Landmarks
Definição
O que são Landmarks? A primeira menção maçónica a esta palavra aparece na Constituição de Anderson, em 1723, página 70, que conclui: os Regulamentos Gerais inseridos pelo célebre pastor na sua obra e coleccionados por George Payne em 1720, quando era Grão-Mestre da primeira Grande Loja. O parágrafo XXXIX destes regulamentos precisa que
“cada direcção anual da Grande Loja possui o poder e a autoridade para promulgar novos Regulamentos ou para introduzir alterações a estes, para verdadeiro proveito desta antiga Fraternidade; todavia com a condição de que os antigos Landmarks sejam cuidadosamente conservados e de que tais alterações nos novos Regulamentos tenham sido propostos e aceites no decurso da terceira reunião trimestral que precede a grande festa anual”.
A palavra Landmark não pode deixar de invocar ao leitor diversos textos da Bíblia na sua versão autorizada, utilizada em Inglaterra. E assim que ela é descrita no Deuteronómio (Dt.27:17): “Maldito seja o que arrancar os Landmarks do seu vizinho”. Ou ainda nos Provérbios (Pr.22:28) “Não arranques os Landmarks que os teus pais colocaram”. Poderíamos continuar a enumeração dos textos, mas basta saber que a palavra hebraica groul que aqui é traduzida por Landmark aparece duzentas e quarenta vezes no Antigo Testamento (cf. Concordance, de Even Shoshan). Havia, no hebreu bíblico, o sentido de fronteira que se mantêm no hebreu moderno e que tem a mesma raiz que groul, termo que significa ligar, entrançar uma corda, o que demonstra que as fronteiras deviam na época ser simbolizadas por cordas estendidas entre estacas. O significado bíblico da palavra Landmark é pois, em substância, «fronteira, marco delimitando uma possessão que não deve ser ultrapassado.
Seguros deste conhecimento, numerosos autores maçónicos procuraram definir Landmark no âmbito que aqui nos preocupa. Assim, J. Simmons citado por H. Carr, declara que se trata de
“princípios de acção que existem desde uma época recuada e desconhecida (from time immemorial), integrados na lei escrita ou oral, são identificáveis à forma e à essência da nossa sociedade, não podem ser medidos segundo a opinião da maioria; por fim, cada Maçom deve mantê-los inviolados sob pena de graves sanções”.
William Prestou via nos Landmarks uma barreira erigida contra as inovações”. Isto não é rigorosamente exacto na medida em que, sendo pré-existentes, não podiam ter sido erigidos por ninguém!
G. Olivier, citado por E. Béde n ‘Os Landmarks da Maçonaria, exprime-se assim: “Alguns, restringem esta noção às Obrigações, sinais, toques e palavras. Outros, nela incluem cerimónias de Iniciação, Passagem e Elevação, ou ainda a sua decoração, jóias e símbolos. Outros, enfim, pensam que a Ordem não possui nenhum Landmark para além dos seus segredos particulares”’
De acordo com E. Béde, pensamos que esta enumeração é demasiadamente vasta. Se um outro autor, Hexstall, declara que os Landmarks não são de facto senão segredos de antigos operativos, ele evita nomear estes, o que lhe seria, sem dúvida muito difícil. E. Béde cita ainda um outro Anglo-saxão, Billson, que declara que
“os Landmarks da Franco-Maçonaria Inglesa são os grandes princípios fundamentais do nosso sistema particular de moral, os quais foram adoptados pelos fundadores da primeira Grande Loja como essenciais, tendo sido reputados como tal por uma autoridade competente”.
Fazemos a esta declaração duas acusações: ao associar os Landmarks à Inglaterra, retira-se-lhes a universalidade sobre a qual todos estamos de acordo, e que se uma autoridade competente pode definir um Landmark, este não pode então ser considerado como sendo proveniente de uma época recuada e desconhecida!
Gould, o célebre autor da História Abreviada da Franco-Maçonaria parece aproximar-se de uma verdade que quase todos sentiram sem ousar conscientemente formular. Ele disse
“Ninguém sabe o que eles compreendem ou omitem, e não dependem de nenhuma autoridade terrestre. Com efeito, são sempre invocados e postos em perigo quando um opositor nos ataca, mas são sempre silenciados quando nós próprios atacamos”.
O Dr. Mackey, enfim, de quem falaremos mais adiante, exprime-se assim no início da sua obra Jurisprudência e Franco-Maçonaria:
“E talvez mais prudente não reter (com o Landmark,) senão estes antigos e também universais costumes da Ordem, que foram impostos gradualmente com regras de acção ou foram editados por uma autoridade competente, mas numa época tão recuada que nenhuma menção da sua origem pode ser encontrada na história
Destas diversas opiniões, o leitor reteve, sem dúvida, que é mais fácil dizer o que não são os Landmarks, do que defini-los com precisão. Só os seu caracteres de antigos guardiães, infrangíveis e misteriosos, parecem de facto ressair dos parágrafos precedentes. Nota-se com uma certa admiração que, nos Estados Unidos, parece julgarem necessário publicitar-lhe a definição.
Quais são os Landmarks?
Numerosas listas de Landmarks foram publicadas depois do nascimento da Franco-Maçonaria especulativa. Pela leitura do parágrafo precedente compreende-se, todavia, quantas de tais recensões podem diferir umas das outras, consoante a acepção da palavra Landmark, seguida pelos autores destas listas.
Poder-se-á assim notar com divertimento que Crawley não referia senão três Landmarks, enquanto Newton contava cinco, Pound sete, Pike onze, Morris dezassete, Mackey vinte e cinco e Grant cinquenta e quatro! (cf. Béde Os Landmarks da Maçonaria).
A lista mais conhecida é a de Mackey. Foi adoptada por numerosas Grandes Lojas dos Estados Unidos, as quais parecem ter uma tendência acentuada para a sistematização.
É talvez necessário a este propósito assinalar as Grandes Lojas das Ilhas Britânicas são se aventuraram a estabelecer tais enumerações.
Damos aqui a lista dos Landmarks estabelecidos por Mackey, seguida de um comentário.
- Os meios de reconhecimento entre Maçons.
- A divisão da Franco-Maçonaria simbólica em três graus.
- A lenda de Hiram no terceiro grau.
- O governo da Ordem por um Grão-Mestre.
- O poder do Grão-Mestre de presidir a todas as reuniões maçónicas.
- O poder do Grão-Mestre de conferir uma dispensa a fim de poder passar um candidato a um grau superior antes do tempo prescrito.
- O poder do Grão-Mestre conferir uma dispensa permitindo a realização de reuniões em datas não previstas.
- O poder do Grão-Mestre de “fazer Maçons à vista”.
- A necessidade para os Maçons de se reunirem em Assembleias chamadas Lojas.
- O governo de uma Loja deve pertencer a três oficiais principais: o Venerável Mestre e os seus dois Vigilantes.
- A necessidade de que todas as Lojas devem estar cobertas durante uma Assembleia, isto é, ter a sua entrada interdita a todas as pessoas não autorizadas.
- O direito de todos os Maçons estarem representados em todas as Assembleias gerais.
- O direito de todo o Maçom apelar em Grande Loja das decisões tomadas a seu respeito pelos Irmãos da sua Loja.
- O direito de todo o Maçom de visitar qualquer Loja regular.
- A impossibilidade de todo o visitante desconhecido dos Irmãos de uma Loja assistir aos trabalhos desta antes de ter sido devidamente identificado (interrogado e posto à prova) por um membro da Loja.
- A impossibilidade de uma Loja qualquer se imiscuir nos trabalhos de outra.
- O facto de todo o Maçom ser responsável pelos seus actos face à jurisdição, maçónica do seu lugar de residência mesmo se pertence a outras jurisdições.
- As qualificações físicas e morais necessárias à admissão de um candidato à Iniciação.
- A crença em Deus enquanto Grande Arquitecto do Universo.
- A crença numa vida futura, isto é, na ressurreição.
- O facto de a presença do Volume da Lei Sagrada na Loja ser obrigatória e indispensável.
- A igualdade de todos os Maçons.
- O facto de a Ordem ser uma sociedade secreta.
- A origem da ciência especulativa na arte operativa e a utilização simbólica dos termos desta.
- O facto dos Landmarks não poderem ser mudados por ninguém no mundo.
Uma lista, na aparência tão exaustiva, origina alguns comentários.
Sabemos que os meios de reconhecimento entre Maçons variaram ao longo de séculos, e que hoje diferem ligeiramente entre os ritos. Isto mostra que o Landmark n° 1 na versão Mackey não é só um.
Por outro lado, investigações provaram que o terceiro grau não foi trabalhado em Loja antes de aproximadamente 1725. O Landmark n° 2 também cai da mesma forma.
Quanto à lenda hirâmica, ela não é muito antiga o que faz cair o Landmark n° 3. A existência de um Grão-Mestre, no sentido que Mackey descreve não data senão da instauração da primeira Grande Loja em 1717, o que torna caducas as alusões aos Landmarks do n° 5 ao n° 8.
H. Carr condenou, pela sua parte o Landmark n° 9, salientando que o lugar da vida (e não simplesmente de encontro virtual) dos Maçons operativos, tenha o nome de Loja não corresponda ao que entendem os especulativos modernos.
Quanto ao n° 10, relativo ao governo da Loja, ele mostra que a presença de dois Vigilantes não foi atestado nos séculos passados. Os direitos de cada Maçom (n° 12 a 14 e 17) encontram-se em diversos manuscritos dos Antigos Deveres, mas não foram estabelecidos em tempos imemoriais. No que concerne ao Landmark n° 16, o leitor poderá encontrar em Stevenson (The First Free Masons’) traços de numerosas interferências entre Lojas, tornando este artigo inaceitável. Se as deformidades ou deficiências físicas (Landmark n° 18) impediram por vezes numerosas personagens de se tornarem Maçons face ao seu passado, é preciso reconhecer e apreciar que a doutrina evoluiu gradualmente neste domínio, permitindo assim a cegos receber a Luz, ou filhos de escravos serem iniciados. Esta revisão de posições por felizes que sejam, impedem o n° 18 de ser considerado um Landmark. Uma semelhante evolução de hábitos fez com que a Franco-Maçonaria se considere hoje mais uma sociedade discreta que secreta, fazendo assim vacilar o Landmark n° 23.
Este “jogo de massacre” leva-nos, em conclusão a assumirmos uma posição mais humilde face aos Landmarks, a sua natureza e o seu número. Os raros artigos da lista acima que foram beliscados, assim como a posição, sempre inteligente, de Harry Carr, tendem a fazer-nos pender para a lista que ele mesmo estabeleceu, precisando que ela não constitui senão um ensaio não dogmático, não exaustivo e aparentemente aceitável:
- O Maçom deve professar a crença em Deus, Grande Arquitecto do Universo.
- O Volume da Lei Sagrada deve estar presente em Loja, e aberto à vista de todos.
- O Maçom deve ser um homem, livre e de idade suficientemente madura.
- O Maçom a par das suas acções e declarações, deve fidelidade ao Estado e à Franco-Maçonaria.
- O Maçom crê na imortalidade da alma.
O covolume, a incompreensibilidade são assim atingidas? Nada é menos certo.
Esta lista parecerá sem dúvida bem longa a alguns e incompleta a muitos, incorrecta a outras. Lembremo-nos então da essência do que foi escrito mais acima. Os Landmarks estão em perigo quando nos lhes opomos e parecem naturais quando se propõem. Aqui está talvez a única verdade sobre este assunto difícil.
Regularidade
Generalidades
O assunto que iremos agora tratar é um dos mais dolorosamente sentidos pelos Maçons de diversas Obediências, singularmente em França.
É por isso que é importante definir bem a noção de regularidade.
Em Franco-Maçonaria, uma Grande Loja, uma Loja ou os Irmãos, são ditos regulares quando utilizam para o trabalho maçónico uma regra comum à qual voltaremos mais abaixo.
Não há, portanto, aqui a noção de superioridade de um grupo relativamente a outro, exclusivismo ou intolerância, mas o simples reconhecimento de um facto.
Notemos, também, desde agora que não é preciso sobretudo confundir regularidade e reconhecimento, em especial ao nível das Grandes Lojas que é o que trataremos sobretudo.
Regularidade e regularidade de origem
Estas duas noções não são intermutáveis. Diz-se que uma Grande Loja possui regularidade de origem se, e somente se ela foi consagrada por uma Grande Loja regular ou fundada pela reunião de, pelo menos, três Lojas regularmente constituídas.
Notemos que este princípio adaptado pela Grande Loja Unida de Inglaterra a título de prioridade desta, sofreu algumas variações no decurso da História. Assim a Grande Loja dos Anciãos (Antigos), fundada oficialmente em 1751, fixou em cinco o número mínimo de Lojas fundadoras de uma Grande Loja. Esta medida não teve por objectivo senão retirar à Grande Loja de 1717, dita dos Modernos, a sua regularidade de origem.
Recorde-se, com efeito, que quatro Lojas somente estiveram na origem:
- The Goose and Gridiron,
- The Rummer and Grapes,
- The Crown
- The Apple Tree.
Mackey (Jurisprudence of Freemasonry, p. 226 e seguintes) dá uma explicação do número de três Lojas no mínimo pelo velho princípio jurídico, mas profano, de “Tres faciunt collegium”, que existe em direito civil e preciso que todo o adágio ou guilda deve ser formado por, pelo menos, três pessoas para existir.
Para mais, o número fatídico de três Loja foi, ele próprio, algumas vezes reduzido a dois, com a adesão total da Grande Loja Unida de Inglaterra, em casos julgados importantes. Foi o caso, entre outros, da Grande Loja Nacional Francesa em 1813, formada pela reunião de duas Lojas saídas do Grande Oriente de França, a saber o Centro dos Amigos e a Inglesa de Bordéus. Este mesmo exemplo mostra igualmente que as Lojas fundadoras não são necessariamente regulares na origem, desde que elas façam prova de um real desejo de trabalhar depois de acordo com os princípios que iremos definir de seguida.
Os princípios do reconhecimento
A Grande Loja Unida de Inglaterra definiu em 4 de Setembro de 1929, oito princípios aos quais todas as Obediências maçónicas devem aderir na totalidade para serem por si só reconhecidas como regulares.
Recordemo-los em seguida:
- Ter a regularidade de origem.
Definimos acima este conceito.
- Ter crença no Grande Arquitecto do Universo e na sua vontade revelada, preliminar indispensável com vista ao recrutamento dos seus membros.
- Fazer assumir aos novos iniciados as suas Obrigações sobre o Volume aberto da Lei Sagrada, que varia em função da crença dos neófitos, mas simboliza o facto da Revelação vinda do alto garantir o juramento que deve ser pronunciar.
- Que todos os membros da Grande Loja e das Lojas que dele dependem sejam do sexo masculino e não mantenham – ao nível maçónico – relações com lojas ou instituições que admitam mulheres.
- Que a Grande Loja tenha uma jurisdição soberana sobre todas as Lojas que dela dependam. Por outras palavras, que ela seja uma instituição responsável, independente e autónoma, com plena autoridade sobre os três graus simbólicos da sua jurisdição. Não será nem substituída, nem partilhará a sua autoridade com um Supremo Conselho ou qualquer outra organização que pretenda dirigir os três primeiros graus.
- Que as três Grandes Luzes da Franco-Maçonaria, a saber, o Volume da Lei Sagrada, o Esquadro e o Compasso, estejam sempre expostos durante os trabalhos da Grande Loja ou das lojas suas subordinadas.
- Que toda a discussão a propósito de religião ou de política seja interdita em Loja.
- Que os princípios relativos aos antigos Landmarks, costumes e usos da Franco-Maçonaria sejam estritamente observados.
Estes princípios sugerem alguns comentários:
Deve assim referir-se que, se a Grande Loja da Irlanda fez suas estas declarações em Fevereiro de 1961, a da Escócia, em retaliação, numa medida semelhante, omitiu deliberadamente a primeira delas, sem dúvida, é necessário ver aí a ideia escocesa acentuadamente apoiada nos trabalhos de Stevenson, que antes da formação de uma Grande Loja da Escócia, segundo o modelo inglês, em 15 de Outubro de 1736, existia desde há muito uma Franco-Maçonaria operativa e especulativa perfeitamente “regular”.
O segundo ponto impõe a crença na “vontade revelada” do Grande Arquitecto do Universo.
Ora, as religiões reveladas são pouco numerosas no mundo, mesmo se agrupam um grande número de crentes. Trata-se de facto essencialmente do ramo monoteísta saído do judaísmo.
O budismo, por exemplo, que comporta um cânone relativo aos ensinamentos do seu fundador, não considera, ao contrário, este como um deus, que é o Grande Arquitecto do Universo. Ele não permite menos que as Grande Lojas dos países budistas sejam regulares. É o caso do Japão, reconhecida como tal pela Grande loja Unida de Inglaterra em 13 de Março de 1985. Este exemplo mostra a evidência que as posições sobre a regularidade, por serem estritas não são bloqueadoras.
O quarto ponto explica facilmente a atitude das Grandes Lojas regulares quanto à regularização dos Irmãos provenientes de outros organismos maçónicos.
Os provenientes de Obediências unicamente masculinas têm simplesmente de pronunciar uma declaração de acordo com os pontos dois e três, enquanto os vindos de Obediências mistas devem submeter-se a uma iniciação completa.
O quinto ponto contém o germe do princípio dito de territorialidade. Este estipula que não pode haver mais do que uma Grande Loja regular por Estado, estando o contrário em desacordo com o quinto ponto. Este torna igualmente impossível o controlo dos três graus (Aprendiz, Companheiro e Mestre), por um organismo dos Altos Graus, o que sob o nome do Escocismo foi no passado, o sonho deste.
Regularidade e reconhecimento
Acontece por vezes que uma Grande Loja perfeitamente regular não seja reconhecida pelas outras Grandes Lojas regulares. Isto pode perfeitamente explicar-se pelo facto de que nem todas as Grandes Lojas regulares têm forçosamente a mesma prudência nos seus julgamentos. Assim, a emergência de uma Grande loja regular num Estado deve ser saudada como convêm. Todavia, é sempre possível que as boas vontades do início se diluam muito rapidamente ou que os Grandes Oficiais principais desta nova Obediência demonstrem na sua acção enganos ou negligências.
Um reconhecimento demasiadamente rápido com o que ele implica (trocas de garantias de amizade, por exemplo) deveria então ser retirado, e que seria lamentável.
A prudência, mesmo se retardar um pouco o reconhecimento de um organismo maçónico regular em todos os pontos, é, portanto, uma virtude.
Um outro exemplo de Grande Loja trabalhando em perfeita regularidade, mas cujo reconhecimento será difícil de admitir, é o de uma Obediência que seja composta por grande maioria de estrangeiros no país onde esta esteja formada, os quais sejam chamados, por contrato ou por circunstâncias previsíveis a deixar o referido país num futuro próximo. Este pode ser, por exemplo, o caso de uma Obediência formada pelos militares servindo em bases estrangeiras.
Resulta de tudo isto que deve distinguir-se bem entre regularidade e reconhecimento.
A regularidade onde, como vimos, a regularidade de origem pode não ser mais do que uma componente. Ao contrário, o reconhecimento é um facto. Pode ser acordado por uma ou mais Grandes Lojas, que a regularidade da Obediência seja reconhecida ou não.
Na conclusão de uma assinalável obra Regularity of Origin, C. Haffner sugere uma graduação dos organismos maçónicos, que se não puder satisfazer a todos, pelo menos o mérito de atenuar o maniqueísmo da apresentação tradicional Regular/Irregular.
Ele escalonou assim as Obediências em sete categorias:
- Clandestina – a Obediência não tem verdadeiras relações com a Franco-Maçonaria. E o caso das Tríades Chinesas.
- Não reconhecida – ainda que praticando os três graus da Franco-Maçonaria, a Obediência afastou-se dos grandes princípios permitindo, por exemplo, a discussão política em Loja ou admitindo ateus entre os seus membros.
- Irregular – ainda que trabalhando de acordo com a maioria dos princípios, esta Obediência encontra-se, por exemplo, no território de uma Grande Loja já reconhecida, não respeita sistematicamente a presença das três Grandes Luzes da Franco-Maçonaria, etc.
- Não representativa – é o caso de uma Grande Loja perfeitamente regular, mas cuja maioria de membros é composta por não nacionais. Não procede à troca de garantias de amizade. Este caso, na prática, é raro. Todavia elencam-se – em parte – nesta categoria as Grandes Lojas que não beneficiam de reconhecimento universal.
- Representativa – é a situação normal entre Grandes Lojas regulares e soberanas.
- Concordante – trata-se de Grandes Lojas que decidiram aplicar de maneira idêntica um certo número de princípios. O caso mais célebre é a Concordata assinada em 1905 pelas três Grandes Lojas das Ilhas Britânicas.
- Unificada – Este caso, e não confundir com Unida (de que a Grande Loja Unida de Inglaterra é o exemplo-tipo) é o das Grandes Lojas que, retendo os seus particularismos, decidiram não eleger senão um só Grão-Mestre para as representar. O caso mais conhecido é o das Grandes Lojas Unificadas da Alemanha.
Regularidade e reconhecimento dos Altos Graus
É preciso, em primeiro lugar acentuar que a noção de Altos Graus (ou Side Degree, graus laterais, como dizem os Anglo-Saxões) não é a mesma para as Grandes Lojas. Assim, a Grande loja Unida de Inglaterra, o facto é bem conhecido, reconhece a Pura e Antiga Maçonaria como sendo composta dos graus de Aprendiz, de companheiro e de Mestre, incluindo o Arco Real considerado como o seu complemento. A Grande Loja da Escócia, pela sua parte reconhece sob esta designação os graus de Aprendiz, de Companheiro incluindo a Marca, de Mestre e nenhum outro. Quanto à Grande Loja da Irlanda, ela considera que a Marca e o Arco Real são parte integrante da Pura e Antiga Maçonaria, ao mesmo título que os três primeiros graus.
Não falta nada para que uma Grande Loja saiba investigar a “regularidade originar deste ou daquele grau lateral ou Alto Grau pela simples razão de que a origem operativa destes (à excepção possível da Marca) é inexistente. Albert Pike (AQC96) exprimiu-se longamente sobre este assunto.
C. Haffner (op.cit) assinala que certos sistemas de Altos Graus estipulam que, em caso de perigo de desaparecimento do organismo, um Irmão possuindo a totalidade destes pode, e mesmo deve tomar todas as iniciativas necessárias à sobrevivência do sistema. Cita assim a Royal Order of Scotland, os Knights Templar Prieste e certo Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceite. A noção de filiação sem solução de continuidade, por falta de regularidade, é aqui afirmada.
A Grande loja Unida de Inglaterra, não publica nenhuma lista dos organismos dos graus laterais permitidos aos seus membros.
Estes são, portanto, autorizados a nela se filiarem, uma vez que os ditos organismos não aceitam senão Maçons regulares.
Evidentemente, isto não se aplica senão a grupos praticando cerimónias de tipo maçónico, necessitando de iniciação, a fim de as compreender e não a clubes ou associações profanas ou puramente religiosas.
A Grande Loja da Escócia publica uma lista anual dos organismos maçónicos em amizade com ela, o que, aos seus olhos, não impede evidentemente de pertencer a outras associações que não recrutem senão Maçons regulares, como a Societas Rosicruciana in Scotia ou a Eastern Star.
A Grande Loja da Irlanda é neste assunto mais meticulosa pois publica anualmente uma lista exaustiva dos organismos dos graus laterais permitidos, podendo ser punida a adesão a outras associações. Esta atitude não representa a da maioria das Grandes Lojas regulares.
De resto, os organismos dos graus laterais ou dos Altos Graus fazem eles mesmo o seu “policiamento”, garante da pureza do seu ensino. Assim, como acabamos de ver, os Anglo-Saxões não querem admitir no seu seio senão Maçons regulares.
Mas alguns exigem qualificações suplementares como a prévia posse de um ou mais graus laterais. E o caso da Worshipful Society, ou dos Knights Templar, por exemplo.
E ainda, a maior parte destes organismos mencionam nos seus regulamentos que estes seriam insuficientes para resolver um problema imprevisto, os da Grande Loja Unida de Inglaterra teriam então força de Lei. É, entre outros, o caso do Secret Monitor.
Conclusão
Estamos voluntariamente limitados nesta apresentação de Regularidade aos domínios das Grandes Lojas e dos organismos dos Altos Graus.
É bem possível falar de regularidade ao nível das Lojas ou dos próprios Irmãos. Seria necessário, por exemplo, lembrar aqui que o princípio do “Maçom livre numa Loja livre” não pode sobreviver na regularidade onde a noção de Ordem sustenta o edifício.
Repetimos que estas considerações não são em caso algum julgamentos.
A evocação dos grandes princípios postos acima não tem por fim mais do que evitar confusões, sempre deploráveis, nos espíritos. Esperemos tê-lo conseguido.
Autor desconhecido
Baseado nos trabalhos de Jean Lhomme, Edouard Maisondieu e Jacob Tomaso

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