Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP – Solstício de Inverno – 2023

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Armindo Azevedo - Grão-Mestre da Grande loja Legal de Portugal /GLRP
Armindo Azevedo – Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

Meus Queridos Irmãos,

Estamos mais uma vez a comemorar um Solstício de Inverno, sem que a situação do mundo nos faça descansar. Pelo contrário. Mas a maçonaria espalhada por toda a Terra não desfalece e não pode fraquejar perante a quantidade e a espessura dos desafios tenebrosos a que se tem de atalhar.

Infelizmente, 2024 não se afigura mais uma vez um ano fácil para os portugueses e nós, maçons, seremos com toda a probabilidade – individual e colectivamente – chamados de novo a intervir e ajudar aqueles que se encontram em condições socialmente mais frágeis.

Muito recentemente, informação divulgada pela conceituada Pordata deu conta de que 1,7 milhões de cidadãos vivem actualmente no nosso país em condição de pobreza, um número que tem crescido devido ao aumento do custo de vida, provocado pela subida dos preços da habitação, dos alimentos e dos combustíveis, entre outros factores.

Basta, com efeito, caminharmos na rua para vermos os resultados mais visíveis dessa situação no número de pessoas em situação de sem abrigo, que aumenta nas grandes cidades. Esses serão os exemplos de uma mais radical marginalização social, mas muitos outros casos há – invisíveis e ignorados – de pessoas obrigadas a excluir da sua vida inclusivamente bens alimentares essenciais, por falta de meios ao seu dispor.

Ao longo da nossa existência na Maçonaria, sempre reflectimos a sociedade em que nos inserimos.

Criticados por aqueles que muitas vezes nos classificam como uma elite, a nossa Ordem é na verdade interclassista na sua representatividade. Unidos pelos valores maçónicos, nesta egrégora tanto partilhamos o nosso caminho maçónico com quem tem muitas posses, como com aqueles que têm muito poucas. Os nossos Irmãos hospitaleiros, em cada Loja, sabem bem do que falo, e conhecem as dificuldades que lhes são colocadas por muitos.

A história da nossa Grande Loja revela uma serie de desafios desde a sua criação e, por vezes, passou por convulsões que moldaram o nosso próprio destino, mas que nunca nos fizeram perder o foco no futuro.

Na verdade, somos os guardiões do património material e intangível dos nossos fundadores, que desejavam ver a Maçonaria Regular Portuguesa conquistar um importante papel na comunidade internacional das Grandes Lojas Regulares.

O primeiro destes intangíveis é a Regularidade, essa lealdade aos princípios básicos da Maçonaria, que torna a nossa Grande Loja verdadeiramente grande.

Nós temos bases solidas, e nos últimos anos, ano após ano, temos vindo a reforçar as nossas colunas. As nossas Lojas são um exemplo de trabalho e compromisso com os valores e a tradição, onde reina a frutuosa harmonia entre os Irmãos. Tradição e modernidade interagem harmoniosamente na nossa Grande Loja.

A Egrégora é um estado de espírito que se sente, e se forma dentro da Loja, influenciando positivamente os seus membros, fomentando a harmonia e a fraternidade, reforçando a união, promovendo a conquista dos ideais maçónicos e a transformação espiritual. Esta energia espiritual, que emerge dentro da Loja é uma concentração de emoções sentidas, individual e colectivamente, assente na partilha sincera de experiências e intenções, e consequentemente no amor fraternal. Devemos então desenvolver em cada Irmão o sentimento de pertença a uma Fraternidade, e ajudá-lo a cultivar este sentido de amor fraternal, e então os valores fundamentais de altruísmo, generosidade e tolerância podem florescer.

Todos nós bem sabemos que a Egrégora permanecerá na Loja enquanto as emoções positivas de todos a alimentarem, e que a sua permanência promoverá a satisfação e fortalecerá a Loja, e consequentemente a nossa Grande Loja.

Dito isto, regresso à necessidade imperativa de reunirmos positivamente as nossas energias e o nosso trabalho maçónico no sentido da esperança. Tanto interna como externamente, aquilo que nos é pedido é que façamos das nossas qualidades a força capaz, não apenas de nos erguermos, mas também de erguer os outros que precisam do nosso braço.

Por vezes, olhando para este mundo em constante ebulição e esquecendo as lições da História, tendemos a olhar para o presente como se fossemos impotentes para modificar as circunstâncias que nos rodeiam. Mas, na verdade, apesar das duas guerras que percorrem as notícias, bastaria recuar 50 anos, até 1973, para termos um planeta agitado pela guerra do Vietname, a constante ameaça de uma hecatombe nuclear como resultado da Guerra Fria, a nossa guerra em Angola, Guiné e Moçambique, atentados bombistas por terroristas no coração da Europa, pelo Baader Meinhof na Alemanha, o IRA na Irlanda do Norte a ETA aqui ao lado em Espanha.

Recuando cada vez mais no tempo, poderíamos inclusive recordar as guerras napoleónicas, as primeiras em que muitos maçons combateram desde que oficialmente constituída a Maçonaria moderna, tal como a conhecemos hoje.

A tudo isto e a muito mais, a Maçonaria Regular sobreviveu sem nunca desvirtuarmos os princípios da nossa Regularidade. Nem a perseguição pelos regimes totalitários que nos remeteram para a clandestinidade, nem a pandemia da Covid 19 que nos obrigou ao confinamento, nada disso foi mais forte do que a solidariedade maçónica e da nossa esperança comum na vitória das luzes sobre as trevas e na protecção do GADU.

É por isso que gostaria de vos desafiar, mais uma vez, para reflectirmos sobre o papel dos maçons, de todos nós, nesta tão conflituosa era em que vivemos.

Como devemos agir e intervir para ajudar que o bem, a luz, a harmonia e o bom senso retornem ao seio das sociedades humanas, e se possa cumprir o labor de quantos se esforçam para através do conhecimento, do progresso e do desenvolvimento, sustentarem a esperança num mundo melhor?

Os filósofos positivos em tudo encontram virtudes, mesmo naquilo que aparenta ser bastante mau. Sempre disseram – e dizem, que os acontecimentos, as ocorrências e a consumação das situações, em si mesmas, não são boas ou más, agradáveis ou horríveis. São apenas fatos, eventos ou circunstâncias e nada mais. Tudo apenas se torna bom ou mau quando fazemos juízos sobre os mesmos. Ou seja: quando nós, os humanos, assim os classificamos.

E, na verdade, vendavais, ciclones, avalanches, cheias, incêndios, terramotos ou acidentes, não passam disso. São, assim, naturais. Alias, a mesma ocorrência pode ter para diferentes analistas ou observadores, distintas leituras, ou seja: diversas perspectivas de avaliação e, por isso mesmo, opostas adjectivações sobre o mesmo acontecimento.

E o que tem que ver isto com a maçonaria? A resposta é fácil: aos maçons compete a melhoria do ser humano, a sua equilibrada evolução e desenvolvimento. É o nosso templo de sempre. É a ele que nos dedicamos para cumprir os desígnios do GADU.

E assim, como bem sabemos, as tais ocorrências de que falava, sempre existiram e existirão, umas inevitáveis, outras evitáveis e ainda outras, sanáveis. Sobretudo as que forem calamidades subjacentes às decisões e tarefas humanas, por acção, omissão ou até, por objectivação das mesmas quando lesivas dos direitos humanos, da castração das liberdades, da subjugação dos povos ou da sua exploração, da intencional inquinação do direito ou da sua eliminação, do incentivo das guerras, da economia ao serviço da usura e do empobrecimento colectivo e, por aí fora.

Ora, os maçons herdaram porfiadas e honrosas praticas para o engrandecimento do homem e da humanidade, sempre lutaram pela instauração do bem comum e do progresso, e nunca vacilaram em defender tudo quanto se antevia como percussores de malefícios e desgraças. Por isso mesmo, na anterior Grande Assembleia, revelei a intenção de criarmos o Observatório das Calamidades Humanas.

Com tal decisão, pretendemos prosseguir na senda dos nossos antepassados e contribuir para estudarmos os males do mundo do nosso tempo, e ajudarmos a encontrar soluções para alguns desses problemas que precisam de ser erradicados, em função do futuro, ou até do presente, para salvaguarda das gerações vindouras.

Não nos enganemos, pois, as instituições decisoras no mundo e nos países, são organizações de homens, e estes estão obrigados a conviver e a estabelecer entendimentos para a prossecução de bens mais elevados, quiçá da própria sobrevivência da humanidade ou mesmo do mundo.

São tempos desafiantes, e as encruzilhadas em que nos encontramos demonstram um avassalador acréscimo de guetos e becos sem saída.

Ora, isto prende-se com o facto de os governantes e decisores e todos os outros servidores, como os meios de comunicação social e demais redes sociais, se postularem perante as ocorrências, como meros intervenientes dos interesses imediatos, da busca pela satisfação dos egoísmos misóginos e xenófobos e da inevitável ascendência dos autoritarismos impositivos, sem curar das visões alheias e das vontades do próximo, do outro, do diferente e diverso.

Esta constatação mostra flagrantemente a ausência da espiritualidade, a sonegação do divino, a supremacia da arrogância e rudeza, a emergência das ignorâncias absolutas e assunção das leviandades, das baixezas, da falta de escrúpulos, das mentiras e das descaradas apropriações de dados e factos históricos, totalmente deturpados e revisionistas, com o fim de assaltar os poderes e submeter os outros, tal como noutras idades das trevas.

E foi para combater essas trevas, por diversas vezes na história humana, que a maçonaria nasceu, subsistiu e chegou até nós. Compete-nos agora sermos nós os guerreiros da luz e do conhecimento para fazermos o bom combate. Precisamos de estar disponíveis e sempre em pé, para que nas guaritas em que teremos de viver, possamos alertar para a proveniência dos perigos e estarmos prontos para os desfeitear.

Mas os perigos, sendo tantos, tão dispersos e temíveis, não passam de ocorrências que em si mesmo, são protagonizados a montante e a jusante, por seres humanos e que são o nosso alvo, visando o burilar da pedra, o aperfeiçoamento da construção e a conclusão perfeita da obra.

Voltamos então ao essencial: o ser humano que precisa de ajuda, de amparo e^de Luz. E essa só pode vir do GADU. E só os maçons, livres e de bons costumes, transportam a luz resplandecente provinda do GADU, essa luz que é a derradeira fonte para a solução dos problemas que enfrentamos. E Ele apenas nos pede que façamos obra, pois sem obra não se poderá manifestar o divino.

Ele, enquanto Criador, precisa da criatura para Se mostrar, e se no coração de cada um o Criador vive, apenas sabemos que assim é quando tal se reflecte na infinita e eterna obra em que a criatura humana labora. Isto é: o GADU quer estar em cada acto, em cada gesto e em cada passo que o homem projecta, sobretudo quando se dirige ao irmão que sofre, ao desvalido carente, ao excluído temerariamente, ao preso esquecido, ao idoso abandonado, ao doente maltratado, ao órfão institucionalizado e a todos os degradados no nosso mundo, onde parece não caber a tolerância, a bondade, a fraternidade e a caridade, muito para além das estupidas guerras que tudo destroem e dos milhões de refugiados que vagueiam por esses desertos sem fim. Qual é afinal o nosso papel?

O de continuarmos atentos e intervenientes junto de quem de nós precisa. Cientes de que cada um de nós está acompanhado pelos seus Irmãos numa mesma prática e numa mesma partilha. Num caminho assente na ética da reciprocidade. Na regra de ouro que nos diz: “Cada um deve tratar os outros como gostaria que ele próprio fosse tratado”. Se assim for, nunca a Maçonaria deixará de ser o resguardo procurado por tantos, e cada vez mais fazendo desta nossa GL a maior obediência do país.

Termino citando Frei Bento Domingues:

“Desde há bastante tempo que o Natal se tornou uma festa da família, que deveria ser para todas as famílias, considerem-se elas cristãs ou não.”

Meus Queridos Irmãos, Um bom Natal, Um Santo Natal, para vós e todos os vossos familiares e amigos. Saúde, Paz e Amor Fraterno.

Armindo Azevedo – Grão Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP
Vilamoura, 9 de Dezembro de 6023

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1 thought on “Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP – Solstício de Inverno – 2023”

  1. Pablo Raposo

    Um bom Natal para o irmão também, e, para todos os irmãos e suas famílias e seus amigos! Um próspero ano de 2024!
    Saúde, paz, realizações e amor fraterno.

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