Do “Escocismo” ao Grau 33 do REAA – percursos de um Rito (II)

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(Continuação da Parte I)

IV – O desenvolvimento do “Escocismo”

J. A. Faucher em “Histoire de la Grande Loge de France” [1], coloca a questão da necessidade de saber em que momento surgem em França as Lojas que, no seu título distintivo, fazem referência à tradição escocesa e neste pressuposto, aponta a seguinte cronologia (independentemente de algumas lojas terem alterado ou surgirem noutros documentos posteriores, com nomes diferentes):

  • 1740 – Em Bordéus é criada em 3 de Julho, a Loja “A Francesa Eleita Escocesa e Amizade”.
  • 1745 – Em Toulouse a 5 de Julho fundou-se a Loja “A Antiga Escócia” e no mesmo ano e na mesma cidade é também fundada a “ Loja S. João da Escócia”.
  • 1745 – Por sua vez em Tours foi fundada em 29 de Setembro, a Loja “A Concórdia Escocesa”.
  • 1747 – Foi fundada em Toulouse a Loja “Os Escoceses Fiéis” por um stuartista católico, mais conhecido pelo nome francês de Conde de Barneval. É a partir desta loja que sairá o Capítulo escocês “Vieille Bru”, com nove graus.

A partir de 1745 a Maçonaria “Escocesa” está solidamente implantada em França, com lojas espalhadas em várias das cidades mais importantes de França, nomeadamente em Bordéus, Toulouse, Paris, Lyon e Marselha

1751 – George de Walmon, escocês, fundou em Marselha uma Loja, a 27 de Agosto, sob o título de “S. João da Escócia”, que em 1762 passou a designar-se por “Loja Mãe Escocesa de Marselha”.

Os graus escoceses foram-se desenvolvendo e amadurecendo em França, de forma mais ou menos criativa mas desordenada, durante quase toda a segunda metade do século XVIII, sem que tenha a oportunidade de existir qualquer entidade ou organização que os estruturasse de forma coerente.

1 – Os “Eleitos Perfeitos de Bordéus”

Segundo C. Guérillot [7], um documento datado aproximadamente de 1750, encontrado nos arquivos da Universidade de Toulouse, permite-nos ter (Publicado em freemason.pt) uma ideia da maçonaria praticada pelos “Eleitos Perfeitos” (de Bordéus ou também de Toulouse) à época. A Loja dos “Eleitos Perfeitos de Bordéus”, futura “Loja-mãe Escocesa de Bordéus” (vários documentos o comprovam), era revestida de vermelho e o Mestre da Loja era designado por “Muito Respeitável Grande Mestre”. O Rito era composto de 10 Graus, sendo os três primeiros designados por “Graus Simbólicos” e os restantes (de 4 a 10) por “Graus Escoceses”:

  • Graus Simbólicos
    • Grau1: Aprendiz;
    • Grau2: Companheiro;
    • Grau 3: Mestre;
  • Graus Escoceses
    • Grau 4: Mestre Secreto;
    • Grau 5: Mestre Perfeito;
    • Grau 6: Secretário Íntimo ou Mestre por Curiosidade;
    • Grau 7: Preboste e Juiz ou Mestre Irlandês;
    • Grau 8: Intendente dos Edifícios ou Mestre Inglês;
    • Grau 9: Mestre Eleito;
    • Grau 10: Mestre Eleito Perfeito ou Grande Escocês.

Por esta altura (meados do século XVIII), está assim criado o que muitos autores apontam como o primeiro dos “Ritos Escoceses”, que se irão desenvolver até aos actuais. Comparativamente ao actual REAA , podemos verificar que seis dos graus superiores dos “Eleitos Perfeitos” já ocupam os primeiros escalões, tendo o décimo passado para décimo quarto, com uma designação não muito diferente.

Esta “Loja-Mãe Escocesa” de Bordéus foi responsável pela implementação de diversas lojas-filhas, denominadas “Perfeitas Lojas da Escócia”, pelos diversos cantos do mundo maçónico, como sejam [1]: Paris (1746), Cap-Français (1749), Saint-Pierre de la Martinique (1750), Cayes (1757), Nova Orleans (1757), sem esquecer Marselha (1749) e Toulouse (1750). Apesar do registo da maior parte delas ter desaparecido há bastante tempo conseguiu-se, através de diversa correspondência na posse do Supremo Conselho dos Estados Unidos – Jurisdição Norte, obter registos de algumas actividades desenvolvidas.

As várias lojas escocesas, com os seus altos graus, foram-se reagrupando sob a égide de diversas Lojas Mães Escocesas sendo que a “Grande e Soberana Loja de S. João de Jerusalém”, a Oriente de Paris, em 1758 veio a dar origem a um “Soberano Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente”, o qual irá desempenhar mais tarde um papel importante no desenvolvimento e divulgação do Rito da “Maçonaria de Perfeição”.

Sendo impossível atribuir uma origem específica a cada um dos graus surgidos, é contudo possível avançar com algumas indicações da sua origem temporal, retiradas dos (muito) raros documentos da época, cruzando fontes e trabalhos citadas por J. Émile Daruty, Paul Naudon[8], Daniel Ligou, C. Guérillot[7], Irène Mainguy [8]:

  • 1733: Mestre Escocês;
  • 1740: Mestre Eleito, Escocês Inglês ou Perfeito Mestre Inglês;
  • 1743: Pequeno Eleito, Cavaleiro do Real Arco;
  • 1744: Mestre Perfeito, Eleito Perfeito ou Escocês, Reitor e Juiz;
  • 1745: Príncipe de Rosa-Cruz, Cavaleiro da espada;
  • 1746: Mestre Aspirante Escocês, Mestre Arquitecto;
  • 1747: Escocês da Prússia ou Cavaleiro de Santo André;
  • 1748: Cavaleiro do Oriente
  • 1749: Pequeno Escocês, Grande Escocês, Cavaleiro do Oriente ou da Espada;
  • 1750: Mestre Secreto, Mestre Irlandês, Cavaleiro Eleito, Cavaleiro do Sol, Secretário Íntimo, Mestre por Curiosidade, Intendente dos Edifícios, Mestre Inglês
  • 1751: Mestre Eleito dos Nove, Ilustre Eleito do Quinze, Perfeito Escocês verdadeiro da Escócia, Escocês Trinitário, Príncipe de Mercy;
  • 1754: Príncipe de Jerusalém;
  • 1755: Perfeição
  • 1758: Grande Arquitecto, Noaquita, Cavaleiro Prussiano, Venerável Mestre das Lojas:
  • 1760: Cavaleiro da Águia e do Pelicano
  • 1761: Mestre Perfeito Ilustre, Mestre Favorito, Mestre Escocês de três “J”, Escocês das cinco Letras, Maçom de Heredon, Cavaleiro e Príncipe Maçom, Grande Inspector e Grande Eleito, último da Maçonaria, Grande Eleito Cavaleiro Kadosch, Eleito Supremo, Perfeito e Sublime Antigo Mestre, Soberano Príncipe da Maçonaria.

2 – O Capítulo de Clermont

Albert Mackey, no livro “A História da Franco-Maçonaria”, refere que o Cavaleiro de Bonneville estabeleceu um capítulo de 25 graus no Colégio dos Jesuítas de Clermont, em Paris, no ano de 1754. Os seus membros, partidários da Casa dos Stuarts, na maior parte escoceses, fizeram do colégio de Clermont o seu asilo. Um destes 25 graus era o de “Mestre Escocês”. No entanto autores e estudos mais recentes não validam aquelas afirmações, que entretanto fizeram mais de um século de escola nos manuais maçónicos e ainda continuam bastante difundidos.

O “Capítulo de Clermont” , que efectivamente existiu mas que pode não ter a origem referida por A. Mackey, teve curta duração. Foi contudo mais importante pelas suas consequências, já que uma das suas ramificações foi responsável em 1754, pela fundação da “Grande e Soberana Loja de Jerusalém”. Esta Loja-Mãe Escocesa daria origem em 1758, ao nascimento do “Soberano Conselho dos Imperadores do Oriente do Ocidente”, obediência de cariz aristocrático, que teve o duplo mérito de tentar organizar um Rito que mais tarde (Publicado em freemason.pt) chegou aos com vinte e cinco graus (ou no mínimo aos quatorze), precisamente o “Rito da Maçonaria de Perfeição”, também designado de “Heredon”, bem como de entregar a Morin a célebre patente, em 1761.

Os seus membros possuíam conhecimento de várias tradições gnósticas, antigas e místicas, transportando para este Corpo Maçónico as influências templárias, rosacrucianas e egípcias, além de se considerarem herdeiros do “Rito de Clermont” e das correntes escocesas de “Kilwinning e Heredon”. Foi ao longo e através de todo este processo que se consumou a influência esotérica na Ordem.

Em 1762 sob os auspícios deste Conselho, foram publicados os Regulamentos e Constituição da “Maçonaria de Perfeição”, elaborados por nove comissários, sendo concluída e designada em 21 de Setembro de 1762 como “Constituição de Bordeaux”, talvez um dos poucos documentos fundacionais do “Escocismo” comprovadamente verdadeiro.

Paul Naudon [8] também considera que o facto mais importante após o polémico discurso de Ramsay, foi a criação do “Capítulo de Clermont” em 1754, pelo Cavaleiro de Bonneville. O objectivo dos Irmãos que criaram este Corpo terá sido o de continuarem os mesmos princípios da Loja de Saint-Germain-en-Laye, fundada em França pelos refugiados stuartistas bastante tempo antes (cerca de 1688). Para tal criaram adicionalmente mais sete graus, opondo-se à política e directivas da Grande Loja da França, que posteriormente seria dissolvida em 24 de Dezembro de 1772, por fortes divergências internas, dando lugar em 1773 ao Grande Oriente de França.

Émile Daruty [6] considera que “Capítulo de Clermont” teria sido criado em Paris em Novembro de 1754, em nome e sob os auspícios do Grão Mestre da Maçonaria francesa, Conde de Clermont, pelo Cavaleiro de Bonneville, partidário dos Stuarts. As origens do “Capítulo de Clermont” representam um ponto de forte discordância entre diferentes autores e historiadores da nobre Arte Real, consoante as fontes que referem e da leitura que fazem da sua criação.

Paul Naudon [6] resume e sintetiza as diferentes divergências, ao afirmar: “muitos historiadores admitem que ele simplesmente tomou o nome do conde de Clermont, Grão Mestre da Maçonaria Francesa. Outros pretendem que ele deve o seu nome ao Colégio dos Jesuítas, dito de Clermont, outros ainda ao pretendente ao trono inglês (Carlos III) que lá habitou durante bastante tempo e onde o capítulo terá sido criado”. Independentemente da motivação original da sua criação, um dos (poucos) factos comprovados do “Escocismo” foi a existência real deste Capítulo.

IV- Dos graus “Escoceses” ao Rito de Perfeição

1 – O nascimento do “Rito de Perfeição”

Alguns autores, sobretudo nos séculos XIX e metade do XX duvidavam da existência do “Rito de Perfeição”. Este rito só foi verdadeiramente reconhecido quase dois séculos depois. É necessário reportar-nos às viagens efectuadas por Étienne Morin, a partir de 1761 para as ilhas francesas da América, com a famosa patente emitida pelo “Soberano Grande Conselho dos Sublimes Príncipes da Maçonaria – Paris” e das suas “Grandes Constituições dos Sublimes Príncipes do Real Segredo”, (muitas vezes julgadas apócrifas, mas tantas vezes citadas….) isto depois de se ter desavindo com Bordéus, que lhe terá entregue a primeira Patente, por causa da posterior designação por esta, dum outro inspector regional para as Antilhas, cargo que ele julgava dever ser-lhe atribuído…

Segundo C. Guérrillot [9] Étienne Morin e Andrew Franken foram os verdadeiros estruturadores e divulgadores do “Rito do Real Segredo”, mais tarde chamado de “Rito de Perfeição”, dedicando-lhe praticamente as suas vidas e morrendo na miséria, após uma existência mais ou menos atribulada nas Antilhas Francesas e Inglesas: Mais tarde (já estruturado) levaram-no para algumas cidades dos Estados Unidos, de onde veio a resultar, após o acréscimo de 8 Graus, directamente o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA).

A quase totalidade dos autores, tais como Mainguy [8], Dachez [4], Mollier [4], Bernheim [5], C. Guérillot [7], não têm quaisquer dúvidas de que na base da criação dos altos graus do REAA, está o “Rito da Perfeição”, que após passar por diversas fases de desenvolvimento, com sucessivamente 7, 10 e 14 graus (até aqui era a “Maçonaria da Perfeição”), se fixou finalmente nos 25 graus.

Entre eles a diferença está em que, embora todos concordem com o papel essencial de Étienne Morin e depois de H. Franken, os primeiros defendem que terá sido essencialmente em solo francês o seu desenvolvimento, sendo posteriormente levado, por patente entregue a Morin (já passada por Paris) , para a América Central.

Guérillot [7] e Chassagnard [13], & outros, por outro lado, defendem que não foi em solo francês que ele foi estruturado, como tem sido comumente considerado. Para tal suportam-se nos novos documentos, primeiro da colecção “Kloss” e depois da colecção “Sharp” e de outros provenientes de New Orleans e Austrália, bem como do Supremo Conselho Sul dos EUA. Terá sido sob o forte impulso de Étienne Morin (após recepção da patente inicial, pela Loja. de Bordéus, como referido – e mais tarde da de Paris) com a ajuda (Publicado em freemason.pt) empenhada de Henry Franken, que terá sido efectivamente estruturado na América Central (Antilhas francesas e Jamaica) por aqueles dois denodados maçons. Apear deste trabalho de fundo foram ignorados perto de dois séculos pelos historiadores da época. Segundo eles o Rito só regressou efectivamente a França, em finais do século XVIII e/ou logo a seguir no início do século XIX, agora sob a designação de REAA

Há ainda estudiosos que partilham uma via intermédia, considerando que, e não pondo em causa o papel de Morin e Franken, terá havido interligação com França, pelo que se poderá considerar o seu desenvolvimento em simultâneo nos dois lados do Atlântico, pelo menos no que aos Graus seguintes à “Perfeição” (“Real Segredo”) diz respeito, salientado outras fontes e factos…

Contrariando parcialmente esta versão, Trébuchet [2], Dachez, Mollier [4] e Bernheim [5], defendem que historicamente este “Rito de Perfeição” é praticado em França na segunda metade do século XVIII. Para eles, os Regulamentos e “Constituições de Bordéus” de 1762 (apócrifas, convém salientar) fornecem a primeira classificação oficial do “Rito de Perfeição”, sendo o grau de “Mestre Secreto” o que se seguia ao Grau de Mestre das Loja simbólicas, portanto o primeiro dos vinte e dois que constituem os “graus superiores”, sendo o último o de “Sublime Príncipe do Real Segredo ou Comendador do Real Segredo”.

A designação de “Heredon” deriva, para alguns autores, duma lenda de Kilwinning (Escócia Ocidental), datada de 1150 e daí ser também conhecido por Rito de “Heredon de Kilwinning”. A mesma lenda afirma que terá trabalhado com dois graus até 1686. Posteriormente e já após a dissolução do Capítulo de Clermont em 1758, terá trabalhado com nove graus (Aprendiz, Companheiro, Mestre, Mestre Perfeito ou Arquitecto Irlandês, Mestre Eleito, Aprendiz Escocês, Companheiro Escocês, Mestre Escocês e Cavaleiro do Oriente), aumentando gradualmente o número de graus, até atingir os 25 graus em 1762.

O Rito é apresentado com uma estruturação em sete classes, como se indica:

  • Primeira Classe (Lojas Simbólicas) – Grau1: Aprendiz; Grau2: Companheiro; Grau 3: Mestre;
  • Segunda Classe (Lojas Escocesas) – Grau 4: Mestre Secreto; Grau 5: Mestre Perfeito; Grau 6: Secretário Íntimo; Grau 7: Intendente dos Edifícios; Grau 8: Preboste e Juiz
  • Terceira Classe – Grau 9: Eleito dos Nove ou Mestre Eleito dos Nove; Grau 10: Eleito dos Quinze ou Ilustre Eleito dos Quinze; Grau 11: Chefe das Doze Tribos, ou Sublime Cavaleiro Eleito, Chefe das Doze Tribos;
  • Quarta Classe – Grau 12: Grande Mestre Arquitecto; Grau 13: Real Arco ou Cavaleiro do Real Arco; Grau 14: Grande Eleito Antigo ou Grande Eleito, antigo Mestre Perfeito dito da Perfeição;
  • Quinta Classe – Grau 15: Cavaleiro do Oriente ou Cavaleiro da Espada; Grau 16: Príncipe de Jerusalém; Grau 17: Cavaleiro do Oriente e do Ocidente; Grau 18: Rosa-Cruz ou Soberano Príncipe Rosa-Cruz; Grau 19: Grande Pontífice, Ilustre Mestre ad Vetam;
  • Sexta Classe – Grau 20: Grande Patriarca ou Grande Patriarca; Grau 21: Grande Mestre da Chave ou Grande Mestre da Chave da Maçonaria; Grau 22: Príncipe do Líbano ou Cavaleiro do Real Machado;
  • Sétima Classe – Grau 23: Príncipe Adepto, Cavaleiro do Sol; Grau 24: Ilustre Cavaleiro, Comendador da Águia Branca e Negra; Grau 25: Sublime Príncipe do Real Segredo ou Comendador do Real Segredo.

As séries correspondentes às quatro primeiras classes são de um modo geral equivalentes às que se vieram a denominar no REAA como os “Graus de Perfeição” ou “Inefáveis”, sendo o “Grau 14” o último da Quarta Classe, tal como acontece no REAA. Constituem o complemento e aprofundamento essencial à melhor compreensão dos três primeiros graus da Maçonaria Simbólica.

Os temas e as Lendas desenvolvidas neste conjunto de onze graus (do 4 ao 14) são inspirados ou extraídos, na maior parte, a partir do Antigo Testamento e para I. Mainguy [8] “… resumem o percurso iniciático dos primeiros graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre, acrescidos dum novo ciclo…”.

Inicialmente negociante, E. Morin, estabeleceu-se em 1763 definitivamente em São Domingos, depois de várias viagens a França, munido da patente que lhe foi outorgada pela Grande Loja de França /Capitulo de Clermont). Ainda em França, após ter estruturado uma “Maçonaria de Perfeição” em onze graus superiores, preparou a via para uma “Ordem dos Soberanos Príncipes do Real Segredo”, em vinte e dois graus. O seu secretário e colaborador Henry A. Franken (1720-1795) ficou encarregue de a introduzir nas colónias inglesas da América. Foi assim criada em Albany (1767) uma primeira “Loja de Perfeição”, um segunda em Filadélfia (1781) e uma terceira em Charleston (1783), sendo que nessa altura cerca de uma quinzena de maçons americanos foram constituídos “Príncipes do Real Segredo”. Chegaram a existir 5 “Lojas de Perfeição” nos jovens EUA, das quais só Charleston manteve actividade contínua.

O “Rito de Perfeição” não seria mais do que o conjunto de práticas da “Ordem do Real Segredo”, estabelecidas por E. Morin com a ajuda do nomeado inspector-geral Henry Franken., que a partir de 1771 a 1783 redigiu, a partir das notas deixadas por Morin, praticamente todos os rituais próprios a cada um dos vinte e dois graus daquele Rito.

Regressado de França, devido a questões de herança, o conde Auguste de Grasse-Tilly (1765-1845), tornou-se membro das oficinas maçónicas de Charleston. Investido em 1796 no grau de “Príncipe do Real Segredo”, tomou parte, cinco anos mais tarde na criação do primeiro “Supremo Conselho do Grau 33”, de que é membro oficial no ano seguinte.

Segundo alguns autores era necessário trabalhar de forma progressiva, oitenta e um meses, para se poderem atingir estes vinte e cinco graus, sendo que raramente eram concedidas dispensas de graus.

Os “Altos Graus” também não são indiferentes à crise que levou à cisão da Grande Loja de França em 1772 e à criação do Grande Oriente no ano seguinte, reflexos duma crise que trespassava a sociedade francesa.

Duas facções principais disputavam o poder maçónico, encabeçadas por J. A. Lacorne e por A. J. Chaillon de Jonville. A disputa teve como ponto de partida a oposição radicalizada entre os maçons de origem pequeno-burguesa face aos da aristocracia, devido aos privilégios do veneralato em vida. As lojas escocesas realizavam eleições anuais para o cargo de Venerável, enquanto nas restantes, nomeadamente as da região de Paris, os Veneráveis tinham estatuto vitalício.

2 – As Constituições de 1762

O manuscrito original dos “Estatutos e Regulamentos de 1762” desapareceu, não se sabendo nem quando nem onde. Só existem cópias em francês, para uns e em inglês, para outros, sendo que as diferenças entre elas provam de facto o seu carácter apócrifo. A ideia segundo as quais as “Constituições de Bordéus” eram autênticas prevaleceu por largo tempo, figurando Albert Pike (Soberano Grande Comendador americano, Região Sul) e Albert G. Mackey (Secretário Geral, no tempo daquele), entre as suas muitas vítimas involuntárias.

Mackey [1] escreveu na sua “História da Franco-Maçonaria” (1989) que “em 1762 Federico o Grande, que tinha tomado sob a sua protecção toda a Maçonaria da Alemanha, estabeleceu e promulgou o que depois foi conhecido sob o título de “Grandes Constituições de 1762”, … e acrescentou: “As Grandes Constituições redigidas em 1762, foram ratificadas em Bordéus, a 25 de Outubro do mesmo ano e proclamadas como as leis estatutárias de todos os Corpos do “Rito de Perfeição”, nos dois hemisférios”.

O mito das Constituições perdurou até à nossa época. De notar que, desde então que as “Constituições” e os “Estatutos e Regulamentos de 1762” têm vindo a ser, depois de muito tempo, negligenciadas pelas diferentes jurisdições do REAA existentes, em proveito das “Constituições de 1786”, também elas apócrifas, mas “já portadoras dos trinta e três graus”, oficialmente “revistas” em 1875, no Convénio Universal do Supremos Conselhos.

Na origem do “Rito de Perfeição” e sobretudo na sua expansão, está inicialmente um homem: Étienne Morin. Por via da sua actividade comercial, desloca-se para as Antilhas. As suas origens são desconhecidas, não existindo nenhum documento que comprove a data e o local do seu nascimento. Diversos autores conhecidos fazem-no nascer pelos quatro cantos do mundo, desde Nova Iorque, a judeu que os negócios trouxeram à América, a nascido no Haiti, a descendente duma família huguenote francesa estabelecida no Novo Mundo, a crioulo francês de sangue misto, até a nascido de pais franceses na Martinica.

Há contudo de referir uma carta endereçada em 1751, de Saint-Pierre de la Martinique aos “Eleitos Perfeitos de Bordéus” na qual é indicado [1] : “Disseram-nos correctamente que foi o Irmão Morin, crioulo desta ilha, que criou a Vossa Muito Respeitável loja”, tendo C. Guérillot [6] apontado a sua preferência por esta origem.

Morin era comerciante de vinhos e porcelanas e foi um dos fundadores dos “Eleitos Perfeitos” de Bordéus, criada nos primeiros meses de 1745 e, como atrás referimos, considerada por diversos autores, como a primeira potência escocesa.

Mais tarde, junta-se a Henry Andrew Francken, tendo os dois dedicado as suas vidas quase totalmente à Maçonaria, permanecendo contudo praticamente ignorados ao longo dos séculos XIX e XX.

Morin participou, antes de 1750, na criação da “Loja Escocesa de S. João de Jerusalém”, a oriente de Cap-Français (S. Domingos), e também na constituição da “Loja Perfeita Harmonia”, a Oriente de Abbeville, assinando como “Grão Mestre Escocês”.

A partir de 1750, Morin iniciou um processo de afastamento dos “Eleitos Perfeitos” para se aproximar a Paris à “Loja de S. João de Jerusalém”, loja do Conde de Clermont, onde investigações e autores mais recentes parecem confirmar ter existido também efectivamente o “Capítulo de Clermont”……A ruptura com os “Eleitos Perfeitos” concretizou-se no final de 1752, pelos motivos que atrás referimos.

3 – A Patente de Morin e o contributo de Henry Andrew Francken

A) – A Patente de Morin

Devido aos seus negócios Morin voltou a França em 1760, para obter também da Loja de S. João de Jerusalém e do Grande Conselho dos Graus Iminentes, dirigido por Chaillon de Jonville, a legitimidade maçónica que Bordéus lhe tinha recusado.

Segundo alguns autores a 27 de Agosto de 1761 estas duas entidades entregaram a Morin a Patente solicitada. A entrega terá sido efectuada em Paris pelo Conde de Clermont num acto que decorreu no Grande Conselho dos Grandes Cavaleiros Kadosch, que era o círculo dirigente da Grande Loja dos Mestres de Paris.

A análise de novos documentos suporta a tendência preponderante actual que aponta para que terá sido a própria Grande Loja, em 1761, reunida no seu “Grande Conselho dos Sublimes Príncipes da Maçonaria” e não o “Conselho de Imperadores”, que teria fornecido, através de Chaillon de Joinville, substituto Geral da Ordem, uma patente constitucional de “Grande Inspector do Rito de Perfeição” a Étienne (ou Stephen) Morin (“Stephen” é o nome que consta da patente, como se pode confirmar). Esta patente autorizava-o a “estabelecer e (Publicado em freemason.pt) perpetuar a Sublime Maçonaria em todas as partes do mundo” e investia-o dos poderes para sagrar novos Inspectores. Chaillon de Joinville teria também assinado o documento, com mais oito Irmãos da alta hierarquia do “Soberano Grande Conselho dos Sublimes Cavaleiros do Real Segredo e Príncipes da Maçonaria” (possuidores do último grau e que constituíam a elite dirigente do “Rito de Perfeição”, também designada por “Ordem do Real Segredo”)

Antes de ter recebido a sua célebre Patente, Morin estava na posse de outros graus, como o dos Antigos Mestrados de Bordéus e Paris [10], e ainda de um conjunto de graus exteriores, como por exemplo, “Cavaleiro do Sol” e “Cavaleiro do Oriente” (segundo carta que enviou a 24 de Junho de 1757 aos “Eleitos Perfeitos de Bordéus”).

No mesmo ano Morin desembarcou na colónia francesa de São Domingos (hoje Haiti), onde se fixou. Dedicou-se desde logo com afinco ao trabalho de difusão e implementação da “Ordem do Real Segredo”, em particular. Segundo outros autores, Etienne (ou Stephen) Morin teria enveredado em S. Domingos e nas Antilhas, por um certo grau de “comercialização” destes altos graus. Contudo o certo é que morreu na miséria.

Na realidade a “Ordem do Real Segredo” / “Rito de Perfeição” foi bastante desprezada durante cerca de trinta anos. O seu conteúdo esotérico foi atenuado ou mesmo esquecido e a sua ritualística deficientemente utilizada. Apesar de tudo os americanos aceitaram muito bem o Rito, e ainda acharam que os vinte e cinco graus eram insuficientes para abranger toda a iniciática maçónica (talvez seja conveniente recordar a influência dos franceses Grasse-Tilly e de Delahogue, ambos directamente ligados ao comité redactor e normalizador do desenvolvimento final… e também possuidores de patentes do altos graus franceses…).

Morin refugiou-se em Kingston, em 1765, quando eclodiram revoltas locais e juntamente com a decisiva ajuda de Francken e de outros maçons, criaram o que designou como “Maçonaria Renovada”, constituindo em 1770 um “Grande Capítulo”. Já depois da morte de Morin, Francken forneceu aos deputados-inspectores uma recolha de textos escritos por si. Estes textos / manuscritos representam o que actualmente é conhecido por “Manuscritos de Francken”, baseando-se em indiscutíveis fontes francesas e que essencialmente transcreviam e definiam os Rituais dos diversos graus.

Após a difusão e o estabelecimento na Europa do “Rito Escocês Antigo e Aceite”, a sua verdadeira e efectiva carta fundadora a “Patente” de Morin, não deixou de chamar a atenção e intrigar todos os historiadores, investigadores e maçonólogos. Foi publicada pela primeira vez em França em 1812 e reeditada em obras surgidas em 1865 e 1880 [1]. Foi posteriormente objecto de numerosos estudos que possibilitaram, não só confirmar a sua autenticidade, mas também compreender as circunstâncias e as motivações da atribuição.

Efectivamente resultou das variadas análises efectuadas que um “Très Cher Frère Étienne Morin”, efectivamente recebeu, sob o Grão Mestrado de Louis de Bourbon, Conde de Clermont e Príncipe de sangue, as “cartas-patentes”, para que pudesse estabelecer em todas as partes do mundo a “Perfeita Sublime Maçonaria”. São muitas vezes referidas “quatro” versões existentes da dita Patente… . No entanto uma pesquisa pessoal de G. Chassagnard [1] permitiu recensear… 10 diferentes !!! Mas como a original desde há muito que desapareceu sem deixar rasto, nas cópias manuscritas consultadas, em francês e em inglês, descobrem-se diferenças no texto mais ou menos importantes, sobretudo títulos indefinidos, frases sem princípio nem fim, incoerências e abreviações com significação incerta.

Como resultado da revolução, existiu de 1795 a 1800, uma situação social extremamente difícil em todo o país, e o Grande Oriente de França foi chamado a desenvolver inúmeros esforços para juntar o que sobreviveu ao choque revolucionário, para reconstruir as estruturas da ordem maçónica.

B) – E o contributo de Henry Andrew Francken

Étienne Morin (1717-1771) e Henry A. Francken (1720-1795) representam para C. Guérillot [7] e G. Chassagnard [12] duas referências ou dois marcos importantes na passagem das “Lojas Escocesas” às Oficinas dos Altos Graus do actual “Rito Escocês Antigo e Aceite” (REAA). No entanto constituem duas personagens em que existe muita dificuldade em lhes seguir o percurso, portanto identificá-los correctamente ao longo da vida, sobretudo o primeiro. Ignoramos praticamente quase toda a vida profana de Étienne Morin. Uma das poucas coisas que se conhece é que deixou como herança um violoncelo…. .

No que respeita Henry A. Francken, seu discípulo e colaborador, existem bastante mais dados. Por que razão terá mostrado tanto interesse pelos “graus escoceses”?. Porque terá empreendido a árdua tarefa de transcrever os Rituais da “Ordem dos Soberanos Príncipes do Real Segredo” em duas etapas (que vão de 1771 a 1783)?. Em que circunstâncias terá ido implantar o “Escocismo” em terras coloniais americanas? Não sabemos em concreto.

Sabemos que terá desembarcado, enquanto holandês fiel e proveniente do seu país natal, em Kingston, na Jamaica, em Fevereiro de 1757, com a idade de aproximada de trinta e sete anos, não sendo conhecidos os motivos da expatriação e o local de nascimento. Possui formação de ordem jurídica e a sua vida na Jamaica é conhecida através das múltiplas petições que apresentou às Autoridades da Ilha para suprir as suas necessidades materiais. Ocupou num primeiro tempo as funções de perito, de tenente da polícia e de conselheiro da corte do Vice-Almirantado [12].

Em 1764 perdeu a sua primeira esposa de que tinha um rapaz e uma filha.. Em 1765 o honorável Henry Moore, lugar-tenente governador da Jamaica e mais tarde governador de Nova York, nomeou-o intérprete judiciário. Francken já tinha tomado em 1763 conhecimento de E. Morin, quando duma visita a Kingston, sendo constituído posteriormente “Inspector Geral da Maçonaria de Perfeição”. A este propósito nenhum documento conhecido testemunha, até este momento, as suas actividades maçónicas.

Partiu para a antiga colónia holandesa de Nieuw Nederland (tornada mais tarde colónia de Nova York). Igualmente não se conhecem as razões da sua partida para o continente americano, provavelmente em 1777. O que somente se conhece é que a sua viagem terá durado pelo menos dois anos. É contudo de salientar que quando da instalação definitiva de Étienne Morin em Kingston, o seu discípulo e herdeiro maçónico já teria partido em viagem ou se preparava para o fazer. Em 1769 Francken estava de regresso a Kingston, onde se torna locatário duma casa burguesa e daí conseguirmos retomar a sua pista.

Henry Andrew Francken faleceu em 20 de Maio de 1795, deixando entre outras coisas ao seu filho Parker, o seu relógio de ouro e o seu selo, e à pequena Elizabete um prato de prata.

Ainda segundo C. Guérillot [7] e G. Chassagnard [13]: “ durante todo este tempo “a Maçonaria Escocesa tinha já beneficiado dos vinte e dois Rituais dos Altos Graus de que tinha acabado a redacção cerca de quinze anos mais cedo”.

Para sermos claros é a Étienne Morin, este ilustre desconhecido, que devemos o facto de ter ordenado os diferentes graus, indo da “Perfeição” (do 4º ao 14º) ao “Real Segredo” (do 15º ao 25º). É a Francken, este outro desconhecido, ainda mais que o precedente, mas igualmente digno do maior mérito, que se deve o papel de transcrever (e reescrever) aqueles rituais e de os “transportar” para as colónias americanas.

(Continua na Parte III)

Adaptado de Autor Desconhecido

Bibliografia

[1] “Aux Sources du Rite Écossais Ancien et Accepté” – Guy Chassagnard – Éditions Alphée, 2008

[2] “El Nascimiento del Escocismo” – Louis Trébuchet

[3] “Rito Escocês Antigo e Aceite – História, Doutrina e Prática” – José Castellani – Editora Maçónica “A Trolha” Ltda. Londrina, 1988

[4] “Origine-du-ou-des-grades-ecossais” – R. Dachez, P. Mollier & A. Bernheim – revista “Renaissance”

[5] “Le Rite en 33 Grades” – Alain Bernheim – Éditions Dervy, Paris, 2011

[6] “La Rose Maçonnique” – Vol. I – Claude Guérillot – Éditions Veja ( Paris 2010)

[7] “Le Rite de Perfection” – Claude Guérillot – Éditions Veja ( Paris 1995)

[8] “Symbolique des Grades de Perfection et des Ordes de Sagesse” – Irène Mainguy – Ed. Dervy (2011) – Paris

[9] “Mais de dois séculos do Rito Escocês Antigo e Aceite: que origens?” – José Marti M∴ M∴

[10] “O Grau de Mestre e a Consolidação da Maçonaria especulativa – Algumas notas” – Salvador Allende M∴ M∴

[11] “Did Écossais (early “High”) Degrees originate in France?” – Pietre-Stones review of Freemasonry

[12] “A História do Grau 33” – Hercule Spoladore – “J B News”, nº 1045

[13] “La Franc-Maçonnerie en Question & en 250 Responses” – Guy Chassagnard – Édit. Dervy , Paris (2017)

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