“A Maçonaria no sentido último e essencial, é o encontro da própria personalidade. Humanidade, tolerância caridade e mais outras aspirações são o resultado desses esforços e do encontro do próprio Ego. No início de cada trabalho maçónico, é lembrada a recomendação: Conhece a ti mesmo”.
Wolfgang WENNG
Os ritos reúnem sob um só princípio os que desejam aperfeiçoar-se e aperfeiçoar. Nenhum dispersa. Qualquer deles reúne para o bem fazer, para amar e dar-se por inteiro à magnífica obra da solidariedade universal. Observa-se que cada rito possui uma carga de usos e costumes que devem ser observados no intuito da manutenção da sua uniformidade ritualística. A divisão de ritos não altera a essência da Fraternidade maçónica, que através destas modalidades que representam meras contingências históricas, subsiste idêntica a si mesma, na admirável continuidade histórica e na formidável obra civilizadora [1].
O termo “Orient” em alemão tem um uso limitado, pois é uma palavra derivada do latim e não uma palavra “nativa” alemã. Portanto, linguisticamente usa-se apenas OSTEN para se referir ao “local onde nasce o sol”, simplesmente porque não se aplica a palavra ORIENT. Eis o perigo da tradução da palavra alemã ORIENT como ORIENTE em Português, só porque as palavras se assemelham. Por mais que as palavras sejam cognatas, a carga semântica delas em ambos os idiomas é completamente diversa.
O Ritual (Schröder) Alemão original não se refere a Oriente e Ocidente, mas sempre a Leste (Osten) e Oeste (Westen), como é possível constatar abaixo, no ritual Schröder de 1960:
Der Erste Schaffner führt nun den Zug der Brüder in den Tempel und umrundet, dem Laufe der Sonne folgend vom Westen über Nord zum Osten um den Teppich. Im Osten weist der Erste Schaffner den Großbeamten und winkeltragenden Meistern ihre Plätze an, während der Zweite Schaffner den Zug der Meister, Gesellen und Lehrlinge im Westen so lange verharren läßt, bis die Brüder im Osten an den ihnen zugewiesenen Plätzen stehen.
Que traduzido significa:
O 1° Diácono conduz o cortejo de Irmãos ao Templo, circunda o Tapete, seguindo a trajectória do Sol: do Oeste pelo Norte ao Leste. Chegados ao Leste, o 1° Diácono indica os lugares aos Grandes Oficiais e Mestres Instalados, enquanto o 2° Diácono faz permanecer no Oeste o cortejo dos Mestres, Companheiros e Aprendizes, até que os Irmãos no Leste estejam de pé, nos seus lugares.
Neste sentido, Orient [2], (e Occident), são palavras cuja origem etimológica advém do Francês. O que se discute (maçonicamente) é muito mais do que isso. Oriente, no Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA e nos Ritos de orientação francesa, é um espaço físico delimitado, e mais elevado em relação ao Ocidente, que é outro espaço físico delimitado, e mais baixo em relação ao anterior.
No Rito Schröder e, também nos Trabalhos de Emulação, não é assim. Sempre se usou LESTE e OESTE nestes Ritos. Apenas no Brasil, houve sinonímia entre os termos ORIENTE E LESTE e OCIDENTE E OESTE. Note-se que no REAA, ao denominarmos ORIENTE e OCIDENTE, trata-se de local (espaço). Já nos ritos Schröder e Emulação, trata-se de direcção/ponto cardeal.
A Maçonaria Alemã possui característica própria. O ritual de qualquer Obediência Alemã é semelhante ao ritual de Schröder, contudo com algumas características Inglesas ou Francesas. Em 1737 com a fundação da Loja Absalom (d’Hamburg) a Maçonaria institucionalizou-se na Alemanha, passando a existir novas Lojas maçónicas, pois elas passaram a ser inscritas no registro de Lojas da Grande Loja de Londres. Isto foi possível porque os reis de Hannover passaram a reinar sobre a Inglaterra. Esta foi a razão da existência hoje da Maçonaria alemã com características próprias, acrescida de características inglesas ou francesas segundo a sua origem.
O rito Schröder tem os seus vigilantes colocados no oeste e sul, já os ritos com características francesas tem os seus vigilantes colocados no Ocidente, um no norte e outro no sul. O rito Schröder tem o templo num só piso (leste, oeste, norte e sul), mas os templos franceses têm o templo com dois pisos, tendo oriente (plano elevado) e ocidente (plano baixo).
No Brasil, a tradução foi (mal) interpretada semanticamente como se Leste e Oeste tivesse o mesmo significado de oriente e ocidente, o que não procede. O oriente e ocidente nos rituais brasileiros tem o significado de dois pisos, logo não é igual a leste e oeste que trata de um só piso. Apenas se compreende a assertiva acima após pesquisa nos ritos existentes na Inglaterra, França e Alemanha, onde fica clara esta diferença.
Uma breve análise dos rituais mais antigos [3] (ingleses e norte americanos) explicitam a ideia acima. Os rituais ingleses, escoceses (da Escócia) e irlandeses, são taxativos quando afirmam que as lojas (simbólicas) se orientam pelos pontos cardeais e também colaterais (da rosa dos ventos); esses pontos são: norte, sul, leste e oeste; noroeste, nordeste, sudeste e sudoeste. Na rosa dos ventos não há menção a “oriente como sendo leste” ou “ocidente como sendo oeste”.
Ressalte-se que nos próprios (primeiros) rituais escoceses(da França), os pontos cardeais citados nos referidos rituais eram: Leste e Oeste para Oriente e Ocidente. Vejamos infra, alguns pequenos textos sobre esse tema.
Ritual de Aprendiz Maçom do REAA – 1804:
“D: – Ou se tient le Frère Second Surveillant?
R: – Au sud (sul).
D: – Ou se tient le Frère Premier Surveillant?
R: – À l’ouest (oeste).
…D: – Ou se tient le Vénérable?
R: – À l’est (leste).”
Ritual de Emulação – United Grand Lodge England:
WM: – Brother Junior Warden, your place in the Lodge?
JW: – In the South (Sul).
… WM: – Brother Senior Warden, your place in the Lodge?
SW: – In the West (Oeste).
… WM to SW: – The Master’s place?
SW: – In the East(Leste).
Irish Ritual of Craft Freemasonry the Grand Lodge of Ireland:
WM: – Brother Junior Warden, where is your place in the Lodge?
JW: – In the South (Sul).
… WM: – Brother Senior Warden, where is your place in the Lodge?
SW: – In the West (Oeste).
…WM: – Brother Immediate Past Master (or any Past Master), where is the Master’s place in the Lodge?
SW: – In the East (Leste).
Esta falha, reitera-se, só existe no Brasil, onde, por corruptela de tradução, troca-se Leste por Oriente e Oeste por Ocidente. A falha originou-se em Terrae Brasilis tendo em vista que as outroras lojas simbólicas trabalhavam sob a égide das Oficinas Capitulares Escocesas, que denominavam certos sectores da loja/oficina capitular por regiões. Os próprios rituais (escoceses) revisados por Albert PIKE trazem no seu bojo as denominações: East, West, South e North.
O Ritual de Aprendiz da jurisdição do Supreme Council of the Ancient and Accepted Scotch Rite of Freemasonry in and for the Sovereign and Independent State of Louisiana – 1861 (Digitado conforme a grafia da epoca), afirma o seguinte:
Venerable Master: – Brother 1st Surveillant, where does the Venerable Master sit in the temple?
1st Surv: – In the East (Leste), Venerable Master.
Já o ritual de Aprendiz do Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry under the jurisdiction of the National Supreme Council of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasons afirma:
WM: – Brother Junior Warden, where is your station in the Lodge?
JW: – In the South (Sul), Worshipful Master.
WM: – Brother Senior Warden, where is your station in the Lodge?
JW: – In the West (Oeste), Worshipful Master.
WM: – Brother Senior Warden, where is the Master’s Station in the Lodge?
SW: – In the East (Leste), Worshipful Master.
Conforme esclarece o Irmão Nicola Aslan, na sua Obra “Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbolismo”, ORIENTE é um local dentro da Loja, destinado ao assento do V. M. e de algumas autoridades. Nota-se, que este vocábulo “Oriente”, ao menos no REAA – Rito Escocês Antigo e Aceito, traz a ideia de um local físico dentro da Loja, ao contrário dos trabalhos realizados no rito Schröder onde, dentro da Loja, não há diferenciação física dos assentos, nem mesmo local físico diferenciado, mas tão somente sentidos de direcções (N., S., L.,.O.).
No REAA, o Oriente é destinado, além do V. M., ao Grão-Mestre, cuja cadeira deve ficar vazia na ausência deste. No restante dos assentos do Oriente ficam os Oficiais que ocupam cargo e têm assento as autoridades maçónicas do simbolismo, tais como Veneráveis e Ex-Veneráveis, Deputados, Juízes, Secretários, Delegados, Conselheiros e outros.
O Irmão Albert C. MACKEY, na sua obra referencial para os estudiosos da Maçonaria, “Encyclopedia of Freemasonry”, no verbete “Orient” diz:
“O Leste. O lugar onde uma Loja está situada às vezes é chamado de Oriente. Mas mais propriamente seria Leste. A sede de uma Grande Loja tem sido também, por vezes, chamada de Grande Oriente; porém, aqui, seria melhor Grande Leste. O termo Grande Oriente tem sido usado para designar alguns Órgãos Supremos no Continente da Europa, e também na América do Sul; como o Grande Oriente da França, o Grande Oriente de Portugal, o Grande Oriente do Brasil, o Grande Oriente de Nova Granada, etc. O título sempre foi referência para o Leste como o lugar de honra na Maçonaria (veja Leste, Grande).”
Por derradeiro, nos rituais de Schröder (e também nos de Emulação) não há separação na Loja deste lugar físico, mas sim uma orientação “geográfica”, por assim dizer, ou seja, um sentido de direcção. Fundamenta-se também a não existência de Oriente nos rituais de Schröder vez que que no Oriente existem regras próprias de circulação, lado para subir, lado para descer, quantidade de degraus, etc. o que não existe nos rituais Schröder. Se existisse este conceito de Oriente e Ocidente, o próprio Ritual traria no seu bojo os dizeres “ORIENT” e “OCCIDENT”, ao invés de “East” (Leste) e “West” (Oeste) [4].
Lembrem-se: A Maçonaria é um movimento (por isso UNA!) , já os ritos representam os objectivos, por isto são diferentes.
Rui Aurélio De Lacerda Badaró, M. M. da Justa e Perfeita Loja de São João, n. 680, or. de Sorocaba, GLESP.
Notas
[1] RITUAL DO APRENDIZ MAÇOM – Rito Schroder, GLESP, pág. 16.
[2] Segundo o dicionário LANGENSCHEIDT: Orient: der; -s nur Sg. ; 1 Der (Vordere) Orient. das Gebiet von Ägypten, dem Iran u. den ländern dazwischen = der Nahe Osten 2; Der Orient: u. das Gebiet der Ländern im Osten vom Iran bis einschliesslich Bangladesch. Traduzindo: Oriente: ; 1 Orient (Frente). o território do Egipto, o Irão e os países entre = Oriente Médio 2, Orient e do território dos países do leste do Irão, incluindo a Bangladesh.
[3] Os rituais norte americanos são os mais próximos dos antigos catecismo (rituais) existentes na Escócia, Irlanda e Inglaterra. Destes (antigos rituais/catecismos) se originaram os modernos rituais (escoceses, modernos, alemão, etc.).
[4] Cf. Rituais Schroeder de 1960 em alemão.
Referências
- ASLAN, N. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbolismo.
- BINDER, D.A. Die Diskrete Gesellschaft. Geschichte Und Symbolik Der Freimaurer
- CRYER, N. B. What Do You Know About Ritual? The Complete Mason’s Commentary.
- GIESE, A. Die Freimaurer: Eine Einführung
- HOLTORF, J. Die Logen der Freimaurer: Einfluß, Macht, Verschwiegenheit.
- JONES, B.E. Freemason’s Guide and Compendium, New and Revised Edition
- LESSING, G.E. Gespräche für Freimaurer. [EBook #9326]. Acesso em 16 de dezembro de 2013.
- Disponível em: http://www. worldcat .org/title/g-e-lessings-ernst-und-falk- gesprache-fur-freimaurer-historisch-kritisch-erlautert-von-i-f-l-t- merzdorf/ocl c/5 62114150
- MACKEY, A.G. Encyclopedia of Freemasonry. [S/N], Vol I (1873) e Vol II (1878) – (2001)
- MACKEY, A.G. A Lexicon of Freemasonry. [S.l.: s.n.], 1845 (2000).
- The History of Freemasonry: It’s Legends and Traditions. [S.l.: s.n.], 1906 (1999).
- The Principles of Masonic Law, [S.l.: s.n.] 1856 (1999).
- The Symbolism of Freemasonry, [S.l.: s.n.]1882 (2001).
- PEGASUS. Freimaurerischer Verein für Kunst, Kultur und Kommunikation Die Vielfalt in der
- Einheit – Positionen einer freimaurerischen Ästhetik.
- PIKE, A. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. [s/n] (ed. Elet – 2000).
- REDMAN, G. Masonic Etiquette Today: A Modern Guide to Masonic Protocol and Practice.
- RITUAL DES LEHRLINGSGRADES nach Friedrich Ludwig Schröder Neu herausgegeben von der Loge “Absalom zu den drei Nesseln” (Nr. 1) i. Or. Hamburg
- RITUAL DES GESELLENGRADES und Friedrich Ludwig Schröder Ritual Neu herausgegeben von der Loge “Absalom zu den drei Nesseln” (Nr. 1) i. Or. Hamburg
- RITUAL DES MEISTERGRADES Friedrich Ludwig Schröder Ritual Neu herausgegeben von der Loge “Absalom zu den drei Nesseln” (Nr. 1) i. Or. Hamburg

- Rito Schröder: o Rito Alemão?
- A Loja Luzitania nº 184, da Grand Lodge of England (1811)
- O Grande Arquitecto do Universo (G:.A:.D:.U:.)
- Primeira conferência da Maçonaria Portugueza – Porto, 21 e 22 de Março de 1900
- Rito Schröder: Rito Rosa-Cruz Rectificado?

