Meus Queridos Irmãos,
Permitam-me que comece por agradecer calorosamente a vossa presença. Esta participação e mobilização são um acto de apoio e encorajamento. É muito reconfortante encontrarmo-nos novamente e compartilharmos este dia juntos.
Eis-nos de novo juntos em celebração e partilha, física e espiritualmente, aqui unidos por uma energia comum de elevação e de aprimoramento, de trabalho constante para a construção dessa pedra polida que está em cada um de nós, parte integrante do Templo que erguemos e dedicamos como egrégora, ao Grande Arquitecto do Universo.
Vivemos o tempo do Solstício de Verão tão marcante para a maçonaria universal.
Festejando um acesso à luz, não poderíamos ficar insensíveis a essa maior luminosidade, o que se traduz num revigoramento das nossas actividades.
Mas após três anos de feroz pandemia sempre ressurgida, acresce a continuação da guerra da Ucrânia promovida pela invasão russa, e que tarda em ser resolvida, provocando enorme sofrimento, fome, morte, órfãos e destruição.
E nós, maçons, sempre na nossa luta contra todas estas barbaridades, não sossegaremos enquanto não virmos surgir a paz, o entendimento e a concórdia.
Estou firmemente convencido de que a Maçonaria regular, pelos valores que promove e pelo profundo significado de seus rituais, tem contribuído muito para superar a situação gerada pela Pandemia e suas consequências. Ajudou-nos a conter as nossas dúvidas e ansiedades. Este domínio decorre da nossa vontade declarada de realizar, de aprender e de cada um se conhecer melhor, para depois compreender e amar o próximo como a nós mesmos.
Hoje queria chamar a vossa atenção para as coisas simples e que frequentemente não valorizamos. A democracia, as liberdades de pensamento e de escrita, a tolerância, o respeito, o estado de direito, a igualdade de todos perante a lei, a imprensa livre, são elementos, entre outros, que precisam ser alimentados, robustecidos e acarinhados todos os dias.
Quando se tolera uma incivilidade, por menor que seja, estamos as abrir as portas para o desastre. Não podemos tolerar qualquer ataque à liberdade e à democracia, sobretudo quando agora é tão actual mentir ou criar realidades virtuais assentes em falsidades e argumentos enviesados, sem qualquer ligação com os factos ou realidades com verdade histórica.
Ouvimos assim falar dos “engenheiros do caos”, que promovem a mentira e a falsidade, a espalham e a tornam realidade. Ou como as “fake news”, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições.
Parafraseando Mark Twain “Uma mentira pode dar a volta ao mundo no mesmo tempo que a verdade leva para calçar os seus sapatos.”
A Maçonaria carrega consigo toda uma longa historia de combate a todas as injustiças e muito padeceu, também, por isso mesmo. Neste contexto, urge persistir na luta cada vez mais essencial, agora que vemos como a guerra pode surgir contra tudo que e previsível, desde que um qualquer ditador ou tirano presumido de unção divina, se aproveite da falta de atenção daqueles que deveria servir para estabelecer ditatorialmente a sua verdade.
Nós, maçons, temos de nos comprometer que nunca esmoreceremos neste combate, na certeza de que o primado do GADU permite-nos obter dele a sua Luz, a sua Força e a sua Clarividência, de forma a triunfarmos de novo sobre as trevas.
Na minha anterior alocução, por ocasião do equinócio da Primavera, falei-vos da importância decisiva de preservarmos e defendermos esta nossa regularidade maçónica, através do respeito absoluto pelos Landmarks, que unem e uniram maçons e obediências maçónicas através do tempo.
Temos de ter sempre presente as nossas Regras da Regularidade Maçónica e mobilizar as nossas forças para superar as eventuais dificuldades, sendo que os maçons não cedem ao mal, mas pelo contrário, vivem plena e intensamente os seus juramentos. Deste modo, na nossa fraternidade nenhum irmão ficará para trás.
Nós somos herdeiros da mais velha tradição esotérica do mundo, e por isso temos o dever de irradiar, transmitir e combater o desespero e desânimo do mundo, pela felicidade de pertencermos à maçonaria.
Meus queridos Irmãos,
Vivemos um tempo em que novos movimentos de pensamento consagram a passagem do sagrado ao profano, virando as costas aos valores espirituais transmitidos pelos nossos ancestrais.
Nós, maçons regulares, temos orgulho de ser os discípulos dos trabalhadores do Templo de Salomão, dos filósofos da antiguidade, dos humanistas e daqueles irmãos do Iluminismo, cujos legados teceram a Maçonaria nos últimos três séculos. Nós, maçons, temos o privilégio de ler o presente à luz de um passado emocionante, repleto da sabedoria daqueles que um dia formaram a nossa cadeia de união, e cujos espíritos estão sempre nela presentes.
No espaço e tempo sagrados da Loja, as alegorias e símbolos contidos nos nossos rituais iluminam estrelas de esperança, que fortalecem a nossa fé maçónica. Assim enraizada, a nossa fé maçónica cresce e floresce neste solo espiritual.
A Maçonaria regular não mudou por mais de três séculos e não mudará nunca, enquanto permanecermos apegados à regularidade que é nossa força. Com a Regularidade, realçamos a nossa aversão aos debates sociais que só dividem os homens, erguendo-lhes o espelho das suas contradições e discordâncias. Nós, maçons regulares, apegamo-nos apenas ao que nos une em torno de um centro habitado por uma presença Divina.
O caminho iniciático que estamos a fazer é um humanismo do século XXI que se baseia no reconhecimento da complexidade humana e no dever de solidariedade. Para o maçom, ser humanista não se limita a aceitar as diferenças entre os homens, mas consiste em sentir, tanto quanto possível profundamente, dentro de si, que cada irmão com os seus defeitos e qualidades, transporta consigo o futuro da Ordem.
Encorajo-vos fortemente a trazer homens de boa vontade, a robustecer este terreno com jovens irmãos que, pouco a pouco, irão regenerar a nossa Ordem e assegurar a sua continuidade. Aquele que ainda não conheceu a felicidade de propor um candidato à iniciação, não completou o seu percurso maçónico.
E apraz-me agora dizer, poucos meses passados, que a regularidade une também cada vez mais os maçons através do espaço, expandindo-se em Portugal como nos países lusófonos, com força e vigor. Recentemente, tive a honra e o privilégio de estar presente no erguer de colunas de mais uma Loja em geografias mais distantes, como em Cabo Verde.
Significa isto, a par da quantidade de inquirições em curso e dos pedidos de admissão recebidos, que existe uma dinâmica de crescimento inequívoca, e que – após o desafiante período de restrições derivadas da pandemia – soubemos corresponder da melhor forma aos problemas enfrentados, ao mesmo tempo que activamente prosseguimos o caminho para o melhoramento da percepção externa da nossa Augusta Ordem, transmitindo os nossos valores universais de cidadania.
Para a Maçonaria regular, a abordagem política é sempre perigosa, na medida em que confronta o homem com seus semelhantes, enquanto o processo iniciático, embora não livre de perigos é sereno, pois só confronta o homem consigo mesmo.
Mas onde o político acredita em melhorar a sociedade proclamando com força ideias partidárias, o maçom esforça-se para contribuir para a melhoria da sociedade pela força do seu exemplo, e pela aplicação das virtudes maçónicas.
Nós Maçons Regulares mantemos uma tradição ritual e fraterna, baseada nos valores fundamentais de benevolência, altruísmo, solidariedade e tolerância, passadas de geração em geração, desde os primórdios da Maçonaria.
A satisfação de sermos mais, aliada à perseverança em nos tornarmos melhores, não invalida, no entanto, que baixemos os braços perante a realidade que nos cerca, e que nos coloca perante dilemas e angústias consideráveis, como maçons e como cidadãos.
Apesar do aparente confronto na abordagem de alguns temas puderem ser considerados políticos, nós como maçons, que procuram a verdade e a justiça, temos que nos inquietar civicamente.
Meus queridos Irmãos,
A nível geopolítico persiste a guerra lançada pela Rússia contra a Ucrânia. Cerca de 6,6 milhões de pessoas fugiram já do país desde a invasão russa em finais de Fevereiro. Entre os refugiados ucranianos na Polónia, estimados em 3,5 milhões, 94% são mulheres e crianças. Em Portugal foram concedidas cerca de 40 mil protecções temporárias, mais de 12 mil das quais a menores de idade, muitos deles vindos sem os seus pais.
A nível internacional, especialmente europeu, a Maçonaria Regular tem prestado o seu solidário apoio e desenvolvido acções de suporte aos refugiados, que procuram trabalho, um tecto e condições mínimas para uma vida digna, longe das suas terras.
Por outro lado, a guerra e os efeitos disruptivos, que provocou nas cadeias logísticas e de abastecimento já de si afectadas pela pandemia da Covid-19, veio prejudicar a situação económica, agravando a inflação e levando ao aumento dos preços. Não tenhamos ilusões. Entre a inflação que poderá a breve trecho atingir os 10% e o aumento das taxas de juro por parte do sistema bancário, está a criar-se uma tempestade perfeita que nos afectará a todos, mas especialmente aqueles que dispõem de menores recursos e que não possuem uma rede de segurança face ao brutal aumento do custo de vida, desde a prestação da casa aos alimentos.
Meus Queridos Irmãos,
Chegados aqui esta alocução estará porventura a soar aos ouvidos de alguns irmãos como demasiado profano. Mas, no entanto, nada é tão intrinsecamente maçónico como o auxílio e serviço aos outros, esses outros em que nos devemos reconhecer como num espelho, unidos que estamos pelo facto de partilharmos um mesmo planeta, um mesmo ecossistema.
Nestes dias, o mundo discutiu em Lisboa o presente e o futuro dos mares, sob a égide das Nações Unidas. Desta Conferência dos Oceanos saiu uma declaração desde logo caracterizada como “ambiciosa”, mas que pretende ir de encontro a dois objectivos do desenvolvimento sustentável; o de conservar os oceanos e proteger a vida marinha, e o de garantir disponibilidade de água potável e saneamento para todos até 2030. Isto na mesma altura em que o nosso Governo reconheceu que Portugal está actualmente numa situação de seca severa e extrema. É crucial percebermos que a crise ambiental não é um cenário, mas uma realidade, e que urge – de uma vez por todas – aliarmos as acções às declarações.
Nesse sentido, também no passado recente vos falei, e continuarei a falar, da necessidade de não esquecermos o papel redobrado que como maçons, devemos ter ao nível da consciencialização ambiental e do combate aos efeitos das alterações climáticas.
Nos nossos comportamentos diários, no trabalho e em casa, devemos agir com a consciência de que nenhuma acção é demasiado pequena ou irrelevante para uma meta comum. Isso sim, só de uma imensa soma de pequenos e quotidianos gestos poderá resultar algo de positivo. Para que tenhamos noção do que está em causa, por cada grau Celsius a mais, o número de nados-mortos e de partos prematuros aumenta em cerca de 5%, de acordo com um relatório recente do Consórcio Global da Educação para o Clima e Saúde da Universidade de Columbia.
Não podemos ser maçons e permitir que isto nos seja indiferente. Não podemos estar na maçonaria sem incutir nos nossos hábitos uma preocupação constante no sentido da diminuição da nossa pegada carbónica.
Em anterior alocução, afirmei-vos também que a mensagem e o exemplo da maçonaria regular são prementes e indispensáveis no tempo que vivemos.
E que, como poucas vezes sucedeu no passado, é chegada agora uma altura em que se torna decisivo levarmos integralmente a sério a nossa condição de maçons. Tanto para dentro como para fora.
Repito essas mesmas palavras agora. E acrescento-lhes a certeza de que seremos postos à prova na nossa capacidade de auxílio e de solidariedade, por um agravar de circunstâncias que irá por ainda mais à prova os nossos irmãos Hospitaleiros, entre colunas e fora delas, no auxílio aos mais desfavorecidos.
A Maçonaria Regular celebrou no passado dia 29 de Junho o seu 31° aniversario, numa altura de redefinição e de evolução pautadas por uma maior abertura à sociedade civil, sem com isso abdicar das suas características como Ordem Iniciática e da sua tradição Espiritual e Filosófica.
E por isso, hoje homenageamos todos aqueles que contribuíram para a regularidade em Portugal, que estiveram na sua génese e que nunca esmoreceram e nos acompanham até hoje. Embora os combates nunca terminem em absoluto, bem sabemos que foi pelo labor dos nossos predecessores que fomos saindo das trevas, e que trilhamos este nosso caminho.
Agradeço a todos os Irmãos que permitiram que chegássemos até aqui, com mais força e certeza num futuro promissor para a GLLP / GLRP e para a Maçonaria Universal.
Importa preservar sempre as linhas de uma continuidade entre o passado o presente e o futuro, entre tudo aquilo que queremos ser e fazer, e aquilo que não podemos nem queremos deixar de conter como essência. Essa mesma essência que tem sido transmitida ao longo dos séculos, assente na Fraternidade e na Solidariedade como valores maiores. É a pertença a uma comunidade aquilo que nos une, irmana e congrega numa humanidade comum.
Meus queridos Irmãos,
Como vosso Grão-Mestre, acredito cada vez mais em nós e no vigor das nossas colunas. Como vos disse no início desta alocução somos cada vez mais, e sem dúvida esse crescimento é sinónimo de uma cada vez maior ressonância dos nossos valores junto da sociedade civil.
Por cada nova loja que levanta colunas, por cada profano que entra na câmara de reflexão e pela primeira vez lê o acrónimo VITRIOL, subimos mais um degrau nesta escada que a todos nos eleva, em direcção e para glória do Grande Arquitecto do Universo, causa primeira e última do nosso caminho.
Neste Solstício de Verão de 2022, devemos fazer um propósito de fé no sentido de nos dispormos aptos para avançar para onde for necessário, em que a humanidade esteja em perigo, e bem sabemos que os perigos são imensos. Então o nosso intelecto tem de estar disponível para vencer a barbárie que já se avista no horizonte.
Resta-nos persistir no caminho do Grande Arquitecto Do Universo e manter firmeza nos nossos pergaminhos e, deste modo, acabaremos por contribuir para a vitoria das luzes, pois jamais as trevas poderão triunfar.
As Lojas e os seus membros são indissociáveis. As Lojas fazem parte das nossas vidas e sendo espaços consagrados – ainda que organicamente independentes umas das outras – representam com o seu ADN próprio o mais valioso activo da nossa Grande Loja.
O Venerável Mestre da Loja representa o Grão-Mestre na sua Loja. Razão mais do que justa para afirmar que me sinto muito honrado e bem representado, por todos os Veneráveis Mestres, a quem agradeço o trabalho, a dedicação e a resiliência na condução dos trabalhos das Lojas, em tempos de crise sanitária e humanitária.
Nós maçons temos o dever de contribuir para um legado espiritual e moral, para que sejamos admirados durante a nossa vida e recordados com saudade após a nossa morte.
Este é o nosso caminho na defesa dos princípios e valores que juramos prestar e aceitamos defender. Que o Grande Arquitecto Do Universo nos proteja, e nos dê força para continuarmos a ter orgulho naquilo que somos: Excelentes Maçons!
A todos e a cada um de vós, meus Irmãos, reforço os meus desejos de paz, saúde e segurança. E mais uma vez me coloco, como sempre, ao vosso dispor para tudo o que de mim necessitarem, estando como estou ao vosso serviço.
Bem hajam.
Armindo Azevedo
Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP
Lisboa, 2 de Julho de 6022

- Comunicação do Grão Mestre da GLLP / GLRP – Equinócio de Primavera – 2022
- Conferência “A importância da regularidade e de nos assumirmos publicamente como Maçons” – Armindo Azevedo
- Mensagem ao Povo Maçónico do Grão Mestre da Maçonaria Portugueza – 1907
- O 53º Bispo de Coimbra era da Maçonaria!
- Da teoria à prática: o que fazer, como Maçons?


Li, gostei. Espero que este relato seja pra profanos também! Pois eu sou profano!