Maçonaria e religião: breve visão histórica
Muito antes da Antiguidade, a vida profana confundia-se com o sagrado. A partir da chamada Revolução Cognitiva, ocorrida há, aproximadamente, 50 mil anos, os humanos começaram a conferir significados para a realidade imediata que iam além do mundo material. Aqueles humanos antigos, então, passaram a simbolizar elementos da sua existência. Com isto, fenómenos naturais passaram a não ser apenas o resultado das forças da natureza agindo entre si, mas a manifestação de seres invisíveis, que interagiam neste mundo e, por vezes, controlavam os desígnios da humanidade. Assim, para muitos povos antigos, e também do presente, a vida seria regida pela vontade divina, manifestada por meio de eventos naturais e de acontecimentos das sociedades humanas que incluíam, entre outros, o mundo do trabalho.
É neste sentido que é possível a compreensão da intensa relação estabelecida, na Idade Média da Europa central, tema da nossa atenção por ter sido o berço da Maçonaria, entre o trabalho e a espiritualidade, sobretudo por parte, no que diz respeito à história maçónica, da Ordem dos Templários e das corporações de ofício de construtores(NAUDON, 1964, p. 99 e ss.). Percebe-se nitidamente, nessas instituições, que o trabalho era marcado não apenas pelo carácter operativo (a sua realização em si, como esquadrinhar e cortar pedras, empilhar toras de madeira, trançar fios para fabricar cordas, ordenhar animais, cuidar das plantações, alimentar os animais, entre muitos outros), mas também por muita especulação (observações empíricas da natureza, investigações teóricas, realizações de cálculos, reflexões etc.).
Um dos exemplos mais paradigmáticos desta relação, ou seja, desta mistura entre operativo e especulativo pode ser visto na Regra Beneditina, estabelecida por São Bento de Núrsia no século VI. De acordo com os seus 73 capítulos, as comunidades religiosas cistercienses deveriam ser fixas e contar com todos os meios necessários para a sua sobrevivência. Os mosteiros, portanto, precisavam ser auto-suficientes, de modo que se encontrem no seu interior todas as coisas necessárias, isto é, água, um moinho, um jardim, uma padaria e oficinas, para que se possa exercer no próprio interior do Monastério os diversos ofícios, conforme o capítulo LXVI, versículos 6-7, da Règle de Saint Benoît (SCHMITZ, 2018, tradução do autor). A explicação para isto, neste caso, era a garantia do isolamento dos monges cistercienses, em linha com os preceitos da ordem monástica (JORGE, 2012, p. 39-40).Independentemente das suas origens históricas, a Maçonaria também incorporou, como não poderia deixar de ser, a mistura do Operativo com o Especulativo, observada nas acções de solidariedade, na realização de cultos, nos deveres religiosos, na filantropia e na educação dos aprendizes, incluindo rituais de cunho religioso para a transmissão dos old charges. Entretanto, a peculiaridade da Maçonaria, em comparação com as demais corporações de ofício medievais, residiu na admissão dos chamados aceitos, que incluíam, entre outros, alquimistas. Vale destacar que estes alquimistas, assim como os integrantes da Rosa Cruz aceitos na Ordem maçónica no século XVIII, tiveram grande importância para a consolidação do carácter especulativo da Maçonaria, contribuindo para o aprofundamento dos estudos do que hoje chamamos de desenvolvimento interior, destinados para o trabalho reflexivo por parte dos maçons.
Os aceitos
A liberdade de deslocamento concedida aos franco-maçons medievais os tinha levado a formar laços com pessoas de diversas localidades, tecendo, assim, uma rede de protecção para os que se moviam de um local para outro. Entrado o século XVIII, essa transição completou-se, primeiro na Escócia, depois na Inglaterra, tendo contribuído para isso o declínio, ainda no século XVII, das corporações de ofício e das guildas, acompanhado pelo desenvolvimento e expansão de uma economia capitalista que levou a mudanças nos ritos de sociabilidade entre membros de distintos grupos sociais, em especial a pequena nobreza e a burguesia.
Como resultado da incorporação e ampliação dos aceitos no seu meio, a Maçonaria oitocentista da Europa constituiu-se como espaço de tensões e ambiguidades, na medida em que representava toda a configuração social do Antigo Regime – que teve em França o seu mais alto grau de refinamento -, baseada na simbologia tradicional de hierarquia e condição social, ao mesmo tempo que construía as bases de uma sociedade que hoje pode ser definida, clara e inequivocamente, como democrática. Neste sentido, Vieira lembra que a Grande Loja de Londres era dirigida nos seus primórdios por quatro nobres titulados, cinco fidalgos, cinco profissionais da classe média e cinco artesãos, sendo dois marmorários, um carpinteiro, um ferreiro e um pedreiro (VIEIRA, 1987, p. 199).Nas Lojas, os maçons disputavam o poder, debatiam ideias, concorriam de acordo com regras estabelecidas em leis e Constituições, elegiam os seus representantes por meio de votações, distribuíam funções de acordo com a ocupação que cada Maçom tinha na administração da Loja, preconizavam o abandono das distinções profanas de status e riqueza e possuíam e valorizavam a liberdade de expressão, como bem apontou Margareth Jacob (JACOB, 1991, pp. 179-204). Na sua maioria, não se vinculavam ao Estado e aos seus monarcas e aristocratas, o que lhes conferia um vasto espaço de manobra, fornecendo, desse modo, uma alternativa viável à Igreja e ao Estado, ainda que não estivesse livre de conflitos e cisões.
Como contraponto a estas transformações em curso, lembremos que, nessa mesma época, a França era governada por um dos mais significativos reis absolutistas da Europa e as monarquias ibéricas seguravam-se como podiam nas antigas, e já cambaleantes, estruturas administrativas coloniais calcadas no Antigo Regime, com as suas mercês e concessões de títulos nobiliárquicos como formas de distribuição de privilégios as quais visavam facilitar a dominação das possessões ultramarinas. Porém, chegado o século XVIII, praticamente toda a Europa já contava com as suas Lojas maçónicas. Só em Paris havia 10 mil maçons na década de 1770, para uma população estimada em 600 mil habitantes. Para efeitos de comparação, é como se houvesse, actualmente, 250 mil maçons só na capital paulista – o número real em 2019 é de cerca de um décimo dessa cifra.
No século seguinte, a Maçonaria europeia foi marcada por ideias progressistas que visavam à construção de uma fraternidade entre os maçons que fosse universal, viés este que seria gradualmente abandonado ao longo do século XX, diante da crescente crítica aos modelos alternativos de sociedades, em especial os de natureza progressista, como o comunismo e os socialismos (utópico e científico).Apesar deste retrocesso reformista da Maçonaria ocorrido na passagem do século XIX para o XX, um marco renovador que perdurou foi a liberdade de culto concedida a todos os seus integrantes, respaldada pela criação e inserção de símbolos, lendas e mitos que, conforme afirmou o Grande Orador do Supremo Conselho da França num pronunciamento realizado no começo dos anos 2000, tornou a Maçonaria, em especial o Rito Escocês Antigo e Aceito, livre do reducionismo e aberta à multiplicidade de interpretações, até mesmo opostas entre si (ICHER, 2004).
Espiritualidade no REAA
A forte carga simbólica do REAA foi criada num momento em que a espiritualidade europeia ainda não havia saído, de maneira ampla, dos domínios das religiões católica e protestante, o que explica o facto de a Bíblia ter sido a inspiração para essa construção. Este cenário começou a ser mudado ao longo da segunda metade do século XVIII, com a inserção do hermetismo, do gnosticismo, do misticismo, da cabala e da Rosa Cruz. No século seguinte, fé e razão começavam a ter as suas fronteiras sendo bastante bem definidas, com o crescimento do pensamento laico e do materialismo, em especial entre as camadas cultas. Este cenário colocou em confronto o tradicionalismo das chamadas religiões do Livro e a espiritualidade filosófica e ampla.
O clima de contestação espiritual chegou à Maçonaria e instigou o que ficou conhecido como a Querela do Grande Arquitecto do Universo. Em 1872, Lojas da Bélgica, e depois em 1877, na França, deixaram de obrigar que os trabalhos fossem dedicados à Glória do Grande Arquitecto do Universo. Diante deste impasse, lideranças do Supremo Conselho da França, na Convenção de Lausanne, de 1875, decidiram pela universalização do tratamento destinado ao Grande Arquitecto do Universo, em vez de limitá-lo ao Deus das religiões, referindo-se a Ele como Criador Supremo, Princípio Criador e Força Superior – lembremos de muitas outras denominações como Deus, Essência Divina, Causa Primeira, Eterno, Ser Supremo, Consciência Ilimitada, Energia, Poder Universal, Natureza Original, Verdade Final, Amor, Perfeição, Luz. Desenvolvia-se, deste modo, o princípio da Liberdade Absoluta de Consciência. Contudo, a decisão tomada em Lausanne não pacificou as ânimos e gerou novas polémicas que perduram (ICHER, 2004).
A falta de concórdia derivada das medidas adoptadas em Lausanne pode ser melhor explicada se forem observadas as particularidades das Maçonarias francesa, também conhecida como Maçonaria Liberal (Grande Oriente da França),e inglesa, chamada de Maçonaria Regular (Grande Loja Unida da Inglaterra): a primeira, praticada na França e no continente europeu, foi marcada pelas transformações trazidas pelo iluminismo e pela Revolução Francesa que defendiam os direitos como algo intrínseco aos homens, acima de qualquer crença religiosa; a segunda, caracterizada pela tradição e por uma monarquia conservadora. Os lemas de cada uma destas maçonarias revelam essas diferenças conceituais: “Liberdade, igualdade e fraternidade” (França) e “Sabedoria-Força-Beleza”, que nos EUA se tornaria “Fraternidade, Auxílio e Verdade”.
Em 1961, estas diferenças seriam retomadas e aprofundadas. Nesse ano, o Grande Oriente da França e potências liberais fundaram o Centro de Ligação e de Informação das Potências Maçónicas Signatárias do Apelo de Estrasburgo (Clipsas),do qual decorreu a liberdade para as Lojas de: utilizarem ou não a Bíblia; saudarem ou não o Grande Arquitecto do Universo; iniciarem mesmo os que não acreditam na imortalidade da alma; aceitarem ou não ateus; incorporarem pessoas portadoras de deficiências físicas; interpretarem livremente a simbologia maçónica; e debaterem sobre política e religião.
Disputas ideológicas de natureza espiritual à parte, a decisão manifestada na Convenção de Lausanne vai em linha com os preceitos filosófico-iniciáticos da Maçonaria, manifestados no próprio Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), de uma proposta de retorno a si mesmo ainda antes da cerimónia de Iniciação e, sobretudo, ao longo desta. Este giro ontológico, esta guinada para dentro, exige do neófito, seguindo a própria ritualística, um esforço intelectual, a instrumentalização de uma razão a serviço de uma busca espiritual. Surge, daí, a necessidade de questionarmos o dualismo tão conclamado nos estudos dos séculos XVIII e XIX feitos sob a perspectiva da industrialização e modernização, a qual opõe, de um lado, a fé, e de outro, a razão. Apesar do inegável industrialismo e dos avanços técnico-científicos promovidos durante esse período, os quais a partir de 1789 se vão juntar ao radicalismo político, jacobino ou não, esse período também deve ser lembrado como o do surgimento de muitas ideias e atitudes que buscavam no além respostas para os dramas e as dúvidas de muitas pessoas.
Por toda a Europa, a partir de meados do século XIX, intensificou-se a procura pelo sobrenatural e místico, que visava obter respostas para problemas que o crescente incremento tecnológico e o desenvolvimento industrial não eram capazes de dar. Assim, milhares de pessoas procuravam no além a resposta para as suas angústias pessoais, além de contactos com os mortos, acções que podiam ser atendidas não por meio das tecnologias industriais, mas pelo misticismo. Mesas volantes, gurus espirituais, práticas que se diziam vir do Oriente, novas concepções filosófico-religiosas e clubes místicos se espalhavam por todo o continente europeu
(OLIVEIRA, 2019, pp. 28-29).
Concluímos, deste modo, que nenhuma época histórica deve ser analisada sob o prisma de categorizações amplas que promovam restrições ou alargamentos conceituais que estejam descolados do quotidiano daqueles que o viveram.
(Continua)
Paulo Ferraz de Camargo Oliveira

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- Ser Maçom: uma questão de liberdade
- Guerra em Tempos de Paz
- Fiat Lux – A iluminação do Maçom
- Democracia e Maçonaria


Meu honrado Ir.’.. A cada postagem, tenho observado a relevância de todos os trabalhos. Com isso tenho me aprumado através de peças de arquitetura as quais tenho apresentado em minha Loja. Parabéns pelas pesquisas, pois aqui no Brasil, mais especificamente no Estado do Rio Grande, tenho divulgado as postagens, através de compilações ou comentários muito pertinentes.