O poder do perdão

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Perdão, uma das palavras mais difíceis de dizermos e escutarmos dentro da caminhada Maçónica de cada um de nós.

Acho incrível como muitas pessoas dentro da Ordem Maçónica, tem dificuldades de lidar com este assunto; é como se fosse um tabu, e o PIOR, definem-se como IRMÃOS. Ao contrário do que não é dito, não é nada raro encontrar por aí, principalmente dentro das nossas Lojas, pessoas magoadas e corroídas por dentro. Exteriormente, podemos deparar-nos com lágrimas e expressões melancólicas. Interiormente, os sentimentos podem estar visíveis como feridas inflamadas. Além dos factores internos e externos, também existem as lembranças, que podem vir através de rejeição, impaciência, depressão ou ainda pior, através de uma falsa sensação de força. E é um círculo vicioso e desagregador dentro dos nossos usos e costumes.

Uma pessoa ferida, nomeadamente um Amado irmão, dificilmente, conseguirá disfarçar a sua dor, quando uma vez ou outra, ela aparecer e incomodar. Eu cresci escutando esta frase: “quem bate esquece, quem apanha não”. Mais do que uma verdade, esta sabedoria popular acompanha a consciência de qualquer pessoa que se conheça a si mesmo. Seja lá qual for o nome da ferida de estimação que te acompanha: ofensa, bofetada, humilhação, traição, roubo, abandono ou injustiça. Não adianta colocá-la na responsabilidade do tempo; ao contrário do que parece, o tempo não é um remédio, não neste caso. Esta ferida pode até cicatrizar em algum momento, criar uma casca, mas na primeira oportunidade com um leve toque que seja, a dor voltará e a ferida ficará novamente aberta.

Muitas pessoas choram pelos cantos, sozinhas na escuridão da noite, enxugando as suas lágrimas como conseguem, tentando não deixar ninguém perceber o quanto é angustiante viver assim. É preciso manter as aparências, dizem essas pessoas. Outras pessoas, provocam o mundo com as mesmas dores que possuem. É como por exemplo, uma pessoa magoada, tem uma neurótica e compulsiva vontade de magoar também para mostrar ao mundo, mesmo que inconscientemente ou não, o quanto é doloroso se magoar. Tal realidade da sociedade em que vivemos retratada, nestas breves palavras acima, pode ser transplantada, para o seio da Maçonaria.

Tanto a mágoa, quanto o rancor, ambos procuram sempre um culpado. E quando não conseguimos colocar a culpa em alguma coisa ou em alguém, acabamos culpando-nos e responsabilizamo-nos por um problema sem tamanho. E assim, muitas pessoas simplesmente desistem de viver, devido às suas feridas que não cicatrizam.

Sobre tudo isto que estou escrevendo, lembrei-me de uma frase de Shakespeare, que diz: “Guardar uma mágoa é como tomar um copo de veneno e torcer para que o seu agressor morra”. Parece uma frase irracional ou sem um sentido lógico, mas tudo o que ele quis dizer ao escrever isto, é a lógica inversa da cura de todas essas dores que as pessoas carregam e alimentam durante as suas vidas. Porque é provado cientificamente, que guardar rancores ou sentimentos negativos, pode resultar em doenças, tanto do corpo quanto da mente e do Espírito.

Reflictamos pois na máxima:

O perdão é um acto de libertar o outro, de pagar do erro cometido. Ou seja, perdoar é o mesmo que libertar um condenado ou um réu de cumprir uma sentença. Parece confuso, mas pensando racionalmente, quem perdoa perde muito. O perdão pode ferir o nosso senso comum de justiça, principalmente, se somos nós os ofendidos. Quem perdoa, acaba assumindo para si próprio o valor e a dor da punição. Perdoar é como ser magoado duas vezes, a primeira por ter sido apanhado despercebido, a segunda por abrir mão da justiça, de responder ou de se vingar. Mas, acredite em mim: por experiência própria, eu posso afirmar que perdoar é uma dádiva”.

Ao perdoar, livramo-nos de alimentar tudo o que de mau que está dentro de nós.

Não é uma atitude fácil de tomar, mas a única força capaz de superar a mágoa e remover toda a raiz de amargura, é o amor. O amor vence todas as coisas, pode vencer até a morte. Para todas as curas, libertações e felicidades, é necessário perdoar e ser perdoado. Precisamos de nos colocar no lugar dos outros, para compreendermos verdadeiramente o que nos aflige. Quando nos esforçamos para compreender, seja a pessoa que nos magoou ou a pessoa que nós magoámos, torna-se mais fácil perdoar ou pedir perdão.

O acto de perdoar está ligado à libertação de qualquer dor, perdoar não é o mesmo que empurrar com a barriga ou deixar uma situação inacabada como segundo plano. Precisamos de compreender as nossas mágoas e ressentimentos, é necessário perdoar não só os outros, mas também a nós próprios. Como as pessoas são diferentes, com as suas dificuldades, inseguranças e carências, isto torna-se um confronto de diversidades, podendo fazer-nos entrar em crise existencial.

Aprendamos a ver o mundo de hoje, ver os nossos irmãos, a Nossa Ordem Maçónica, com os olhos do Coração. Quem tem o poder de Perdoar, está o mais próximo possível da verdadeira evolução que Deus, nos preconiza cultivar que, ao virmos para este ballet de lágrimas, aprendamos Primeiro a nos perdoarmos e também aos nossos irmãos.

Dario Angelo Baggieri

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2 thoughts on “O poder do perdão

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    Parabéns pelo artigo!! O Perdão é libertador! Para nós Maçons, devemos ainda mais ter em conta esta premissa! Ser Homem Livre também é ter a consciência tranquila, é olhar os outros de frente e nos olhos, é saber que o laço que nos liga aos Irmãos é puro e incindivel!

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    Belo artigo. Parabéns ao irmão que o produziu. Eis um soneto de nossa autoria sobre o tema, que transcrevemos para fazer interação.
    DOCE VINGANÇA

    “Antes, se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede dá-lhe de beber; porque fazendo isso amontoarás brasas vivas sobre sua cabeça.”
    Romanos, 12:20.

    Se alguém, algum mal nos está fazendo,
    É muito certo que vingança desejemos;
    Quem não quer ver o inimigo sofrendo
    Dor igual à que por sua causa sofremos?

    No entanto, o pior de todos os castigos,
    Não é aquele que infringe muitas dores,
    Mas o que faz ver aos nossos inimigos,
    Que nós temos sentimentos superiores.

    Pois ao tratar um desafeto com bondade,
    Roubamos dele toda a força que o ativa;
    Essa sim, será uma vingança de verdade.

    É um comportamento difícil de adotar,
    Mas ao fazermos colocamos brasa viva,
    Na cabeça de quem nos quis prejudicar.

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