Preâmbulo
A informação e os argumentos contidos neste documento são válidos ou não pelos seus próprios méritos. O artigo é apresentado exclusivamente em meu nome e, apesar de eu ser Maçom, não é endossado por nenhuma organização maçónica, particularmente e explicitamente não pela Grande Loja Unida de N. S. W..
Numa história oficial da Grande Loja Unida de Inglaterra, podemos ler:
Em 1921 foi feita uma abordagem à Grande Loja para reconhecimento pela Honourable Fraternity of Ancient Masonry’; numa resposta que começava com ‘Cara Senhora’ por razões óbvias o Grande Secretário deixou claro que a admissão de mulheres era totalmente estranha ao plano original da Maçonaria ao qual os Maçons ingleses tinham aderido desde tempos imemoriais. Acrescentou que a Direcção continuaria a tomar medidas disciplinares contra qualquer Maçom Inglês que violasse a sua Obrigação por estar presente ou assistir a assembleias “professando serem Maçónicas e onde estivessem presentes mulheres”. Em ambos os casos, a Grande Loja deu ao Board o seu total apoio (Stubbs, pp. 163/4).
No passado mês de Agosto, o recém-empossado Grão-Mestre da Grande Loja Unida de N. S. W. disse no seu discurso inaugural: “A nossa forma de Maçonaria baseia-se no auto-desenvolvimento dos homens e introduzir a diversificação de géneros nas Lojas alteraria completamente o nosso conceito – simplesmente não pode ser feito” (Curry, p. 15). A sua objecção baseia-se em certos pressupostos, tais como: Que o auto-desenvolvimento dos homens seria, num contexto maçónico, inconsistente e até prejudicado pela presença de mulheres ou mesmo pela existência de mulheres maçonas; e que os ensinamentos maçónicos se aplicam de alguma forma aos homens de uma forma distinta e incompatível com a forma como se aplicariam às mulheres. Tem havido suficientes excepções às regras que excluem as mulheres da Maçonaria para demonstrar que estes pressupostos estão errados (Wright, passim).
Em comparação, podemos considerar as objecções a uma proposta hipotética que procura excluir as pessoas de outras raças e credos, afirmando que a Maçonaria é um sistema de auto-desenvolvimento para os protestantes anglo-saxónicos brancos. Podemos também tentar imaginar como nos sentiremos enquanto mulheres a quem é pedido que aceitemos a nossa exclusão de um sistema que pretende, tal como a Maçonaria, representar um modelo de um universo ideal, que se espera que os membros promovam e imitem.
S. A. R., o Duque de Kent, que desde 1967 é o Grão-Mestre da Grande Loja Unida de Inglaterra, deu uma resposta mais equívoca quando lhe foi perguntado: “Sir, em 1986, como é que justifica a exclusão das mulheres?” (S.C.R.L., p. 13). Ele respondeu:
Isso é, penso eu, em grande parte um assunto histórico. Simplesmente, a Maçonaria, como deve saber, remonta à Idade Média, não havia mulheres maçons praticantes que trabalhassem em estaleiros de construção, como acontecia nessa altura, e foi dessas origens que a Maçonaria derivou em grande parte, e foi simplesmente assim que cresceu. Eu não diria que esta é uma situação que necessariamente persistirá para sempre, mas certamente, de momento, não creio que seja considerada uma questão viva na Maçonaria (ibid.)
Como S. A. R. não excluiu a futura admissão de mulheres, aparentemente não viu qualquer objecção absoluta à sua eventual adesão. No entanto, treze anos mais tarde, as mulheres ainda estão excluídas daquilo a que chamamos “Maçonaria regular”, tal como têm estado há quase trezentos anos. Além disso, apesar da opinião de S. A. R., a exclusão das mulheres é um assunto vivo na Maçonaria. A questão é frequentemente levantada (R. Wells, lado 2), especialmente por aqueles que não são maçons. No entanto, a discussão sobre o assunto, embora não seja proibida, é desencorajada entre os maçons, de modo a não pôr em perigo a harmonia que tanto valorizam. Para além disto, a razão histórica que S. A. R. apresentou para a exclusão das mulheres está errada. Mesmo assim, o duque pode ser desculpado porque, salvo raras excepções, as fontes maçónicas são omissas quanto ao envolvimento das mulheres nos grupos de onde emergiu a Maçonaria especulativa moderna. Estudos comparativos, especialmente os de uma perspectiva feminista, revelam o envolvimento de mulheres nesses grupos.
Antigos Landmarks
Para compreender as questões envolvidas, precisamos de compreender primeiro a natureza deliberadamente conservadora da Maçonaria. A Maçonaria é intencionalmente arcaica e os Maçons procuram conscientemente preservá-la como um artefacto complexo, abrangendo e expressando costumes e usos imemoriais. Embora haja alguma margem para variações sobre o seu tema, esforçamo-nos por evitar inovações que alterem a sua identidade particular. Assim, os maçons aspiram a praticar aquilo a que chamamos “maçonaria pura e aceite” e as alterações ao carácter essencial, ao corpo ou ao núcleo desse ideal, por mais desejáveis que sejam por outros motivos, encontram oposição veementemente, uma vez que, por definição, o que quer que resultasse dessas alterações não seria a instituição que procuramos perpetuar. Mesmo assim, o carácter essencial da Maçonaria não é facilmente definido e, em grande parte devido à tradição de secretismo da Maçonaria, mesmo muitos membros discordam quanto ao seu propósito, origens e condições individualmente necessárias e colectivamente suficientes a que viemos a chamar os nossos Antigos Landmarks.
Contudo, parece incontestável que a nossa exclusão das mulheres viola o nosso princípio de “universalidade”. Este princípio é mais defensavelmente uma parte do nosso carácter essencial, segundo o qual se espera que ponhamos de lado os preconceitos para admitir qualquer candidato que satisfaça certos critérios mínimos, independentemente de coisas como a sua raça, credo ou opiniões políticas. Os maçons são ensinados: …somos todos oriundos da mesma linhagem, somos participantes da mesma Natureza e partilhamos da mesma esperança… presumivelmente estes laços místicos abraçam e englobam tanto homens como mulheres. Esta universalidade permite que pessoas que, de outro modo, permaneceriam à distância, se encontrem em harmonia fraterna. Para testar a “universalidade” de uma política, poder-se-ia determinar se, globalmente, a sua tendência é para unir ou para dividir. Aplicando este teste à nossa exclusão das mulheres, verificamos que, ao excluirmos metade da humanidade, exacerbamos a distância social entre homens e mulheres.
Com a universalidade surgiu um leque diversificado de pessoas, muitas das quais insistem em que sabem qual é a essência da Maçonaria, quando na verdade estão a exteriorizar as suas próprias compulsões e evitações. O mau uso que fazem da Maçonaria leva-nos ao cerne do problema. Como Bernard Jones escreveu:
Aos costumes, práticas, princípios, tradições e observâncias que podem ser provados como tendo existido desde tempos imemoriais, alguns Irmãos acrescentariam quaisquer costumes, mesmo que não antigos, que sejam universalmente reconhecidos; mas contra isto, é solidamente argumentado que, se fosse possível aos maçons de todo o mundo se reunirem e concordarem com uma crença nova e comum, eles não iriam e não poderiam, ao fazê-lo, criar um Landmark! Afirma-se que um Landmark pode ser descoberto, mas não criado; não pode ser mudado ou alterado; não pode ser melhorado; não pode ser obliterado. Assim, um grupo mundial de Maçons, incapaz de criar um Landmark, seria igualmente incapaz de o apagar (p. 334).
Significativamente, por mais longe que remontemos aos nossos antecedentes, os maçons descobrem que os nossos Antigos Landmarks sempre foram considerados antigos. Foi este o caso em 1717, quando quatro Lojas formaram a Primeira Grande Loja. Reconheceram que quaisquer alterações que introduzissem poderiam elas próprias ser alteradas; que apenas os Antigos Landmarks eram imutáveis; e que estes Landmarks tinham prioridade absoluta sobre outras considerações.
Parece ainda que, com a introdução do primeiro livro de Constituições em 1723, foi introduzida uma inovação que excluía as mulheres. Com algumas excepções, durante algum tempo as mulheres tinham sido geralmente excluídas da Maçonaria especulativa, não por causa do seu sexo num sentido absoluto, mas porque as mulheres da época não tinham geralmente a liberdade legal ou social necessária para serem membros. Como se diz aos maçons, “a Maçonaria é livre, e requer uma perfeita liberdade de inclinação e acção de cada Candidato aos seus mistérios”.
Origens
Existem muitas teorias sobre as origens da Maçonaria. As opiniões oscilam entre dois extremos. Um destes extremos traça a Maçonaria a partir de um protótipo que começa com a “Criação”, com Adão como o primeiro Grão-Mestre (R. Wells, lado um). A propósito, diz-se que tanto Adão como Eva fizeram aventais para si próprios (Génesis 3:7). Teorias exageradas como esta fazem com que a tradição seja transmitida através de grupos como as antigas escolas de mistérios.
Uma teoria, apenas ligeiramente menos ambiciosa, é dada por Robert Race, no seu artigo intitulado “Genuine Ancient Landmarks”. Ele argumentou que a Maçonaria regular é “apenas para homens” porque, segundo ele, surgiu entre adoradores fálicos, durante a era astrológica de Áries, o carneiro, afirmando: “Assim, reivindico para a origem da Maçonaria uma antiguidade entre 2267 e 4417 anos; e reivindico ainda que o grande Landmark antigo para esta origem é o uso de pele de cordeiro para o emblema maçónico” (Martin, v. l, p. 128). Mesmo imaginações menos vivas poderiam facilmente encontrar referências maçónicas a todos os signos astrológicos. Quanto ao seu caso, refuto-o assim!
Uma ilustração de Streep, p. 62, é de uma estatueta atribuída à cultura Vina. Foi escavada na antiga Jugoslávia e está datada entre 4700 e 4500 a.C.. Os colares maçónicos modernos têm uma meia esfera ou “colmeia” no centro, onde este colar tem uma forma oval em relevo. O pendente assemelha-se a um compasso (que, no uso moderno, significa um Grão-Mestre ou, neste caso, uma Grã-Mestra). O avental apresenta vestígios de pigmento branco, franjas ou borlas e um cinto de cintura (Gimbutas, placa nº 20, pp. 50, 52 e 282).
Embora as semelhanças entre as tradições da Maçonaria e as de outros grupos possam ser fantasiosas, exageradas ou coincidentes, temos de considerar a possibilidade da sua relevância se quisermos compreender o seu atractivo. Esta atracção explica por que razão houve menos pessoas para quem os costumes anacrónicos dos pedreiros medievais tinham relevância profissional imediata do que pessoas que os praticavam por outras razões mais especulativas. As características distintivas da nossa identidade genérica não são, como o nome indica, de modo algum exclusivas da Maçonaria, mas eram comuns em termos de tipo, contexto e interpretação a vários grupos.
Elas incluem referências alegóricas à construção e ao uso de ferramentas de trabalho, especialmente o esquadro e o compasso, como alegorias morais; o uso de aventais e colares; o uso de modos particulares de reconhecimento, (incluindo palavras particulares, cujos significados permaneceram semelhantes, embora diferentes grupos empregassem línguas diferentes); instrução por catecismo; reuniões privadas; votações secretas, avanço através de vários cargos e auto-administração democrática; e, acima de tudo, uma forma peculiar de moralidade emanacionista, enfatizando a verdade, a igualdade e a fraternidade universal.
O outro extremo da opinião insiste que a Maçonaria moderna e especulativa começou simplesmente com a formação da Primeira Grande Loja em 1717. Entre estes extremos existe um continuum em que as opiniões dependem largamente da importância dada à identidade genérica da Maçonaria com outros grupos ou à sua identidade específica decorrente da formação da Primeira Grande Loja. Significativamente, os fundadores ou reformadores de 1717 afirmaram estar a continuar uma tradição mais antiga e invocaram ostensivamente essa tradição para legitimar as suas acções.
Seja qual for o caso, se a Maçonaria começou em 1717, não teria “Antigos Landmarks” e todos os costumes e usos estariam sujeitos a uma alteração constitucional de rotina. Mas, se a Maçonaria deriva de uma data anterior e pode ser demonstrado que as mulheres estiveram envolvidas nas instituições das quais se pensa derivar, então aqueles que insistem que “apenas homens” é um Antigo Landmark teriam de demonstrar que esse envolvimento foi, em si mesmo, um desvio irregular de um padrão anterior e inflexível.
Embora tenham sido exploradas muitas origens sugeridas, incluindo algumas das teorias mais imaginativas, não foi encontrada nenhuma que implique necessariamente a exclusão das mulheres. Naturalmente, uma análise exaustiva de todas estas teorias estaria muito para além do âmbito deste artigo. Assim, concentrar-me-ei na teoria de que a Maçonaria especulativa surgiu das guildas e lojas dos pedreiros operativos.
Embora existam registos de maçons especulativos admitidos em lojas operativas, não há registo de qualquer loja operativa que se tenha transformado numa loja especulativa. Mesmo assim, esta teoria recebeu o maior apoio, está mais bem documentada e é historicamente mais provável, pois precede o surgimento da Maçonaria especulativa. Bernard Jones apoia esta teoria, dizendo:
A Maçonaria tem duas histórias – uma, lendária e tradicional, que remonta quase aos primórdios da arquitectura; a outra, autêntica, que abrange um período de algumas centenas de anos e deriva, em parte, das antigas guildas e fraternidades artesanais, cujas fortunas aumentaram e diminuíram em Inglaterra com o período gótico; acredita-se que nesse período específico se encontram as principais raízes da Maçonaria mundial (p. 19).
No livro Symbolical Masonry, de H. L. Haywood, encontramos a seguinte declaração:
As mulheres eram livremente admitidas na maioria das antigas corporações de ofício, das quais, diz Robert Freke Gould, “nem uma em cada cem, mas recrutavam as suas fileiras de ambos os sexos” (p.63 ) [Gould continua, dizendo]; e mesmo em corporações sob a direcção de padres, como a Irmandade de “Corpus Christi” de York, iniciada em 1408, eram permitidos membros leigos (de algum ofício honesto), sem distinção de sexo, se “de boa fama e conversação”, sendo os pagamentos e privilégios iguais para os “irmãos e irmãs”. As mulheres “juravam sobre um livro” da mesma maneira que os homens. (v. 1, p. 90)
A esta política, as Guildas dos Maçons não eram, apesar da negação de Haywood, uma excepção.
OLD CHARGES: As regras e regulamentos para o governo das lojas operativas, (juntamente com um número de lendas românticas e fantasiosas e admoestações morais), estavam contidas em manuscritos, que agora chamamos de Old Charges ou Old Constitutions. Estes manuscritos funcionam como mandados ou cartas, na medida em que a posse de um parece ter dado a cada loja autoridade para conduzir o seu trabalho. O seu conteúdo constitui a prova mais segura das práticas de trabalho efectivo dos maçons operativos.
Na jurisprudência maçónica, qualquer pessoa que reivindique como um Antigo Landmark um costume ou uso não mencionado em nenhuma das Old Charges exigiria geralmente provas extraordinárias para compensar esta deficiência no seu caso. Albert Mackey afirmou: “A lei que exclui as mulheres da iniciação na Maçonaria não está contida … em nenhuma das Antigas Constituições!” (v.2, p. 855). De facto, esta lei é uma inovação moderna, publicada pela primeira vez em 1723 pelo Rev. Dr. James Anderson, na primeira Constituição da primeira Grande Loja (Mackey, ibid. & Waite, v. l, p. 25): Arthur Waite foi um dos vários irmãos que criticaram severamente Anderson pelos seus “…erros, omissões, invenções…” (p.25). A exclusão das mulheres é claramente uma das mais sérias e prejudiciais das suas inovações, (embora, como A. F. A. Woodford disse correctamente, “…não podemos … julgar Anderson de forma justa pela nossa crítica mais fria de hoje… (p.27)).
Alguns Irmãos, juntamente com Albert Mackey, estão preocupados que uma lei não escrita excluindo as mulheres possa estar implícita nas Antigas Constituições. A preocupação deles baseia-se em termos como: “‘de membros inteiros, como um homem deve ser’, e que ele também não deve ser ‘nenhum escravo'” (v.2, p. 855). Estes Irmãos podem ser enganados pela prática, mais prevalente no passado, em que termos masculinos como ‘mão-de-obra’, ‘homicídio’ e ‘humanidade’ são confusamente usados para ‘abranger’ tanto homens quanto mulheres. Mackey sugere ainda que existe algum significado no facto de existirem muitos regulamentos que “…seriam totalmente inaplicáveis às mulheres” (ibid.). No entanto, este facto não estabelece qualquer intenção de excluir as mulheres da Ordem. Pelo contrário, reflecte a prevalência dos homens. Não seria de estranhar, por exemplo, que o exército ou a polícia tivessem muitos regulamentos que se aplicam apenas aos homens, sem que isso signifique excluir as mulheres.
Enquanto Mackey achava que as Old Charges implicavam a exclusão das mulheres, encontramos, na tradução de R. H. Baxter do Poema Regius, (o mais antigo destes manuscritos, c.1390): “Nenhum mestre suplantará outro, mas estarão juntos como irmã e irmão…” (Martin, v. l, p. ,13); e uma injunção para se revezarem no papel de stewards: “Servir amavelmente uns aos outros, como se fossem irmã e irmão” (ibid., p. 19). É possível que tenha havido alguma licença poética ao se referir à qualidade de uma relação ideal; ainda assim, as referências fornecem um argumento mais forte para a admissão de mulheres do que o argumento para a sua exclusão, baseado em referências gerais aos homens.
Além disso, de acordo com Neville Barker Ciyer:
Nos registos da Corpus Christi Guild, em York, em 1408, refere-se que um Aprendiz tinha de jurar obedecer “ao Mestre, ou à Dama, ou a qualquer outro Maçom”; e, para o caso de alguém pensar que tal título significava talvez apenas a companheira viva do Mestre, vale a pena notar que, ainda em 1683, os registos da Loja da Mary’s Chapel, em Edimburgo, fornecem um exemplo de uma mulher que ocupava a posição de “Dama” ou “Mestra” no sentido maçónico. Era viúva de um Maçom, mas exercia os mesmos direitos que os outros maçons operativos e participava nas mesmas cerimónias (Cryer, p. 22).
George Martin acrescenta a este ponto:
Por exemplo, num manuscrito, o Aprendiz maçónico era instruído para não roubar ou retirar os bens do seu “Mestre” ou da sua “Dama”; e noutro, para não revelar os conselhos ou segredos do seu “Mestre” ou da sua “Dama” (v.17, pp. 130 e 131).
De facto, A. F. A. Woodford relata que a palavra ‘Dame’ aparece em todos as Formações de Aprendiz nas Old Manuscript Constitutions (p. 146). Ele também relata que o Manuscrito de York nº 4 (1693) afirma claramente as palavras “he or shee” (p. 146). O manuscrito intitulado ” Constitutions of the Freemasons “, incluía a seguinte cláusula: “Um dos anciãos deve tomar o livro, e que ele ou ela que está para ser feito um Maçom deve impor as mãos sobre ele, e a instrução deve ser dada” (Wright, p. 95).
Os autores modernos têm procurado rejeitar esta evidência directa com uma explicação ad hoc, conjectural e de retaguarda. Sugerem, com ar de desejo, que pode ter havido um erro de leitura ou de tradução, em que “he or shee” deveria ter sido lido como “he or they”. Para aqueles que sugerem que “he or shee” é um erro de leitura, Cryer diz:
Agora tenho de vos dizer que os meus antecessores na Investigação Maçónica em Inglaterra, desde Hughen e Vibert e de todos os outros em diante, tentaram fingir que o “shee” é meramente um erro de impressão para “they”. Eu sou agora Chairman do Heritage Committee de York. Conheço estes documentos; examinei-os e digo-vos que eles dizem “ela”, sem qualquer dúvida.
Para aqueles que afirmam que “ele ou ela” é um erro de tradução, podemos pedir-lhes que considerem que, se traduzido de um documento anterior, o trabalho foi provavelmente feito por um estimado mestre, bem familiarizado com os genuínos Antigos Landmarks da Ordem. Além disso, o manuscrito parece ter sido entregue, lido e aceite por muitos mestres subsequentes sem que eles percebessem qualquer necessidade de emenda ou correcção.
Maçons Operativos
A admissão de mulheres como pedreiros operativos não só era teoricamente permitida pelas Old Charges, como era efectivamente praticada. Por exemplo, no seu livro Women in the Medieval Town (Mulheres na Cidade Medieval), Erika Uitz, ao constatar os salários geralmente mais baixos das trabalhadoras, observa
Mesmo em tais condições salariais, as taxas de emprego feminino eram elevadas. Nos estaleiros de construção de Wurzburg, por exemplo, entre 1428 e 1524, foi empregue diariamente uma grande quantidade de mão-de-obra feminina. O trabalhador pouco qualificado recebia o seguinte salário médio, calculado em pfennigs:
| Ano | Nº de Mulheres | Salário | Nº de Homens | Salário |
| 1428 a 1449 | 323 | 7.7 | 13 | 11.6 |
| 1450 a 1474 | 1472 | 9.0 | 381 | 12.6 |
| 1475 a 1499 | 209 | 8.3 | 131 | 11.2 |
| 1500 a 1524 | 429 | 9.2 | 237 | 12,7 |
As condições salariais no sector da construção em Wurzburg não eram excepção. Um decreto sobre os preços e salários máximos, publicado em todas as cidades e mercados da Steiermark, estabelece que os serventes que transportam pedras ou argamassa recebem 8 pfennigs por dia e que as mulheres que efectuam trabalhos semelhantes recebem apenas 7 pfennigs (p. 64).
Assim, as mulheres participavam nos trabalhos pesados da construção civil. Isto é contrário aos apologistas maçónicos que implicitamente argumentavam que a sua exclusão moderna se devia ao facto de as mulheres serem incapazes de realizar esse trabalho (por exemplo, Mackey, v.2, p. 855), (um argumento que teria pouca simpatia entre as mulheres pedreiras e outras trabalhadoras da indústria pesada de hoje, nem entre a classe trabalhadora da época). Apesar disto, pode argumentar-se que se tratava de trabalhadores pouco qualificados e que só os trabalhadores altamente qualificados eram admitidos nas Guildas. No entanto, Erika Uitz informa-nos que “em Estrasburgo, entre 1452 e 1453, duas mulheres entraram para a guilda dos pedreiros e obtiveram simultaneamente o direito à cidadania da cidade” (p. 61).
Contra esta evidência, tem-se argumentado que a situação era diferente na Grã-Bretanha, onde, segundo se afirma, a Maçonaria surgiu pela primeira vez. No entanto, Bernard Jones escreve sobre a London Company of Freemasons, na qual:
Margaret Wild, viúva, era membro em [1663]… Já em 1713-14 encontramos o caso notável de Mary Banister, filha de um barbeiro de Barking, que foi Aprendiz de um Maçom pelo período de sete anos, sendo a taxa de 5s. devidamente paga à companhia. Em 1696, o Mason’s Court Book dá o nome de duas viúvas… (pp. 77/8).
Jones também nos diz que:
Londres tinha uma forte Freemason and Mason Company. Existem provas da sua existência antes de 1376, mas não sabemos há quanto tempo existia. Foi fundada uma guilda em Londres em 1313 e, no Record Office, existe um certificado relativo à mesma, datado de 1389, o único certificado conhecido do género. Fred L. Pick (A. Q. C., vol. LVI) diz-nos que os irmãos e irmãs eram admitidos na guilda, que era uma fraternidade religiosa com uma vertente social, e não uma guilda comercial… (p.70)
Maçons Especulativos
Os argumentos a favor e contra a possibilidade de a Maçonaria incluir as mulheres em condições de igualdade com os homens são tópicos perenes. Estes argumentos são alimentados por alguns exemplos (vários bem documentados) de mulheres que foram admitidas na Maçonaria especulativa e regular (Wright, pp. 78/99). Tem havido uma série de outras respostas, incluindo várias formas da chamada Maçonaria Adoptiva, em que as mulheres trabalham em ritos inventados, organizados por e sob o patrocínio de homens (Wright, pp. 1/140 & Pike, passim). Há também os chamados corpos espúrios que admitem mulheres como membros e praticam o que, de alguma maneira, é um trabalho maçónico mais ou menos regular (por exemplo, Legris, pp. 34/8). O seu trabalho refuta efectivamente a suposição melodramática de H. L. Haywood de que: “Para admitir mulheres, toda a organização, desde a torre até à cave, teria de ser demolida e construída de novo e de uma forma totalmente diferente” (p. 64).
O exemplo mais conhecido é a Co-maçonaria, que tem o nome e a personalidade de Annie Besant. Para além da sua admissão de mulheres, a Co-maçonaria é considerada irregular noutros aspectos e é desconsiderada pela comunidade maçónica em geral. Mesmo assim, é um dos poucos meios através dos quais as mulheres podem aprender algo sobre a natureza da Maçonaria.
Conclusão
Em conclusão, as regras que excluem as mulheres da Maçonaria são regras que podem ser alteradas, devem ser alteradas e têm de ser alteradas. Na ausência de qualquer razão sólida e convincente para continuar a excluir as mulheres, podemos estar justificadamente impacientes com a falta de acção significativa para as admitir na Maçonaria regular. A posição actual da Maçonaria é tão fraca ou mais fraca do que as posições anteriormente ocupadas pela fraternidade dos Escuteiros, o movimento Surf Lifesaving ou os Lions Clubes (todos eles admitem agora mulheres). Podemos concordar com Marx, que escreveu: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras; o objectivo, no entanto, é mudá-lo” (Long, p. 24); e, como os maçons são ensinados: “…o coração pode conceber, e a cabeça idealizar em vão, se a mão não estiver pronta para executar o projecto.”
Compilado e anotado por Philip Carter
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Referências
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- Wright, Dudley, 1922, Woman and Freemasonry, William Rider & Son, London.
Notas
Abaixo aparecem as notas finais pertencentes a este trabalho. O ficheiro foi recebido sem os indicadores que posicionem as notas no texto. No entanto, incluímos as notas.
[1] Como Gould observa na sua história, “as leis para a orientação do Ofício no reinado do Rei Athelstan, ou mais tarde, não pretendiam ser definitivas, mas alteráveis de acordo com as necessidades do Ofício, desde que o espírito da sociedade fosse sempre preservado” (Macbride, p.209).
[2] As primeiras Constituições, as de 1723, deixam claro o assunto. “As pessoas admitidas como membros de uma Loja devem ser homens bons e verdadeiros, livres, e de idade madura e discreta, não servos.”
[3] Na versão dos Ancient Charges que precede o livro de Constituições da Grande Loja Unida de Inglaterra, é-nos dito que as pessoas “tornadas maçons ou admitidas como membros de uma loja devem ser homens bons e verdadeiros, nascidos livres, de idade madura e discreta e de bom senso, não servos, nem mulheres, nem homens imorais ou escandalosos, mas de boa reputação” (Jones, pp. 157-8).
[4] As invenções que apoiam o status quo têm mais probabilidades de serem aceites e publicadas do que as que o questionam. Uma delas foi publicada entre as prestigiadas Kellerman Lectures do Conselho Australiano de Pesquisa Maçónica. Diz o seguinte:
… descobrimos que as mulheres estão banidas da Ordem. Este facto provém provavelmente de um édito do rei Salomão, em cuja sabedoria e construção do seu templo de Jerusalém se baseia a Ordem. Ele disse que não havia lugar para as mulheres na preparação dos materiais nas florestas e pedreiras, nem no transporte ou na construção do templo. Este trabalho, dizia ele, era para os homens maduros e sem deformidades, os fortes e capazes. O lugar das mulheres era em casa, a cuidar dos seus homens, a criar e a educar os filhos. Para mim, este édito constitui um dos Landmarks da Ordem (K. Wells, p. 22).
Quando lhe foi pedida a fonte, o inventor admitiu “…tomar um pouco de liberdade literária…” (carta ao autor de 30.12.93).
[4] A adopção desta posição extrema para evitar a admissibilidade histórica das mulheres serve apenas para levantar a questão: Mesmo que a Maçonaria moderna e especulativa não seja a sucessora de uma sucessão ininterrupta de uma ou mais instituições anteriores, mas apenas emule e seja modelada por elas, podemos esperar que o modelo copie os originais, aos quais se esforça e dos quais professa aproximar-se, tão fielmente quanto é praticável sob as convenções modernas (certamente não divergindo deles contrariamente a tais convenções).
[5] Por exemplo, no que respeita às teorias sobre o papel das mulheres entre os egípcios, os hebreus, os judeus, os primeiros cristãos e os muçulmanos, recomendo: Joyce Tyldesley’s Daughters of Isis: Women of Ancient Egypt, 1994, Viking, London; Raphael Patai’s The Hebrew Goddess: Third Enlarged Edition, 1990, Wayne State University Press, Detroit; Bernadette J. Brooten’s Women Leaders in the Ancient Synagogue: Inscriptional Evidence and Background Issues, 1982, Scholars Press, Atlanta; Karen Jo Toijesen’s When Women Were Priests: Women’s Leadership in the Early Church and the Scandal of their Subordination in the Rise of Christianity, 1993, HarperCollins, New York; and Javad Nurbakhsh’s Sufi Women, Revised Second Edition, 1990, Khaniqahi-Nimatullahi Publications, London.
[6] As palavras “hee ou shee”, no York MS. Nº 4, são apenas equivalentes ao que pode ser mostrado em outros regulamentos das Guildas, e sugestão de que “shee” deveria ser lido como “they”, embora feita por uma autoridade tão grande como o Irmão D. Murray Lyon, não é, arriscamo-nos a pensar, sustentável em face da evidência de que as mulheres são membros da Guilda de algum tipo que pode ser aduzido. O uso, no que diz respeito aos maçons, prova a grande antiguidade da instrução (Woodford, p. 146).
[7] A posição contemporânea é dada sob “Stonemason” no Job Guide for New South Wales, que declara explicitamente: “Este campo está aberto tanto a mulheres como a homens” (D. E. E. T., p.39).

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Há mais de 35 anos estudo a Maçonaria e não entendo qual motivação fundamenta a exclusão de mulheres da Iniciação na Ordem. Se nosso objetivo é o aperfeiçoamento do caráter, também deveria ser o das mulheres. Logo, logo, do jeito que os costumes vão, teremos homens que se dizem mulheres e mulheres que se dizem homens. E aí como fará a Maçonaria para excluir aqueles que não tenham nascido com o sexo masculino ou que tenham renunciado à sua masculinidade? Pessoalmente não sou contra a Maçonaria Feminina e nem contra a Maçonaria Mista. Afinal, homens e mulheres, separadamente considerados ou em conjunto temos caráter que pode (e deve) ser aperfeiçoado para melhorar a convivência das pessoas. É minha opinião.
Concordo plenamente com o que foi exposto!