Creio que a teurgia não é comummente compreendida no mundo moderno em geral. Para a definir em termos modernos, chamamos-lhe “magia divina”. Jeffrey Kupperman, autor de Living Theurgy: A Course in Iamblichus’ Philosophy, Theology and Theurgy, observou que a sua origem é “trabalho de Deus”. Embora as práticas e os praticantes da teurgia já existissem há milhares de anos, foi só a partir de 4th d.C., quando se escreveram os Oráculos Caldeus, que temos provas escritas da teurgia. “Pois os theourgoi não caem sob a mão governada pelo destino.” A partir deste fragmento de escrita com 2000 anos, compreendemos que aqueles que praticavam a teurgia eram considerados responsáveis pelos seus próprios destinos.
Através de mudanças sociais e culturais ao longo de milhares de anos, o conhecimento e o uso do termo “magia” tornou-se pessoal, individual e dissociado da religião e da santidade. Há muitas razões para esta alteração. No entanto, como membros de uma escola de mistérios moderna que se desenvolveu a partir de filosofias neoplatónicas, os Maçons devem lembrar-se da fonte original deste poder, como mencionado acima: o poder divino e omnipotente foi e é magia.
Para alcançar o entendimento com os deuses, era necessário um processo de feitiços, invocações, rituais e utilização de símbolos divinos para conseguir a comunhão divina. Isto é feito ainda hoje, na maioria das grandes religiões e em alguns dos nossos ramos seculares da religião. Temos ovos na Páscoa, luzes no Hannukah e o dervixe sufi. A comunhão é simbolismo em forma teúrgica, tal como o uso dos elementos físicos clássicos em qualquer ritual iniciático.
Os resultados desejados de “aperfeiçoar a humanidade” surgem porque a Maçonaria é um processo experiencial que “acelera a evolução” do indivíduo. Este, por sua vez, desenvolve toda a humanidade. O primeiro objectivo da Maçonaria Esotérica é desenvolver talentos e capacidades não utilizados e subdesenvolvidos. Por que razão é esse o objectivo? Com que objectivo?
O neófito é informado de que “… os factos do mundo invisível foram revelados aos puros, e assim, dentro de cada religião, foram encontrados homens que, conhecendo os segredos deste mundo, podiam explicar e defender a religião.” Como é que alguém se torna suficientemente adepto para ser capaz de compreender os factos do mundo invisível? Fazemo-lo através de uma série de alegorias e da contemplação de símbolos encontrados na nossa Iniciação, e em todos os outros rituais maçónicos. O processo da Maçonaria não é relacionar ou instruir o que os símbolos significam, pois é adogmático. No entanto, existem pontos de orientação e marcos, que dizem ao neófito que isto é Maçonaria. Para ganhar a capacidade de trabalhar como um oficial no ritual, o iniciado deve passar algum tempo após a sua iniciação a aprender as regras, regulamentos, usos, costumes e hierarquia que a Maçonaria delineia. Os neófitos são obrigados a estudar e a actuar sobre esses estudos com perguntas e contemplação, para cultivar a sua própria cosmologia.
Mais do que isso, o neófito é instruído a desenvolver os “dons” com que Deus o dotou, entre muitos outros melhoramentos do seu carácter. Estes ensinamentos estão bem expostos na Instrução Tradicional de Primeiro Grau, que todo o Aprendiz deve ouvir antes de tomar outros graus. A base destes ensinamentos não é forçar alguém a “seguir as regras”. É uma estrutura estabelecida através da qual o neófito é guiado para encontrar o seu próprio caminho através da escuridão, para ter as suas próprias revelações e para endireitar “coisas tortas”. Isto é feito através da observação, da contemplação silenciosa e de perguntas. Este método é a base do nosso trabalho maçónico e deve ser aplicado ao longo de toda a nossa carreira maçónica. Talvez por isso se diga muitas vezes que todos os maçons, independentemente dos graus por que passam, estão sempre no “Primeiro Grau”.
Quero deixar claro que a Maçonaria não pode explicar ao indivíduo cada padrão, cada significado simbólico, ou cada alegoria contida nos seus rituais. A Maçonaria oferece oportunidades para os seus aderentes exercitarem e aumentarem as capacidades necessárias para desenvolver esses “talentos não utilizados e subdesenvolvidos”. Embora este objectivo específico da Maçonaria Esotérica não seja exactamente teurgia, é necessário para se poder avançar para os dois objectivos teúrgicos seguintes, tal como enumerados acima.
Deve-se notar aqui que esta é a razão, creio eu, pela qual os filósofos foram os primeiros teurgistas. Para compreender a Divindade, precisamos de apreciar e reverenciar a Natureza, para ler os símbolos e padrões que aí se encontram e que nos informam sobre a Vontade Divina. Os filósofos antigos estudaram todas as partes da experiência humana e, assim, chegaram a compreender a natureza divina de todo o universo para desenvolver a sua cosmologia. Só então podiam procurar comungar com a Divindade e aprofundar o conhecimento da raça humana.
Na Terceira Parte, aprofundaremos o segundo objectivo da Maçonaria Esotérica, o de compreender o ciclo da vida e da morte.
Kristine Wilson-Slack
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte

- Expectativas elevadas
- O grande segredo Maçónico
- O discurso de Friedrich Ludwig Schröder
- A Maçonaria não é uma religião
- Os Maçons na História Americana

