Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP – Equinócio de Outono – 2023

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Armindo Azevedo – Grão-Mestre da Grande loja Legal de Portugal /GLRP, equinócio
Armindo Azevedo – Grão-Mestre da Grande loja Legal de Portugal /GLRP

Meus Queridos Irmãos,

Mais uma vez estamos a comemorar o Equinócio do Outono no âmbito das efemérides da nossa Augusta Ordem, carregado de simbolismo para a maçonaria Universal Regular.

E fazemo-lo sempre no cumprimento das nossas eméritas tradições, claramente conotadas com a quantidade de iluminação solar que recebemos do astro-rei e que é, depois, devolvida ao espaço sideral na sua forma de luz e calor, num processo que se repete desde que existe o planeta Terra, do qual a Humanidade faz parte desde que o GADU assim determinou.

“Equinoxium”, em latim, significa “igualdade entre o dia e a noite”. E é por isso que se torna importante para nós que, filosófica e legalmente, desenvolvemos tantos esforços e tudo que está ao nosso alcance fazer para que todos sejamos tratados por igual, na nossa singular condição de humanos, sem outros adjectivos, acréscimos ou diminutivos justificativos do quer que seja.

Como tive oportunidade de dizer, por ocasião da comemoração do Solstício de Verão, a nossa Grande Loja está bem “e recomenda-se”. Cresceu, está robusta, vive em harmonia, respira tranquilidade e, o mais importante, é escutada e respeitada. Em síntese, somos credíveis, e importantes fóruns decisores maçónicos, ouvem-nos e até buscam apurar o que nós pensamos acerca dos mais variados e candentes assuntos que impendem sobre o mundo.

Por isso, e como também sempre fazemos nestas cerimónias, não poderíamos deixar de reflectir sobre o mundo em que vivemos, mais perto de nós, aqui na Europa, e no mundo em geral.

Perante a enorme perturbação provocada pela guerra da Rússia, ao invadir e ocupar ilegalmente a Ucrânia, a maçonaria universal tornou-se ainda mais indispensável ao pensamento e à acção dos dirigentes mundiais, tão carentes de profundas reflexões e de claras, poderosas e eficazes decisões, buscando a justiça, a paz, o desenvolvimento e a concórdia no mundo.

Mas como bem sabemos, desde tempos imemoriais, tudo isso só se consegue com sentido de humanidade, com o triunfo das liberdades, com o estado de Direito, com a democracia, com direitos humanos, com respeito pela carta das Nações Unidas, com a inviolabilidade das fronteiras dos países, com o respeito pelos legítimos interesses dos povos e com a equidade no tratamento das situações e problemas que ocorrem.

Ora, a guerra na Ucrânia é um espelho contrário ao exposto, porquanto a invasão injustificada e a barbaridade dos crimes aí cometidos pela Rússia, são tantos e tão brutais, criminosos e desumanos, que julgávamos não ser possível serem cometidos no século XXI.

Em muitos destes casos, ultrapassam tudo o que de “brutal” houve em guerras anteriores, atingindo horrores sem paralelo e uma ausência total de qualquer sensibilidade e piedade humanas.

Mantem-se também o diagnostico sobre a situação mundial que fomos fazendo no passado, não havendo, portanto, diminuição dos graves problemas elencados, o que nos leva a considerar que o sofrimento, a dor, a fome, a pobreza e outros horrores irão prosseguir. Situação que nos obriga, enquanto maçons, a redobrar esforços e contribuir onde for possível, para que o bom senso prevaleça e a justiça e o humanismo vençam as trevas.

Todavia, é notório que os pilares das grandes instituições internacionais prosseguem firmes, e atentos, no combate a estes desajustes. A Europa mantém-se unida e firme na essência dos direitos humanos e das posições justas, e Portugal igualmente se alia a todas essas correctas e adequadas posições políticas e diplomáticas.

Ora, aqui chegados, a imensidão de outras matérias relevantes para o progresso da humanidade, não deixa de ser menos onerosa, obrigando a uma permanente atenção daqueles sobre quem impendem as responsabilidades de assumir a resolução dos problemas.

E, para além das guerras, vivemos um apocalipse permanente no mundo, com a crise climática e ambiental que corre velozmente à frente dos nossos olhos, com o degelo dos glaciares, o aquecimento global, os incêndios gigantescos, a seca alastrando por todos os continentes, as tempestades de chuvas torrenciais, o definhamento das terras aráveis e das águas potáveis, e a continua poluição dos ares, dos mares, dos rios e dos solos e subsolos, o aumento das condições favoráveis a pandemias, a disrupção dos fluxos comerciais e alimentares, a sobrelotação dos serviços de saúde e a pobreza crescente dos povos e países, sem que se vislumbrem possibilidades de a tudo acorrer.

A par destas tenebrosas circunstâncias globais, vemos como as lideranças mundiais surgem enfraquecidas, sem claras posições para enfrentar os abismos que se vislumbram. Pelo contrário, ocupam-se em fazer a guerra, aumentar os atritos e os conflitos, enfraquecer os fóruns de diálogo, proliferar o mundo dos negacionismos e das “fake news”, num descarado propósito de esconder as fragilidades e incompetências dessas mesmas lideranças.

Não tenhamos ilusões, é preciso arregaçar as mangas e agir, como sempre os maçons fizeram. É preciso avisar, proclamar, repreender, apontar e produzir acções concretas para cercear esta calamitosa espiral de desastres e precipícios.

Como maçons, estamos todos intimados a fazer o que for preciso, quando for preciso e como for preciso, para que as luzes do conhecimento, da sabedoria e do progresso humano se sobreponham às torpezas do mal. E bem sabemos que esse bem que propomos visa destruir o mal que identificamos, mas quer uns ou outros, são os homens que estão no cerne desse combate.

Essa acção, que fomos e somos convidados a colocar em exercício no nosso dia a dia, deve ser resultante de uma contínua reflexão sobre o estado do mundo e do país e sobre os males que nos afligem, mas sempre acompanhada por palavras de esperança, iluminadoras e incentivadoras para a travessia deste duro caminho que percorremos.

Tendo em conta o atrás referido, cumpre-me destacar que esta pode ser uma excelente fase para a nossa Augusta Ordem, actualmente a viver um período de crescimento em termos do número de obreiros e de lojas, para enfrentarmos um novo e estimulante desafio: o desafio de um maior rejuvenescimento.

Se algo a recente Jornada Mundial da Juventude evidenciou foi certamente a vontade colectiva, partilhada por jovens de todo o mundo, de ouvirem palavras de esperança que lhes permitam ter confiança no futuro, entre toda a instabilidade que nos cerca.

Como afirmou então o Papa Francisco, os jovens precisam de luz, e que essa luz traga esperança, face a tanta escuridão que assalta a vida e a tantas derrotas quotidianas. “Não tenham medo!” foi a sua exortação.

Na Maçonaria Regular, também nós maçons devemos ser vistos pelos jovens como exemplos de comportamento, de serenidade e de coragem, de recta conduta, tanto ética como moral.

Necessitamos de comprovar quotidianamente, através do nosso trabalho maçónico interior e exterior, que somos dignos portadores dessa mesma luz que os jovens procuram, como guia e como conforto espiritual.

Os nossos valores, da fraternidade, da solidariedade, da liberdade, vão totalmente ao encontro do que a juventude procura; uma liberdade acompanhada na nossa procura espiritual, orientada pelo GADU e vivida em egrégora entre irmãos, em confiança, comunhão e alegria.

Hoje, temos uma percentagem muito pequena de irmãos com idade abaixo dos 30 anos. O desafio que aqui lanço é de nos propormos aumentar significativamente esse número até ao final da década. E, para isso, há ainda vários obstáculos a superar.

O primeiro deles, talvez o mais importante, é o de manter a nossa identidade e características apesar da pressão exterior que pretende impor a uniformização social, cultural e mesmo espiritual, esbatendo as diferenças e qualidades intrínsecas e próprias de cada instituição.

Para os jovens que nos interessa captar, devem ser precisamente as nossas idiossincrasias que estimulará o início do seu caminho, trazendo-os à iniciação e ao aprendizado. As características da Maçonaria Regular são as mais indicadas nestes tempos conturbados. Não apenas para que, através do polimento da pedra bruta interior, encontremos um equilíbrio que nos permita enfrentar as dificuldades e as angústias do quotidiano. Mas também para que, partilhando a energia e egrégora que vivemos na cadeia de união, tenhamos sempre a consciência que é em grupo que fazemos a nossa maçonaria. E é pelo mundo também que ascendemos a escada de Jacob. Por um mundo melhor. Sem autoritarismos, sem tiranias, mais livre e mais justo.

Cada um de nós é, deve ser, um exemplo para os jovens. Cada maçon que assuma a sua condição é um espelho de todos os outros, incluindo aos olhos dos profanos. O nosso comportamento, procurando ser justo e perfeito, atrairá uma juventude desejosa de aprendizagem e de evolução. Jovens criativos e inteligentes, empenhados e, acima de tudo, bem formados. Porque, como escreveu o nosso irmão e grande referência maçónica Benjamin Franklin: “Quando somos bons para os outros, somos ainda melhores para nós”. E estou certo de que só através dos exemplos, de tornarmos vivos e como tal visíveis em cada um de nós os valores maçónicos, atrairemos de igual modo jovens que farão do futuro da Maçonaria Regular aquilo que todos almejamos: Uma Augusta Ordem activa, pujante e operativa na construção de homens melhores e de um mundo mais justo e livre.

Queria aproveitar esta circunstância para referir o seguinte: sabemos que o mundo anda enlouquecido, com guerras absurdas, conflitos entre países, desinteligências sociais, proliferação de informação e noticias falsas, negacionismo, exploração humana cada vez maior, hordas de migrações devido à fome e pobreza acentuada, acréscimo de doenças cada vez mais pandémicas, crise climática por uso excessivo de combustíveis fosseis ou destruição das florestas, problemas ambientais por generalizado consumo de pesticidas, plásticos e outros produtos não degradáveis, aumento de medidas unilaterais de umas nações contra outras e uma desumanização alargada das sociedades, face da plêiade de horrores que emergem dos bairros sociais de todas as cidades e lugares do mundo, onde proliferam a desgraça, a ausência de emprego, a violência gratuita, a progressiva caminhada das intolerâncias, com a consequente fraqueza das liberdades cívicas, da democracia e do direito.

Em suma, podemos afirmar que tudo é fruto das trevas que ensombram o homem, e a humanidade. E qual é o objectivo maior da maçonaria? É claro que é polir a pedra bruta, é aprimorar o homem e, com isso, melhorar a humanidade.

Então, o nosso dever obrigatório é intervir nas sociedades, no mundo profano, com vista a essa melhoria.

Nesse sentido, quero aqui anunciar que vamos criar, muito em breve, o OBSERVATÓRIO DAS CALAMIDADES HUMANAS, precisamente para dar corpo a esse ingente trabalho a que os maçons de todos os tempos se dedicaram. Se os males citados provêm do homem, é nele que vamos trabalhar, identificando, elencando, pesquisando e procurando antídotos para tantos e tão profundos problemas. Se estamos à beira de abismos, urge estancar esse caminho suicidário e definir outros rumos. É o que pretendemos fazer com este nosso contributo.

Em breve daremos mais informação sobre este projecto, tão necessário no nosso tempo. O Observatório das Calamidades Humanas está em marcha e todos estamos convidados a erguê-lo para bem da humanidade.

A nossa experiência e vida enquanto maçons – que defendem a regularidade e põem em pratica os seus critérios – ensina-nos também que só a luz do GADU tem poder e força para iluminar as mentes obscurecidas, e é a ele que apelamos para que nos guie nessa transcendental tarefa: a de burilar a pedra de cada um, cinzelando as arestas da ignorância, da estupidez, dos egoísmos, dos vícios, dos preconceitos, das certezas absolutas, da exploração dos fracos e oprimidos, das desigualdades, dos privilégios, do racismo, da ambição desmedida, da usurpação do alheio, enfim, de tudo quanto os nossos ancestrais já tratavam e tanto porfiaram no mesmo combate.

Mas devemos ao mesmo tempo olhar com atenção para a nossa vida, pois ela está repleta de coisas extraordinárias e belas e de pessoas maravilhosas.

Devemos estar atentos e disponíveis e saber ver e escutar verdadeiramente. Mas, para isso, precisamos de saber gerir e tirar partido do silêncio. Do nosso silêncio! O ruído do mundo que permanentemente nos assalta necessita de ser contrabalançado com a reflexão e a meditação, se queremos garantir a paz interior, o equilíbrio da nossa saúde mental.

Para nós, o silêncio deve ser activo, despertar os sentidos: Auxiliar-nos a entender o que vemos, escutamos e sentimos, para depois então agirmos com certeza e firmeza, na busca incessante da verdade. O silêncio maçónico não é um estado de torpor, de alienação ou de recusa. Pelo contrário. Como se recordam todos aqueles que foram aprendizes, participando nos trabalhos de Loja, o nosso silêncio é antes um trabalho interno fundamental de aprendizagem, para conhecermos melhor os outros e a nós próprios. E, também, para conseguirmos aceder ao indizível e ao invisível. Porque, tal como nos diz a famosa frase em ‘O Principezinho’ de Saint Exupéry: “O essencial é invisível para os olhos”.

Como referiu um importante poeta, activista dos direitos humanos e budista vietnamita (Thich Nhat Hanh),

“A condição básica para conseguirmos escutar o apelo da beleza e a ela reagirmos é o silêncio. Se não encontrarmos o silencio dentro de nós – por causa da nossa mente e do corpo estarem repletos de ruído – não conseguiremos escutar o chamamento da beleza.” E dizia ainda, “Somos o que sentimos e observamos. Se enfurecemos, somos a fúria. Se amamos, somos o amor.”

Sejamos todos amor! Na partilha e no amor fraternal que a todos une, e que nos dá um propósito e a luz para as nossa vidas.

Lisboa, 23 de Setembro de 6023

Armindo Azevedo
Grão-Mestre da Grande loja Legal de Portugal / GLRP

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