Do Humanismo à Humanitude

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humanitude

“Um novo caminho de iniciação para o Século XXI”

Introdução: Questionar o presente

O Século XXI, com as suas mudanças deslumbrantes, as suas crises globais e as suas inovações que abalam a terra, leva-nos a reexaminar os próprios fundamentos da nossa humanidade. Estaremos ainda na era do humanismo ou estaremos a assistir à emergência de uma nova forma de estar no mundo? O termo “humanitude”, concebido para exprimir a ética do cuidado, da relação e da vulnerabilidade, parece abrir um novo caminho: o da realização humana nas suas dimensões afectiva, relacional e espiritual.

“Ser humano é precisamente ser responsável. Significa sentir-se envergonhado perante uma miséria que não parece depender de si”

Antoine de Saint-Exupéry (Terra dos Homens)

O humanismo: um fundamento revolucionário mas incompleto

O humanismo permitiu ao homem libertar-se da tutela exclusiva do divino e tomar consciência da sua própria dignidade, da sua liberdade de pensamento e do seu poder de transformar o mundo. Deu origem ao Iluminismo, à ciência moderna, ao laicismo e aos direitos fundamentais. No entanto, ao colocar a razão no centro de tudo, esqueceu por vezes a dimensão frágil, emocional e invisível do ser humano. Ao iluminar o espírito, deixou a alma na sombra.

“A ciência sem consciência não é mais do que a ruína da alma”

François Rabelais (Pantagruel)

Humanitude: um novo passo para a realização humana

A humanitude, conceito cunhado por Yves Gineste e Jérôme Pellissier no domínio dos cuidados, refere-se a uma atitude profunda que reconhece cada ser humano como um sujeito digno, mesmo no seu estado mais vulnerável. Baseia-se em quatro pilares: olhar, falar, tocar e estar. Convida-nos a redescobrir a profundidade da relação, a capacidade humana de amar e de se abrir a algo maior do que nós próprios. A humanitude é, portanto, um humanismo revestido de ternura, que coloca o cuidado mútuo no centro do seu projecto.

“A grandeza do homem está na sua decisão de ser mais forte do que a sua condição”

Albert Camus (O Rebelde)

Da pedra bruta à pedra cúbica: uma tradução maçónica da passagem à Humanitude

Na Maçonaria, o trabalho de iniciação começa simbolicamente com a pedra bruta que precisa de ser desbastada, estruturada, educada e polida. Esta é a idade simbólica do humanismo racional e moral. Mas a abordagem maçónica não se fica por aqui. Apela a uma transformação íntima e interior, a um desenvolvimento espiritual baseado na dádiva, no perdão e na fraternidade. Este equilíbrio súbtil entre a justiça e o amor, o rigor e a compaixão, revela a emergência de uma verdadeira “humanitude” iniciática.

“A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos”

Marcel Proust (O Prisioneiro)

O Rito Escocês Rectificado e a Divina Semelhança: Uma Pedagogia da Humanidade

O Rito Escocês Rectificado ensina explicitamente que o homem deve recuperar os “vestígios da sua antiga grandeza”. Este regresso à semelhança divina passa necessariamente pela humildade, a virtude e o perdão. O capítulo VI da versão abreviada da Regra Maçónica afirma:

“Sê afável e não oficial. Despertai em todos os corações o fogo da Verdade, partilhai a felicidade do vosso próximo e nunca permitais que a inveja perturbe este puro gozo. Perdoa o teu inimigo; não te vingues dele senão com bondade. Cumpre, assim, um dos mais sublimes preceitos da religião e recuperarás os vestígios da vossa antiga grandeza”.

Do mesmo modo, a instrução moral para o grau de Mestre Maçom recorda-nos que as paixões dominantes – a inveja, a avareza e, sobretudo, o orgulho – destroem qualquer possibilidade de evolução interior e social. Estes três “golpes mortais” devem ser ultrapassados para renascer verdadeiramente, confirmando assim a abordagem profunda e salvífica da humanitude.

“A suprema sabedoria é ter sonhos suficientemente grandes para não os perder de vista enquanto os perseguimos”

William Faulkner

Rumo a uma humanidade reconciliada: a humanitude como horizonte espiritual e moral

A humanitude, muito mais do que um simples conceito filosófico, está a tornar-se um horizonte concreto de transformação interior e social. Não apaga o humanismo clássico, mas alarga-o à vulnerabilidade, à interdependência e ao amor desinteressado. A partir da simples afirmação do ser humano pensante, convida-nos a tornarmo-nos seres humanos amorosos e conectados. Hoje, não é a inteligência que nos falta: é a sabedoria de estarmos juntos, em paz e harmonia.

“O único caminho que oferece alguma esperança de um futuro melhor para toda a humanidade é o da cooperação e da parceria”

Kofi Annan (discurso do Prémio Nobel)

Conclusão: O aprendiz do Século XXI, rumo a uma civilização da humanitude

O verdadeiro iniciado do Século XXI é talvez aquele que, no coração de um mundo dominado pela violência e pelo hipercontrolo, se atreve a se tornar de novo aprendiz de relações autênticas, de escuta sincera e de empatia profunda. Passar do humanismo à humanitude exige uma verdadeira ascese: não apenas a ascese do saber, mas sobretudo a ascese do ser e do coração.

A sabedoria milenar do caminho de iniciação maçónica prepara-nos para esta transformação, convidando-nos a descer a nós próprios para nos abrirmos mais aos outros e ao mundo. É através desta transformação interior que podemos lançar as sementes de uma verdadeira civilização de luz partilhada.

“O verdadeiro sábio é aquele que nunca deixa de ser um aprendiz”

Confúcio

Do humanismo clássico à humanitude relacional e espiritual, a Maçonaria oferece aos iniciados uma viagem interior que responde plenamente aos desafios espirituais e morais do Século XXI.

Olivier de Lespinats

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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