Uma reflexão global sobre a Maçonaria no momento das eleições no GOL
Todas as agremiações vivem mediante ritmos e ciclos. Alguns desses ciclos são impostos pelo meio envolvente, outros são definidos pela própria vida das instituições. O Grande Oriente Lusitano viverá em breve um momento de viragem de página muito importante.
Num contexto de definição de lideranças, a busca de um aggiornamento de ideias e de posturas ganha um espaço único. Há poucas possibilidades, poucos momentos como este. Esta oportunidade tem de ser usada para pensar e debater, nem que seja para ficar tudo igual, mas após uma tomada de consciência – se o futuro for igual, que o seja por opção e não por apatia.
E é neste quadro que devemos lançar algumas questões que, obviamente, não se resolverão num tempo curto. Mas é este o momento para pensar e para refletir.
1 – O quadro e os problemas:
A integração no mundo: do social à peça de museu
Muitos se mostram preocupados com a redução do número de maçons em países onde a Maçonaria era tradicionalmente muito presente na sociedade, tal como muitos mais se mostram constantemente surpresos com a percentagem de Irmãos que abandonam a prática regular dos trabalhos em Loja. Este segundo problema é francamente pesado em Portugal, suponho que em grande parte das Obediências, especialmente nas maiores.
Sendo as realidades atrás apresentadas plenamente verdadeiras em si, elas não devem ser motivo de preocupação, uma vez que são apenas o resultado de questões estruturais. Essas, sim, devem ser alvo de longas e profundas reflexões, sob o risco de nunca se atalhar ao verdadeiro problema.
E esse, que eu apodo de verdadeiro problema, encontra-se na integração da Maçonaria no mundo, na sua deriva social e redução museológica. Isto é, a Maçonaria, ou se tornou espaço e lugar de reunião solidária, potencialmente, de negócios, ou se tornou completamente desfasada do tempo, não contemporânea, peça de museu em que os ritos nada dizem aos iniciados – repetem-se porque é suposto serem repetidos.
O que falta, na reunião desses dois pontos de inquietação, é uma efetiva contemporaneidade maçónica, colocá-la no mundo, com toda a complexidade que ele apresenta e com a qual desafia cada um dos Irmãos. Ser-se Maçon tem de implicar a detenção de metodologias ou conteúdos que sejam importantes para a relação com o mundo – a Maçonaria tem de estar no mundo, assim como o mundo tem de estar na Maçonaria, acolhendo, por exemplo, a diversidade cultural da sociedade, para não falar nos jovens.
Um abraço contemporâneo à Maçonaria implica uma ampla reflexão partindo do que é a essência de uma metodologia filosófica e iniciática com centenas de anos, do que é um quadro simbólico e ritualístico que, por natureza, é imóvel, e uma antropologia existencial que, no limite, tudo enforma, na medida em que o alvo do trabalho maçónico é o Homem, não os ritos ou os símbolos – esses são a metodologia do trabalho.
2 – A essência de uma metodologia filosófica e iniciática
2.1 – Desesperados por espiritualidade
A resposta mais frequente e, convenhamos, simples, mas simplista, a uma perda de referências rituais e simbólicas da sociedade hodierna, encontra-se num crescente resvalar que se verifica, em muitas tradições e indivíduos, em direção ao místico. A atração da mística é a porta de entrada num universo de valores que, de facto, ligam o indivíduo a dimensões espirituais tantas vezes menosprezadas em Loja ou, no melhor dos casos, pouco desenvolvidas.
Tal como a restante sociedade, especialmente as religiões tradicionais, a Maçonaria sofreu em algumas tradições um afastamento ao espiritual através de uma visão neopositivista que desanimou muitos Irmãos e os levou a procurar fora da Loja metodologias de criação de sentido esotérico.
A adesão a grupos das mais variadas origens e tradições é o reflexo e o resultado da incapacidade de a Maçonaria ser, de facto, diversa e livre. Amalgamada em semelhantes, as Lojas são tantas vezes a reunião de quem está muito próximo, seja a nível de interesses ou de inquietações, de quem já está ao lado na profissão ou noutros espaços de interesse ou de sociabilização. O confronto é raro, a profundidade não aparece e a espiritualidade é vista como fragilidade psicológica.
Para além de dissidências, esta incapacidade para se ser espiritual redunda constantemente no afastamento de Irmãos ou na procura de vias que tantas vezes se apresentam como verdadeiros crimes à tradição e que ludibriam os mais incautos através de parafernálias de gestos, pompas soleníssimas, capas e espadas, medalhas e liturgias que quase apenas alimentam os egos, e a carteira, de quem se tornou líder desses grupos. A natureza abomina o vazio, havendo sempre quem ocupe os espaços deixados livres.
2.2 – Entre a “tradição” e os desafios do tempo
2.2.01 – Saber para (re)tornar atuante o ritual e o símbolo
A tradição, o que herdamos e valorizamos, dando-lhe foros de modelo ou de essencialidade, é a base da comunidade, das identidades e da pertença. A tradição é apelativa e fornece material para narrativas. Contudo, a tradição, em si só, sem a sua relação com as comunidades, nada significa, perde a sua operatividade. O que chamamos tradição mais não é que a visibilidade de uma natureza funcional do passado que atua num determinado presente. Se não for constitutiva desse presente, a tradição perde-se, deixa de ter sentido e de ser sentida. Mais que musealizada, sem a ligação passado-presente, a tradição é esquecida ou torna-se motivo de rejeição por parte de quem não a entende e não a assimila; sem a tensão da vivência hermenêutica dos símbolos, sendo constantemente equacionada, a tradição perde o seu poder de, no presente, criar o futuro através da representação vivenciada do passado, através do ritual que nos une às gerações de anteriores maçons.
Para que não se transforme em museu ou rejeição, num quadro de grandes mudanças civilizacionais, a tradição terá de ser apresentada, compreendida, objeto e fruto de uma didática que a atualize, tornando-a “nossa” porque significativa, criadora de identidade e de futuros. E não se trata apenas de criar mecanismos que lhe tragam vida através da repetição dos gestos e das palavras. A repetição mecânica corre o risco de deixar de ser ritualística para se transformar em obrigação hierárquica. A repetição deverá resultar de uma adesão ao sentido esotérico do ritual e dos símbolos, não de uma obrigação.
As Lojas devem aprofundar o ensino, as Obediências devem criar espaços de efetivo debate e de aprendizagem. Nada pior que repetir gestos sem se saber porque o fazemos. Há uma historicidade na definição dos gestos e das palavras, tal como há uma cosmovisão e uma antropologia na forma como se entende que esses gestos e palavras são atuantes em quem os realiza. Agarrados ao tempo em que foram estabelecidos, há que ligar os Ritos ao presente sem os esvaziar do passado. O ensino é o primeiro caminho.
2.2.02.- Apanhar o comboio da Modernidade: da literalidade à interpretação
Mas temos que ir mais longe no campo de uma Maçonaria “Liberal” ou “adogmática”. Num processo de atualização vivencial da tradição, ela não pode apresentar incongruências face à evolução semântica que as palavras e os conceitos sofreram na sociedade. Por exemplo, se «igualdade» é mesmo ser-se igual, então há que encontrar caminhos simbólicos e rituais que afirmem esse princípio, sob o risco de se criarem imensas fragilidades e ruturas, quer internas, quer externas.
Neste campo, a multiplicidade das formas de crença, assim como as questões de género, são dimensões onde a Maçonaria não pode ter comportamentos em tudo semelhantes às confissões religiosas mais criticadas, sob pena de receber em si as mais indefensáveis, e justas, acusações.
E não se trata apenas de um debate que deve ter lugar porque toda a sociedade o está a ter aos mais variados níveis, seja o religioso e o espiritual, o familiar ou o profissional. Não, o nosso debate terá de ter lugar no campo do simbólico. O que é uma iniciação no feminino? Posso ter uma vivência simbólica sem ser crente num Deus revelado? Ironicamente, estas são as duas questões primordiais que nos separam do mundo que, orgulhosamente, ajudámos a construir.
A simbólica tem de permitir a igualdade na diferença e não obrigar a uma homogeneização que parte do modelo masculino, crente e patriarcal. Apesar dos Ritos residirem no universo da estaticidade, tal como foram um dia criados, também podem um dia ser revistos. São do universo do alquímico, mas são realidades históricas, marcadas por um tempo que, em alguns casos, já não é o seu.
Num tempo que é diverso e prenhe de mudanças, a vivência dos símbolos e dos Ritos caminhará, garantidamente, para modelos de adaptabilidade, respondendo às especificidades de cada ecossistema, de cada Loja. A liberdade das Oficinas deve ser a dominante que organiza a forma como cada grupo, num reconhecimento universal, vive e afirma a diferença, base de uma igualdade, de uma unitas multiplex, recorrendo ao conceito de Edgar Morin.
A manutenção de normas que se suportam através de argumentos de autoridade que residem na leitura literal de textos de inícios do século XVIII, colocam-nos num patamar de incapacidade hermenêutica, lado a lado com os grupos religiosos mais fundamentalistas que foram incapazes de assimilar a Modernidade e avançar para leituras contextualizadas dos seus textos fundadores.
As Constituições de Andersen, de 1723, nunca poderão ser “Texto Sagrado”, muito menos, autoridade a ser seguida de forma literal, sob o risco de destruir a base da Maçonaria: a liberdade crítica e a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Homem e Mulher, felizmente, não são hoje o mesmo que eram nesse distante ano do século XVIII, o mesmo se podendo afirmar sobre a conceção de Deus ou do divino, assim como de crença ou de revelação. Sendo que a letra de um texto não muda, deverá mudar o enfoque da leitura, a forma como se interpreta, recusando-se fundamentalismos.
Nunca a Maçonaria pode ser um prêt-à-porter onde cada Irmão vá buscar um produto acabado, encerrado na sua formulação e apenas aberto para se assistir, como que uma “missinha” carregada de dogmas e de interditos. O Maçon tem de ser importunado, inquietado com o mundo e, com as ferramentas da fraternidade, responder a ele.
Para isso, para que a liberdade hermenêutica não seja degeneração dos princípios e total abandono da tradição, as Obediências devem lançar mãos de sólidos programas de formação, de debate e de aprofundamento das ideias maçónicas, garantindo que a referida tradição não anula a liberdade.
2.3 – A ritualidade e os símbolos: a “máquina de fazer Fraternidade”
A metodologia da Maçonaria encontra-se na vivência do ritual e na hermenêutica dos símbolos. Saindo de um tempo e de um espaço profanos, o momento dessa sacralização dos gestos, das palavras e dos signos, é modificador dos sujeitos que a essa metodologia de conhecimento esotérico se dedicam. Numa dimensão antropológica, o ritual permite um salto qualitativo.
Mas o ritual, com cada Rito que define a vivência maçónica em cada Loja, não é uma realidade simples. Não são apenas gestos e palavras que se repetem, são um misto de tendência para a inalterabilidade, natureza dos textos que estão consignados e dificilmente se alteram, e a liberdade que é cada indivíduo. Ritos e símbolos são, ao mesmo tempo, fechados e aberturas: à semântica única que nos une e nos permite participar no rito (fazemos os mesmos gestos, dizemos as mesmas palavras perante os mesmos símbolos), acresce a hermenêutica diversa que nos diferencia como indivíduos.
E esta dinâmica, esta tensão, é, numa aparente contradição, coesão e diversidade. A Fraternidade é como que recriada em todo o momento em que se vivencia o ritual lado a lado, nessa natureza em que o comum nos permite participar, entendendo, e o que nos é único dá-nos a capacidade de liberdade, de entendimento irrepetível. No limite, o rito, na sua repetição, é uma máquina de fazer Igualdade que dilui as diferenças do Mundo Profano.
Hermeneuticamente, ficamos muitíssimo mais próximos, não apenas ao fazer gestos iguais, que nos ligam a todos os maçons, de todos os países, e de todos os tempos, no passado e no presente, mas ao definir entendimentos que o ritual consigna e tornam cada um mais forte.
E é-se mais forte, no ritual fica-se mais forte, porque em liberdade nos unimos e nos individualizamos dentro de uma noção de sacralidade. E esta máquina de fazer Fraternidade que é o ritual, é reforçada porque ele se alimenta semanticamente do símbolo, não apenas dogmatizado numa definição que todos assimilemos como única, mas numa liberdade de cada um ler esse momento com o seu entendimento, na sua racionalidade.
Mas para que esta máquina funcione, a leitura do símbolo tem de ser atualizada e um acompanhamento tem de ser dado a quem se lança nos caminhos da Maçonaria. Urge fazer uma atualização do simbólico, das metodologias do símbolo e do rito. Não desligar da tradição, mas atualizá-la através dos desafios que hoje se colocam à humanidade.
Naturalmente, as palavras evoluíram e hoje, por exemplo, a Sabedoria, a Força e a Beleza significam realidades muito diversas depois das revoluções do niilismo, da relatividade e do abstracionismo, respetivamente. Esses conceitos, que no século XVIII pareciam estáveis e imutáveis, são hoje peças do museu da linguagem, subjugados a novas semânticas que nos fazem viver o mundo de forma diferente. Temos que saber de que falamos quando usamos as palavras. E se as não queremos alterar, então teremos que usar de grande pedagogia para fazer com que elas sejam compreendidas e, assim, fruídas.
O ritual e a contemplação do símbolo apenas retomarão a sua eficácia alquímica, transformadora, quando os Irmãos reunidos em Loja estiverem capacitados para fruir o fluir desse tempo e desse espaço fora do comum. Cada maçon, na sua individualidade, tem o direito a conseguir tirar do ritual e do símbolo aquilo que ele, de facto, procura: a vivência da Fraternidade que o torna mais humano, tolerante, respeitador.
A Fraternidade, fora e acima do quadro simplista e perigoso da ajuda entre Irmãos, mas sim numa valorização da totalidade do Humano, só poderá acontecer dentro de uma vivência simbólica e ritual essencialista, não fundamentalista.
2.4 – Indivíduo e sociedade: o segredo
Se a vivência maçónica se faz na conjugação entre a leitura específica e libertadora do indivíduo e o unificador e comum do símbolo e do ritual, temos então um grupo imenso de palavras que ganham uma dupla acessão, falemos do seu uso em relação ao coletivo ou ao individual.
O “segredo” é uma das palavras mais complexas no campo da Maçonaria. A larga maioria dos maçons não imagina a complexidade do que, de facto, a palavra possa significar no léxico maçónico. Segredo pode ser o que se esconde, quem é maçon, no campo do secretismo; segredo pode ser o que se oculta, de palavras, gestos e toques, grau após grau; segredo é, ainda, o que se jura e o que se diz no espaço e tempo sagrados da reunião em Loja.
O segredo reside nas relações entre os indivíduos, seja entre maçons, seja entre estes e os profanos: o que se conhece, o que se mostra, o que se desvenda. Estamos no campo de uma noção de saber que é positivo, de coisas, objetos e pessoas: estar na posse de uma palavra, de um gesto, de um nome. Se há um ou dois séculos, no quadro das classificações e dos sistemas de medida, este era o saber material que valia, hoje o saber que se diferencia daquele que é detido pela mole dos cidadãos, encontra-se no campo do espiritual.
Depois das revoluções que a Antropologia e a Psicologia trouxeram, o que interessa quando nos referimos ao “saber”, não é a questão da posse de dados positivos, mas sim a vivência, ou não, de momentos irrepetíveis e de “valor acrescentado”, iniciático. O “meu” segredo não são as palavras e os gestos que supostamente só os maçons sabem, e que eu domino. O meu segredo são as experiências que vivi ao lado dos meus Irmãos e que, tendo tido lugar no espaço comum da Loja, são únicas e apenas minhas, nessa complexidade entre o que é comum e o que é específico. Só em cada um de nós, iniciados, a alquimia através do símbolo e do ritual acontece. Ela não ocorre em quem sabe coisas.
Numa visão contemporânea, o segredo não se resume a nenhuma das dimensões elencadas no início deste ponto, nem à sua soma ou junção. O segredo encontra-se na descoberta pessoal, esotérica, nas respostas que ao indivíduo a máquina de fazer Fraternidade possibilita, de acordo com a sua literacia maçónica e a sua capacidade para estar plenamente no ritual.
É aqui que a afirmação pública perde parte do seu sentido enquanto problema. Nada é desvendado com imagens, com paramentos, nem com nomes. Todos eles são, no limite, aparato morto fora do espaço e do tempo da ritualidade. Por mais que saiba de Maçonaria, um profano nunca viverá o ritual, porque o seu saber é apenas positivo, não vivência, existencial.
A afirmação pública da pertença à Maçonaria deveria ser, neste quadro, o corolário natural de quem sente o valor do indizível e do inexprimível. Não a saída para a rua para um massonic-pride, mas o natural e orgânico espraiar dos valores maçónicos no mundo profano através das mudanças efetuadas em cada um.
O nome, a afirmação pública do nome com a conotação ou identificação maçónica, seria o menos importante. O exemplo, com ou sem clara e direta identificação, seria a melhor arma para a informação e a destruição dos mitos que corroem a relação entre a Maçonaria e a sociedade.

- Intervenções 2016-2019 – publicação da Loja Convergência – Grande Oriente Lusitano (GOL)
- Os Grão-Mestres do Grande Oriente Lusitano (GOL) – 1803 até hoje
- Maçonaria – Que Objectivos, Que Futuro?
- O futuro da Maçonaria está no que fizermos agora
- Thomas W. Jackson – Comunicação à Grande Loja de Montana, 27.06.2009


Excelente reflexão
Muito obrigado Mauro pela leitura.
Forte Abraço Fraterno,
PMP