Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP – Equinócio de Primavera – 2024

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Armindo Azevedo - Grão-Mestre da Grande loja Legal de Portugal / GLRP, equinócio
Armindo Azevedo – Grão-Mestre da Grande loja Legal de Portugal / GLRP

Meus Queridos Irmãos,

Aqui estamos a comemorar o Equinócio da Primavera, tal como nos compete ritualmente fazê-lo todos os anos. Os princípios maçónicos pelos quais nos regemos na Maçonaria Regular são imutáveis e inalteráveis. Mas, em cada ano, as efemérides nunca nos surgem como iguais ou repetidas. Elas apresentam sempre evoluções e diferenças, tal como as circunstâncias que nos rodeiam também se alteram, afectando tanto maçons como profanos.

Ser maçon é estar atento ao mundo no seu todo. O caminho maçónico é, em si mesmo, também um apelo à Humanidade. Desde que a nossa Augusta Ordem foi criada que, nós maçons, homens livres e de bons costumes espalhados pelo planeta, apelamos todos os dias nas nossas invocações, aos valores que transcendem as fronteiras e as diferenças, defendendo em espírito e praticando em acções a essência universal deixada em cada um de nós pelo GADU, e que a cada um de nós cabe alimentar, fazer crescer e evoluir.

Esses mesmos valores têm, de igual modo, sido transmitidos ao longo deste grão-mestrado em múltiplos artigos de opinião na comunicação social, num trabalho de diálogo com a sociedade civil sobre temas com impacto no mundo e no país, desde a sustentabilidade e os desequilíbrios climáticos, à justiça social e ao papel solidário da Maçonaria. Estou convicto, aliás, de que essa abertura ao mundo profano tem contribuído para o crescente número de pedidos de adesão, que levaram a que estejamos, no momento actual, com o maior número de maçons e de Lojas verificado desde sempre.

Este resultado foi possível de alcançar devido a um trabalho minucioso e que envolveu cada um de vós. Com a vossa participação e acção, em Loja e no mundo profano, alcançámos um estatuto de reconhecimento que contrasta com escândalos passados ou notícias de dissensões. Pelo contrário, a imagem hoje da nossa Augusta Ordem é de serenidade, de tranquilidade e de pujança. Aqui chegados, importa preservar e alimentar, com rigor e atenção, este mesmo crescimento. Para que não afecte, mas em vez disso beneficie, os nossos trabalhos e objectivos como maçons.

Estando atentos ao que nos rodeia, nós maçons somos, em consequência disso homens informados. Por vezes bem informados, outras nem tanto assim. Como sabemos, a desinformação cresce em nosso redor, as novas tecnologias apoiadas pelo uso da inteligência artificial falseiam imagens, vozes, vídeos, ao serviço de entidades que visam destruir os mais elementares princípios que fundamentam o Ocidente e a democracia.

É verdade que essas mesmas tecnologias oferecem também um potencial, que nos parece ilimitado, para a criatividade e avanços extraordinários na prática das diferentes profissões e actividades. Mas há muito a fazer ainda para que essas vantagens não sejam obscurecidas pelo lado sombrio daquelas que visam colocar a ciência e a técnica ao serviço dos extremismos, do ódio e mesmo da guerra.

Desde a criação da maçonaria, a nossa Augusta Ordem atravessou e sobreviveu a inúmeras guerras, dentro e fora do continente europeu. Agora mesmo, enquanto falo, irmãos ucranianos reúnem-se no exílio, aguardando o adiado desfecho de uma guerra que vai aumentando os seus mortos e exaurindo recursos sem final à vista. Pelo contrário, a tensão aumenta entre as nações e, como vimos recentemente pelas declarações de vários responsáveis, reforça-se a ideia de um exército europeu e do serviço militar obrigatório para os nossos jovens, a par de um investimento como nunca feito em armamento e equipamento militar.

A esse propósito, importa lembrar aqui a manifestação de repúdio e de condenação emitida pela nossa Grande Loja, logo após o ataque terrorista e selvagem a Israel liderado pelo Hamas, em Outubro passado. Mas também expressar agora preocupação e consternação perante a dramática situação humanitária na Palestina, decorrente da retaliação por parte das forças armadas israelitas, e cujo número de palestinos mortos ultrapassou já os 30.000 mil, sem que se consiga assegurar um cessar- fogo e uma resolução que salvaguarde a defesa dos mais elementares direitos humanos da população civil em situação de conflito.

Mas, porque me refiro a estas situações que acabei de explanar? Apenas porque se torna imperioso salientar quem são e o que fazem os maçons e qual o seu papel nos dias de hoje, para enfrentar tão ingentes, complexos, difíceis e extraordinários problemas, que nos podem levar ao calvário da extinção ou fazer regressar à barbárie grotesca da era medieval.

No passado, foi sempre preciso que os maçons se congregassem na defesa dos mais básicos interesses humanísticos e, desses esforços, resultou que o mundo evoluiu e progrediu. A época das luzes foi surgindo e robusteceu-se, até aos nossos dias, apesar das sempre teimosas trevas persistentes em jamais darem tréguas ao bom combate que nunca poderá esmorecer.

Daí advém que, em cada dia, novos esforços se devem produzir, antecipando permanentemente o que de pior pode ocorrer, porquanto só a construção e/ou a reparação da obra do templo, nos assegura a força que é necessária para debelar os males e as desgraças que atingem o Homem – o verdadeiro templo que nos interessa – levando muitos a desviarem-se da Luz e assim caírem nas sombrias catacumbas das tiranias, dos preconceitos, das guerras, das escravidões, da exploração e das submissões das liberdades e dos direitos.

Para evitar estas desgraças, mortes, pobreza, fome e demais misérias é urgente que os maçons, cada maçon, permaneça sempre de pé e à ordem, em prol das lutas pela paz, pela justiça, pelas liberdades, pela harmonia e pelo respeito do outro, qualquer que seja a sua condição.

A Maçonaria, podemos dizê-lo, pratica o exercício do bem e da bondade, sem os quais tudo o resto deixa de ter real significado: “Fazer aos outros aquilo que desejamos que nos façam”.

Nesse sentido, ser Maçon é respeitar o país de nascimento ou onde se vive, é servir o GADU com reverência, é tratar os familiares com amor, é ajudar os fracos e desvalidos com afecto, e é estar sempre disponível e caridoso para com o próximo, tal como juramos na iniciação.

Ser Maçom é ser protagonista de transformações, defensor de ideias e um incansável propagador de virtudes.

Para nos lembrarmos dos deveres de cada maçon é preciso ver o que nos dizem alguns dos “landmarks”, e as regras da maçonaria regular:

A primeira regra refere que “a Maçonaria é uma fraternidade iniciática que tem por fundamento tradicional a fé em Deus, Grande Arquitecto do Universo”.

Outra, diz que “a Maçonaria impõe, aos seus membros, a prática exacta e escrupulosa dos ritos e do simbolismo, meios de acesso ao conhecimento pelas vias espirituais e iniciáticas que lhe são próprias”.

Ainda outra, salienta que “os Maçons prestam os seus juramentos sobre o Volume da Lei Sagrada, a fim de lhes dar um carácter solene e sagrado, indispensável à sua perenidade”.

Por último, ressalto aquela que refere que “os Maçons só devem admitir nas suas Lojas homens de honra, maiores de idade, de boa reputação, leais e discretos, dignos de serem bons irmãos e aptos a reconhecerem os limites do domínio do homem, e o infinito poder do Eterno”.

Trouxe aqui estas regras para que saibamos sempre que o nosso papel no mundo é fazer o bem constantemente, sem descanso, agindo pelos valores do humanismo e contra a impertinencia e destruição promovida pelos agentes do mal.

Mas o que é ser Maçon, nos tempos que correm?

A maçonaria caracteriza-se menos como uma “sociedade secreta” do que como uma sociedade discreta. Mas, temos de reconhecer que o tema do segredo é bastante prospectivo, na medida em que privilegia o sentimento de pertença e o facto de, para além de um universalismo que remete para o Iluminismo, nos tornar atentos à necessidade de agrupamentos fraternos.

Numa altura em que a ideologia da transparência tende a prevalecer é importante lembrar que, cada vez mais, há um verdadeiro apetite da sociedade para os ditos “mistérios”, que são próprios dos maçons.

Uma forma de relativizar a “fantasia” do mistério na Maçonaria pode ser praticar um justo equilíbrio entre abertura e descrição.

O segredo maçónico essencial é precisamente que não há segredo. Como a “Carta Roubada” de Edgar Allan Poe, os grandes valores maçónicos são tão óbvios – o sentido da fraternidade, a importância da solidariedade, a busca da totalidade do ser, etc. – que são “segredos”, para usar uma expressão de um grande Maçon, Joseph de Maistrs, que com “bom senso e justa razão combinados” facilmente se compreendem.

O gosto pelo escândalo leva frequentemente a ver o secretismo onde há somente provas de bom senso. Também aqui, a Maçonaria corresponde bem ao espírito dos tempos: a multiplicidade de microgrupos, aquilo a que hoje se chama “tribos”, mostra que o laço social é algo misterioso. Talvez o segredo maçónico seja uma lembrança apropriada da constante antropológica que é o “chiaroscuro” de toda a existência, ou seja, o fato de integrar o lado negro na convivência.

Aqueles que agem frequentemente por ignorância absoluta da luz, por má-fé de critérios, por malformação dos costumes, por incapacidade da tolerância, por defeito de carácter e, sobretudo, por manifesta interferência dos rudes instintos e assim excluem-se do auxílio fraterno, da compaixão e disponibilidade que só a caridade pode dar. Esses são os que mais precisam do nosso auxílio.

É a todos esses que nós, maçons, precisamos de nos mostrar disponíveis. Pelo esforço da contemporização elucidativa, do esclarecimento adequado, do empenho demonstrativo da bondade, do amparo oportuno na desgraça e da vontade de persistir, mesmo quando mal compreendidos ou interpretados.

Outra área em que os maçons necessitam de intervir é pelo exemplo, pela dedicação e pela chamada de atenção quando os percursos do mundo – das suas instituições, dos seus organismos, dos seus governos, das suas estruturas e, está bem de ver, de quem os lidera, caminham para a desgraça e para o precipício.

E isso começa sempre pelo preconceito, pelo exclusivismo, pela ditadura, pelo fato consumado, pelo purismo, pela intolerância, pelo egoísmo, pela imposição, pela exploração, pela verdade absoluta e pela excepção. É o “nós” e os “outros”. É o tudo ou nada!

Veja-se que, essencialmente, a maçonaria regular combate a ignorância, a superstição, o fanatismo, o orgulho, a intemperança, o vício, a discórdia, a dominação e os privilégios.

Lembrai-vos que o mundo está tão alterado e tão confuso que não podemos deixar de o considerar muito perigoso, porquanto os fumos da guerra abeiram-se como falei, e a ausência de bom senso nos relacionamentos internacionais persiste. A predominância dos belicistas é uma evidência, os cultores do extermínio de terceiros mostram-se, os rufias das invasões e ocupação indevida de territórios não se escondem, e os revisionistas da História, das mentiras de Estado proliferam. De tudo isto resulta a consequente fragilização das instituições mundiais, onde o diálogo e a busca de entendimentos se deviam processar, mas que acaba por nos levar ao limiar do absurdo, onde escutam, mas não ouvem, olham, mas não observam, falam, mas não dizem nada que valha a pena.

O fascínio exercido pela Maçonaria reside no facto de ter sido capaz de manter a preocupação pelo outro, que é característica do ideal comunitário. De facto, a Maçonaria tem sido a guardiã destas “comunidades afectivas” que, a longo prazo, asseguram a durabilidade do vínculo social. Este é, talvez, o verdadeiro segredo maçónico. A pós-modernidade é caracterizada pela importância dos afectos, emoções e paixões colectivas.

Trata-se, portanto, de construir-se para construir o sentido da própria vida. O propósito da Maçonaria e da Grande Loja Regular de Portugal é dar um espaço de reflexão e acção aos homens que desejam construir sentido nas suas vidas, completando sem nunca contradizer, o que estão a construir no seu contexto familiar, profissional ou relacional.

Trata-se também de o fazer exercendo a liberdade de consciência religiosa e cívica, respeitando a dos outros.

É também um processo de absoluta liberdade de consciência religiosa e de consciência cívica: a GLLP/GLRP não obriga à crença ou prática – nem proíbe a crença ou prática – de qualquer religião, filosofia ou ideologia em particular.

Também não reivindica qualquer posição política. Por conseguinte, respeita todas as sensibilidades religiosas ou políticas. Por outro lado, recusa, dentro das suas próprias fileiras, o proselitismo religioso daqueles que gostariam de empurrar os outros para qualquer tipo de fé, porque não quer constranger a consciência de nenhum deles.

Do mesmo modo, rejeita a prática do proselitismo anti-religioso por parte dos seus membros, o que também restringiria a sua liberdade de consciência. No plano político, aceita a expressão de todas as ideias que respeitem a liberdade de consciência cívica dos seus membros, excluindo por natureza extremismos de todos os matizes, incompatíveis com os seus princípios fundamentais de respeito e dignidade para com os seres humanos, independentemente da sua origem étnica ou cultural.

A nossa Grande Loja está empenhada em trabalhar num espaço ordenado aos valores éticos. Não é apenas uma escola de pensamento, mas um espaço de liberdade ordenado com os valores humanistas e espirituais, que permite reunir pessoas de todas as origens étnicas e situações sociais, filosóficas e religiosas, ensinando-as, através de um método iniciático original e específico, a construir-se, a aperfeiçoar-se, a reflectir e a agir individual e colectivamente, nos seus templos e na sociedade, na estima, no respeito e na tolerância recíprocos.

A iniciação está ao alcance de qualquer indivíduo que deseje progredir no conhecimento e na consciência, praticando um método original de aprendizagem, tanto pessoal como colectiva, que se baseia em rituais e na qualidade das relações intersubjectivas e no aperfeiçoamento mútuo dos seus membros.

A Grande Loja considera, pois, a diversidade dos seus membros a sua principal riqueza e um património humano de inestimável excelência.

A nossa Grande Loja tem realizado um trabalho extraordinário tendo crescido em quantidade e em qualidade, em dimensão e em implantação, em projecção nacional e internacional. Disso mesmo é excelente exemplo a nossa presença e os nossos contributos para os trabalhos da Confederação Maçónica Interamericana (CMI). Ela agrupa 98 Grandes Potências Maçónicas confederadas, distribuídas por 26 países da América do Sul, Central, do Norte, Caribe e Europa e conta, presentemente, com quase meio milhão de membros. Está dividida em seis zonas, sendo que a nossa Grande Loja preside à importantíssima 6a Zona. A CMI, através do intercâmbio de ideias, princípios, actividades, inquietudes e experiências, procura difundir os valores maçónicos, enriquecer o pensamento da humanidade e as suas culturas.

Um destaque muito especial merece também a Confederação Maçónica de Língua Portuguesa (CMLP), cuja Presidência é da nossa Grande Loja, e que integra a Grande Loja de Moçambique e o GOB (Grande Oriente do Brasil) e que se espera em breve, possa contar com a participação também de representantes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. A CMLP, mais do que um fórum de discussão e troca de ideias, pretende assumir-se como um importante centro de promoção de fraternidade e de solidariedade, pelo que os princípios e valores que a maçonaria regular defende e pratica, devem ser colocados no auxílio aos mais carenciados, através de acções e projectos concretos.

Dito isto, meus Queridos Irmãos, permitam-me apenas que vos deixe uma mensagem final:

Do Maçon da nossa Grande Loja espera-se que individualmente, no exercício de suas responsabilidades profissionais, políticas, associativas, sindicais e familiares, nunca se esqueça da filiação maçónica, dos juramentos e de levar onde quer que esteja, os valores da Maçonaria regular universal, como importante projecto de humanismo e de fraternidade.

Nós precisamos de ter orgulho em ser maçons, pois cada maçon é um construtor social. Desde a iniciação que o maçon utiliza as suas virtudes como materiais para que se erga o Edifício Social, tão pertinente na actualidade, quando abundam as muitas calamidades de proveniência humana.

É assim que devemos afirmar: onde houver um Maçon haverá sempre Esperança, e isso podemos constatar ao longo dos séculos com tanta e importante obra concretizada, em benefício da Humanidade à qual apelamos todos os dias.

Armindo Azevedo – Grão Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP
Lisboa, 23 de Março de 2024

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