Como se defender dos néscios no seio da Néscionaria?

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Este texto é uma adaptação do original intitulado  “Como se defender da estupidez dos humanos na pós-humanidade” de autoria do Professor Lenio Streck, publicado no jornal “O SUL” em 3 de Outubro de 2020.

Já escrevi uma trilogia sobre a néscionaria, a fraternidade mais praticada em terrae brasilis, ao que tudo indica. Agora, escrevo um breve, brevíssimo guia de como se identificar esse tipo de gente, os néscios.

O primeiro passo é saber identificar um néscio (estúpido). Só se pode falar sobre o que se conhece. No princípio era o verbo. As coisas estavam lá, mas ainda não tinham nome (João, I, I). Por isso, saia pelo mundo e os identifique, disse o mestre (se não disse, poderia ter dito). Se não é verdade, é bem provável, como dizem os italianos.

O primeiro sinal de que você está diante de um néscio é quando o seu interlocutor diz “tenho berço” ou “tenho berço europeu”. Falou que “tem berço”, pode cravar: néscio total. Outro sinal: sujeito quem diz “na teoria, a prática é outra”. Pode empacotar – aqui valerá a lei do Barão do Itararé: de onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada. Similar a este sinal: “— último livro que li foi antes da iniciação”. Pronto. Embrulha e leva. Na prática, a teoria é a mesma: néscio em teoria e prática.

Também um negacionista é necessariamente um néscio. Nem todo néscio é negacionista. Mas todo negacionista é um néscio. Se tiver dúvida, faça o teste do jogo de xadrez com pombo. Deixe que ele faça duas ou três jogadas. Se ele esculhambar as pedras e sair de peito inflado dizendo que venceu, tenha certeza: é um néscio com méritos estúpidos.

Sinal interessante que identifica um néscio: o sujeito quer cancelar todo mundo do passado, todas as grandes mentes. Quer cancelar Lessing, Fichte e até Voltaire, daqui a pouco Aristóteles, a Bíblia, a civilização inteira. Cancelam tudo. Menos o anacronismo.

Mais outro sinal: o cara quem diz que “o Brasil vai mal porque não foi colonizado por holandeses ou ingleses”. Empacota. E mande pelo Fedex.

Uma evidência que não falha: o néscio repassa notícia falsa de WhatsApp e ainda acha que descobriu a pólvora. Por exemplo, o famoso breviário de Rizzardo Da Camino e as suas verdades à la note de três reais.

Bom, presentes algum desses sinais acima, fuja. Corra e nem olhe para trás. Se olhar, pode virar néscio, como na destruição de Sodoma e Gomorra. A mulher de Ló fez isso. Por isso, sobretudo, não esqueça: fuja.

Vacina contra néscios: livros. Leve um livro no bolso. Eles odeiam. Dão a volta na quadra.

Conselho que está na bula da vacunanéscio, sobretudo:

  1. leia bons livros;
  2. seleccione os seus amigos nas redes sociais;
  3. fuja de grupos de neocavernas (WhatsApp) nos quais, depois que você postou um texto, alguém coloca uma foto de cachorro – isto é um sinal de que você está sobrando no grupo;
  4. entenda sempre que um grupo de WhatsApp já, em si, é um problema;
  5. de todo modo, o lado bom é que grupos de neocavernas podem ser um excelente exercício empírico acerca da sua capacidade de conviver com néscios;
  6. de todo modo, leia livros – claro, fugindo dos livros de auto-ajuda e quejandos;
  7. por fim, se você por acaso tiver livros do Rizzardo Da Camino, não os queime – isso é sinal de que você pode ser um néscio.

Observação final: nem tudo que parece, é; mas se é, parece, dizia o saudoso professor Ercílio Antonio Denny. Então, nem todo sujeito que parece ser um néscio necessariamente é um néscio; porém, se é néscio, necessariamente parece um. Dizem que o postulado não falha. Testem!

Rui Aurelio de Lacerda Badaró, V:. M: . da Justa e Perfeita Loja de São João nº 680, or. de Sorocaba / SP

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