Discurso lido pelo Orador na Commemoração do 35º anniversario da juncção da Família Maçónica Portugueza – 1904

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juncção familia maçonica portugueza

Grande Oriente Lusitano Unido

Supremo Conselho da Maçonaria Portugueza

SESSÃO SOLENNE DE 30 DE OUTUBRO DE 1904

A Evolução da Maçonaria Portugueza

Discurso lido pelo Orad∴ na commemoração do 35º anniversario da juncção da família macónica Portugueza

Sap∴ Gr∴ Mestre
Sap∴ Gr∴ Mestre Adj
CC e RR∴ II

Celebramos hoje uma gratíssima commemoração: – a do inicio da segunda phase histórica da Mac∴ portugueza, em que se accentua uma poderosa tendencia da unidade do pensamento para a concepção scientifica do bem social.

Na sua primeira phase a Mac∴ acompanha naturalmente os primeiros lineamentos da nossa nacionalidade sob a forma das ordens de Cavallaria de par com alguns elementos de influencia das corporações d’architectos do rito de York, que se presume ser o berço da Mac∴ ingleza.

Foram as ordens de Cavallaria instituidas ao sopro vivificador da Igreja, na época em que esta, luctando contra o paganismo, não pudera ainda expandir a insensata ambição de dominar politicamente os povos.

Servindo a Igreja esta poderosa milicia, movida por generosos ideaes e por sentimentos verdadeiramente humanos, foi um instrumento providencial da historia para a elaboração da sociedade medieval, produzindo a approximação das raças, e o aperfeiçoamento dos costumes.

A sua influencia em Portugal traduz a forma mais brilhante da nossa epopeia: ella exprime toda a gamma da nossa épica grandeza entre a expansão política da nossa raça atravez os grandes mares e os grandes continentes e o heroísmo galante e os nobres impulsos, que caracterisam a época incomparável da fundação da Casa d’Aviz.

Foi também esta época a da consagração das liberdades populares, em que a nação toda unida nas suas aspirações afirmou perante o mundo a sua prodigiosa vitalidade. Mas a Cavallaria, pelo exaggero dos seus ideaes politicos, bem depressa se poz em conflitto com o Papado ; e por outro lado a evolução necessaria das tendencias da sociedade impunha-lhe outras adaptações.

Assim a instituição vive ainda hoje nas nossas leis e tradições: são as ordens militares conferidas como premio ao merito, á virtude, á dedicação patriótica, á philantropia e á generosidade, emfim a todas aquellas qualidades que resumem o crédo da moral maçónica.

Não ha porém solução de continuidade.

Ao passo que amortece a acção politica da Cavallaria desenvolve-se a da Mac∴ civil, que emerge do sentimento de reacção das classes populares contra as classes privilegiadas. A Mac∴ ingleza derrama-se então pelo paiz em 1735 á sombra das relações econômicas e politicas, que se alargam com a Gran-Bretanha, a qual nos apresenta valiosos modelos da sua constituição liberal.

Mas esta Mac∴ não tem unidade: não tem organisação. Representa apenas tentativas isoladas, tímidas, d’uma implantação, pois que a intolerância politica e religiosa ainda reveste os instinctos sanguinários do fanatismo.

Apesar de tudo em 1804 consegue-se installar a primeira grande loja regular em Portugal sob o malhete de Sebastião José de Sampaio e Mello, irmão do grande Pombal, e de que faziam parte os notáveis I∴ José Liberato Freire de Carvalho, o general Gomes Freire d’Andrade e Rodrigo Pinto Guedes, ajudante d’ordens do marquez de Niza. Em 1809 o malhete passou a Fernando Romão d’Athaide Teive, filho do governador das armas da provincia do Alemtejo, e em 1816 a Gomes Freire d’Andrade.

Até 1834, em que alfim consegue triumphar o movimento liberal, succedem no malhete João da Cunha Sotto Maior e José da Silva Carvalho.

N’esta época o movimento porém divide-se em partidos ; e a Mac∴ não podendo subtrahir-se á influencia d’eIles, com elles se confunde e arvora também diversas bandeiras. Assim Lisboa teve dois orientes respectivamente presididos por José da Silva Carvalho (grupo cartista) e Marquez de Saldanha (grupo democratico) e no Porto havia um oriente presidido por Manoel da Silva Passos, sendo todos estes chefes vultos eminentes no paiz.

Em 1837 accresceu a loja do Rito Escocez da Irlanda, dependente do Grande Oriente de Dublim, sendo Gran Mestre Provincial o nosso distincto compatriota Frederico Guilherme da Silva Pereira.

O grupo Saldanha, seguindo o rito moderno, procura representar em Lisboa a Mac∴ do sul em frente da Mac∴ do norte com centro na cidade do Porto; e n’aquelle grupo succedem-se interina ou effectivamente até 1849, como chefes, José Liberato Freire de Carvalho, Conde de Lumiares, Luiz Ribeiro Saraiva, Barão de Villa Nova de Foscôa e João Gualberto Pena Cabral.

O grupo Silva Carvalho adopta o rito escocez antigo e aceito, tendo successivamente como gran Mestres Manoel Gonçalves de Miranda, conselheiro d’Estado, Antonio Bernardo da Costa Cabral, Visconde d’Oliveira e J. J. A. Moura Coutinho. Mas em 1849 este grupo decompõe-se, tomando o malhete do grupo dissidente Eleuterio Francisco Castello Branco.

Por seu turno a Mac∴ do sul reuniu a si as lojas do norte existentes em Lisboa, e em 1851 elegeu por gran Mestre o Conde das Antas, a quem succedeu em 1852 o Marquez de Loulé.

Coincidia com este facto o movimento politico da Regeneração que produziu o acto additional de 1852 e a pacificação dos partidos, assignalando o inicio d’urna nova época de liberdade, tolerância e legalidade.

D’ahi até 1866 succedem-se os gran Mestres dr. Miguel Antonio Dias, Manoel José Julio Guerra, José Estevão Coelho de Magalhães, Joaquim Thomaz Lobo d’Avila, José da Silva Mendes Leal e Conde de Paraty, chamados a dirigir respectivamente os agrupamentos em que por fim se dividiu a familia maç∴-Grande Oriente da Confederação Mac Portuguesa – Grande Oriente de Portugal – e Grande Oriente Lusitano. Os dois primeiros vieram a reunir-se num só sob a denominação de Grande Oriente Português sob o malhete do pod∴ I∴ José da Silva Mendes Leal, permanecendo o ultimo sob o malhete do pod∴ I∴ Conde de Paraty.

Termina aqui a primeira phase da vida maç∴ portugueza, correspondendo talvez ao agitado movimento da nossa nacionalidade, que apoz 8 seculos de existência completava a conquista das suas liberdades no campo legal.

Asseguradas as garantias e as aspirações liberaes da familia portugueza faltava logicamente congraçar e unir os elementos da familia maç∴ que as ajudára a firmar, e de cuja guarda é sentinella vigilante.

Na sessão solemne da abertura da Grande Loja do Oriente Lusitano em 1869 o pod∴ Gran-Mestre Conde de Paraty enunciava o pensamento da juncção das famílias maç∴ do paiz. Pouco depois uma commissão mixta, composta dos II∴ Guilherme José Rodrigues Sette, Francois Lallemant, Dr. Cunha Belem, Dr. José Joaquim Alves e João Caetano d’Almeida, por parte do Grande Oriente Lusitano, e dos II∴ Innocencio Francisco da Silva, José Antonio Dias, Paulino Themudo, José Caetano Themudo e Dr. Francisco de Paula dos Santos, por parte do Grande Oriente Portugués, era encarregada de estudar o assumpto e apresentava á Grande Loja em sessão extraordinaria de 1 Setembro de 1869 o resultado dos seus trabalhos, que foi approvado por unanimidade e sem discussão.

Em consequência foi promulgado o Decreto de 30 de Setembro, que approvou a juncção proposta, formando toda a familia maç∴ do paiz uma única e indivisível sob o titulo de Grande Oriente Lusitano Unido, Supremo Conselho da Maç. Portuguesa, e ficando a reger este corpo maç∴ a constituição do Grande Oriente Portuguez de 23 de Fevereiro de 1867, alterada e modificada pelo acto addicional de 17 d’Agosto de 1869.

Neste acto addicional se reconhece a juncção dos CC∴ dos GG∴ Insp∴ Geraes do Gr∴ 33º confirmada pelo acto da installação de 19 d’Outubro.

E a 30 d’Outubro de 1869 foi em solemnissima sessão do Grande Oriente jurado este novo pacto.

D’aqui vem CC∴ II∴ a nossa festa de hoje: – a celebração do 35.“ anniversario da juncção da família maç∴ portugueza.

∞  ∞  ∞

Assim como a arvore haure da terra a seiva necessária para se tornar ubérrima, frondosa e olorante, e poder servir de abrigo aos famintos de conforto e doçura, assim também a Mac∴ penetrando com as suas raizes o organismo das sociedades humanas ahi elabora os preciosos succos, que depois lhes restitue transformados em ramos viridentes, flores mimosas e fructos opimos, que são os ramos, as flores e os fructos da virtude, da verdade e da justiça.

Considerando, pois, as sociedades sob o prisma das influencias maç∴ vejamos o estado das relações humanas na época em que no seio da familia portugueza se davam os acontecimentos referidos.

Accentuava-se a decadencia do Papado. Frisa admiravelmente este ponto um distincto I∴ que se acha presente, que é d’um dos maçons mais prestigiosos e mais encanecidos nas nossas luctas, e que em 1865 publicou um folheto sob o titulo O Papa e a Maçonaria, fazendo a critica da Encyclica de 8 de Dezembro de 1864, que fulminava em 80 proposições muitas doutrinas modernas, – e da allocução do Consistorio de 26 de Setembro de 1865, que condemnava sem provas os actos da nossa Ordem.

Pio IX renegando as suas primitivas affirmações liberaes, feitas quando era maç∴ segundo se diz, e assumindo as responsabilidades da sua posição official para com as tradições absorventes do Papado, lançou-se arrojadamente na lucta contra o espirito do livre exame, apellando para os seus últimos reductos – o dogma da infallibilidade e o direito ao poder temporal.

O Concilio ecuménico de 8 de Dezembro de 1869 votou com hesitação o dogma, o qual não teve o beneplácito dos governos ; e o poder temporal a breve trecho desapparecia para sempre sob os impulsos d’uma vigorosa nacionalidade, que se erguia emfim triumphante sobre os muros da velha Roma como representante d’uma civilisação das mais brilhantes e gloriosas.

Decahia também um dos alliados mais fervorosos do Papado : o poder político da Austria. Destruida por effeito da successiva acção das armas francezas e prussianas a antiga confederação germanica foi mister a intervenção providencial do Conde de Beust para evitar o descalabro d’aquelle poder, e assim inaugurar um regimen liberal, que o desligou de Roma pela revogação da famosa concordata de 1855, e approximou o paiz do concerto das nações mais adiantadas no caminho do progresso.

Decahira também a catholica e reaccionaria Hespanha para fazer raiar em novos impetos de rejuvenescimento a aurora das reivindicações liberaes.

Haviam fallecido Narvaez e O’Donnell, os chefes mais considerados dos dois partidos conservador e progressista : e a Hespanha que, segundo a voz patriótica de Llorente, estava carecida de todas as liberdades – a religiosa, a intellectual, a do ensino, a administrativa e a commercial, a civil e a parlamentar – preparou-se para sacudir a pressão governativa, que Isabel II apoiára em Narvaez e depois em Gonzales Bravo. As opposições liberaes colligaram-se; e a 28 de Setembro de 1868 a batalha d’Alcoléa decidia da sorte da realeza, permittindo á nação dispôr livremente dos seus destinos.

Eos primeiros cuidados do governo provisorio, dirigindo-se para a origem dos males públicos, foram entre outros os de promover a venda dos bens ecclesiasticos, a expulsão dos jesuítas, a abolição das communidades e associações religiosas.

Decahia também a França cesarista de Napoleão III. Succedera, é certo, em 1868 ao governo pessoal de Rouber, o gabinete Ollivier, que professava opiniões liberaes; e preparavam-se os projectos de reforma constitucional e o senatus-consulto, destinados a revalidar o pacto da nação com a familia Bonaparte ; mas viu-se depois quanto eram apparentes e fugitivas estas concessões, porque o fermento revolucionario, consubstanciando na Associação Internacional dos Trabalhadores as reivindicações do quarto estado, desinteressava-se do imperio, que no seu proprio pendor tinha fatalmente de sumir-se no formidável desastre de Sedan.

Por seu lado a Prússia, representando na Confederação germânica o papel do espirito reformador contra as formas patriarchaes da monarchia austriaca, punha-se á frente do movimento unitarista e democrático da Allemanha, facilitando a obra grandiosa da liberdade, que se viria a desdobrar nas poderosas correntes scientificas do nosso tempo, no desenvolvimento das ideias e processos económicos, e nas manifestações avançadas do socialismo.

A Rússia proseguia na sua missão histórica de levar a civilisação da Europa até os confins do Oriente, como depois se viu na sua acção política sobre os Balkans. Com este movimento exterior coincidia um trabalho de elaboração interna, violentamente controvertido e especialmente assignalado ou pela formação das assembleas provinciaes, ou pela emancipação dos servos, ou pela propaganda da Literatura manuscripta vulgarmente conhecida pelo Nihilismo.

A Inglaterra, o paiz clássico da liberdade, era especialmente trabalhada pela questão da Irlanda, abrangendo tres aspectos – a liberdade dos cultos – a da propriedade ou dos rendeiros – e a da educação.

Fôra a primeira questão resolvida pelo Iris church bill que acabou com a Igreja official da Irlanda : mas continuava o movimento de reivindicação, que os emigrados resumiam na famosa sociedade dos Fenians.

Apesar de que neste paiz a instrucção publica foi sempre independente do Estado, o clero dos differentes cultos occupava-se activamente do ensino. Preparava-se, pois, a Education Act para deslocar a base religiosa do ensino, incumbindo-o a estabelecimentos laicos.

A liberdade económica mantinha-se no campo das doutrinas dos seus melhores publicistas, entre os quaes figura o prestigioso nome de Cobden.

Ao Norte a Scandinavia fecundada pela prodigiosa seiva da Revolução franceza e antes pelas energias d’um grande caudilho, Carlos XII, entrava na corrente dos ideaes modernos, principalmente na das litteraturas, e da organisação da escola.

Ao Poente, os Paizes Baixos, a terra heroica dos Oranges, e das ousadas emprezas da paz: – a Hollanda disputando o domicilio ás ondas do Atlántico, ia derramando por novos continentes o poder das suas faculdades colonisadoras; – e a Bélgica, adstricta ao seu torrão limitado, ahí accumulava já elementos do seu poder industrial, singularmente favorecido pela riqueza de dois minérios – o ferro e o carvão e gosava ha 30 annos, no remanso d’uma evolução fructuosa, os beneficios das suas instituições modelares.

Ao centro a Suissa, o altivo e laborioso paiz dos Alpes, dando o exemplo único d’uma formosa e forte democracia, que sabe ser unida e disciplinada na forma autónoma das divisões cantonaes, offerecia á Europa embevecida o surprehendente espectáculo das suas bellas montanhas e dos seus deliciosos valles, revestidos de todos os confortos, que a arte e a industria podem crear – e d’uma cultura intellectual, que no ramo do ensino já se considerava como uma das melhores da época.

Em toda a America, de norte a sul, excepto o Brazil e algumas colonias europeas, prevaleciam as instituições democráticas. O grito da emancipação levantado em terra livre do Novo Mundo do peito generoso de George Washington tornára-se o molde e o elo das organisações políticas dos Estados. E da providencial hegemonia exercida pelos Estados-Unidos do Norte assim como já resultára pela guerra da seccessão a liberdade do escravo, também emergiu o aperfeiçoamento da escola, que foi a condição necessaria do rapidíssimo e colossal desenvolvimento da agricultura e das artes liberaes e industriaes, e forneceu modelos ás instituições similares da Europa.

Finalmente o Japão apresentava o ultimo documento dos seus instinctos de barbaria com uma insurreição geral contra o elemento estrangeiro. Os clarões da civilisação occidental já porém allumiavam as cumiadas do vasto archipelago; e aquelle povo assimilador bem depressa havia de mostrar-se digno de presidir aos destinos d’uma raça, que tem de figurar largamente nos registros da historia.

∞  ∞  ∞

Trinta e cinco annos são volvidos.

O Papado continua a declinar. A Pio IX succedem-se Leão XIII e Pio X, que não podem tornar compatíveis a Fé, que immobilisa, e a Sciencia que transforma. A instituição tem pois de pagar o tributo á lei necessária da evolução. É symptomatica a attitude actual da curia romana entretida a resolver questões minúsculas de etiqueta palaciana e conflictos de disciplina ecclesiastica com as nações catholicas, emquanto o livre pensamento discute em frente do Vaticano e se propõe annullar as proposições contidas no famoso Syllabus de 1864 e outras fulminadas sob a authoridade da Igreja.

A Hespanha, fiel ainda á fé monarchica, vencidas as resistencias dos partidos conservadores, procura realisar tranquilla o aperfeiçoamento das suas liberdades. Com igual intuito a França dirige os seus passos dentro das formas políticas da Republica.

Por seu lado a Russia e a Inglaterra constituem-se os porta-estandartes da civilisação da Europa, e confiantes da sua força tentam avassallar para ella os povos da velha Asia, procurando a primeira attingir o predomínio político e a segunda o primado commercial. Mas a lei histórica é contraria á conservação dos grandes impérios, e alem d’isso, a Rússia cesarista e autocrata para manter a força que lhe provém da reunião das massas inconscientes, em vez de opprimil-as, cerceando-lhes o ensino e perseguindo os seus evangelisadores, carece de adextrál-os no exercício das liberdades, que convem ao jogo das faculdades humanas.

Os demais paizes que referimos proseguem na evolução normal das suas tendências e costumes.

Sabe-se que em todos elles a Mac∴ exerce uma acção efficaz porque os seus membros, pertencendo a todas as classes da sociedade, ao seio d’ellas vão levar a noção pratica e insinuante do dever, e o nobre exemplo do civismo. A sua unidade reforça-se com a acção dos congressos, os quaes não são só os do nosso tempo, como o de Genebra em 1902, e o de Bruxellas já neste anno: – já nos vem d’inicio outros, como o de York no século X, o de Strasburgo no século XIII, os de Ratisbonna e Spire no século XV, os de Colonia, Bale e Strasburgo no século XVI e os de Londres, Dublim, Edimburgo, Haya, lena, Altenberg, Kolho, Brunswick, Leipsik, Lyon, e Wolfen- buttel no século XVIII.

As nossas relações com o Mundo Mac∴ tem-se alargado consideravelmente: por estas poderemos medir a intensidade da influencia maçónica sobre o Mundo profano.

Sem fallar da Mac∴ sueca, allemã e ingleza, que tem sido dirigida pelos proprios monarchas, podemos indicar ao norte da Europa: – os gr∴ Orientes dos Paizes Baixos e Bélgica e a Gr∴ Loja da Irlanda; ao centro e leste – os gr∴ Orientes da França e Italia, as Gr∴ Loj∴ da Hungria e Suissa e Alpina, Os Sup∴ Cons∴ do Luxemburgo e da Grécia e de Lausana – e o Directorio Escocez da Suissa; e ao sul – o Gr∴ Oriente da Hespanha.

Na America do Norte distinguem-se as Gr∴ Lojas da Luisiana e da Colombia ; na do Sul -os Sup∴ Cons∴ da Argentina e Eruguay, as Gr∴ Lojas do México e Monte Líbano e o Gr∴ Or∴ do Rio Grande do Sul.

Na África vemos as Gr∴ Lojas da Libéria e do Cairo e o Gr∴ Oriente d’Alexandria; e na Oceania a Gr∴ Loja da Australia.

Em Portugal as ramificações maç∴ tem-se alastrado pelo continente e ilhas adjacentes, e províncias ultramarinas (Cabo Verde, Moçambique e Angola).

Como o nível da instrucção tende a subir entre nós o sentimento do civismo também se eleva, e as classes populares começam a interessar-se mais vivamente pelos destinos da nacionalidade, sob o duplo aspecto da vida económica e da vida política, nas suas relações com a humanidade inteira.

O laço que conjuga estes dois grandes movimentos é a escola: por isso a Mac∴ entra desassombradamente no caminho da propaganda do ensino laico.

Cooperam nesta obra colossal da educação cívica distinctissimos II∴ como tribunos e como publicistas.

Seria longo enumeral-os.

Alguns que se encontram aqui veem dar-nos conta da missão, de que foram incumbidos recentemente no estrangeiro e são um, o pod∴ I∴. Apolinario Pereira, um dos mais zelosos, intelligentes e enthusiasticos adeptos da nossa Ord∴ que representou a maç∴ do paiz no congresso que ultimamente se reuniu em Bruxellas para resolver graves questões de conducta social em harmonia com os progressos da sciencia e com os direitos da humanidade, – outro, o pod∴ I∴ Dr. Magalhães Lima, o brilhante jornalista e orador eloquente, que tem posto todas as energias da sua alma generosa ao serviço dos grandes ideaes em honra do seu paiz e no interesse da causa universal, e que no Congresso dos Livres Pensadores que ha pouco se reuniu em Roma, affirmou em levantados termos a solidariedade da maçonaria e dos livres pensadores portuguezes em todas as reivindicações da liberdade e da justiça.

Muitos outros II∴ revelaram altos dotes de cultura intellectual pelo modo porque desenvolveram ou apreciaram as theses propostas na conferencia maç∴ do Porto em 1900 e na de Coimbra em 1903, tratando as mais graves questões de moralidade e de administração publica, e de organisação social.

Dos que não estão presentes, um que a morte affastou dos trabalhos, mas que empunhou o malhete da Ordem, o pod∴ I∴ Visconde d’Ouguella honrando com os dotes do seu culto espirito a successão que lhe deixaram depois do Conde de Paraty, os pod∴ II∴ extinctos Antonio Augusto d’Aguiar e José Elias Garcia, orientou principalmente a sua indefesa actividade nos estudos sociaes, de que resultaram diversas brochuras, entre as quaes são notáveis as intituladas: Affirmações democráticas, As Hesitações da Actualidade, As Indifferenças do Século, as Agonias, As Expiações, e das mais recentes a Lucta Social.

É n’este ultimo livro que o Visconde d’Ouguella sustenta com o vigor e a elegancia do mais fino criterio o principio scientifico do Federalismo, envolvendo logicamente a garantia das autonomias locaes.

O problema da educação nacional, depois das notáveis reformas pombalinas no século XVIII voltou a preoccupar profundamente em 1870 a opinião do paiz.

O corypheu d’esse movimento era então o chorado escriptor D. Antonio da Costa.

Ficaram memoráveis os livros que publicou em defesa do seu ideal ; e n’um d’elles, intitulado Os Tres Mundos, sensibilisa ver como aquelle grande espirito se compraz de penetrar no trama dos tres mais grandiosos cyclos da historia para colher o fio das tradições, que serve de fundamento e guia á humanidade no caminho do seu destino. Ao eminente cidadão se devem o impulso para a creação do Ministerio da Instrucção Publica e algumas medidas governativas que decretou em prol da educação nacional, urna das quaes perdurou e foi a instituição das bibliothecas populares.

Prosegue o movimento; e em 1878 o pulso firme de Antonio Rodrigues Sampaio, o famoso Sampaio da Revolução, que foi um maçon illustre, subscreve o notável decreto da reforma de instrucção primaria, que põe nas mãos do povo, ou dos seus representantes legaes, os municipios, o regimen do seu proprio ensino. Apparece então como instigadora e executora d’essa reforma no senado lisbonense a figura luminosa de José Elias Garcia.

Lançadas as bases do grandioso systema, que desde os Jardins da Infancia até á escola primaria complementar assegurava a educação das classes populares e a sua habilitação inicial para a vida do trabalho, independentemente das escolas médias e superiores, que naturalmente se reservam para os cerebros mais potentes e privilegiados – vem a completal-as em 1884 sob a poderosa iniciativa do que foi nosso saudoso gran Mestre, Antonio Augusto d’Aguiar, a instituição das escolas e museus industriaes.

Surge emfim a coordenar todos estes esforços, a ampliá-los e robustece-los numa propaganda homérica, o Dr. Bernardino Machado, nosso grau Mestre honorario.

Todos nós o vimos seguindo e acclamando no desenvolvimento da ardua tarefa, em que o indefeso e intemerato luctador empenha todo o vigor do seu formoso talento e todas as energias do seu bonissimo caracter.

A sua obra que é já immensa, distribue-se desde 1891 pelas pugnas do parlamento, pelos actos do governo, pela acção associativa e pela doutrinação do livro e da palavra fallada.

Organisação perfeitamente moldada a esta obra da educação reconhece-se tanto naquella fina sensibilidade de temperamento e naquella doce expansão d’alma com que escreveu as Notas d’um Pae, como na firme, intransigente e severa attitude com que verbera os vicios dos partidos e o atrazo dos costumes.

A aspiração para as instituições genuinamente liberaes domina-o em tudo: – no trato da familia e no da sociedade. Nessa aspiração se consubstancia toda a alma d’um crente. No actual momento histórico, perante a desalentada alma da nação, será talvez um symbolo e – uma interrogação.

É essa a impressão que nos deixa o seu grito de esperança no folheto Pela Liberdade, nos discursos últimamente proferidos no Atheneu Commercial, Academia de Estudos Livres, Salão da Porta do Sol, no Porto, Centro José Falcão, de Coimbra, Comicio eleitoral de Lisboa, e ainda ha dias na Oração de sapiencia com que se abriu o anno lectivo da Universidade de Coimbra, onde pela primeira vez se viu quebrar a glacial indifferença pelo antiguado e banal formalismo d’aquelle acto acadêmico para accordar no corpo docente e na mocidade escolar os altivos brios, que o valor da sciencia inspira a quem a cultiva com apaixonado amor, em defeza dos superiores interesses da Sociedade.

∞  ∞  ∞

CC∴ e RR∴ II∴ Podemos hoje firmemente congratularmo-nos pelos resultados da obra maç∴. Atravez de todas as alternativas ou vicissitudes, a evolução humana precorre as suas phases no sentido de realisar para a especie o maior bem com o menor estorço. E a Mac∴ mantem-se nobremente em frente d ‘ella e igual a ella.

Orgulhemo-nos de nós mesmos.

No opúsculo já citado O Papa e a Maçonaria, o pod∴ I∴ Pinheiro de Mello, então com o ardor dos seus verdes annos, dizia :

“Honramo-nos e sentimos satisfação de ser Maçon; folgamos até de se nos deparar occasião de assim nos expressarmos, porque emfim sempre nos aproveitamos dos beneficios da liberdade ajudada a conquistar por estes pobres excommungados, e que nos permitte o podermos fallar tão desaffrontadamente sem receio de irmos dar comnosco na inquisição ou na guilhotina. Além disto, como a consciencia nos fez desapparecer todos os escrúpulos d’esta declaração, achamo-nos com força de affrontar as iras que os neo-catholicos, os absolutistas e os retrógrados congregaram contra nós”.

E esse I∴ aqui se encontra ainda, encanecido sim nas luctas nobilíssimas da associação, mas a corroborar com a mesma viril energia, n’um trabalho que nunca cessa, as suas crenças de há 40 annos.

E porque succede assim com este e com outros muitos dos nossos confrades, que occupam heroicamente pela lucta do bem os postos de honra, que as conveniencias publicas e as suas melhoras aptidões lhe assignaram?

É porque a Mac∴ irmana com a Sciencia, da qual é a mais genuína evangelisadora e propagandista ; e como Sciencia vive numa esphera superior e intangível ao influxo das paixões, procurando a verdade onde quer que ella se encontre, com a hombridade, a independencia e a tenacidade, que são proprias das faculdades creadoras da nossa alma.

A Mac∴ não é por Epicuro, nem por Zenon ; mas assimila todas as philosophias, para d’ellas extrahir a doutrina que baste para que a evolução caminhe fóra do exaggero das escolas. Mas entre todas ellas a que mais adeptos attrae é sem duvida a escola dos stoicos, que directamente opposta ao epicurismo, tem gerado, pelo sentimento austero do dever, os assombrosos heroísmos, que, constituem as paginas mais brilhantes de todas as civilisações, admittindo que antes de Zenon houvessem já stoicos por natural intuição.

Orgulhemo-nos de nós mesmos.

Nós somos os representantes dos mysteriosos cultos que nas primeiras idades dirigiam pelos oráculos os destinos aos povos. E essa direcção só podia cumprir-se sob o poder e auctoridade da Sciencia.

É ainda pela Sciencia que a Mac∴ de hoje se affirma: e assim se explica como ella resiste sempre victoriosamente, aos embates dos egoísmos e vícios sociaes conjurados pela força ou pela seducção para explorar a humanidade.

Não queiramos outro interesse que não seja o que nos provenha da parcella do bem geral.

E assim como a nossa alma se eleva sobre a materia, e se enche de legitimo goso quando resolve um problema, ou realisa uma concepção do espirito, assim nos devemos também dar por satisfeitos quando para o bem collectivo tivermos adquirido alguma verdade, ou alguma garantia.

A Mac∴, cerebro dum corpo social, tem por missão elaborar boa luz, que é a seiva de todas as ramificações.

Ora este esforço divide-se por cada um de nós, e tem precisamente de reflectir-se em todos os agrupamentos – na família – na patria e na humanidade.

Saudemos, pois, CC∴ II∴ ainda mais uma vez a unidade da familia maç∴ portugueza, e com ella a fé ardente nos melhores destinos da nossa patria e na fraternidade das nossas relações com todos os povos da terra.

Disse.

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