Maçonaria e Religião

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A Maçonaria Universal, regular ou tradicional, é conduzida pela via sagrada, independentemente do seu credo religioso, trabalha na sua Loja sob a invocação do Grande Arquitecto do Universo, sobre o Livro Sagrado, o esquadro e o compasso. A tolerada presença de mais do que um livro sagrado no altar de juramento, reflecte exactamente o espírito tolerante da maçonaria universal e regular.

Grande Arquitecto do Universo, etimologicamente refere-se ao principal Planeador e Criador de tudo que existe, inclusive do mundo material independente de uma crença ou religião específica.

Assim, “Grande Arquitecto do Universo” ou “G∴A∴D∴U∴” é a designação maçónica para um Ente Superior, planejador e criador de tudo o que existe. Com esta abordagem, não se faz referência a uma ou outra religião ou crença, permitindo que muçulmanos, católicos, espíritas e outros, por exemplo, se reúnam numa mesma loja maçónica. Para um Maçom de origem católica, por exemplo, G∴A∴D∴U∴ o remete a Deus, enquanto que para um muçulmano se referiria a Alá que, afinal, também é Deus. Assim as reuniões em loja podem congregar irmãos de diversas crenças, sem invadir ou questionar os seus conteúdos, porque não permite discussões de carácter religioso sectário.

Judaísmo e Maçonaria

Logo após a ascensão de Adolfo Hitler ao poder, ficou claro que a maçonaria alemã corria o risco de desaparecer

Muitos dos princípios éticos maçónicos foram inspirados pelo judaísmo ou melhor pelo Antigo Testamento. Os ritos e símbolos da maçonaria e outras sociedades secretas recordam: A reconstrução do Templo de Salomão, a Estrela de David, o selo de Salomão, os nomes dos diferentes graus, como por exemplo: cavalheiro Kadosh (“Kadosh” em hebraico significa santo), Príncipe de Jerusalém, Príncipe do Líbano, Cavalheiro da Serpente de Airain etc.

A luz é um importante símbolo tanto no judaísmo como na maçonaria.

Um dos grandes feriados judaicos é o Chanukah ou Hanukkah, ou seja o Festival das Luzes, comemorando a vitória do povo de Israel sobre aqueles que tinham feito da prática da religião um crime punível pela morte ali pelo ano 165 a. E. V. (Os judeus substituem o antes de Cristo e o depois de Cristo pelo antes e depois da Era Vulgar). A Luz é um dos mais densos símbolos na maçonaria, pois representa (para os maçons de linha inglesa) o espírito divino, a liberdade religiosa, designando (para os maçons de linha francesa) a ilustração, o esclarecimento, o que esclarece o espírito, a claridade intelectual.

Outro símbolo compartilhado é o Templo de Salomão. Figura como uma parte central na religião judaica, não só, por ser o rei Salomão uma das maiores figuras de Israel, como o Templo representar o zénite da religião judaica. Na maçonaria, juntou-se a figura de Salomão, à da construção do Templo, pois os maçons são, simbolicamente, antes de tudo, construtores, pedreiros, geómetras e arquitectos. Os rituais maçónicos estão prenhes de lendas sobre a construção do Templo de Salomão. Para alguns, existem três Salmões: o Salomão maçónico, o bíblico e o histórico.

Outro aspecto comum, têm-se os esforços positivos na maçonaria e no judaísmo para encorajar a aprendizagem. A cultura judaica tem uma larga tradição de impulsionar o maior número de judeus a se notabilizar pelo conhecimento nas artes, na literatura, na ciência, na tecnologia, nas profissões em geral.

Durante séculos, os judeus têm-se destacado nos diversos campos do conhecimento humano e o seu empenho em melhorar as suas escolas e os seus centros de ensino demonstram cabalmente isto. Digno de se notar é que as famosas escolas talmúdicas – as yeshivas vêm do verbo lashevet, ou seja sentar-se. Deste modo para aprender é necessário sentar-se nos bancos escolares.

Assim, também, na maçonaria, nota-se uma preocupação constante, cada vez maior, com o desenvolvimento intelectual dos seus epígonos, no fundo, não só como um meio de melhorar a sua escola de fraternidade e civismo como também para perpetuar os seus ideais e permanecer como uma das mais ricas tradições do mundo moderno.

No início de 1934, logo após a ascensão de Adolfo Hitler ao poder, ficou claro que a maçonaria alemã corria o risco de desaparecer. Segundo as estimativas do Museu Alemão da Maçonaria em Bayreuth, esta literatura constituía o núcleo da investigação maçónica. Uma biblioteca que crescia de forma exponencial. Em 1930, na Alemanha, a colecção maçónica situar-se-ia nos 200.000 livros. Os nazistas saquearam, a Grande Loja da Holanda e a Grande Loja da Noruega. Ocorreu o mesmo na Bélgica e na França.

Os judeus eram vistos pelos nazistas como uma “ameaça” pelo seu suposto poder económico e pelas ideias que pregavam, como o liberalismo democrático. A Maçonaria, liberal e democrática, pregando a fraternidade entre os homens, assustava aos déspotas e fanáticos religiosos e políticos de todas as correntes.

Cronologia

  • 10 de Dezembro de 1934 – A Grande Loja Simbólica da Alemanha, dissolvida por Hitler, suspende os seus trabalhos na Alemanha e prossegue-os em Jerusalém e Sarrebrucken.
  • 8 de Agosto de 1935 – Adolfo Hitler decreta a dissolução da Maçonaria na Alemanha.
  • Os Templos maçónicos são saqueados, e muitos maçons alemães são presos e assassinados.
  • A Grande Loja de Hamburgo recebe asilo da Grande Loja de Chile onde continua o seu trabalho maçónico.
  • 1 de Janeiro de 1938 – O partido nacional socialista de Hitler lança um manifesto contra a maçonaria

Catolicismo e Maçonaria

A Igreja Católica historicamente já se opôs radicalmente à maçonaria, devido aos princípios supostamente anticristãos, libertários e humanistas maçónicos. O primeiro documento católico que condenava a maçonaria data de 28 de Abril de 1738. Trata-se da bula do Papa Clemente XII, denominada In Eminenti Apostolatus Specula.

Após esta primeira condenação, surgiram mais de 20 outras. O Papa Leão XIII foi um dos mais ferrenhos opositores dessa sociedade secreta, a qual designou de Reino de Satanás em 1884, e a sua última condenação data de 1902, na encíclica Annum Ingressi, endereçada a todos os bispos do mundo em que alarmava da necessidade urgente de combater a maçonaria, opondo radicalmente esta sociedade secreta ao catolicismo.

Apesar disto, há acusações sobre Paulo VI e alguns cardeais da Igreja relacionarem-se a uma loja. Entretanto, todas as acusações carecem de provas. A condenação da Igreja é forte e não muda ainda que membros do clero se tenham de alguma forma associado à sociedade secreta.

No Brasil Império, havia clérigos maçons e a tentativa de alguns bispos ultramontanos de adverti-los causou um importante conflito conhecido como Questão Religiosa. O principal dos bispos antimaçónicos desta época foi Dom Vital, bispo de Olinda. Recebeu forte apoio popular, mas foi preso pelas autoridades imperiais, notadamente favoráveis à maçonaria. Após ser liberto, foi chamado a Roma onde foi congratulado pelo Papa, SS Pio IX, pela sua brava resistência, e foi recebido paternalmente e com alegria (o Papa, comovido, só o chamava de “Mio Caro Olinda”, “Mio Caro Olinda”).

Até 1983, a pena para católicos que se associassem a esta sociedade era de excomunhão. Com a formulação do novo Código de Direito Canónico que não mais condenava a Maçonaria explicitamente, muitos pensaram que a Igreja a houvesse aceitado, no entanto a Congregação para Doutrina da Fé tratou de esclarecer o mal entendido e afirmar que permanece a pena de excomunhão para quem se associa a maçonaria.

Protestantismo e Maçonaria

A Maçonaria Especulativa surgiu durante o período da reforma protestante e é negada por algumas denominações reformadas. Notadamente, James Anderson, o autor da Constituição de Anderson, era um Pastor Presbiteriano.

Espiritismo e Maçonaria

Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido pelo seu pseudónimo Allan Kardec, teria sido iniciado na Grande Loja Escocesa Maçónica de Paris. As suas obras teriam, principalmente na parte inicial, introdutória, muitos termos do jargão maçónico e da doutrina maçónica.

Segundo alguns biógrafos, depois de alguns anos de preparatórios, Hippolyte Rivail teria deixado por algum tempo o castelo de Yverdon para estudar medicina na faculdade de Lyon. Vivia a França o período da restauração dos Bourbons, e então é agora na sua própria pátria, realista e católica, que ele se sentiria desambientado. Lyon ofereceu em todos os tempos asilo às ideias liberais e as doutrinas heterodoxas. Martinismo e Franco-Maçonaria, Carbonarismo e São-Simonismo vicejam entre as suas paredes.

O pseudónimo “Allan Kardec”, segundo biografias, foi adoptado pelo professor Rivail a fim de diferenciar a Codificação Espírita dos seus trabalhos pedagógicos anteriores. Segundo algumas fontes, o pseudónimo foi escolhido pois um espírito revelou-lhe que tinham vivido juntos entre os druidas, na Gália, e que então o Codificador se chamava “Allan Kardec“.

Budismo, Hinduísmo e Maçonaria

A Maçonaria, como escola iniciática, tem muitos pontos de contacto com o budismo. Ela, da mesma maneira, pugna pelos bons costumes, pela fraternidade e pela tolerância, respeitando, todavia, a liberdade de consciência do homem, a qual não admite a imposição de dogmas (apenas da lei natural, ou Darma).

Embora com algumas ligeiras modificações, as Quatro Nobres Verdades e os Oito Nobres Caminhos podem ser interpretados como presentes em toda a extensão da doutrina maçónica, que ensina, aos iniciados, o desapego às coisas materiais e efémeras e a busca da paz espiritual, através das boas obras, da vida regrada, do procedimento correcto e das palavras verdadeiras.

O conceito de Grande Arquitecto do Universo, como o entende a Maçonaria, não existe no budismo, pois, para este, não existe começo nem fim, ou criacionismo. Há contraste com o hinduísmo e o bramanismo (forma mais requintada do hinduísmo), que são as religiões mais antigas da Índia, ambas originárias da religião védica (baseada nos Vedas, os seus livros sagrados). Para o Rig Veda, o texto máximo do hinduísmo, existia, no começo dos tempos, o mundo submerso na escuridão, imperceptível, sem poder ser descoberto pelo raciocínio.

Para explicar a presença de budistas na Ordem maçónica, já que para ser Maçom, é condição essencial a crença num Ser Supremo Criador de todos os mundos e para o budista, não existe um Deus criador. É preciso entender que na realidade o conceito de G∴A∴D∴U∴ como entendemos na Maçonaria não existe no Budismo. Para o qual não há princípio nem fim, ao contrário do hinduísmo e do bramanismo (forma mais requintada do hinduísmo), que são as mais antigas religiões da Índia e originárias da religião védica.

A maçonaria é considerada uma ordem iniciática teísta e algumas correntes religiosas consideram o budismo como religião ateísta, porém; os próprios budistas não se consideram ateístas pois os textos budistas transcritos pelos seus mestres, discípulos e seguidores em nenhum momento citam nos seus textos e sutras a figura de Deus como nas religiões cristãs. Portanto, os budistas podem ser chamados de não-teístas e de uma forma geral ficando a critério de cada budista crer ou não num criador do universo na personificação de Deus como os cristãos, fazendo com que os budistas se possam tornar maçons sem nenhuma reserva.

O budismo para os budistas actua mais como uma filosofia de vida, pregando a prática das suas acções no dia a dia e é contraria aos dogmas presentes nas demais religiões. No budismo, os seus ensinamentos são voltados principalmente para o reconhecimento da natureza da realidade como forma de libertar todos os seres da insatisfação e do sofrimento, bem como de uma lei superior ou força natural superior chamada de Dharma que rege o universo, lei da causa e efeito.

Além disto, há, no budismo, um profundo respeito por todas as criaturas vivas, fazendo com que os adeptos da doutrina considerem como obrigação fundamental dos seres humanos, viverem em paz, harmonia e fraternidade com os seus semelhantes.

Autor desconhecido

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One thought on “Maçonaria e Religião

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    Artigo bastante interessante e esclarecedor, pois, abrange as características das religiões e suas relações com a maçonaria e os momentos de proximidade ou afastamentos no decorrer dos tempos.

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