(Continuação – Link para a Parte I)
Muitas páginas já foram escritas sobre este trecho das Constituições, a exemplo de Lombaerde (2019), e não cabe aqui reproduzi-las, mas tão somente salientar o que se afigura: numa sociedade política e religiosamente dividida (escoceses católicos vs. ingleses protestantes; realeza e nobreza vs. parlamento; secularismo crescente; etc.) e após tantos anos de guerras nas quais a questão (da intransigência) religiosa sempre esteve no centro, a redacção foi o que hoje se denominaria de “politicamente correcto”, neutra, equilibrada. E se de um lado não nega a existência da divindade e dos cultos (que figuram já no título da primeira seção, salientando não só a sua abrangência quanto a ascendência sobre a estrutura em elaboração), de outro não revela preferência e muito menos exclusividade, tendo sido determinante para que até hoje a Ordem seja um polo atractor de diversidades, apresentando-se mesmo como “universal” [19]. À luz da cronologia dos eventos históricos e do estado da arte no momento são iniciativas coerentes e lógicas; todavia, politicamente não correspondia ao pensamento e às expectativas de Roma, e também porque introduzira o que posteriormente veio a ser denominado de religião natural (depender, sem o auxílio de Deus, somente da natureza criada – o que inclui o homem) em contraste à religião sobrenatural (quando Deus se coloca acima e intervém na natureza, nos destinos).
Estava pois, criada a justificação para que em 28.09.1738 Clemente XII através da Bula In Eminenti excomungasse a Maçonaria.
Alec Mellor, conhecido advogado católico francês, Iniciado na Maçonaria em 29.03.1969, sustenta que “o motivo da condenação não era religioso … os motivos do Papa eram de ordem política e ligados ao destino da infeliz família real dos Stuart, destronada e refugiada em Roma, sob a protecção da Igreja. (HORTAL S. J. [20], 1995, p. 74) [21]
Acrescente-se ainda que o próprio documento de Clemente XII é algo obscuro e só veio a ser mais bem esclarecido no resumo dele feito na Bula Providas Romanorum Pontificum (Papa Bento XIV, 18.05.1751) e de onde (op. cit., p. 74-5) se extraem as seis razões para a condenação:
- nas tais sociedades e assembleias secretas estão filiados indistintamente homens de todos os credos; daí ser evidente a resultante de um grande perigo para a pureza da religião católica;
- a obrigação estrita do segredo indevassável pelo qual se oculta tudo que se passa nas assembleias secretas;
- o juramento pelo qual os Maçons se comprometem a guardar inviolável segredo, como se fosse permitido a qualquer um apoiar-se numa promessa com o fito de furtar-se a prestar declarações ao legítimo poder […];
- tais sociedades são reconhecidamente contrárias às sanções civis e canónicas […];
- em muitos países as ditas sociedades e agremiações foram proscritas e eliminadas por leis de príncipes seculares;
- enfim é que as tais sociedades e agremiações são reprovadas por homens prudentes e honestos […].
É muito difícil, para não dizer impossível, sem incorrer em anacronia, tecer considerações absolutamente precisas sobre acontecimentos que desde o seu próprio tempo e passados quase 3 (três) séculos, já eram guardados a “sete chaves”. Contudo, se de um lado no seio da própria igreja católica podem ser encontradas análises críticas que apontam o exagero de Clemente XII, de outro, a Bula In Eminenti ainda não foi revogada como revela a “Declaração Sobre a Maçonaria”, expedida pelo à época (Novembro/1983) Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger,:
Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão [22];
e anteriormente a ela, de acordo com Gomes (op. cit., p. 90), “sucessivamente, em 1848, 1864, 1865, 1869, 1873 e 1973, os Papas Pio IX e Leão XIII produziram, respectivamente, 350 e 600 documentos contra a Maçonaria e a Carbonária”. Assim, as inúmeras tentativas de reparação e reaproximação, sobretudo da Maçonaria, mas também da Igreja através do Papa João XXIII, resultaram infrutíferas.
Entre a infinidade de textos já produzidos sobre a matéria, dois merecem ser destacados pela engenhosidade metodológica e também porque esclarecem, a partir dos próprios argumentos utilizados pela Maçonaria, acerca da incompatibilidade entre esta e a fé cristã.
Considerando, conforme já salientado, que existem diversas Maçonarias, que não há uma unidade política central, um porta-voz ou uma cadeia de interlocução que se pronuncie oficialmente em nome da instituição [23], o que, por exemplo, traz dificuldades para ter claro, afinal, o que é certo ou errado (o que pode ou o que não pode) e até mesmo as definições e conceitos nos termos da Ordem, Ankerberg e Weldon (1995, 1995a) [24] conduziram um estudo que iniciou questionando reconhecidas autoridades maçónicas sobre, afinal, qual o principal documento da Ordem, aquele que orienta os seus trabalhos. A resposta foi unânime: o Ritual. Todavia, é sabido que os rituais, embora textos para ensinamento, são documentos sintéticos, abertos, por vezes difusos e com inúmeras possibilidades interpretativas, o que os levou à segunda etapa da pesquisa: questionar quais os textos e autores são reconhecidos como autoridades para esclarecer matérias relativas à Ordem e aos Rituais, etapa que foi levada a efeito junto às 50 Grandes Lojas nos Estados Unidos e da qual resultaram 25 respostas – uma taxa de retorno considerada excelente em qualquer estudo desta natureza. Em primeiro lugar, com 44% de reconhecimento, ficou a Coil’s Masonic Encyclopedia, de Henry W. Coil; seguindo-lhe The Builders [25] (com 36%), de Joseph F. Newton; Mackey’s Revised Encyclopedia of Freemasonry (com 32%), de Albert G. Mackey; […]; History of Freemasonry (com 20%), de Robert F. Gould; […]; Morals and Dogma (com 16%), de Albert Pike, totalizando 9 (nove) obras e autores consultados.
Assim, com base na comparação e no contraste do que consta nos textos-rituais, no que dizem os autores e textos das autoridades maçónicas, bem como nos entendimentos ordinários (extraídos da Bíblia e dicionários) acerca do significado de “religião”, “credo”, “salvação”, “símbolos e significados”, etc., tudo no âmbito do contexto, Ankerberg e Weldon procuram responder algumas das questões sempre levantadas sobre o tema: a Maçonaria é uma Religião?; a Maçonaria ensina o seu próprio plano de salvação?; a Maçonaria possui a sua própria declaração doutrinária como acontece com as igrejas?; a Loja Maçónica tem símbolos religiosos como os encontrados numa igreja ou sinagoga?; entre tantas outras. Para não me estender em demasia, inclusive porque o texto original (1995) merece ser lido na íntegra, destaco apenas alguns trechos:
Note que ele [Henry Coil] diz “religião maçónica”. A partir dessa evidência, todos devem concluir que a Maçonaria é uma religião porque oferece instrução religiosa e promessas de como o homem pode chegar ao céu. Em resumo, a Maçonaria é uma religião porque apresenta o seu próprio plano de salvação. (ANKERBERG e WELDON, 1995a, p. 23);
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Isto nos leva ao verdadeiro ponto crucial do assunto. A diferença entre uma Loja e uma igreja é de graus e não de espécie. (op. cit., p. 25);
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Quem quer que diga que a Maçonaria não ensina teologia é desinformado ou está mentindo. (op. cit., p. 28); e,
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Tudo isto prova claramente que a Maçonaria é uma religião. A única coisa que ela não faz é consentir que os seus membros a considerem como religião […] Esta a razão de dois eruditos maçónicos proeminentes, Henry Wilson Coin e Albert G. Mackey, terem concluído que a Maçonaria é uma religião. (op. cit., p. 32);
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Henry Coil, no seu artigo de 15.000 palavras, provando que a Maçonaria é uma religião, conclui correctamente: “Nada aqui pretende ser um argumento no sentido de que a Maçonaria deve ser uma religião. O nosso propósito é simplesmente determinar o que ela se tornou, e é. (op. cit., p. 36-7)
Finalmente, os autores esclarecem se Maçonaria e Religião, mais especificamente o vector cristão-católico desta última, são compatíveis entre si:
Se as palavras destes versículos estiverem certas, e se a Maçonaria for outra religião – segundo Mackey e Coil, ela satisfaz as exigências das principais definições de religião de Webster – então o cristianismo é a verdadeira religião e a Maçonaria deve ser considerada mais uma religião e, portanto, falsa. (op. cit., p. 33);
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O Deus da Maçonaria tem certas características – ele é um (uno e não trino), deísta, a “Força Vital da Natureza” […] A verdade é que o Deus ou deuses do budismo, hinduísmo, islamismo, judaísmo, cristianismo, animismo e de todas as outras religiões do mundo não são o mesmo Deus. Dizer que todos os deuses são o mesmo Deus ou que todas as religiões ensinam as mesmas verdades fundamentais é esquizofrenia intelectual, desrespeito por cada uma e por todas as religiões, e é iludir a todos a quem é ensinada tal falsidade. (op. cit., p. 48);
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Em resumo, a Maçonaria se opõe ao Deus cristão. Um dos principais eruditos maçónicos, Albert Pike, descreve a Maçonaria como segue: “A Maçonaria, ao redor de cujos altares o cristão, o hebreu, o muçulmano, o brâmane, os seguidores de Confúcio e Zoroastro podem reunir-se como irmãos e unir-se e oração ao Deus que está acima de todos os baalins […]” Note que o termo “baalim”, que se refere aos deuses e ídolos falsos que os homens adoram, é também aplicado à religião cristã. Isto significa que o cristianismo é considerado uma religião falsa como todas as demais. (op. cit., p. 58);
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Em conclusão, não há absolutamente dúvida de que a Maçonaria ensina que o Maçom herdará a vida eterna pela sua conduta e o seu mérito pessoal. A Maçonaria então ensina um sistema de salvação pelo mérito pessoal e boas obras. Este conceito de salvação é aquele que a Bíblia chama de “outro evangelho”. Ele é tão contrário ao caminho da salvação de Deus que a Escritura o coloca sob a maldição divina. (op. cit., p. 64)
Em conclusão, os autores não deixam margem à dúvida, são categóricos: “Não cometa a hipocrisia de afirmar ser cristão enquanto participa de uma organização que nega tudo o que é cristão”. (op. cit., p. 71). Assim, tanto na perspectiva oficial da igreja católica, porta-voz de uma das vertentes do cristianismo (lembrando que a Bula In Eminenti permanece vigente), mas também na dos estudiosos e intérpretes laicos, ou bem se é Maçom ou bem se é cristão.
De outro lado, o leitor mais atento, mesmo que desconheça as entranhas da Maçonaria, já deve ter percebido que nem todas as considerações de Ankerberg e Weldon se aplicam à totalidade das espécies (Ritos) do género (Maçonaria), o que reafirma as considerações preliminares a essa discussão: o debate permanece(rá) em aberto dada a complexidade dos construtos, mas também às “idas e vindas” ou “idas e voltas” da matéria no âmbito da Ordem. Tome-se, por exemplo, o que diz Patuto (2020, p. 111-2), estudioso que expressa a visão do Rito Moderno acerca das mudanças que no séc. XVIII estavam em curso na Maçonaria:
“A Franco-Maçonaria não é deísta, nem ateísta, nem sequer positivista. A instituição que afirma e pratica a solidariedade humana, é estranha a todo dogma e a todo credo religioso. Tem por princípio único o respeito absoluto da liberdade de pensamento e consciência. Nenhum homem inteligente e honesto poderá dizer, seriamente, que o Grande Oriente de França quis banir das suas lojas a crença em Deus e na imortalidade da alma quando, ao contrário, em nome da liberdade absoluta de consciência, declara, solenemente, respeitar as convicções, as doutrinas e as crenças dos seus membros.”
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Veja, caro leitor, que em menos de 50 anos passavam-se de um Teísmo impositivo (devido ao regime autoritário) para um Laicismo onde a nova geração intelectual e psicologicamente diferente da geração anterior, reflectindo as aspirações das novas elites urbanas e prezando pela Liberdade absoluta de consciência. Vale lembrar que, além da Bélgica, tanto a Argentina, quanto a Hungria e a Espanha fizeram o mesmo, naquele período.
O subtítulo de uma das obras de Marshall (2020), graduado e com PhD em filosofia, académico e apologista católico, é sugestivo acerca do futuro das relações entre a Maçonaria e a Igreja Católica: “a trama para destruir a igreja a partir de dentro”. O ponto de partida do autor é a Reforma de Lutero e outras, as quais obliteraram a cristandade europeia.
Tendo a Reforma de 1517 deixado um vácuo na Europa, a Maçonaria organizou uma nova “igreja católica” universal, instituída para unir os homens em naturalismo, racionalismo e irmandade universal […] Previsivelmente, a Maçonaria sempre prosperou onde o protestantismo fincou raízes antes. Escócia (presbiterianismo), Inglaterra (anglicanismo) e Alemanha (luteranismo) são os centros tradicionais da Maçonaria europeia. De forma semelhante, a América protestante também foi infectada pela Maçonaria, especialmente no sul protestante dos Estados Unidos. (MARSHALL, op. cit., p. 21-2)
Assim, na sua visão, tendo se nutrido da dessacralização dos usos e costumes, do anticatolicismo, do deísmo e do racionalismo do seu tempo, de 1717 em diante o principal inimigo da Igreja Católica foi a Maçonaria. O autor resgata um documento que permanecera secreto até a sua publicação em 1859 – Instrução Permanente da Alta Vendita [26] do qual se extrai:
[…] a Instrução Permanente da Alta Vendita ousadamente detalha com precisão como o papado será persuadido pela filosofia e crenças maçónicas, e nunca é demais salientar o seu princípio central: “o papa, seja ele quem for, jamais virá para as sociedades secretas. Cabe às sociedades secretas ir primeiro para a Igreja, com o objectivo de vencer a ambos. A obra à qual nos comprometemos não é a obra de um dia, tampouco a de um mês, tampouco a de um ano. Ela pode durar muitos anos, um século talvez, mas nos nossos flancos os soldados morrem, e a luta continua;
o que remete, então, ao título da obra: “Infiltrados”, pois é da convicção do autor, pelas informações e análises que traz ao texto, que a Maçonaria já está actuando por de dentro da Igreja, ideologicamente já dividida. Se “a Igreja Católica é a Vetus Ordo Saeculorum – a Velha Ordem do Mundo. A Maçonaria é a Novus Ordo Seculorum – a Nova Ordem do Mundo” (op. cit., p. 21).
Os mais desinformados e precipitados serão tentados a pensar que se trata, aqui, do que pejorativamente é referido como a Teoria da Conspiração da Nova Ordem Mundial (NOM). Ledo engano, pois o debate sobre um Governo Global (porque supostamente eliminaria os vícios e enalteceria as virtudes humanas) sempre fez parte do imaginário colectivo como bem ilustra a literatura utópica, que alguns preferem denominar como distópica, entre tantas: A República (Platão), A Utopia (T. Morus); A Cidade do Sol (T. Campanella); 1984 (G. Orwell); e, Admirável Mundo Novo (A. Huxley).
Contudo, há também textos teóricos e mais contemporâneos que estabelecem os objectivos, as estratégias e as tácticas sobre como implementar o globalismo, como é o caso, entre outros, de “A Conspiração Aberta: diagramas para um revolução mundial” [27], de H. G. Wells (2016), projecto no âmbito do qual as religiões (em geral) devem ser repensadas e ser colocadas à disposição de objectivos maiores, nada transcendentais.
Por oportuno, cabe esclarecer que a “revolução mundial” proposta pelo autor, vista mesmo como necessidade em nome da paz e harmonia entre os povos, refere-se às ideias que, no momento subsequente, devem ser materializadas pela via legislativa em novas instituições, o que inclui os usos e costumes. E para (novamente) não me estender em demasia, pois o assunto já foi desenvolvido com detalhes em “A Maçonaria & O Regime (Rito) Escocês Rectificado no Contexto da Nova Ordem Mundial”, dois outros textos são fundamentais para o melhor entendimentos dos movimentos actuais, o de Horowitz e Perazzo (2018), e também o do Monsenhor J. C. Sanahuja (2012), do qual trago alguns trechos para deixar à evidência que, do seu ponto de vista, a Maçonaria deve ser combatida:
Desde a sua criação, a Iniciativa Carta da Terra, assim como outros projectos éticos da nova ordem, tinha um ar marcadamente Maçom […] em 27.03.06 a própria Maçonaria reconheceu o seu apoio à Carta: o então Grão-Mestre de La Gran Logia de la Argentina de Libres y Aceptados Masones, Hector Sergio Nunes, dirigiu aos seus confrades a chamada Carta Antárctida da Maçonaria Argentina […] A Carta da Terra também é influenciada pela nova visão científica mundial, incluindo as descobertas da moderna cosmologia, da biologia evolutiva […] Ela é baseada na sabedoria das religiões do mundo e das tradições filosóficas ancestrais […] reflecte o pensamento de grupos e organizações ligadas à defesa dos direitos humanos, da igualdade de género, da sociedade civil, do desarmamento e da paz […] (p. 67);
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No Parlamento das Religiões do Mundo, em 1993, Hans Küng, a quem a Santa Sé proibiu o ensino da teologia católica, apresentou o projecto da Ética Planetária […] enunciada no estilo da Maçonaria, composta de uma mistura de gnose, expressões de bons desejos e da vaga e alienante espiritualidade new age. (p. 68);
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É o homem que constrói o seu código ético em guerra aberta contra Deus – o antigo projecto das lojas maçónicas. (p. 70);
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A pretensão da UNESCO de erigir o seu projecto como paradigma da nova espiritualidade era evidente na apresentação do Ano Internacional da Paz, escrita na linguagem inconfundível das lojas maçónicas. (p. 88)
E quando a referência não é directa, é possível (ao Iniciado) percebê-la nas entrelinhas: “No caso específico da religião, o relativismo, além de combater qualquer verdade imutável, promove o indiferentismo religioso: “não importa no que se acredita, o importante é acreditar em alguma coisa” (p. 77), e, “O que é necessário é a espiritualidade, não os credos e as doutrinas”. (p. 83-84)
Portanto, parece não haver dúvidas quanto a circunstância de que a Ordem, por intenção ou instrumentalização, está no epicentro do movimento globalista no sentido à formação da Nova Ordem Mundial. Note-se que não se está a formar juízo, mas antes reconhecer a realidade no que tange à Maçonaria em geral e chamar a atenção para as contradições quando a leitura se dá através das lentes do Regime (Rito) Escocês Rectificado, espécie do género:
O relativismo, que leva à apostasia, pretende abarcar tudo porque tem uma vocação totalitária. Para o relativismo somos fundamentalistas quando anunciamos como conteúdo inseparável do seguimento de Cristo verdades imutáveis como, por exemplo, aquelas que Bento XVI quis ressaltar enunciando “os princípios não negociáveis, que são as directrizes que nunca podem ser revogadas ou deixadas à mercê de consensos partidários na configuração cristã da sociedade: a família fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, a defesa da vida humana desde a concepção até à morte natural e os direitos dos pais de educar os seus filhos”. (p. 87)
Há evidências pois, de que o embate Maçonaria vs. Religiões (Igreja Católica) terá continuidade. Os motivos não mais envolvem questões dinásticas, delimitação de fronteiras ou mesmo tesouros (será?), mas referem a problemas bem mais seculares: ambientalismo, questões de género, novas formas de organização familiar, livre-trânsito de recursos de produção (mão de obra, capitais, produtos e serviços) sem as amarras estabelecidas pela soberania dos Estados Nacionais, entre outros aspectos [28]. Se admitida a linha de pensamento que aponta para um certo exagero na reacção de Clemente XII às Constituições de Anderson, era de se esperar que passado algum tempo as animosidades tivessem arrefecido, mas não foi o caso, ao contrário, novos argumentos, de ordem teológica e apologética foram acrescentados aos primeiros por vários ocupantes do Trono de São Pedro. E hoje, o que se observa, é uma nova linha de argumentos que, muito mais até do que antes, podem alimentar as hostilidades. E se a Maçonaria, no início do séc. XVIII era uma entidade que dava início à sua institucionalidade, hoje, para Marshall, Sanahuja e tantos outros citados por ambos, a Ordem não é um actor de somenos importância, revelando-se antes activa e actuante em vários cenários, uma efectiva personalidade política. E, à primeira vista, as manifestações só não têm o tom elevado e as instituições aparentam conviver em trégua porque:
- conforme apontado por Marshall, a própria Igreja encontra-se dividida; e,
- a Maçonaria, ao contrário das expectativas formuladas, não possui unidade e porta-voz oficial.
E no meio de tanto, como a Maçonaria se mantém em um país como o Brasil que, a julgar pelas estatísticas, é considerado predominantemente católico? Umas breves palavras.
Já há 12 anos na Ordem e ascendendo nos Graus Filosóficos, mas integrante do “baixo clero”, foram poucas, pouquíssimas oportunidades que eu tive de presenciar apresentações e debates sobre o tema. E nessas raras oportunidades a matéria foi conduzida à margem da análise crítica e sem a explicitação das tensões, dos dilemas e das suas contradições internas [29], bem como em menor profundidade e menor extensão do que o tratamento conferido pelos que, porque não Iniciados na Ordem, em que pese a profunda religiosidade demonstrada, paradoxalmente, são denominados de profanos [30]. O mais habitual é que o assunto fosse (como ainda é) deixado à margem sob o argumento de que a Maçonaria nada tem a ver com Religião, mas antes com espiritualidade – construto ainda mais difuso que o anterior; veja-se, por exemplo, o que dizem:
- Guimarães (2010, p. 89), Grau 33 no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA): “A Maçonaria é nítida e estatutariamente laica”;
- D’elia Jr. (2007), também Grau 33, porém no Adonhiramita, na sua 44a Instrução de Aprendiz, apesar de ela ser organizada quase que na totalidade a partir de citações bíblicas, em nenhum momento, conceitual ou doutrinariamente aproxima a Maçonaria da Religião, tendo optado por intitular a referida lição como “Espiritualidade na Maçonaria”; e, finalmente,
- Lima (2012, p. 72), também Grau 33 no REAA, declara que: “Pelas definições feitas, conclui-se que a Maçonaria não é uma religião. Não propõe salvação de ninguém. Não propõe a religação com Deus (ou deuses)”.
Ora, ora, se verdadeiras, as conclusões de Lima (e outros) vão de encontro às das principais autoridades maçónicas apuradas no estudo de Ankerberg e Weldon! É de se concluir, portanto, que a esquizofrenia intelectual identificada por esses também grassa entre os autores e pensadores maçónicos no Brasil, o que, não só reafirma a falta de unidade já reiterada, como estende indefinidamente, também aqui, esse debate. Nesse ambiente, não há como fugir à questão: passados 300 anos do início da Maçonaria Moderna, como pode, ainda, restar dúvidas sobre a matéria, principalmente quando se considera que Irmãos se intitulam buscadores da verdade? Arrisco-me a levantar hipóteses:
- ausência do hábito da leitura e estudo crítico por parte da maioria dos maçons brasileiros; ausência esta que se estende, sobretudo, aos autores estrangeiros, o que conduz a elevada endogenia (com a reprodução continuada das “mesmas verdades”) nos trabalhos realizados e publicados no Brasil;
- rivalidade interna entre Ritos e Potências, cada qual considerando que a sua versão da história é a mais correcta, o que induz a ignorar a existência (o estudo e a reflexão) acerca das demais expressões;
- resulta de (1) e (2) a falta de uma visão holística da Maçonaria;
- e de (1), (2) e (3), decorre a ausência de estímulos à organização e participação em eventos (seminários, concursos, regionais, nacionais e internacionais e outros) multidisciplinares para a reflexão e o refinamento intelectual; finalmente, mas sem a pretensão de exaurir as possibilidades,
- considerando a existência de dezenas, para não dizer centenas de textos sobre a matéria, sendo um tema já maduro conforme inicialmente ressaltado, não é possível eliminar a hipótese de que a manutenção da dúvida teria algum valor funcional, pelo que seria, então, intencional. Esclareço, por exemplo:
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- tendo em vista (1), seria funcional para os Mestres menos esclarecidos manter os Aprendizes e Companheiros em permanente condição de aporia. A perspectiva positiva desta hipótese é a manutenção do estado continuado de investigação acerca da verdade; e,
- tendo em vista (2), não há interesse objectivo e tampouco seria estratégico apresentar e discutir sobre os Ritos vistos como concorrentes, principalmente se oferecidos por outras Potências.
Independentemente se verdadeiras ou não as hipóteses levantadas, o facto é que a realidade permanece e, como subproduto que alimenta a continuidade indefinida desse debate tem-se o processo de formação (de Aprendiz à Mestre) interno à Ordem, a começar pela falta de esclarecimento e orientação dos Mestres proponentes aos respectivos candidatos indicados. A esses, muito antes de ingressarem na Ordem, deveria ser dado o completo conhecimento da matéria ora tratada, o ponto de partida a partir do qual cada um poderia, se mantida a decisão, inclusive optar pelo Rito (e quiçá Potência) mais compatível com a sua visão de mundo e que no futuro não lhe trouxesse objecções de consciência. Mas para isso, é claro, o sistema deveria ser repensado em diversos aspectos.
Por oportuno, cabe resgatar que inicialmente admitiu-se como natural a dificuldade do estabelecimento de pontos definitivos e inquestionáveis a partir de construtos irredutíveis a universais como é o caso quando se aborda, por exemplo, a “Maçonaria” ou a “Religião”, dificuldade que se eleva quando analisados conjuntamente. No meio de tanto tem-se, agora e como visto acima, uma dificuldade adicional e de outra natureza: o desacordo entre as autoridades (doutrinárias) maçónicas, pois a prévia consideração de a Maçonaria ser ou não uma religião, s.m.j., revela-se como conditio sine qua non podem restar prejudicadas as análises acerca da qualidade das relações da primeira com a segunda e, por conseguinte, os desdobramentos práticos.
Finalmente, no que diz respeito às relações Maçonaria & Igreja, exclusivamente no Brasil, eu não poderia concluir sem trazer à lembrança o papel da Maçonaria, destacado por Ismail (op. cit.), mas também por Mingardi (2008), na introdução, apoio, defesa e consolidação do protestantismo no Brasil, indo ao encontro, portanto, da aliança implícita que Marshall constatara ter ocorrido na Europa. Sem estudos mais aprofundados não é dado estender esses comentários e provocações intelectuais para outras religiões, entretanto, pelo histórico arrolado e em razão da crescente secularização dos usos e costumes, devem ser esperadas, em algum grau e eventualmente, senão hostilidades entre a Maçonaria e a Igreja Católica, claras divergências de posicionamento conforme avance a agenda contemporânea por alguns denominada de Pós-Moderna e por muitos intitulada como “progressista”.
Ivan A. Pinheiro [1]
Notas
[1] Mestre Maçom dos Quadros da ARLS Mário Juarez de Oliveira, 4.547, GOB-RS; da LEP Universum 147, GLMERS; da Loja de MESA Victor Meirelles; e, Membro Correspondente da Academia Maçónica de Letras, Ciências, Artes e do Ofício do GOB – BA. O autor não expressa o ponto de vista das Lojas, Obediências, Potências e Instituições das quais participa, mas tão somente exerce a sua liberdade de pensamento e expressão. Agradeço a leitura prévia e as contribuições dos Irmãos João G. M. Gobo, da ARLS Guatimozin, 68, GLESP; Gustavo V. Patuto, da ARLS Renovação da Luz, 155, GOPR; e, Jorge F. Perpétuo, da ARLS Compassos de Luz, 201, GLMERS; todavia, declaro-me responsável pelas opiniões e eventuais erros remanescentes. E-mail: [email protected]. Porto Alegre-RS, 08.05.21.
[2] No que interessa a este texto as alterações da versão de 1738 em relação a de 1723 são de menor importância.
[3] Há autores que preferem laico, mas é preciso registar que os fundamentos do Rito sofreram alterações ao longo dos anos.
[4] A defesa da liberdade também é um dos pontos em comum sempre citados.
[5] A propósito, trata-se de estratégia habilmente trazida a campo pelos Partidos Políticos no dia a dia das disputas: são claramente oponentes em alguns aspectos porém aliados em outros em razão da complexidade mesma da realidade e que convenientemente (sem que se possa contestar e para angariar apoio) são apresentados como os interesses maiores da população. Os operadores do Direito também são hábeis em explorar as lacunas e as ambiguidades existentes na estrutura normativa nacional. Cresce a prática do lawfare.
[6] Por vários referida como a de Londres, talvez para distinguir da Grande Loja de York, formada em 926 (PRESTON, 2017, p. 150), ainda que essa confusão não tenha lugar porque a de York está inserida no contexto da Maçonaria Operativa, enquanto que a londrina inicia (formalmente) a fase Especulativa.
[7] Como é o caso, por exemplo, do limite de páginas estabelecido pelos editores aos autores de artigos, mas também dos debates que ocorrem em Loja após uma apresentação dos trabalhos (Peças de Arquitectura).
[8] Pela segunda vez, por Carlos Martel.
[9] Uma versão completa poderá ser encontrada em https://bibliot3ca.files.wordpress.com/2011/04/statuta-et- ordinamenta-societatis-magistrorum-tapia-et-lignamiis.pdf. Acesso em: 07.08.20.
[10] Talvez o mais apropriado seja referir como o mais antigo ritual na forma de catecismo, pois Mata (2020) dá conta da existência de um ritual ainda anterior, o Mason Word, praticado na Escócia calvinista desde os anos 20-30 do séc. XVII.
[11] Expressão que, em si, também é um construto multifacetado e polissémico.
[12] Mais recentemente caberia acrescentar o escândalo dos padres pedófilos, de conhecimento mas acobertado pelas autoridades eclesiásticas superiores, bem como a polémica que envolve os relacionamentos homoafetivos.
[13] Mais dois exemplos para reafirmar a complexidade de tais problemas: tanto na Revolução Francesa (séc. XVIII) quanto na Revolução Farroupilha (séc. XIX) havia maçons lutando em ambos os lados. No que tange a essa última, a depender da narrativa e conveniência será ressaltado o heroísmo pacificador, conciliador, unitarista e a lealdade à Coroa revelados por Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias; mas também pode ser ressaltado a luta pela liberdade, pela independência e contra a opressão levada a termo pelo General Bento Gonçalves da Silva, o líder dos Farrapos – Rio Grande do Sul, Brasil.
[14] Livro que chegou a integrar o Index Librorum Prohibitorum editado pela Igreja Católica até 1966. Ademais, em vista das divergências existentes no clero com relação ao papado de Francisco, alguns já o denominam de o Papa Negro.
[15] Com as restrições de actuação que sucessiva e gradualmente e em todas as áreas foram impostas aos monarcas desde a Magna Carta (séc. XIII) e que, lato sensu, são bem representadas pelo dito: “a Rainha reina mas não governa”.
[16] 1836-1905: soldado, advogado, Maçom, historiador da Maçonaria e um dos fundadores da Loja de Estudos “Quatuor Coronati”.
[17] 1617-1692: antiquário, político, oficial de armas e estudante de astrologia e alquimia britânico. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Elias Ashmole. Acesso em: 23.04.21.
[18] Fundada em 1660, Londres, o papel da Royal Society (RS) vis-à-vis o surgimento da Maçonaria Moderna (Especulativa) não é de somenos importância. Christopher Wren, geómetra e arquitecto, um dos fundadores da RS, seu Presidente, foi Maçom e o grande coordenador do projecto de reconstrução após o incêndio de Londres. Além de Wren, outros relevantes personagens também eram maçons: Sir Robert Morey, Elias Ashmole e Sir Thomas Gresham, este fundador do Gresham College, local onde foram realizadas as primeiras reuniões da sociedade (PATUTO, 2020).
[19] À primeira vista, só assim, à época, Irmãos escoceses católicos conviveriam pacificamente com ingleses protestantes. E data desde então, que para manter a unidade e a harmonia em Loja, ainda hoje são vedados os debates políticos de natureza partidária; depois de assegurar o poder político através do Grão-Mestrado, a Coroa não poderia permitir que as Lojas fossem células de conspiração … mas isso é tema para outro texto, para ora não fugir ao escopo mas também porque é matéria igualmente complexa.
[20] S. J. – Sociedade de Jesus, Cia. de Jesus, Jesuíta.
[21] O leitor atento deve ter observado que parte da Casa de Stuart se encontrava em França, enquanto outra em Roma, e é provável que também em outros lugares. Ademais, como visto, não é de todo correcto afirmar que a Casa estava destronada, pois o seu ramo protestante-anglicano-cristão ocupou o trono até a morte da Rainha Anne.
[22] Fonte: https://www.vatican.va/roman curia/congregations/cfaith/documents/rc con cfaith doc 19831126 declaration -masonic po.html. Acesso: 28.04.2021.
[23] No Brasil, por exemplo, há a Maçonaria simbólica, a Maçonaria filosófica, operam 3 (três) Potências regulares (GOB, CMSB e COMAB), entre outras tantas Ordens afins que ofertam graus de aperfeiçoamento, além, é claro, das incontáveis Ordens consideradas como irregulares.
[24] O segundo texto é uma versão resumida do primeiro – a pesquisa completa.
[25] No Brasil editada como Os Maçons Construtores.
[26] Nome de uma Loja maçónica. E o texto completo da “Instrução …” encontra-se como anexo ao livro de Marshall.
[27] Cuja primeira edição data de 1940.
[28] Entre tantos, vide, p ex.: https://www.youtube.com/watch?v=boFEJ1jqslk; acesso em: 03.05.21.
[29] O leitor arguto também já terá percebido as contradições internas ao RER enquanto Rito sob o manto da Maçonaria Moderna.
[30] Vá lá que no contexto específico da Maçonaria o que distingue o Iniciado do Profano é a circunstância de o primeiro ter sido submetido a um Rito de Passagem, … mas a expressão não contribui para esclarecer quando o debate envolve as religiões, talvez mesmo o contrário.
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- Peculiaridades do trabalho de emulação no Ritual de Emulação
- Clérigo do Vaticano afirma que católicos podem ser Maçons
- Maravilhas dos Símbolos e o Ócio Criativo
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