Filosofia Iniciática do Grau de Aprendiz (IV)

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As letras do alfabeto

O estudo e o conhecimento dos três primeiros números deve ser integrado e completado pelas cinco primeiras letras, que são as que especialmente se referem ao grau de Aprendiz. Este estudo é aquele relativo à gramática simbólica com a qual deve se familiarizar o adepto do primeiro grau.

Uma vez conhecidas as letras, será possível combiná-las relacioná-las mutuamente, por meio da lógica, e assim ler as palavras que resultem da sua combinação. E com a experiência adquirida no estudo da Lógica, adestrando-se na Retórica, isto é, no uso construtivo do Verbo Criador.

A primeira letra do alfabeto mostra na sua forma greco-latina os dois princípios ou Forças Primordiais que partem do ponto originário e formam o ângulo; a dualidade que expressa a Unidade e produz a manifestação ternária; o triângulo que nasce do ângulo, por intermédio de uma linha horizontal – o terceiro Princípio ou elemento – que une os seus dois lados.

Como primeira letra, assim como pelo simbolismo evidenciado na sua forma, mostra-nos a origem de tudo e a sua progressiva manifestação; a involução ou revelação do Espírito no reino da forma e da matéria.

A forma hebraica desta mesma letra (cujo nome é alef, que significa “boi” e que tem o valor numérico um, apresenta-nos na linha oblíqua central o Primeiro Princípio Unitário do qual se manifestam as duas Forças ou Princípios, respectivamente ascendente e descendente, ou seja centrífuga e centrípeta, masculina e feminina, representadas pelas duas colunas. É em si mesmo um signo de equilíbrio, enquanto demonstra o domínio dos opostos e a Harmonia produzida pela sua actividade coordenada. No seu conjunto indica a tri-unidade, isto é, a Trindade manifestada pela Unidade.

A letra B é uma clara expressão da dualidade dos dois Princípios que evidenciam a Lei de Polaridade; mostra a relação entre o Superior e o Inferior – o Céu e a Terra, uma dupla relação curvada e bem diferente nos seus dois aspectos no lado direito (que corresponde à involução ou revelação do Espírito na matéria), e direita do outro lado (ao lado ascendente que corresponde à evolução do Espírito expressado na Matéria). O lado direito monstra o domínio do homem, e a dupla linha curva, o da natureza.

Já falamos do significado desta letra, em relação às demais, que formam a Palavra Sagrada.

A forma da letra C é originariamente a de um esquadro, e com tal se apresenta nos alfabetos fenícios, etrusco e grego (onde tem o nome de gamma e o som da letra G). Como tal, o seu significado primitivo é o do instrumento Maçónico da rectidão. Enquanto a sua forma latina, mostra um arco que podemos considerar emblemático da tensão da energias individuais para alcançar um fito ou objecto determinado. Também, representa o ciclo descendente da involução, que deve completar-se com a obra individual de ascensão evolutiva.

No alfabeto hebraico esta letra toma o nome de guimel (camelo) e tem o valor numérico três. Refere-se ao progresso vertical individual do homem de baixo para cima, como o mostra a pequena linha ascendente que forma o pé da figura.

O camelo, conhecido pela sua torpeza como pela sua docilidade e resistência, mostra o corpo do homem, que de obstáculo deve transformar-se em instrumento dócil e resistente para a expressão das possibilidades superiores da vida. Este simbolismo encontra de uma certa maneira uma correspondência na forma egípcia da dita letra, que representa um avental, símbolo da pele ou corpo físico do homem.

A letra D está representada por um triângulo nos alfabetos dos quais derivou a sua forma latina. Este triângulo, é o mesmo delta, e com esse nome é conhecida no alfabeto grego.

Si bem que também a forma difira do mesmo modo que a precedente letra do alfabeto grego), o seu nome no alfabeto hebraico é daleth, significando “porta”, com valor numérico quatro. Mostra efectivamente um dos lados ou colunas que suportam a arquitrave e formam com o mesmo a porta. Representa a introdução parcial ou imperfeita do Aprendiz na Verdade, tendo reconhecido unicamente um dos seus dois lados ou aspectos.

Quanto à forma latina, cujo valor numérico é 500, não nos é difícil ver nela igualmente uma porta com o arco; mas posta horizontalmente.

A letra E necessita, para a sua interpretação, que a confrontemos com a forma fenícia primitiva da qual descende, e que damos juntamente com a greco-latina. Aparenta esta letra a forma de três esquadros que se sucedem numa mesma linha, clara alusão aos três passos da Marcha do Aprendiz. Também indica, na sua forma greco-latina, os três mundos ou planos de existência, através dos quais se manifesta um idêntico Princípio de Vida (a linha vertical).

A letra hebraica he, à qual corresponde o valor numérico cinco – e cujo nome significa “buraco” ou “janela” – mostra o progresso realizado pelas aspirações do Aprendiz em relação à letra precedente, e indica claramente a senda que se abre para reconhecer e manifestar as suas potencialidades latentes.

A lógica e a retórica

O estudo da Gramática conduz naturalmente ao da Lógica, isto é, à compreensão do Verbo ou Logos que constitui a Realidade interior representada por cada símbolo ou letra da Verdade, assim como ao reconhecimento das suas relações.

A lógica é pois, primitivamente, a faculdade de relacionar as letras simples para formar e interpretar palavras ou orações, isto é, conjuntos harmónicos que tem um sentido definido; e este sentido possui o mesmo Verbo ou logos que se encontra no princípio de tudo: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”.

A Gramática, ou seja o estudo dos símbolos, é pois, uma introdução ao conhecimento ou percepção espiritual da Realidade que é o Verbo. Este conhecimento faz-nos entrever a relação lógica entre todas as coisas, e particularmente entre as causas e princípios invisíveis e os seus efeitos visíveis.

Com a Retórica aprendemos o uso deste conhecimento, levando à expressão, o Verbo ou princípio latente do que desejamos. A eficácia e efectividade desta faculdade depende inteiramente do progresso realizado na precedente: devemos aprender a relacionar-nos intimamente com o Verbo Criador, para poder expressá-lo e depois vê-lo manifestado.

Quando entendemos o significado esotérico destas duas Artes, facilmente compreenderemos porque o aprendiz pode tão somente familiarizar-se com os seus primeiros rudimentos, na medida em que estes o ajudam a melhor dominar a Gramática. Somente ao Companheiro será possível medir com a sua inteligência os significados da Lógica, e só o Mestre poderá avançar com real eficiência no domínio da Retórica.

O Templo

O Templo é o lugar onde se desenvolvem os trabalhos Maçónicos e é reunida a Loja, manifestação do Logos ou Palavra que vive em cada um dos seus membros e encontra no seu conjunto uma expressão harmónica e completa.

É, ao mesmo tempo, um lugar de trabalho e de adoração, uma vez que nunca cessa de se construir enquanto for de real proveito a todos; e como esta construção simbólica necessita ser a expressão do Plano do Grande Arquitecto, no qual a actividade construtiva busca a sua inspiração, este esforço constante em direcção à Verdade e à Virtude é a mais efectiva e verdadeira adoração.

Etimologicamente, a palavra templo relaciona-se com o sânscrito tamas, “escuridão”, de onde vem também o latim tenebrae (por temebrae), “Trevas”. Significa, portanto, lugar escuro, e por conseguinte “oculto”, aludindo ao antigo costume de construir os templos em grutas ou criptas subterrâneas, fora da luz exterior e ao amparo da indiscrição profana.

Isto informa-nos que todos os templos no princípio, foram antes de tudo, lugares de recolhimento e silêncio; e da mesma forma também o são os templos sucessivamente erigidos sob uma forma arquitectónica específica mas sempre caracterizados interiormente por essa penumbra mais ou menos completa que favorece à concentração do pensamento e à sua elevação para o transcendente, em direcção ao que há de menos conhecido e misterioso.

Também este isolamento do mundo exterior é favorecido por uma atenção mais profunda sobre os ritos e cerimónias que nesses templos – sejam religiosos ou iniciáticos – se tem sempre desenvolvido.

O Templo Maçónico é um quadrilongo estendido do Oriente ao Ocidente, isto é, “em direcção à Luz”. A sua largura é do Norte ao Sul (desde a potencialidade latente à plenitude do manifestado), e a sua altura do Zénite ao Nadir. Isto quer dizer que praticamente não tem limites e compreende todo o Universo, no qual se esparge a actividade do Princípio Construtivo, que sempre actua na direcção da Luz, como pode ser observado em toda a natureza.

Todos os templos antigos, qualquer que fosse o uso ao qual estivessem destinados, apresentavam esta característica comum de orientação, muitas vezes com maravilhosa exactidão. Ainda que a orientação mais frequente seja aquela que exactamente é indicada pela própria palavra (em direcção ao Oriente), alguns templos apresentam a direcção oposta, estando a porta situada do lado do Oriente, para que os primeiros raios do Sol incidam em determinado ponto, que resplandece repentinamente na semi-escuridão do lugar. Em alguns casos, familiares aos arqueólogos, esta orientação na direcção ao Sol é feita por intermédio de um corredor estreito, de forma que os raios luminosos por ele possam passar unicamente em certo dia ou época do ano (geralmente solstício e equinócio). Outros templos estão orientados em direcção a alguma estrela particular de primeira magnitude (como Sirius, Canopus, ou a Estrela Polar, em certos templos egípcios).

Quanto às três dimensões do Templo, podemos considerá-las até certo ponto equivalentes; tanto o Norte e o Zénite, como o Oriente, indicam o Mundo Divino dos Princípios ou domínio do Transcendente; enquanto o Sul, o Nadir e o Ocidente representam, de diferentes modos, o mundo manifestado ou fenoménico.

A diferença baseia-se principalmente em que a direcção do Oriente ao Ocidente se refere à Senda da vida ou Caminho do Progresso; a do Norte ao Sul, à Lei dos ciclos, que nos aproxima alternativamente do domínio das Causas e dos Efeitos; e a vertical, ao Pai e a Mãe, de quem somos igualmente filhos, ou seja, às duas gravitações, celestial e terrena, que respectivamente atraem a nossa natureza espiritual e material.

Também podemos ver nestas três direcções dimensionais uma alusão aos três movimentos da Terra: de rotação (Oriente-Ocidente), de revolução (Norte-Sul) e de precessão (Zénite-Nadir): ou seja, as três dimensões dinâmicas do mundo em que vivemos.

As três luzes

Três grandes colunas sustentam o Templo Maçónico (distintas das duas que se encontram no Ocidente): a Sabedoria, a Força e a Beleza, ou seja a Omnisciência, a Omnipotência e a Omnipresença do G. A., reafirmadas como Princípios de Verdade, de Actividade e de Amor ou Harmonia. Estas três colunas representam ao Venerável Mestre e ao 1°e 2° Vig. que tem assento respectivamente no Oriente, no Ocidente, e no Meio dia, onde são manifestados respectivamente aquelas três qualidades.

O Delta luminoso, com o Olho Divino no centro, brilha no Oriente por cima do assento do Venerável Mestre, símbolo do Primeiro Princípio, que é a Suprema Realidade, nos seus dois lados, ou qualidades primordiais que a definem, expressas em síntese inimitável no trinómio vedântico Sat-Chit-Ananda.

Nos dois lados do Delta, que representa a verdadeira luz (a luz da Realidade transcendente), aparecem o sol e a lua, os dois luminares visíveis, manifestação directa e reflectida dessa luz invisível, que ilumina a nossa terra e que simbolicamente representam a Luz Intelectual e a Material.

O pavimento de mosaico

A três passos da porta, que se encontra no Ocidente, estão situadas as duas colunas, J. e B., emblema dos dois princípios e dos pares de opostos que dominam o mundo visível. A actividade combinada destes dois princípios aparece manifestamente no pavimento de mosaico em ladrilhos brancos e negros, que se estendem desde a base das colunas em direcção ao Oriente, igualmente em forma de quadrilongo, ocupando o centro do Templo.

O pavimento de mosaico é um belo emblema da multiplicidade engendrada pela dualidade, constituída pelos pares de opostos que se encontram constantemente um perto do outro; o dia e a noite, a obscuridade e a luz, o sonho e a vigília, a dor e o prazer, as honras e as calúnias, o êxito e a desilusão, a sorte e o azar, etc. Sobre estes opostos, que se encontram em todos os caminhos e em todas as etapas da nossa existência, o iniciado que tenha provado da Taça da Amargura deve marchar com ânimo sereno e igual, sem se deixar exaltar pelas condições favoráveis nem se reprimir pelas aparências desfavoráveis.

Por cima desta visão dualística da vida formada por pares de opostos, levanta-se a ara ou Altar (etimologicamente “altura” ou elevação), símbolo da elevação dos nossos pensamentos, por meio do qual percebemos a realidade transcendente que se esconde sob a aparência contraditória, e atingimos o conhecimento da palavra, ou seja da Verdade, que é o propósito intimamente benéfico de toda experiência, sempre compreendida como útil ao nosso progresso e benefício mais verdadeiro.

As três luzes que se encontram sobre o altar, formando um triângulo equilátero, representam a necessária relação, que deve existir na nossa inteligência, entre a dualidade ocidental (ou fenoménica) das colunas e a Unidade Oriental da Verdadeira Luz, por meio da qual se realiza o ternário da harmonia e do perfeito equilíbrio, sobre todos os extremos e as tendências dualistas.

Entre estas luzes tem o seu lugar mais conveniente o livro sagrado, símbolo da Verdade que se encerra na tradição, uma vez que saibamos convenientemente interpretá-la por meio das nossas faculdades inteligentes, representadas pelo esquadro e o compasso que são colocados sobre esse livro para que possamos realmente compreendê-lo e medi-lo em toda a sua extensão.

O Céu

O tecto da Loja representa um céu estrelado, imagem do Infinito e da sua manifestação activa nos infinitos pontos ou centros luminosos, que expressam de dentro para fora a Luz Latente do Princípio Supremo.

Este Céu representa o espaço do qual cada ponto é igualmente centro geométrico, origem e fim. A sua cor azul, em contraste com o vermelho do pavimento, é representativa das mais elevadas vibrações, tanto individuais como cósmicas, que estão por cima da manifestação sensível, e a completam e coroam.

Podemos ver nele também, uma imagem da nossa mente, ou mundo causativo interior, que preside às condições da vida, aproveitando-as construtivamente e transmutando-as. As estrelas representam as Ideias Divinas, que manifestam o mundo da Realidade e da Verdade, as ideias salvadoras que revelam o Plano do G. A. e guiam em harmonia com ele, os nossos pensamentos e acções, os ideais que nos inspiram e orientam em todas as etapas da nossa existência.

Sob o tecto, desde a porta ocidental, onde terminam os seus dois extremos, está a mística cadeia de união, entrelaçada em doze nós laterais e descansando sobre os capitéis de doze colunas assim distribuídas: seis no lado Norte e seis no Sul, simbolizando os seis signos ascendentes e os seis signos descendentes do zodíaco.

A cadeia é o laço interior que une todos os maçons por cima das suas diferenças pessoais, fazendo deles uma só Família Universal. Este laço interior deve ser buscado individualmente, esforçando-se cada um em manifestar o mais elevado em pensamentos e ideais (os capiteis em que descansa). É também a corrente da causalidade que se manifesta ininterruptamente no mundo dos efeitos, no qual todo pensamento ou acto é efeito de uma causa antecedente, e causa por sua vez, de um efeito consequente.

Assentos e posições

Em ambos os lados, Norte e Sul, estão os assentos, respectivamente, dos Aprendizes, dos Companheiros e dos Mestres: os primeiros devem sentar-se na região menos iluminada pelo Sol por serem ainda incapazes de suportar a plena luz do Meio-dia, onde os Companheiros e os Mestres, do lado do Ocidente e do Oriente, respectivamente, trabalham proveitosamente, os primeiros ajudando aos últimos.

A parte oriental do Templo encontra-se erguida sobre três degraus, em relação ao piso da Loja, significando com isso que não é possível chegar ao mundo das Causas a não ser, elevando-se por meio da abstracção e da meditação às regiões superiores do pensamento, onde aparecem com clareza os Princípios originários que constituem a Essência Eterna das coisas sensíveis.

Sobre esta elevação tomam assento, respectivamente ao Norte e ao Sul, e à direita e à esquerda do Venerável Mestre, o Secretário e o Orador, e mais abaixo, o Hospitaleiro e o Tesoureiro, o Porta Estandarte e o Mestre de Cerimónias. Estes com os dois Diáconos, os dois Expertos e o Guarda do Templo, constituem os oficiais da Loja, que cooperam com os três Dignatários nas diferentes cerimónias que se desenvolvem para a ordem e harmonia dos trabalhos.

De acordo com a etimologia que temos dado a esta palavra, o templo Maçónico não tem janelas: isto significa que não recebe luz de fora, mas unicamente de dentro. Por esta razão deve ser fechado hermeticamente ao mundo profano e a sua porta está constantemente vigiada pelo Guarda do Templo, armado de espada, símbolo da vigilância que constantemente devemos exercer sobre os nossos pensamentos, palavras e acções, para fazer delas um uso construtivo, e progredir constantemente na senda da Verdade e da Virtude.

Maxell Egens

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