O falso dilema entre simplicidade e objectividade na era da superficialidade digital
“Não devemos confundir simplicidade com objectividade. O rito de schröder é objectivo e não simples, pois a partir dos seus ensinamentos temos a capacidade de aprender Maçonaria de forma imparcial, baseada em factos e evidências, sem a influência de sentimentos, opiniões pessoais ou preconceitos.”
INTRODUÇÃO: Do meme à tragédia hermenêutica
O meme em questão (Sim! Era uma imagem com esta frase!) – porque é disso que estamos falando, de um meme travestido de reflexão filosófica – afirma que determinado sistema maçónico (Schröder) seria “objectivo e não simples” e que, através dele, seria possível aprender Maçonaria “de forma imparcial, baseada em factos e evidências, sem a influência de sentimentos, opiniões pessoais ou preconceitos“.
Pois bem. Estamos diante de um exemplar perfeito do que chamo de “Maçonaria de LinkedIn”: superficialidade conceitual embalada em design atraente, confusão epistemológica vendida como sabedoria iniciática, nescionaria apresentada como conhecimento superior.
I. A demolição conceitual necessária
Comecemos pelo óbvio – que, para variar, de novo, não é tão óbvio assim. O que diabos significa “objectividade” num contexto simbólico e iniciático como o da Maçonaria? Será que os autores desse primor de confusão mental já ouviram falar de Wilhelm Dilthey? Este filósofo alemão que, já no século XIX, demonstrou cabalmente que as “ciências do espírito” (Geisteswissenschaften) operam com categorias epistemológicas radicalmente distintas das ciências naturais?
Dilthey estabeleceu uma distinção fundamental: enquanto as ciências naturais explicam (erklären), as ciências humanas compreendem (verstehen). A Maçonaria – surpresa! – não é física quântica. É uma tradição simbólica, iniciática, formativa. Pertence ao reino da compreensão, não da explicação causal.
Mas sigamos. Hans-Georg Gadamer, em Verdade e Método, radicalizou esta compreensão ao demonstrar que toda interpretação está situada num horizonte hermenêutico específico. Não existe o “olho de Deus”, o ponto de vista de lugar nenhum. Todo conhecimento é mediado por linguagem, tradição, temporalidade. A famosa Vorurteil (pré-compreensão) não é defeito a ser eliminado – é condição de possibilidade de qualquer compreensão.
E aqui chegamos ao absurdo epistemológico do meme: afirmar que se pode aprender Maçonaria “sem sentimentos, opiniões pessoais ou preconceitos” é ressuscitar o cadáver putrefacto do positivismo oitocentista. É Auguste Comte redivivo, só que pior – porque Comte ao menos tinha a desculpa de viver no século XIX.
II. Heidegger riria (se filósofos alemães rissem)
Martin Heidegger – esse sim, um pensador sério – ensinou-nos que o Dasein (o ser-aí humano) está sempre lançado (geworfen) num mundo de significados prévios. Não existe compreensão neutra. O que os criadores do meme chamam pomposamente de “objectividade” é, na verdade, a ilusão de poder escapar da condição hermenêutica fundamental do ser humano.
Mas não paremos em Heidegger. Paul Ricoeur, em O Conflito das Interpretações, demonstrou que toda compreensão simbólica opera através do que ele chamou de “círculo hermenêutico”: compreendemos o todo através das partes e as partes através do todo. Não há ponto de partida neutro, não há interpretação sem interpretante.
Jürgen Habermas, por sua vez, em Conhecimento e Interesse, desmascarou definitivamente a pretensão de neutralidade das ciências humanas. Todo conhecimento está atravessado por interesses – não necessariamente espúrios, mas constitutivos. O interesse emancipatório, por exemplo, é o que move as ciências críticas. Qual seria o interesse da Maçonaria? Certamente não a produção de autómatos “objectivos”, mas a formação de seres humanos capazes de pensar criticamente e agir eticamente.
III. O Sistema Schröder: quando a simplicidade é profundidade
Friedrich Ludwig Schröder (1744-1816) foi contemporâneo e leitor de Kant, Lessing, Herder, Goethe. Respirou o ar do Aufklärung alemão, esse iluminismo que – ao contrário do francês – nunca pretendeu reduzir o humano à razão instrumental. A sua reforma ritualística foi inspirada por um ideal pedagógico específico: eliminar o supérfluo para ressaltar o essencial.
Mas atenção: o essencial, em Schröder, não é o “objectivo” no sentido positivista. É o simbolicamente denso, o filosoficamente pregnante, o eticamente formativo. Quando Schröder simplifica, não está eliminando a profundidade – está criando as condições para que ela emerja. É a diferença entre o minimalismo de um mestre zen e a pobreza conceitual de um PowerPoint corporativo.
IV. Kant não era um robô (uma obviedade que precisamos afirmar)
Os criadores do meme parecem acreditar que Immanuel Kant – espécie de patrono filosófico do Sistema Schröder (apenas por conta do artigo “Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung?”) – pregava uma razão fria, desencarnada, “objectiva”. Nada mais falso. Kant escreveu três críticas, não uma. Além da Crítica da Razão Pura, temos a Crítica da Razão Prática (sobre a moralidade) e a Crítica da Faculdade do Juízo (sobre estética e teleologia).
Na segunda crítica, Kant é cristalino: o sentimento de respeito (Achtung) pela lei moral não é apenas compatível com a razão prática – é a sua manifestação sensível necessária. Sem sentimento moral, não há acção ética possível. O formalismo kantiano não elimina a sensibilidade; disciplina-a, orienta-a, integra-a numa totalidade racional-afectiva.
Na terceira crítica, Kant vai além: o juízo estético (fundamental para compreender símbolos) opera através de uma faculdade específica que não se reduz nem ao entendimento teórico nem à razão prática. É o reino do “como se”, do simbólico, do analógico. Exactamente o território da Maçonaria.
V. A nescionaria como projecto: o LinkedIn como loja maçónica
Mas o problema é mais grave do que parece. O que está em jogo não é apenas um erro conceitual – é todo um projecto de esvaziamento da tradição maçónica. A “Maçonaria de LinkedIn” não é fenómeno acidental. É sintoma de uma época em que a aparência substitui a essência, em que o marketing pessoal vale mais que o conhecimento efectivo, em que um meme bem produzido tem mais alcance que anos de estudo sério.
Pierre Bourdieu, em A Distinção, analisou como o capital cultural opera através de sinais de distinção. O meme anti-Schröder é exemplo perfeito: cria-se uma distinção artificial (“nós somos objectivos, eles são apenas simples”), estabelece-se uma hierarquia imaginária, consolida-se uma superioridade que existe apenas no plano retórico.
Mas há algo mais perverso. Theodor Adorno e Max Horkheimer, em Dialéctica do Esclarecimento, mostraram como a razão instrumental – essa que se pretende neutra e objectiva – pode converter-se no seu oposto: irracionalidade sistémica. A pretensão de eliminar toda subjectividade, todo sentimento, toda opinião pessoal não produz conhecimento superior – produz barbárie ilustrada.
VI. O silêncio de Wittgenstein versus o ruído dos néscios
Ludwig Wittgenstein, no Tractatus, afirmou:
“Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.” Os criadores de memes maçónicos parecem seguir o princípio oposto: “Sobre aquilo que não se conhece, deve-se fazer um post.”
A tradição maçónica sempre valorizou o silêncio como momento pedagógico fundamental. O aprendiz aprende, antes de tudo, a calar. Não por autoritarismo, mas por sabedoria pedagógica: é preciso esvaziar-se do ruído para preencher-se de significado. É preciso silenciar a tagarelice para ouvir a tradição.
Mas na era do LinkedIn maçónico, o silêncio é impossível. É preciso postar, comentar, compartilhar. É preciso ter opinião sobre tudo, mesmo – especialmente – sobre aquilo que não se estudou. É a nescionaria na sua forma mais virulenta: a ignorância activa, militante, orgulhosa de si mesma.
VII. Uma questão de método (ou: como estudar sem fazer memes)
Max Weber, em A Ciência como Vocação, descreveu o trabalho intelectual sério como “paixão fria” – ardor temperado pela disciplina, entusiasmo filtrado pelo método. É exactamente isso que vejo no trabalho sobre o Sistema Schröder: paixão pelo conhecimento aliada ao rigor metodológico.
Mas Weber também alertou para o “desencantamento do mundo” (Entzauberung der Welt). Paradoxalmente, a pretensão de objectividade absoluta não produz mais conhecimento – produz um mundo sem magia, sem profundidade simbólica, sem mistério iniciático. Um mundo de memes, não de símbolos.
VIII. O conceito de formação em Gadamer (algo que meme nenhum alcança)
Hans-Georg Gadamer, em Verdade e Método, resgata o conceito de Bildung (formação) da tradição humanista alemã. Bildung não é acumulação de informações objectivas – é transformação do sujeito através do encontro com a tradição. É processo, não produto. É caminho, não chegada.
A Maçonaria, na sua essência, é processo de Bildung. Não se “aprende” Maçonaria como se aprende a tabela periódica. Vivencia-se, experimenta-se, transforma-se através dela. Reduzir este processo a “factos e evidências” é confundir formação humana com treinamento corporativo.
Wilhelm von Humboldt, teórico da Bildung, distinguia entre Ausbildung (treinamento para fins específicos) e Bildung (formação integral do ser humano). A “objectividade” pregada pelo meme reduz a Maçonaria a Ausbildung – pior, a uma Ausbildung impossível, porque pretende treinar para o simbólico através da eliminação do simbólico.
IX. A falência do paradigma: quando o LinkedIn encontra o templo
Estamos diante de um fenómeno que transcende um simples erro conceitual. É a colonização do espaço maçónico pela lógica das redes sociais profissionais. O LinkedIn – esta rede onde todos são CEO de si mesmos e onde o networking substitui a amizade – tornou-se modelo epistemológico.
Guy Debord, em A Sociedade do Espectáculo, anteviu este fenómeno: a realidade substituída por sua representação, a experiência trocada pela imagem, o ser pelo parecer. A Maçonaria de LinkedIn é isso: espectáculo iniciático, representação sem referente, significante sem significado.
Mas há algo ainda mais grave. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, diagnostica a nossa época como marcada pela positividade excessiva. Não há mais negatividade dialéctica, não há mais o Outro que nos constitui. Tudo deve ser transparente, objectivo, mensurável. É exactamente o que o meme propõe: uma Maçonaria sem mistério, sem opacidade simbólica, sem a alteridade que nos transforma.
X. O elogio da dificuldade (contra a facilidade dos memes)
Gaston Bachelard, em A Formação do Espírito Científico, fala dos “obstáculos epistemológicos” — não como empecilhos a serem eliminados, mas como momentos constitutivos do conhecimento. A dificuldade não é defeito – é condição de possibilidade do saber autêntico.
O Sistema Schröder é “simples” apenas na superfície. A sua concisão esconde camadas de significado que só se revelam ao estudo paciente. É como um poema de Paul Celan: poucas palavras, abismos de sentido. Mas isso exige trabalho, esforço, dedicação. Exige exactamente aquilo que a cultura do meme não pode fornecer: tempo e profundidade.
Emmanuel Levinas disse que o rosto do Outro nos impõe uma responsabilidade infinita. O texto – o ritual, o símbolo — também tem um rosto. Também nos interpela. Também exige resposta responsável. Fazer um meme é esquivar-se dessa responsabilidade. É reduzir o Outro a objecto de chacota.
XI. O fim da paciência pedagógica
E aqui, confesso, minha paciência pedagógica se esgota. Porque há limites para a tolerância intelectual. Há momentos em que é preciso dizer com todas as letras: isso é nescionaria! Isso é ignorância travestida de sabedoria! Isso é preguiça mental fantasiada de inovação metodológica!
O que mais me irrita – sim, irrita, porque fingir neutralidade afectiva seria cair na mesma armadilha positivista – é a arrogância epistémica dos que não estudam. É a pretensão de superioridade dos que confundem Google com erudição, Wikipedia com conhecimento, meme com reflexão.
Zygmunt Bauman falou da “modernidade líquida” – tudo flui, nada permanece. A Maçonaria de LinkedIn é isso: liquidez total, ausência de forma, impossibilidade de profundidade. É a anti-Maçonaria por excelência, porque a Maçonaria é trabalho sobre a pedra bruta – e pedra é sólida, resiste, exige esforço para ser talhada.
XII. Um recado aos produtores de memes (sem meias palavras)
Aos que preferem criar memes a estudar, tenho algo a dizer – e peço licença para abandonar momentaneamente o tom académico. Vocês são o problema, não a solução. Vocês são o ruído que impede a música. Vocês são a superficialidade que afoga a profundidade.
Quando ridicularizam quem estuda, quando transformam em chacota o esforço intelectual sério, quando reduzem complexidade a slogan, vocês não estão sendo modernos ou inovadores. Estão sendo néscios. E o pior tipo de néscio: aquele que se orgulha da sua nesciência.
Michel Foucault, em A Ordem do Discurso, mostrou como o poder opera através do controle dos discursos. O meme é forma de poder – poder da superficialidade sobre a profundidade, do ruído sobre o silêncio, da imagem sobre o conceito. É micro-fascismo semiótico: a imposição totalitária do raso.
XIII. Sistema Schröder: uma defesa necessária
Voltemos ao Sistema Schröder – esse que causa urticária nos produtores de memes. A sua simplicidade é enganosa, como a água que parece fácil até que se tenta agarrá-la. É simplicidade densa, grávida de significados, pesada de história.
Ernst Cassirer, em Filosofia das Formas Simbólicas, mostrou que o símbolo não é ornamento – é forma de conhecimento. O Sistema Schröder compreende isso: os seus símbolos são concisos porque são precisos. Não há gordura barroca – há economia simbólica que concentra em vez de dispersar.
Mircea Eliade estudou como o sagrado se manifesta através de hierofanias – manifestações do totalmente outro no mundo profano. O ritual maçónico é hierofania: momento em que o transcendente irrompe no imanente. Reduzir isso a “objectividade” é profanar no pior sentido: não o sentido criativo de Giorgio Agamben, mas o sentido destrutivo de quem não compreende o que destrói.
XIV. A conclusão necessária: coragem ou covardia intelectual
Não há neutralidade possível aqui. Como disse Sartre, estamos condenados a ser livres – e portanto responsáveis pelas nossas escolhas. Escolher o meme sobre o estudo não é apenas opção estética – é decisão ética. É escolher a nescionaria sobre o conhecimento, a aparência sobre a essência, o espectáculo sobre a iniciação.
A Maçonaria sempre foi escola de homens livres e de bons costumes. Mas liberdade não é libertinagem intelectual. E bons costumes incluem o respeito por quem estuda, o apreço pelo conhecimento, a humildade diante da tradição. O meme anti-Schröder é sintoma de uma Maçonaria que perdeu o rumo: não sabe mais distinguir entre liberdade e licenciosidade, entre opinião e conhecimento, entre crítica fundamentada e chacota ignorante.
XV. Post scriptum: o futuro em jogo
Se a Maçonaria tem futuro, ele não está nos memes bem produzidos ou nas frases de efeito para LinkedIn. Está no trabalho paciente de irmãos que estudam, que pesquisam, que se dedicam a compreender em profundidade aquilo que outros ridicularizam por preguiça mental.
O Sistema Schröder não precisa de defesa – precisa de estudo. Não precisa de marketing — precisa de compreensão. Não precisa de memes – precisa de praticantes sérios. E, sobretudo, não precisa da aprovação dos néscios digitais que confundem simplicidade com superficialidade e objectividade com ignorância.
Termino com Adorno, que em Minima Moralia escreveu: “A vida falsa não pode ser vivida correctamente.” A Maçonaria falsa – essa dos memes e das frases de efeito – não pode ser praticada autenticamente. É simulacro, é aparência, é nescionaria no seu estado mais puro e pernicioso.
Aos que preferem estudar a fazer memes, minha admiração e solidariedade. Aos outros, meu mais profundo desprezo intelectual. Porque há momentos em que é preciso escolher lados. E eu escolho o lado do conhecimento contra a ignorância militante, o lado da profundidade contra a superficialidade orgulhosa, o lado do Sistema Schröder contra a Maçonaria de LinkedIn.
Que os néscios continuem produzindo os seus memes. Nós continuaremos estudando. E a história – essa velha senhora impiedosa – julgará quem estava do lado certo. Spoiler: não serão os memeiros. (Assim Espero!)
P. S.:
A Maçonaria precisa de estudiosos, não de influencers. De pensadores, não de marqueteiros. De homens livres e de bons costumes — não de néscios digitais com pretensões filosóficas.
Rui Badaró, Venerável Mestre da ARLS Gotthold Ephraim Lessing, nº 930, GLESP
Referências
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- WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. London: Routledge & Kegan Paul, 1922.

- Ordo Ab Chao (a ordem vem do caos)
- Transformação de pedra bruta em pedra cúbica
- Loja de Mesa (ou de Banquete Ritualístico)
- Grau 30 – Cavaleiro Kadosh ou Cavaleiro da Águia Branca e Negra (REAA)
- Simbolismo dos Números na Maçonaria – O número Nove


Bom dia VM:
Excelente texto. E não vale só para o Rito em questão, mas para a Ordem com um todo.
Grande e fraterno abraço.