Esta é uma historia em vários atos e que nunca terá um final, sim novos episódios.
Em outra vida nasci martelo. Feito de aço carbono 1095. Material nobre muito acima da pedra bruta.
Como martelo, assim que ganhei consciência, desatei às marteladas. Queria ser útil, servir para algo.
Orgulhosamente, considerava-me “O Martelo”. E achei divertido esmurrar paredes só porque podia. É certo que deixava marcas nas paredes imaculadas, mas não me importava.
Sempre que via um prego tratava dele. Às vezes, mas só às vezes, tratava também orgulhosamente de alguns dedos, onde deixava marcas profundas na carne.
Um dia encontrei um parafuso saído, bronze, em tom dourado, repousando numa parede, enroscado. Tentei martela-lo. Bati com a forca poderosa das minhas convicções e verdades absolutas. Para meu espanto, ele resistiu estoicamente a ser obliterado parede a dentro. Mas destrui irremediavelmente a a sua cabeça, reduzindo-a a uma amálgama de metal baço. Percebi, como martelo que era, que a força das minhas convicções era destrutiva, mas não raramente inconsequente.
Pelo caminho encontrei outros martelos. Chocámos e martelamo-nos mutuamente sem qualquer nexo ou eficácia. Soltávamos faíscas e espalhávamos labaredas à nossa volta. E quanto mais carbono nos nossos corpos, mais faíscas soltávamos. Mas não importava. Eramos ferro e sobrevivíamos ao fogo. Que nem seres humanos, ricos em carbono.
Com o tempo, percebi que, como martelo afinal a minha utilidade era limitada. Só sabia e servia para martelar. Procurei ser útil em outras tarefas. Mas infelizmente, só me conheciam a arte de martelar. E inexoravelmente, os pregos acabaram. E então, deixaram-me de lado, onde fui envelhecendo e ganhando ferrugem. Porque, MMQQII, os pregos acabam sempre e os martelos, mais tarde ou mais cedo, ficam esquecidos num canto empoeirado.
Um dia, entrei num forno escuro e quente. Quase que parecia uma câmara. Por um desconhecido processo alquímico, o meu corpo aqueceu e fui transformado em plasma. Fui empurrado para as entranhas da terra e fundido, retificado. Fui transformado em algo diferente através de um doloroso processo da transmutação em vida.
Hoje ainda não sei bem o que sou. Algo bruto, talvez. Despojado da nobreza do aço, reduzido a material não nobre. Condição humilhante para um martelo. Já não sirvo para martelar.
Mas, as reminiscências da minha antiga vida, os vícios e impulsos, ainda se mantém. E hoje as marteladas que ainda tento dar deixam marcas no meu corpo exausto, transmutado, ficam marcas do passado com as quais tenho de viver. E cada uma se acumula às restantes, deixando uma distorção na superfície que outrora foi nobre e reluzente.
Parte de mim ainda é martelo. Sei disso. Por isso, obrigo-me todos os dias a fazer um esforço inaudito para não voltar a pensar e agir como um martelo.
Porque, MMQQII:. a um martelo, tudo, mas tudo, se assemelha a um prego.
Marco R∴, M∴ M∴ – R∴ ∴ Voltaire nº 159 (GLLP / GLRP)

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“Le marteau sans maître” de Pierre Boulez, como música de fundo.