isso acabaria por levar a um enorme vazio existencial. O autor de “A Voz que Grita por um Sentido” reforça a sua crença de que num mundo confuso, só em nós próprios encontraremos um farol e um rumo para a vida.

Só com a persistência dos valores, a exigência das virtudes, a ocupação dos espaços vazios com as boas obras e a firmeza exemplar do caracter digno dos Maçons, poderemos levar a Luz do GADU aonde ela é mais necessária. E bem sabemos, que não precisamos de olhar longe para encontrar onde e quem iluminar, assim nos disponibilizemos para o fazer.

Permitam-me que recorde o que escrevi por ocasião do solstício de Inverno de 6020:

“Em tempos de crise a Espiritualidade tem uma importância recrudescente. Se é verdade que, por força da pandemia, confiamos cada vez mais nos avanços da ciência, não é menos verdade que assistimos a um despertar do interesse pelo lado transcendente da vida”.

Uma certeza temos: a Luz do Maçon nunca se extinguirá; pode, por vezes, aparentar uma cintilação débil e frouxa, mas será, sem dúvida, uma Luz verdadeira, capaz de guiar os passos do Maçon no caminho da paz, da harmonia e da perfeição.

Como diria Renato Kehl, é tempo de “pensar para acertar, calar para resistir e agir para vencer”.

Gostaria ainda de honrar aqueles Irmãos corajosos e determinados que tomaram a decisão de restaurar a regularidade no nosso país, naquilo que parecia uma aventura, ousaram criar a Grande Loja Regular de Portugal em 29 de Junho de 1991, com o apoio da GLNF.

Este caminho encetado por um grupo composto por homens, infelizmente alguns já desaparecidos, e dos quais se destaca a figura incontornável de Fernando Teixeira, Grão-Mestre da Grande Loja Regular de Portugal.

A GLRP agrupando diversas Lojas e personalidades das mais variadas origens, profissões, idades e ideologias, uniram-se pelas mesmas crenças, tendo sido reconhecida pelas potencias maçónicas regulares do mundo.

A Maçonaria regular está intimamente ligada à Maçonaria universal dos últimos trezentos anos e representa, por isso, a maior e a mais antiga fraternal ordem secular no mundo, que reúne homens de todos os países, raças, crenças e opiniões, em paz e harmonia. É uma fraternidade universal, dedicada ao aperfeiçoamento intelectual, moral e espiritual dos seus elementos, e por essa via, à melhoria e progresso da Sociedade.

Iremos comemorar no próximo dia 29 de Junho os 30 anos da Maçonaria Regular Universal, na qual a GLLP/GLRP representa a vontade indomável dos Irmãos, constituindo-se garante de enorme futuro, de reconhecimento e de universalidade.

Antes de terminar, permitam-me agradecer a confiança que manifestaram ao (re) elegerem-me como vosso Grão-Mestre. A votação foi uma enorme prova de maturidade maçónica, num processo simples e com elevada participação. Fizemos, mais uma vez, história.

Esta eleição é para mim uma enorme responsabilidade, mas também uma honra e motivo de muito orgulho. A todos agradeço de forma muito reconhecida.

Tudo continuarei a fazer para engrandecimento da nossa Augusta Ordem cumprindo e defendendo, de forma intransigente, os critérios da regularidade, e os nossos valores e princípios.

Saúde, Harmonia e Amor Fraterno.

Recebam um abraço fraterno,

Armindo Azevedo
Grão-Mestre

Lisboa, 21 de Junho de 6021

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