
A arte de transformar a loja para iluminar a sociedade sem perder os nossos valores
A Maçonaria, como instituição secular, erigiu-se sobre bases sólidas de tradição, simbolismo e conhecimento. Ela moldou pensadores, estadistas e, em muitos momentos, teve papel decisivo na história do mundo. Hoje, porém, parece ter perdido parte da sua relevância nos debates públicos e na formação de lideranças. Que caminho nos trouxe até aqui? E, principalmente, como retomar o nosso papel central sem abrir mão dos nossos princípios mais sagrados?
A resposta passa por uma palavra que desperta curiosidade e receitas na mesma medida: mudança. Mudança não de valores, mas de formas; afinal, os nossos fundamentos continuam e continuarão imutáveis. Basta para o mundo à nossa volta olhar, até o alistamento militar, que antes implicava idas e vindas a repartições, hoje é feito online. E uma telemedicina? A medicina continua sendo uma ciência de cuidar da saúde das pessoas, mas agora pode ser praticada sem que você precise enfrentar filas intermináveis e salas de espera lotadas. Em ambos os casos, o objectivo permanece o mesmo, o que muda é a maneira como ele é cumprido. É esse o raciocínio que deve nortear a modernização da Loja.
Tradição como base, modernidade como caminho
Se o Aprendiz deve desbastar a pedra bruta para revelar a forma ideal, a Ordem também precisa de ajustes para melhor cumprir o seu papel na sociedade contemporânea. O grande desafio é incorporar novos métodos sem alterar a nossa essência. Assim como o Aprendiz não pode se furtar a lapidar a pedra (sob pena de continuar com um bloco disforme), a Maçonaria também não pode resistir a toda e qualquer renovação, sob o risco de se estagnar.
Os instrumentos simbólicos ensinam-nos justamente como fazer isso:
- O Malho (Vontade): serve para quebrar ideias ultrapassadas, abrindo espaço para práticas mais eficazes.
- O Cinzel (Inteligência e Discernimento): ajuda a moldar as mudanças com cuidado, mantendo os nossos princípios centrais intactos.
- O Esquadro (Juízo): garante que toda inovação permaneça em harmonia com os valores e a essência que nos regem há séculos.
Por que é importante estar aberto ao novo
A tradição é o nosso porto seguro, mas a rigidez pode resultar em obsolescência.
Assim como o Aprendiz não se torna Mestre da noite para o dia, a Loja só consolida o seu papel se estiver interessado em rever posturas antiquadas, aprimorar-se e, principalmente, continuar a formar líderes que aprendam a actuar com firmeza e ética no mundo de hoje.
Se a Maçonaria já foi capaz de influenciar positivamente os rumores da nossa nação — formando e inspirando grandes pensadores —, por que não conseguiria novamente? Para tanto, é preciso vontade de evoluir. E evoluir não significa renunciar à essência. É como alistar-se nas Forças Armadas pelo site: a tecnologia mudou o processo, mas o objectivo (cumprir um dever cívico) permanece inalterado.
Como se renovar sem perder a essência
- Resgate da Formação Filosófica e Política
- Promover debates sérios sobre ética, política e economia, reafirmando o papel da Loja como um centro de pensamento capaz de formar cidadãos conscientes.
- Combate ao Ego e ao Carreirismo
- Voltar o foco para a formação moral do Maçom, evitando a busca de status ou títulos vazios. É na vivência dos valores que se encontra a grandeza da Ordem, não na ostentação.
- Modernização dos Meios de Comunicação
- Em tempos de informação digital, é fundamental ocupar espaços virtuais para divulgar princípios e reflexões maçónicas, sem banalizar a nossa ritual idade. As redes podem aproximar mentes que antes estariam distantes.
- Abertura Cuidadosa às Novas Gerações
- Atrair pessoas comprometidas com a filosofia da Ordem, filtrando aqueles que só buscam vantagens pessoais. A actualização de quadros deve acontecer sem seguir o nosso rigor iniciado.
- Manter os Valores, Mudar as Formas
- Tal como a telemedicina, que não alterou o propósito de salvar vidas, mas apenas o jeito de cuidar das pessoas, a Maçonaria também pode se adaptar sem abandonar os seus fundamentos essenciais.
Conclusão
O verdadeiro Maçom busca incessantemente a Luz, e essa busca passa pela capacidade de aceitar as transformações realizadas para o crescimento pessoal e colectivo, desde que os valores que nos definem sejam preservados. Que usamos o Malho para romper barreiras antigas, o Cinzel para lapidar novas ideias com discernimento e o Esquadro para garantir que estejamos sempre em linha com os nossos princípios mais caros.
Não se trata de escolher entre tradição e inovação, mas de enxergar que ambas podem coexistir de forma harmónica. O nosso papel como construtores sociais permanece o mesmo: erguer pilares sólidos de fraternidade, sabedoria e justiça. Mas, se no passado construímos templos de pedra, hoje podemos construir redes de conhecimento, influenciar políticas públicas, orientar debates éticos e formar cidadãos conscientes.
A pergunta que ecoa é: que tipo de edifício queremos legar ao futuro? Um edifício majestoso, mas vazio de propósito, ou uma construção viva, que mantém a essência maçónica enquanto dialoga com as demandas do tempo presente? A resposta cabe a cada um de nós, que, com a devida prudência e a coragem de renovar, poderemos manter acesa a tocha da Maçonaria como um farol de sabedoria e fraternidade para as próximas gerações.
Endrio Zanella Muller, A. M. – CIM nº 25705
Bibliografia
- Junior, Raymundo D’Elia – 100 Instruções de aprendiz. 2008, Madras editora Ltda.
- Da Camino, Rizardo – Breviário Maçónico 3ª edição. 1999, Madras editora Ltda.
- Site: https://www.lojamad.com.br/
- Site: https://www.freemason.pt/
- Ritual Edição 2017.
- Castellani, José – Cartilha do Aprendiz 4ª edição. 2004, Editora maçónica A Trolha Ltda.

- Doutrina do grau de Aprendiz e de Companheiro
- Os Símbolos Maçónicos
- A maçonaria e a roupa preta
- Grau 7 – Preboste e Juiz (REAA)
- Simbolismo dos Números na Maçonaria – O número Nove


Tenho questionado sempre quando entro no mérito da Maçonaria silenciosa nos últimos tempos. Ninguém consegue explicar. Pois, no passado os relatos históricos nos mostram uma Maçonaria combativa. Hoje, ela é passiva. Não reage a nada. O artigo em questão, aponta o caminho para acompanhar a evolução de forma layte. Eu, pessoalmente me refiro uma forma mais combativa, senão vamos continuar sendo ignorados.
Prezado Irmão Endrio, já como Aprendiz, está aprendendo a questionar e posicionar-se; fico muito feliz!
Várias passagens de vosso texto chamaram-me a atenção, mas faço uma citação para ficarmos no que interessa: “A tradição é o nosso porto seguro, mas a rigidez pode resultar em obsolescência” ou “Não se trata de escolher entre tradição e inovação, mas de enxergar que ambas podem coexistir de forma harmónica”. Fiquei muito alegre ao saber que não estou sozinho neste pensamento.
Recentemente foi publicado um texto neste me local, onde falava:
“Nós Maçons, também temos os nossos “mandamentos” ou mais conhecidos como “Landmarks”, cuja tradição considera a sua invariabilidade e irrevogabilidade; isto é, todo Landmark é considerado inalterável [12].
Longe, pois, qualquer tentativa de discussão sobre o determinismo desta tradição histórica. Mas respeitar o texto histórico, não significa que não possamos discutir os contextos a eles relacionados, que são mutáveis – aliás, adogmáticos e infinitamente mutáveis, especialmente na nossa sociedade moderna ou pós-moderna [10].” (https://www.freemason.pt/a-lingua-portuguesa-e-a-maconaria/)
TFA
Ir Walter Roque Teixeira
MM (MI) – Blumenau – GOB/SC