Jesus Ben Pandira – Uma lenda medieval

heaven kj564erttgddd

O Sepher Toldoth Yeshu é um manuscrito, provavelmente elaborado por judeus cabalistas no século XII ou XIII, época mais cruciante da relação entre os cristãos, muçulmanos e judeus. Apareceu na região chamada Provença, território hoje dividido entre França e Espanha, que na época abrigava colónias bastante representativas de judeus e muçulmanos, além de cristãos não muito ortodoxos, dissidentes da doutrina pregada pela Igreja de Roma. A Provença, mais precisamente no território conhecido como Languedoc, foi a terra onde floresceu a heresia dos cátaros, uma importante seita dissidente da Igreja Católica, que deu muita dor de cabeça para o Vaticano e para as autoridades seculares dos reinos cristãos. Tanto que uma verdadeira cruzada teve que ser mobilizada pelo papa e pelo rei da França para debelar essa heresia, a qual só aconteceu depois de um cruel genocídio, em que milhares de pessoas foram mortas na fogueira e em consequência dos combates travados entre os membros dessa seita e os cruzados liderados pelo Conde Simão de Montfort.

O Sepher Toldoth Yeshu é uma outra história de Jesus, contada do ponto de vista dos judeus que desprezavam o cristianismo. Este manuscrito, escrito com claras intenções de ridicularizar o credo cristão, procura mostrar que a história do Jesus cultuado pelos cristãos foi, na verdade, copiada da história de um mago embusteiro que viveu cerca de cem anos antes do Jesus dos Evangelhos. Assim, o Jesus cultuado pelos cristãos como sendo o Messias, Filho de Deus, era um personagem de ficção, que embora real do ponto vista histórico, foi “montado” com base na vida de outro personagem que teria vivido cerca de cem anos antes. Em resumo, essa história seria a seguinte:

No reinado de Alexandre Janeu (173-76 a. C), na aldeia de Belém, vivia uma jovem chamada Maria. Ela estava prometida a um homem chamado João, e com casamento já marcado. Mas um soldado romano chamado José Pandira a seduziu e ela engravidou dele. Quando João soube que a sua noiva estava grávida, ele foi consultar o rabino Simão Ben Shetach, que o aconselhou a denunciar o caso ao Sinédrio. Mas João, envergonhado, preferiu fugir para o Egipto.

Entretanto, Maria deu à luz um menino e chamou-o Jesus (em hebraico Yehoshua, Yeshu (ישוע/ יֵשׁוּעַ). Jesus cresceu e a sua condição de filho bastardo (pois a sua mãe não pode casar-se com outro homem) fez dele um sujeito rebelde e insolente. Vivia promovendo distúrbios e conflitos, de tal forma que era considerado um bandido pelas autoridades civis e religiosas da Judeia. Odiado e perseguido pelos membros do Sinédrio, ele acabou sendo expulso da Judeia e foi morar na Galileia, na aldeia de Nazaré. Mas quando lá se soube que ele era filho de uma adúltera, ele logo foi expulso de Nazaré também. Secretamente, voltou para Jerusalém, e estabeleceu-se numa aldeia próxima à cidade, provavelmente Betânia.

Havia, naquele tempo, uma pedra no Templo de Jerusalém, onde estava gravada a Shem-ha-Mephorash. Essa era a Palavra Sagrada, que continha os setenta e dois nomes secretos de Deus, bem como o seu verdadeiro nome. O conhecimento dessa palavra e das combinações entre as suas letras e valores numéricos, juntamente com a pronúncia correcta desse Nome dava grandes poderes a quem a conhecesse. Essa pedra, segundo uma antiga tradição, teria sido esculpida pelo patriarca Enoque e fora colocada num templo que ele erigira ao Eterno Deus antes do dilúvio. Mas com a destruição causada pelo dilúvio, ela teria sido perdida, sendo, porém, redescoberta pelo rei David quando os seus pedreiros começaram a cavar os alicerces para a construção do Templo de Jerusalém. Essa pedra foi colocada no Altar do Templo (o Santo dos Santos) e somente o sumo sacerdote e alguns sábios eleitos tinham conhecimento do Nome Inefável que ela revelava. Por isso, esses sábios, receando que alguém, não pertencente a esse grupo de eleitos, tomasse conhecimento da Palavra Sagrada escrita na pedra e adquirisse o poder que ela conferia aos seus conhecedores, mandaram colocar dois leões de bronze à entrada do santíssimo do Templo. Esses leões rugiam quando alguém, não credenciado, contemplava a Palavra Sagrada, e o rugido deles provocava no profano um total esquecimento.

Jesus, sabendo disso, entrou no Templo e registou as letras sagradas num pergaminho. Depois cortou a própria carne, escondeu o pergaminho dentro dela e voltou a fechá-la. Ao sair os leões rugiram e ele esqueceu-se de tudo, mas, já fora da cidade, ele abriu a sua carne, retirou o pergaminho e relembrou-se da Palavra Sagrada.

Na posse do conhecimento dessa Palavra ele foi a Jerusalém e proclamou-se o Messias das Escrituras, dizendo: “Não sou filho de uma virgem? Eu sou o Filho de Deus que Isaías profetizou que viria de uma virgem!”. Dizia isso porque a sua mãe, quando o concebeu era uma mulher que ainda não conhecera homem.

Quando os ouvintes lhe pediram um sinal da sua condição messiânica, ele disse:

Tragam-me o esqueleto de um morto que eu lhe restituirei a vida. Então eles trouxeram os ossos de um morto e ele devolveu-lhe a vida, restaurando-lhe tendões, carne e pele. Depois levaram até ele um leproso e ele o curou. E assim, a turba reconheceu que ele era, realmente “ O Filho de Deus””.

Mas os sábios eleitos do Templo não se conformaram com o ocorrido e resolveram montar uma cilada a Jesus. Enviaram a ele um mensageiro pedindo que ele se apresentasse no Templo para lhes dar prova de que ele era o Filho de Deus. Jesus respondeu “irei se me receberem tal como os escravos recebem o seu senhor”.

Aceitas as condições Jesus, dirigiu-se a Jerusalém montado num jumento e foi recebido com grande pompa.

Nesse ínterim, os sábios tinham denunciado Jesus como mago e embusteiro à rainha Salomé Alexandra, pedindo a pena de morte para ele. Mas a rainha, não convencida da acusação, pediu uma audiência com Jesus. Ele foi então levado à presença da rainha e mostrou os seus poderes, curando um leproso e ressuscitando um morto. A rainha disse então aos sábios: “Porque dizem que este homem é um feiticeiro? Pois eu vi que ele é realmente o Filho de Deus. Desapareçam e nunca mais me tragam uma acusação destas!” E Jesus começou a pregar e a fazer milagres em Jerusalém, causando muita inveja e preocupação aos sábios e sacerdotes, que perderam o seu poder junto ao povo.

Então eles reuniram-se e decidiram escolher um deles para aprender a Shem-ha-Mephorash (A Palavra Sagrada) e provar que poderiam fazer o mesmo que Jesus fazia. Um deles, chamado Judas, foi o escolhido para essa missão.

Assim, Judas e Jesus foram levados à presença da rainha. Jesus começou por dizer “Assim como as escrituras dizem acerca de mim eu vou subir ao céu para o meu Pai celeste” e, proferindo a Shem-ha-Mephorash, começou a elevar-se no ar. Judas também proferiu a Palavra Secreta e imediatamente subiu também. E, indo logo atrás de Jesus, pegou no seu pé e começou a puxá-lo para baixo. E os dois lutaram até que Judas derramou o seu suor em Jesus tornando-o impuro. O suor fez ambos caírem no chão, pois a Shem-ha-Mephorash só funciona em corpos em estado de pureza. A contaminação com o suor de Judas fez com que Jesus se tornasse impuro e ele perdeu o seu poder. Com isso, e com a pressão exercida pelos sacerdotes, a rainha foi forçada a decretar a pena de morte para ele.

Mas antes que ele fosse levado para fora das muralhas da cidade para ser apedrejado até a morte, os seus discípulos conseguiram tirá-lo da cidade e ele escapou. Jesus dirigiu-se ao Jordão, onde se purificou, recuperando os seus poderes. Depois pegou duas pedras de moinho, colocou-as a flutuar na água e sentou-se nelas para pescar, pois precisava alimentar a multidão que se juntara para ouvi-lo. Por isso se dizia que ele andava sobre as águas e alimentava multidões com poucos peixes e pães..

Quando os sábios souberam que Jesus estava novamente a exibir os seus poderes, Judas propôs misturar-se secretamente com os discípulos de Jesus. Assim o fez e, numa noite, quando Jesus estava dormindo, ele cortou-lhe a carne e removeu-lhe o pergaminho com a Palavra Sagrada. E dessa forma ele perdeu os seus poderes novamente. Por isso, na semana da Páscoa subiu a Jerusalém com a intenção de ir ao Templo recuperar a Palavra Sagrada. Mas Judas avisou os sacerdotes das intenções de Jesus e ele foi capturado.

Jesus foi amarrado a um pilar, chicoteado e martirizado. Colocaram uma coroa de espinhos na cabeça dele e quando ele pediu água, deram-lhe vinagre para beber. Foi então que Jesus proferiu aquelas palavras: “Meu Deus, porque me abandonaste?”. Depois, foi levado ao Sinédrio onde a pena de morte foi proferida. E assim ele morreu, apedrejado até à morte.

Depois os soldados procuraram uma árvore para pendurá-lo, mas não encontraram nenhuma capaz de suportar o peso de um homem. De modo que o penduraram no galho de uma figueira. Depois ele foi retirado dali e enterrado no local onde fora apedrejado. Judas, entretanto, receando que os discípulos roubassem o corpo e dissessem que Jesus tinha ascendido aos céus, removeu-o da sepultura e escondeu-o no seu jardim.

No dia seguinte, os discípulos não encontraram o corpo na sepultura e proclamaram que Jesus tinha ascendido aos céus. Por isso a rainha convocou todos os sábios com o seguinte ultimato “Se não encontrarem o corpo desse homem todos serão mortos!”. Por fim, Judas entregou o corpo e ele foi arrastado por um cavalo perante toda Jerusalém para que todos soubessem quem era aquele mago embusteiro. Assim termina a história de Jesus Ben Pandira, a que alguns judeus afirmam ter sido o verdadeiro inspirador do personagem que os cristãos adoram como sendo o Filho de Deus.

Embora a história de Jesus Ben Pandira seja colocada num contesto histórico diferente (ocorrida no reinado de Alexandre Janeu e não de Herodes), não se pode negar a estreita semelhança que ela tem com a história do Jesus dos Evangelhos. O enquadramento histórico do Sepher Toldoth Yeshu coloca o nascimento de Jesus Ben Pandira no reinado de Alexandre Janeu, entre 103 e 76 AEC, e a sua morte durante o reinado de Salomé Alexandra, que ocorreu entre 76 e 67 AEC. Existe, portanto, um lapso de cem anos em relação ao tempo fixado nos evangelhos, o que deve ser sido interpolado na história de Jesus Ben Pandira para evitar que esse Jesus fosse confundido com o dos Evangelhos cristãos, o que teria provocado uma verdadeira revolta nos cristãos, contra a comunidade judaica. Mas a intenção de confundir e tentar desconstruir a história que a Igreja desenvolveu a respeito do Jesus histórico é evidente.

Conquanto essa história só tenha aparecido no Ocidente por volta do inicio do século XII, com o início das Cruzadas, é inegável que ela já era contada por volta do século II da era cristã, pois consta de um livro escrito pelo Bispo Orígenes, em 248, como refutação a um historiador judeu romano chamado Celsus, que escreveu que a mãe de Jesus, Maria, teria sido abandonada pelo carpinteiro do qual estava noiva, por conta de adultério que ela teria cometido com um soldado chamado Pandira, do qual teria engravidado” [1].

Embora essa “história” tenha sido escrita com claros interesses mediáticos(para refutar a teologia cristã), há historiadores que admitem a possibilidade de que os próprios Evangelhos cristãos tenham adaptado a história de Ben Pandira para fazer do Jesus histórico, nascido no reinado de Herodes e executado durante o mandato de Pôncio Pilatos, um mito semelhante ao que se atribuía ao Jesus dos tempos de Alexandre Janeu. Essa, segundo a versão de Hugh Schonfield, pelo menos, era o que afirmavam os judeus do primeiro século da era cristã, a respeito de Jesus de Nazaré: que ele foi, na verdade, um agitador zelote, que se apropriou do mito messiânico e tentou sublevar os judeus numa revolta contra as tradições judaicas e a ocupação romana. Por isso foi denunciado e preso pelo Sinédrio e condenado à morte pela administração romana. A sua face esotérica e messiânica teria sido inspirada pelo seu antecessor, o mago conhecido como Jesus Bem Pandira [2].

Por outro lado, tendo em conta que não se sabe a data em que Celsus compôs o seu livro, a história de Jesus Ben Pandira pode ter a sua origem na ridicularização das crenças cristãs, elaborada por opositores do Cristianismo bem depois dos Evangelhos canónicos serem escritos. Isso é o que deixa patente outro escritor cristão da mesma época, o filósofo e mártir Justino nos seus “Diálogos com Trifão”, escrito nos meados do século II da era cristã, pois ali se vê que era intensa a pregação contra e a favor do Cristianismo, com documentos produzidos de parte a parte [3].

Se o Jesus histórico é apenas mais um mito costurado a partir da história de Ben Pandira, misturado com outras tradições, como a do deus Mitra, do deus Osíris, Adónis e outros arquétipos do mesmo teor, jamais saberemos. Mas o facto é que esse assunto tem sido discutido desde os primeiros séculos da era cristã e as camadas de metalinguagem, carregadas de ideologia, que foram colocadas sobre ele não permitem, hoje, que façamos afirmações seguras que possam constituir-se em verdadeiros postulados. No fim fica a opção de acreditar ou não. O que parece ser um elo de ligação insofismável no emaranhado teológico que se formou em volta desse tema é o facto de que, em todas essas referências, Jesus aparece como possuidor de um poder sobrenatural, conferido por uma fonte superior – no caso dos Evangelhos cristãos, pelo próprio Deus, de quem ele era filho primogénito – ou, no caso dos opositores judeus, de uma fonte supranatural, que era o conhecimento arcano do Nome Inefável de Deus. Esta lenda, sem dúvida de origem cabalística, seria apropriada pelos maçons nos seus ritos de passagem pelos chamados graus filosóficos [4].

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] Orígenes fazia referência ao livro “Verdadeira Palavra” do autor romano Celsus, tido como um grande refutador das crenças cristãs. Este livro, hoje perdido, teria sido escrito por volta de 178 EC. Presumivelmente Celsus ter-se-ia inspirado na história referida pelo Sepher Toldoth Yeshu, que já nessa época circulava nos meios judaicos em forma de tradição oral.

[2] Hugh Schonfield – A Bíblia estava certa – Ibrasa, 1986. Essas crenças também eram professadas por várias seitas cristãs, consideradas heréticas pela Igreja de Roma. Provavelmente teriam sido também encampadas pela alta cúpula dos Cavaleiros Templários, sendo essa a razão dessa Ordem de Cavalaria ter sido condenada e extinta.

[3] Exemplo desses documentos é o conjunto de obras escritas por cristãos místicos entre o I e o IV século da era cristã. Esses documentos foram condenados pela Igreja no Concílio de Nicéia (325 a.C.), sendo a maior parte deles destruída. Cópias desses escritos, entretanto, foram preservadas por uma seita de cristãos místicos, conhecidas como cenobitas, num mosteiro no Egipto. Esses documentos foram encontrados em 1945, em cavernas habitadas por esses monges, e constituem hoje, os chamados Evangelhos Gnósticos.

[4] Vide a lenda da Palavra Perdida, referida num dos graus filosóficos da Maçonaria.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *