Ernst e Falk: dialogando sobre a Maçonaria na actualidade

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Introdução

A origem destes três diálogos está num debate recente entre dois irmãos maçons que, embora compartilhem os mesmos ideais fraternos, discordam profundamente sobre a verdadeira finalidade da Maçonaria. Um dos irmãos defende que o foco deve ser no aprimoramento dos rituais e na preservação das tradições, enquanto o outro acredita que a Maçonaria só cumpre o seu papel se os seus ensinamentos forem aplicados directamente à vida quotidiana, transformando tanto o indivíduo quanto a sociedade. A partir desta oposição de ideias, surgiu a ideia de redigir estes três diálogos, em continuidade aos diálogos já apresentados por Gotthold Ephraim Lessing no clássico da filosofia maçónica “Ernst und Falk — Diálogos para Maçons”.

Em homenagem à estrutura textual criada por Lessing, estes novos diálogos são construídos para abordar os temas debatidos pelos dois irmãos, trazendo à tona reflexões sobre o papel da Maçonaria no século XXI, ainda que de forma acessível e sem a pretensão de alcançar a profundidade do filósofo. O objectivo deste texto foi emprestar os seus personagens e o seu formato para estimular o pensamento crítico e a reflexão no seio da fraternidade.

A perspectiva adoptada é necessariamente filosófica, pois acredita-se que pensar sem agir é uma tarefa estéril, e agir sem reflexão é ainda mais perigoso. Estes diálogos pretendem evitar preconceitos ou raciocínios enviesados que possam desviar os irmãos do verdadeiro sentido da Maçonaria. A proposta, longe de oferecer respostas definitivas, busca incentivar uma jornada contínua de questionamento e aprimoramento, fiel ao espírito da fraternidade, onde o pensamento e a acção devem sempre caminhar juntos em busca da verdade, sabedoria e justiça.

Sexto Diálogo

(O Ciclo da Ignorância e da Esperteza na Maçonaria)

Ernst: (reflexivo) Falk, estive pensando sobre algo que ouvi recentemente. A Maçonaria não se perdeu por causa dos néscios, dos ignorantes. Dizem que eles são puros de espírito. A verdadeira perda veio dos espertos, dos que vêem a instituição como um caminho para obter vantagens pessoais, seja nos negócios ou na política.

Falk: (olhando seriamente) Ernst, respeito essa visão, mas precisamos rever essa ideia de que o ignorante é puro de espírito. A ignorância, quando acomodada ou mantida por escolha, é tão perigosa quanto a esperteza que manipula o sistema. O néscio que não busca crescer ou melhorar não está isento de culpa. Ele também contribui para a decadência da Maçonaria, seja por inércia, comodismo ou por se recusar a se abrir ao conhecimento.

Ernst: (surpreso) Mas você não acha que os ignorantes, por não saberem, não têm responsabilidade? São os espertos que distorcem tudo, que se aproveitam da fraternidade para interesses próprios.

Falk: (com ênfase) Concordo que os espertos têm uma grande parcela de culpa, mas o néscio que nada faz para evoluir também tem a sua responsabilidade. A ignorância não é um estado neutro ou inofensivo. O néscio que permanece na sua limitação, seja por preguiça ou por escolha, perpetua uma estagnação que, no fim, alimenta os mesmos problemas que os espertos exploram. Ele enfraquece a essência da Maçonaria. O verdadeiro espírito maçónico requer uma busca constante por autotransformação e aperfeiçoamento.

Ernst: (pensativo) Você quer dizer que a ignorância pode ser tão prejudicial quanto a esperteza que busca vantagens?

Falk: Exactamente. E o pior é que muitos desses espertos são, na verdade, “néscios disfarçados”. Eles usam a sua aparente humildade, se dizendo “eternos aprendizes”, para ocultar a sua verdadeira intenção de obter status e poder. O que temos, no fundo, é uma “nescionaria”, onde tanto o ignorante passivo quanto o espertalhão activo sabotam a Maçonaria. Os rituais e símbolos perdem o seu verdadeiro significado e se tornam meras formalidades, usadas como ferramentas para vaidade e ganho pessoal.

Ernst: (perplexo) Então você está dizendo que o problema não está apenas nos espertos, mas também na ignorância que se recusa a evoluir?

Falk: Sim, esse é o ponto crucial. O ignorante que se acomoda contribui para o ambiente onde os espertalhões prosperam. Ele não questiona, não busca melhorar, e assim deixa o caminho livre para que os manipuladores se aproveitem da fraternidade. Ambos, o néscio passivo e o esperto ardiloso, alimentam o ciclo de decadência.

Ernst: (compreendendo) Então, a Maçonaria se perde tanto pelos ignorantes quanto pelos espertos, mas de maneiras diferentes. Os ignorantes permitem que o sistema estagne, enquanto os espertos manipulam essa estagnação para os seus próprios interesses.

Falk: (com um leve sorriso) Exactamente, Ernst. E essa combinação de ignorância e esperteza cria um ciclo vicioso de hipocrisia dentro da fraternidade. É por isso que nos devemos comprometer com a verdadeira essência da Maçonaria: a busca contínua por sabedoria, autoconhecimento e transformação interior. Se não combatermos a ignorância e a esperteza, corremos o risco de perder de vez os valores que tanto prezamos.

Ernst: (determinado) Faz todo o sentido. É hora de reconhecermos que a Maçonaria só poderá sobreviver se formos sinceros no nosso compromisso com a lapidação constante, tanto da ignorância quanto da falsa esperteza.

Ernst retira-se de modo apressado, rumo a uma reunião da Fraternidade.

Sétimo Diálogo

(A Essência do Aprender na Maçonaria – Lapidação e Autotransformação)

Ernst: (ainda reflectindo) Falk, na nossa última conversa, falamos sobre a decadência da Maçonaria. Mas agora fico pensando: o que realmente significa *aprender* na Maçonaria? Alguns parecem confundir isso com adquirir conhecimento ou simplesmente seguir os rituais. Mas parece haver algo muito mais profundo nisso, não?

Falk: (com um sorriso de compreensão) Sim, Ernst. A verdadeira aprendizagem na Maçonaria vai muito além de acumular conhecimento ou recitar rituais. A aprendizagem maçónica é, acima de tudo, um processo de autotransformação. Não se trata de memorizar textos ou mostrar erudição superficial, mas de lapidar a nossa “pedra bruta”, que é a metáfora para o nosso carácter e a nossa alma. *Aprender* significa encarar as nossas falhas, preconceitos e limitações, e se comprometer com o crescimento constante.

Ernst: (curioso) Então, a aprendizagem é mais um caminho de autodescoberta do que de adquirir factos ou informações?

Falk: Exactamente. O que importa na Maçonaria é o desenvolvimento interior. A aprendizagem é sobre reconhecer as nossas imperfeições e, com humildade, trabalhar para nos tornarmos melhores. Não se trata apenas do que sabemos, mas de quem nos tornamos durante o processo. E isso é algo contínuo — não há ponto de chegada. A aprendizagem maçónica exige que confrontemos as nossas fraquezas e trabalhemos constantemente para superá-las.

Ernst: (pensativo) Isso faz sentido. Quando nos chamamos de “pedras brutas”, reconhecemos que estamos em constante lapidação. Nunca seremos completamente perfeitos.

Falk: (com entusiasmo) Isso mesmo. E a Maçonaria se perde quando os seus membros esquecem isso. Alguns dizem ser “eternos aprendizes”, mas na prática estão apenas usando esse título para se esconderem atrás de uma falsa humildade, enquanto buscam prestígio ou status. O verdadeiro Maçom entende que aprender é um processo interminável. É uma busca constante pela sabedoria, pela virtude, e pela evolução como ser humano.

Ernst: (com um sorriso) Então, a aprendizagem na Maçonaria não é sobre status ou títulos, mas sobre se comprometer com a jornada de autotransformação?

Falk: Sim, exactamente. E essa jornada deve ser sincera. A verdadeira aprendizagem não se resume ao que sabemos ou ao que podemos exibir. Ele reflecte-se nas nossas atitudes, na forma como tratamos os outros, na honestidade com que lidamos com as nossas falhas e como aplicamos os princípios maçónicos na nossa vida diária. É isso que significa ser um Maçom de verdade.

Ernst: (pensativo) Agora entendo melhor. A Maçonaria perde a sua essência quando a aprendizagem é reduzido a formalidades. Se não estivermos genuinamente comprometidos com a nossa lapidação interior, estamos falhando.

Falk: (concordando) Exactamente. A aprendizagem maçónica é uma postura diante da vida, um compromisso com a verdade, a sabedoria e a justiça. E isso só pode ser alcançado se estivermos dispostos a enfrentar as nossas fraquezas e trabalhar continuamente para nos melhorar. O verdadeiro Maçom é aquele que entende que a lapidação é um processo eterno, e que o crescimento pessoal não termina enquanto vivemos.

Ernst: (com firmeza) Então, a nossa responsabilidade é manter essa chama viva, garantindo que a aprendizagem na Maçonaria continue sendo uma jornada sincera de autoconhecimento e evolução.

Falk: (com um sorriso sereno) Exactamente, Ernst. A verdadeira aprendizagem maçónico é silencioso, mas poderoso. Ele transforma as nossas acções, e é assim que a Maçonaria pode continuar cumprindo a sua missão original.

Ernst sai, com um ar renovado, decidido a levar essa aprendizagem adiante.

Oitavo Diálogo

(O Ensino e a Aprendizagem na Maçonaria)

Ernst: (olhando para Falk com um ar pensativo) Falk, eu estive reflectindo sobre a nossa última conversa e sobre algo que muitos irmãos comentam nas Lojas. Eles se perguntam o que, de facto, deveríamos ensinar e aprender na Maçonaria. Parece que nos perdemos, que tudo se resume a rituais e fórmulas antigas, mas sem nenhuma conexão com a realidade do mundo em que vivemos.

Falk: (calmo, mas com intensidade) Ernst, esse questionamento não é novo. Há muito tempo, a Maçonaria tem sido entendida de forma superficial. O ritual é importante, mas apenas como um meio, nunca como um fim. Se o conhecimento não pode ser aplicado à vida prática, ele é estéril. O que deveríamos buscar não é uma erudição vazia, mas uma transformação genuína da alma humana.

Ernst: (assentindo, porém ainda inquieto) Sim, compreendo isso, mas o que vejo é um excesso de formalismos. Muitos irmãos se vangloriam do quanto sabem sobre as tradições, sobre as palavras e gestos, mas, ao mesmo tempo, parecem distantes de qualquer mudança real. Como pode isso? Como podemos nos perder em tantos detalhes e esquecer o essencial?

Falk: (com firmeza) Esse é o grande problema, Ernst. Muitos se apegam às formas externas porque isso exige menos. Memorizar um ritual, recitar passagens, vestir-se correctamente — tudo isso pode ser feito sem jamais enfrentar a verdadeira questão: “quem sou eu e quem devo me tornar?” A Maçonaria deveria ser uma escola para a alma, uma preparação para a vida além da Loja. O que realmente importa não é o que sabemos, mas o que fazemos com esse conhecimento. Como aplicamos a aprendizagem maçónica no mundo?

Ernst: (franzindo a testa) Mas então, o que estamos ensinando de errado? Por que tantos irmãos parecem tão distantes dessa transformação de que você fala? O erro está na instituição, nos mestres ou nos próprios aprendizes?

Falk: (pensativo) O erro talvez esteja na maneira como entendemos o processo de aprendizagem. Muitos vêem a Maçonaria como um palco onde se busca status e reconhecimento. Mas esse não é o verdadeiro espírito da fraternidade. A aprendizagem maçónica não se refere a títulos ou posições, mas a uma busca profunda por autoconhecimento e aperfeiçoamento moral. Se os irmãos não compreendem isso, é porque algo falta na forma como ensinamos. O verdadeiro mestre não é aquele que impõe, mas aquele que inspira por meio da sua conduta e exemplo de vida.

Ernst: (olhando para o chão, reflectindo) Isso faz muito sentido. E talvez muitos que criticam o que é ensinado na Loja não participem o suficiente para entender o que realmente acontece. Sem vivência, sem uma prática constante, é fácil criticar de fora, não?

Falk: (com um leve sorriso) Exactamente. Muitos falam sobre o que a Maçonaria “deveria” ser sem jamais se envolver profundamente com o que ela “é”. A aprendizagem é algo que se constrói a cada reunião, a cada reflexão, a cada gesto silencioso. A crítica sem o compromisso de participar é vazia. E, infelizmente, essa falta de envolvimento torna a aprendizagem algo meramente decorativo para muitos.

Ernst: (com mais clareza) Então, o verdadeiro desafio é envolver os irmãos de maneira mais sincera, para que percebam que a aprendizagem não está nos rituais em si, mas em como eles moldam a nossa vida.

Falk: (com convicção) Isso mesmo. O ritual é uma chave, Ernst, mas a porta que ele abre é a da nossa alma. O que está além dessa porta não é um conhecimento frio e distante, mas a oportunidade de nos tornarmos pessoas mais justas, sábias e livres. A Maçonaria verdadeira não pode ser aprendida apenas com palavras ou cerimónias. Ela deve ser vivida, em cada acção e decisão. Esta é a aprendizagem que muitos ainda precisam descobrir.

Ernst: (sorrindo, como se uma luz se acendesse na sua mente) Então, o segredo está no compromisso. Não basta estudar ou assistir a rituais. A Maçonaria deve ser uma prática diária, algo que fazemos em cada gesto.

Falk: (sorrindo também) Exactamente, Ernst. A aprendizagem na Maçonaria é uma jornada interior. Não importa o quanto saibamos de memória, se isso não mudar quem somos de verdade. Apenas com envolvimento sincero podemos lapidar a nossa “pedra bruta” e, quem sabe, um dia, nos aproximar da perfeição que buscamos.

Ernst: (confiante) Então, seguimos em frente. Lapidando, praticando, aprendendo a cada dia. Afinal, é na vida que se revela o verdadeiro Maçom.

Falk: (aceno afirmativo) Isso mesmo, Ernst. A Maçonaria é um caminho para a vida, e a vida é o verdadeiro campo onde aprendemos e ensinamos.

Ernst despede-se do seu garante, com um abraço, decidido a aplicar essas reflexões na prática da fraternidade.

Considerações finais

Os diálogos apresentados conduzem a conclusões que são, no mínimo, reveladoras. O ciclo de ignorância e esperteza na Maçonaria expõe uma realidade que não pode ser ignorada: tanto o néscio que se acomoda na sua ignorância quanto o irmão que utiliza a fraternidade para interesses pessoais, valendo-se da sua esperteza, contribuem igualmente para a degeneração da instituição. A inércia do primeiro e a astúcia do segundo formam um círculo vicioso que compromete a essência da Maçonaria, que deve estar centrada no aperfeiçoamento contínuo e na busca sincera por sabedoria e autotransformação.

A verdadeira aprendizagem maçónico, como se evidencia no segundo diálogo, transcende o simples acúmulo de conhecimento ou a exibição de erudição. A Maçonaria, na sua mais elevada concepção, é um processo constante de lapidação da “pedra bruta”, um compromisso permanente com a transformação interior. O que realmente importa são as atitudes, a ética vivida no quotidiano e a capacidade de aplicar os princípios maçónicos em todas as esferas da vida. Quando a prática ritualística se transforma em formalismo vazio, a essência da aprendizagem se perde, e a Maçonaria torna-se mera repetição de formas, desprovida de substância.

O terceiro diálogo reforça a importância de uma Maçonaria que seja vivida na sua plenitude, e não apenas estudada ou decorada. O ritual, em si, é um meio, e jamais um fim em si mesmo. Sem a devida aplicação prática dos ensinamentos, a aprendizagem maçónica torna-se infrutífero, privando a fraternidade do seu verdadeiro propósito. A Maçonaria autêntica se revela na forma como cada Maçom vivencia os seus princípios e se empenha na transformação do mundo ao seu redor.

Contudo, há sempre aqueles que, diante dessas reflexões, preferem desviar-se do cerne das questões em debate, buscando desacreditar, com argumentos superficiais, silogismos, chavões e alhures, o pensamento alheio. Acusam incoerência entre o que se professa e o que se pratica, ao mesmo tempo em que se ocultam atrás de uma humildade simulada. A crítica, neste caso, não surge como uma análise fundamentada, mas revela uma tentativa de desviar a atenção das próprias falhas, deixando clara a sua superficialidade.

É interessante notar que, ao tentar desqualificar discussões sérias, como a crítica ao status quo da fraternidade maçónica, abordada no conceito de “Nescionaria”, e ao alegar uma suposta incoerência entre discurso e prática, esses críticos acabam revelando a sua própria inconsistência. A Maçonaria, como bem sabemos, não se resume a palavras; ela se manifesta na prática diária, nas acções e decisões que os maçons tomam ao longo das suas vidas. A verdadeira transformação não acontece por meio de discursos vazios, mas sim por atitudes concretas e alinhadas com os princípios da fraternidade.

Por fim, a Maçonaria autêntica não se presta a debates estéreis ou a julgamentos precipitados. Ela encontra a sua verdadeira expressão na reflexão profunda e na aplicação prática dos seus ensinamentos. Aqueles que se perdem em disputas superficiais, apegando-se a aparências e formalismos, sem comprometer-se com a verdadeira essência da Maçonaria, apenas enfraquecem o espírito da fraternidade. A evolução maçónica exige mais do que palavras; demanda uma postura firme e ética diante da vida — uma lição que alguns, por sua própria escolha, ainda não compreenderam.

Rui Badaró, AltStuhlMeister da Justa e Perfeita Loja de São João, nº 680, Or. de Sorocaba / SP, GLESP

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