Fundamentos teúrgicos da Maçonaria (III) – Katabasis

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Fundamentos teúrgicos da Maçonaria, Katabasis

O segundo objectivo da Maçonaria Esotérica é guiar o neófito a compreender o ciclo da vida e da morte, e o caminho físico/espiritual que todos estamos destinados a percorrer. Isto é conseguido através daquilo a que os filósofos pré-socráticos chamavam katabasis. O significado desta palavra é “marchar em descida”. A analogia usada era a descida ao submundo, para obter conhecimento, compreensão ou um resultado pessoal desejado. Muitas das antigas iniciações de mistério foram construídas sobre o mito de um humano, semi-deus ou deus descendo ao submundo para conversar com Hades, por exemplo. Para Empédocles, a sua morte na cratera de um vulcão era indicativa da sua descida ao Hades e era, a partir daí, esotericamente representada por um recipiente de mistura (krater), onde os componentes da matéria terrena e espiritual eram separados. Tal como a Maçonaria, estas iniciações eram alegóricas, sendo cada aspecto representativo de um conceito maior.

A Katabasis é evocada na cerimónia pré-ritual para o neófito maçónico. Em muitas organizações maçónicas, é utilizada uma câmara onde o candidato deve reflectir sobre a sua vida, e esta câmara simboliza uma gruta subterrânea. Ele deve descer para comungar com a voz espiritual que se encontra no seu interior. São-lhe dadas instruções sobre o que fazer com os materiais que estão à sua frente, e é-lhe dito “Separar e Unir são os grandes processos do universo”. Aqui o neófito está rodeado pelas recordações da sua vida terrena. Aqui ele contempla a cerimónia que está prestes a realizar, a sua Iniciação na Maçonaria. Figurativamente, ele desceu à matéria para alcançar algo para além de si próprio, para criar algo que faz parte de um todo. O que é da sua própria mente e da sua própria criação.

Esta descida às entranhas da terra encontra-se não só nas iniciações dos mistérios órficos e pitagóricos, mas também nos mistérios eleusinos e dionisíacos. Em cada um deles, o homem ou o deus tem de descer para reencontrar a vida. Podemos concebê-los como a Jornada do Herói, tal como foi delineada por Joseph Campbell. No entanto, não se trata da viagem singular do heroísmo do homem terreno, mas do heroísmo de encarnar para promover a evolução da humanidade. A ideia não é residir para sempre na terra, ou sobre ela, mas passar pelas etapas necessárias para o nível seguinte.

O neófito continua a sua katabasis quando lhe é pedido que se prepare para a indução. Isto faz lembrar as piscinas de Letes e Mnemosine, o esquecimento e a memória, respectivamente. Beber da piscina de Letes (lee-thee), o esquecimento, é esquecer as vidas passadas, as lições aprendidas e a nossa natureza divina. Nos mistérios órficos ou pitagóricos, os neófitos eram orientados a beber da taça de Mnemosyne (neh-mow-zeen) ou memória, para poderem sair da “roda da reencarnação na matéria” e comungar com os deuses. Esta orientação para beber, nestas cerimónias antigas, vem depois de o neófito declarar que “sou filho da terra e do céu estrelado, mas o céu é o meu nascimento”. A isto responde-se com o seguinte diálogo: “…quando tiveres bebido, percorre o caminho sagrado que outros iniciados e bacantes percorrem em glória. Depois disso, governarás entre os outros heróis”. Aqui, na Maçonaria, o nosso neófito recebe um desafio semelhante: não cair na luta, mas conquistar.

O aspirante a Maçom deve continuar esta katabasis até chegar ao ponto em que renunciou à sua substância física, emocional, mental e espiritual e se tornou o seu eu puro. Este processo é levado a cabo pela totalidade dos oficiais e da Loja para todas as iniciações e a magia divina, a teurgia, está a guiar o candidato. Neste caso, os oficiais são os theourgoi, aqueles que executam a magia divina no veículo de todo o ritual. Porque é que uma pessoa não pode simplesmente experimentar a katabasis por si própria? De facto, nós experimentamo-la sozinhos, se virmos que entramos nesta vida terrena sozinhos. Retiramo-nos da totalidade da consciência, uma verdadeira piscina de pensamentos, para nos tornarmos singulares e individuais. Esta é, afinal, a experiência humana. No entanto, para recordar as palavras dos nossos antepassados, o nosso “nascimento celestial”, precisamos de recordar o que é trabalhar em conjunto com toda a consciência. Precisamos de outros que tenham percorrido o caminho, que se lembrem, e que sejam treinados nas formas de comunhão com a divindade, através da teurgia, para nos ajudarem ao longo do caminho. Embora possamos ser um mundo de indivíduos, não estamos a tentar ficar aqui.

Estamos a tentar alcançar a henosis, que discutiremos na Parte IV.

Kristine Wilson-Slack

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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