José Anastácio Lopes Cardoso e sua acção contra a Maçonaria luso-brasílica (1799-1804)
(Continuação – Ligação para a Parte I)
A cabala maçónica no Brasil
O relatório de 14 de Abril de 1803, de José Anastácio Lopes Cardoso, é importante ainda por trazer novas luzes sobre as relações entre a sociabilidade maçónica e os complexos movimentos políticos que tiveram lugar no Brasil entre os fins do século XVIII e os primeiros anos do XIX. O mais interessante, porém, é a visão de conjunto apresentada por seu autor. Ele articula no documento três episódios aparentemente distintos na história do Brasil: a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1798) e o protagonismo de Hipólito no desenvolvimento da maçonaria luso-brasílica, que teve como consequência sua prisão (1802). De imediato, é notável a afirmação de que existiam “opulentas lojas” na Bahia e em Pernambuco. Na visão “barruelista” de Cardoso, os episódios relativos aos maçons brasílicos se articulavam num único projecto conspiratório para sublevar o Brasil. Examinar o relatório, cotejando-o com outros documentos, permite compreender melhor a preocupação do corregedor com a existência de uma ampla conspiração brasílica.
Cardoso notou como Hipólito da Costa se aproximou do grupo de intelectuais provenientes de Minas Gerais. Ora, a historiografia parece esquecer que Hipólito trabalhava junto a frei José Mariano da Conceição Veloso, no século José Veloso Xavier, primo carnal de Joaquim José da Silva Xavier, o mártir Tiradentes, da Inconfidência Mineira (1789). As irmãs Antonia da Encarnação Xavier e Rita de Jesus Xavier foram, respectivamente, as mães de Joaquim José da Silva Xavier e de José Mariano da Conceição Veloso. Frei Veloso dirigia desde 1800 a Typographia Chalcographica do Arco do Cego, na qual Hipólito publicou seus primeiros textos depois que voltou da Filadélfia, onde em 1799 foi iniciado na maçonaria, na Loja George Washington 59, subordinada a Grande Loja da Pensilvânia. [46] Hipólito, que retornou para Lisboa em fins de 1800, e frei Veloso, ambos protegidos pelo ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho, foram nomeados, pelo alvará de 7 Dezembro de 1801, para a Junta Administrativa, Económica e Literária, incumbida de gerir a Impressão Régia [47]. Um detalhe passou despercebido aos historiadores, mas José Joaquim Vieira Couto confessou ao Santo Ofício que as reuniões dos pedreiros livres em Lisboa ocorriam em uma “loge […] convocada nas cazas da quinta em que esteve a Impressão Regia no Arco do Cego” [48]. Não restam dúvidas de que o local assinalado pelo mineiro era onde trabalhavam frei Veloso e Hipólito da Costa, entre 1800 e 1802.
Desde a queda de Pombal, Pina Manique não deu trégua aos pedreiros-livres, apesar de não haver nenhuma lei portuguesa que proibisse suas associações. Quando, após 1800, as acções da polícia se tornaram mais constantes, com a supressão das duas lojas dos regimentos auxiliares dos ingleses, representantes de três outras lojas maçónicas foram procurar o secretário de Estado e Fazenda, D. Rodrigo Coutinho. Eram Hipólito, José Ferrão de Mendonça e Sousa, prior da Freguesia dos Anjos, e José Joaquim Monteiro de Carvalho, grão-mestre da Loja Concórdia. D. Rodrigo, sobre quem pesa a suspeita de possuir conexões clandestinas com a maçonaria da época, teria afirmado aos seus interlocutores que “diga da minha parte ao Intendente que os pedreiros-livres não são, como ele os tem figurado a Sua Alteza; diga-lhe mais que os pedreiros-livres são fiéis ao seu soberano [.] E os meus amigos vão descansados, por isso que a perseguição de hoje em diante há de abrandar; mas haja sempre cautela e nada de abusar” [49]. Nenhum resultado produziu esse recado.
Em 1802, Hipólito da Costa seguiu para Londres com o pretexto de tratar de negócios particulares. Por sua diligência, o Grande Oriente Lusitano foi reconhecido pela maçonaria da Inglaterra. A aproximação entre Hipólito e o duque de Sussex influenciou essa questão, resultando no estabelecimento do Grande Oriente Lusitano, com o apoio da Grande Loja da Inglaterra, decretando pela Acta Latomorum que “enquanto as lojas portuguesas se conformassem às antigas Constituições da ordem, estariam autorizadas a ter um representante na Loja-mãe da Inglaterra […] e que os irmãos pertencentes às [Lojas] teriam igual direito aos privilégios da outra” [50]. Dois anos depois, William Preston, cronista da maçonaria inglesa registrou que:
À Grande Loja foi feito, em Maio seguinte, outro apelo, através do mesmo canal (o duque de Sussex) da parte de quatro lojas de Portugal, as quais credenciaram M. Peter Hipolite da Costa [sic] para em seu nome solicitar autorização regular, a fim de praticar os ritos da Ordem sob a bandeira e a protecção inglesa. Após madura deliberação, determinou-se que todo estímulo fosse dado aos irmãos em Portugal; mas que uma lista de tais nomes deveria ser remetida à Inglaterra [51].
Em Portugal, a situação de Hipólito se complicava, e D. Rodrigo mandou outro recado para ele através do Prior dos Anjos. José Liberato Freire de Carvalho, também maçom, revelou nas suas Memórias que o ministro afirmara: “Estou muito mal com Hipólito, porque me tem comprometido com esta gente. Sei que o que mais tem feito em Londres é frequentar lojas maçónicas; hei de mandar prendê-lo assim chegue a Lisboa” [52]. O recado do ministro foi dado por carta de Carvalho, que lhe recomendava não comprometer “a si e nem a D. Rodrigo”. Hipólito fez pouco caso do aviso e em fins de Julho adentrou o Tejo com os documentos que o comprometiam com a maçonaria inglesa. Três ou quatro dias depois de chegar em Lisboa, Cardoso o prendeu, conforme ele próprio narrou na sua Narrativa da perseguição (1811). O relatório assevera as afirmações do pedreiro-livre:
O Ministro Secretario d’Estado dos Negócios da Fazenda [D. Rodrigo] mandou proceder contra este Hipolito Joze da Costa quando voltou da Londres, e eu o aprendi em Julho de 1802 tendo de próximo chegado. Aprehendi muito papel concernente a materia sogeita; o trato da negociação em Londres; a correspondencia com as loges subalternas que então se contarão ao numero de seis (a), alem do Capitulo soberano.
O corregedor estava bem informado, pois em 1803 já havia, de facto, seis lojas maçónicas operando em Lisboa: Amizade, União, Concórdia, Virtude, Razão e Fortaleza, além de um capítulo ou conselho soberano denominado Cavaleiros da Espada do Oriente. Carlos Rizzini, orientado pelos escritos de Hipólito no Correio Braziliense, afirma que era mínima a acção da maçonaria no começo do século XIX [53]. As investigações do corregedor indicam o contrário, particularmente no que toca aos maçons brasílicos.
Hipólito era muito ligado a José Joaquim Vieira Couto, visto que morava e foi preso pelo corregedor na casa do mineiro, na rua da Prata, freguesia de São Nicolau, em Lisboa. Segundo o criado daquela casa, Manoel da Silva Couto, naquele local eram realizadas quinzenalmente associações maçónicas para onde concorriam também José Saturnino da Costa Pereira, irmão de Hipólito, o Marquês de Loulé e “certo Pe. Joaquim, que he ilheo” [54]. Vieira Couto era o próximo alvo da polícia.
No dia 26 de Março de 1803, às 9 horas da manhã, José Joaquim Vieira Couto foi surpreendido em casa por Cardoso e seus agentes, que encontraram na residência aventais de pelica e martelos, objectos ligados a cerimónias maçónicas, além da obra do abade Barruel e a Sentinela Espanhola [55]. Couto foi levado para o Santo Ofício e ficou quatro meses “em segredo”, sendo interrogado a partir de 9 de Julho de 1803 [56]. Segundo o réu, sua iniciação na maçonaria ocorreu no Sítio da Luz, a uma légua de Lisboa, por intervenção de Maurício Ponça, piemontês, que conheceu na Livraria Pública, e que havia falecido (convenientemente) em Fevereiro ou Março de 1803, não sabendo onde fora sepultado [57]. O processo revela que o mineiro “possuía o avental do grau de aprendiz” [58]. No Santo Oficio, Couto entregou o nome de alguns dos seus consórcios, apontando o Barão de Manique, filho do intendente Manique, o mineiro Thomas Vieira do Couto, primo de José Vieira, que viajou a diversos países da Europa, João Felipe da Fonseca, oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha, Gervasio Valladares, oficial da mesma secretaria e primo do acima citado. Foi encontrada na casa do réu uma cópia, com sua letra, da convenção entre o Grande Oriente Inglês e o Grande Oriente Lusitano, que “ultimamente se tinha celebrado” [59]. Os inquisidores apresentaram uma série de documentos maçónicos apreendidos pela polícia, como um Aviso do Supremo Conselho dos Cavalheiros da Espada, um Aviso dos Directores da Biblioteca Maçónica e um Cântico Maçónico, este último com a letra do próprio Couto [60].
Vieira Couto afirmou que, em Lisboa, morou um ano e meio na casa do negociante João Manoel Correia Pereira, na Rua da Prata. Depois se mudou para outra casa, na mesma rua, hospedando o tenente-coronel de Minas Gerais José Joaquim Vieira Cardoso, o padre Antonio Gomes de Carvalho, José Saturnino e Luís José Maldonado. Couto negou que todos fossem maçons, mas, actualmente, isso pode ser confirmado. Em Lisboa, também reconheceu o coronel Joaquim Silvério dos Reis Leiria “muito abonado em cabedais e estimado no paço reprovado na maçonaria por unanimidade dos votos” [61]. Esse era o ilustre delator de Tiradentes na malfadada Inconfidência Mineira, mas, infelizmente, Couto não revela porque a maçonaria recusou o ingresso de Silvério dos Reis. Há a notícia de que José Eloy Ottoni, mineiro e primo de Couto, estando em Lisboa, tentou intervir em favor do seu parente, sendo orientado pelo inquisidor a não o fazer. Ottoni seria, dez anos depois, o autor do mais belo libelo de natureza maçónica impresso no Brasil, a Parafraze dos Provérbios de Salomão (1815) [62].
Em 1805, após a fuga de Hipólito, o inquisidor Manoel Fragoso interrogou Couto em virtude de as autoridades interceptarem parte da sua correspondência remetida ao governador de Minas, Bernardo José de Lorena, também pedreiro-livre, e aos correios da Bahia e do Rio de Janeiro. Questionado sobre o tratamento que lhe dispensou a polícia, o réu afirmou que “não poderia queixar do Ministro Secular que tratou a sua cauza, antes de ser conduzido para a Inquisição, porque formou sempre muito bom conceito do Dezembargador Joze Anastacio, apezar de conhecer que o mesmo não era seu affeissoado no tempo que o prendeu e o interrogou na Policia”. [63] A 28 de abril de 1806, Couto afirmou ter recebido um saco de papéis e cartas de Joaquim Thomas de Aquino Bulhoens, que custodiava os pertences do réu. Esse senhor foi o impressor da terceira parte da Marília de Dirceu (1800), atribuída a Tomás Antônio Gonzaga, mas certamente apócrifa, podendo ser de autoria de José Eloi Ottoni, primo de Couto, que naquele ano servia o embaixador Conde da Ega. No dia seguinte, o próprio Bulhoens negou tudo, afirmando que só entregara um relógio ao réu [64]. Couto ficou nos cárceres da inquisição até 1808, sendo solto por Junot a pedido da maçonaria portuguesa, e morreu em 1811.
Os indícios apontam que, desde 1800, um grupo de mineiros estabelecidos em Lisboa estava se articulando em torno de Hipólito José da Costa e das lojas portuguesas, particularmente do Supremo Conselho dos Cavaleiros da Espada. É possível que as intervenções policiais feitas pelo corregedor tenham atrasado qualquer projecto que os maçons tivessem em relação ao Brasil. Um papel com nome de quatro réus da Inconfidência Mineira foi apreendido por Cardoso sob a posse de Hipólito, na casa de Vieira Couto. Isso levou o corregedor a considerar as suspeitas de uma cabala maçónica que se espalhava e organizava pelo Brasil:
Entretanto Repare V.a S.a que se notão em hum fragmento de papel os nomes de quatro R.R. que o forão na Revolução de Minas Geraes, e hoje degradados em Angola, e Monssanbique (sic); e que se empenhão muito os Maçoens em espalhar a seyta no Brazil. (Sabese haver loges opolentas em Pernambuco, e Bahia) Para isto vem muito o interesse que se deprehende nos papeis aprehendidos de clamar a seyta o novo Ouvidor de Cerro Frio que parece a não haver fim sinistro de nada serviria á seyta em Lisboa no tempo e que estiver servindo izolado no Certão do Brazil.
Cabem duas considerações sobre essa citação. Primeiro, no relatório de 14 de Abril de 1803, Cardoso sinaliza que Hipólito estava com uma lista com os nomes de quatro inconfidentes, mas sem revelar suas identidades. Considere-se que existe a suspeita de que a Inconfidência Mineira teve participação de pedreiros-livres, embora não tenha sido possível, até o presente, confirmar tal suspeita com documentos. Quem poderiam ser, contudo, os quatro inconfidentes desterrados, cujos nomes se encontravam com Hipólito na casa de Vieira Couto? Deve-se considerar, por eliminação dos que já estavam mortos, os possíveis nomes dos que ainda viviam. Em 1803, dos conspiradores de Minas Gerais, apenas quatro ainda estavam vivos no desterro africano: o militar Francisco de Paula Freire de Andrada (Rio de Janeiro/RJ, 1752 – Luanda, 1809), Tomas Antônio Gonzaga (Porto, 1744 – Moçambique, 1810), o sargento-mor Luiz Vaz de Toledo e Piza (Taubaté/SP, 1739 – Angola, 1807) e o engenheiro José Álvares Maciel (Ouro Preto/MG, 1760 – Massangano, 1804?) [65]. O primeiro, Francisco de Paula Freire de Andrade, era tenente-coronel do regimento de dragões de Minas Gerais em 1789, filho do 2° conde de Bobadela, José Antonio Freire de Andrade, sendo, portanto, sobrinho de Antonio Gomes Freire de Andrade, 1o conde de Bobadela, governador e capitão-general do Rio de Janeiro (1733-1763). Era proprietário de uma biblioteca com livros de diversos autores da Ilustração e, apesar de seu posto militar, participou da conspiração republicana, franqueando sua casa para se reunirem os conjurados. Quando se descobriu a conspiração, Francisco de Paula Freire de Andrade foi preso e degredado, em 1792, para o presídio Pedras de Encoje, em Angola. Aliás, a história, também aqui, esqueceu um detalhe: o inconfidente era primo em segundo grau de Gomes Freire de Andrade e Castro, já na época um dos mais influentes pedreiros-livres em Portugal.
Outro militar, o sargento-mor Luiz Vaz de Toledo e Piza, foi degredado para a prisão de Cambambe. Ele era sargento-mor e acusou Joaquim Silvério dos Reis de havê-lo aliciado para a conspiração; em outro interrogatório mudou seu depoimento e acusou o irmão Carlos Correia de Toledo. Do desterro em Cambambe, passou para Luanda onde em 1801 foi admitido pela Irmandade de São Pedro Gonçalves Telmo, mediante o pagamento de 1200 réis, conservando a patente que possuía em Minas Gerais [66].
Em Moçambique, estava vivo o poeta e magistrado Tomás Antônio Gonzaga. Sua relação com a maçonaria, bem como de todos os inconfidentes, é incerta, mas bastante plausível. Ignacio José de Macedo, um dos pedreiros-livres que faziam parte do primeiro Grande Oriente do Brasil, que existiu na Bahia desde 1813, revelou o seguinte:
Há pouco mais de 40 annos, que houve hum jantar em Villa Rica, no qual alguns esquentados do vinho projectarão de galhofa huma Revolução contra o Governo existente; e sabido o caso, e apesar de não haver Documentos além das fallas entre o calor dos copos, forão alguns enforcados, e outros degredados. Immortal Gonzaga, honra das Musas […] Tu não eras Pedreiro: tu eras innocente Vassalo [67].
Macedo era, tanto quanto Hipólito, contumaz defensor da maçonaria, mas essa passagem indica que, duas décadas após a Inconfidência, ainda muito antes de a historiografia contemplar aquele episódio, a voz pública considerava seus actores como pedreiros-livres. Adelto Gonçalves afirmou que muitos comerciantes maçons do Rio de Janeiro sustentaram os inconfidentes de Minas Gerais durante os meses que estiveram presos naquela capitania, à espera da sentença [68]. João Isidoro da Silva Regadas, a quem o inconfidente Domingos de Abreu Vieira fora recomendado por um comerciante do Rio de Janeiro, “era geralmente conhecido como declarado maçom” [69].
A segunda consideração que deve ser observada no relatório de Cardoso, ao tratar de Minas Gerais, diz respeito a “clamar a seyta o novo Ouvidor de Cerro Frio que parece a não haver fim sinistro de nada serviria á seyta em Lisboa no tempo e que estiver servindo izolado no Certão do Brazil”. A passagem do manuscrito é obscura, mas os indícios apontam que Cardoso errou ao se referir ao cargo de ouvidor. Em 1803, ainda servia na comarca de Serro Frio o ouvidor Antonio Seabra da Mota e Silva, que estava encerrando o triénio do seu mandato. Um novo ouvidor, José Filipe Ferreira Cabral, só seria nomeado a 26 de Outubro de 1803, quase seis meses após a redacção do relatório [70]. É bem possível que o cargo fosse outro: a Intendência de Serro Frio, então ocupada por Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt Aguiar e Sá. Em 1790, ele e seu colega santista José Bonifácio de Andrada foram enviados por Luis Pinto de Souza Coutinho, declarado maçom segundo uma carta da Marquesa de Alorna [71], para cursar física e mineralogia em Paris, capital das agitações políticas. Já na época, era notório que o irmão de Câmara, José de Sá Bittencourt e Acioli, fora implicado na Inconfidência Mireira, fugindo para a Bahia, ao abrigo dos seus parentes. Numa carta ao Conde de Linhares, José Bonifácio afirma que “para a Química acha-se no Brasil José de Sá Bethencourt, irmão do Câmara, muito capaz; foi meu condiscípulo em Coimbra e então mostrou muito mais talento que o irmão” [72].
Não resta dúvida de que o relatório de Lopes Cardoso se referia a Câmara Bittencourt e não aos ouvidores. Pela carta régia de 7 de Novembro de 1800, Câmara foi nomeado pela primeira vez Intendente-Geral das Minas na Capitania de Minas Gerais e Sêrro do Frio e, a 22 do mesmo mês, prestou juramento perante o barão de Moçâmedes. Recebeu as instruções para a viagem no Palácio de Queluz, a 26 de Novembro de 1800, quando teve licença para ir à Bahia “tratar dos seus negócios particulares” [73]. Chegou à Bahia em Fevereiro de 1801, onde logo se associou ao poderoso Francisco Agostinho Gomes, que também acabara de regressar de Lisboa, apadrinhado por D. Rodrigo de Souza e inocentado das suspeitas de colaborar com os conjurados baianos de 1798. Segundo o biógrafo de Câmara, “é provável que Francisco Agostinho Gomes tenha mantido relações pessoais com Ferreira da Câmara, quando esteve em Portugal, por volta de 1798, para defender-se de acusações que lhe haviam sido feitas de andar conspirando na Bahia contra os poderes constituídos” [74].
Esses personagens, aparentemente dispersos nas histórias da política e das ciências no Brasil, convergem em uma afirmação revelada num relatório da polícia lisboeta de 15 de Agosto de 1802. O documento afirma que “se os franco-maçons devem ser tolerados porque alguns […] da Loja dos Cavaleiros da Espada no Oriente estão encarregues do descobrimento de minas de carvão, de cobre, ferro, salitre, o príncipe decidirá” [75].
Essa era a associação maçónica supostamente chefiada por Hipólito. O inconfidente desterrado José Alvarés Maciel, em 1800, encomendou uma memória sobre as minas de ferro de Angola [76]. A sociedade entre Câmara Bittencourt e Agostinho Gomes, em 1801, era justamente para exploração de cobre na Bahia.
Ao invés de seguir para ocupar seu cargo em Serro Frio, Câmara Bittencourt demorou seis anos em Salvador, onde certamente não ficaria isolado e poderia servir mais efectivamente a algum projecto político, do governo ou de particulares. Ele foi nomeado pela segunda vez para o cargo por decreto de 2 de Julho de 1803, mas, meses antes, a informação já circulava nas esferas do governo, em decorrência do alvará de 13 de maio de 1803, que criava a junta administrativa de mineração e moedagem, abolindo ao mesmo tempo as casas de fundição com todos os seus empregados. Assim, a observação de Cardoso pode ser melhor compreendida em sincronia com a renomeação de Câmara para a intendência de Serro Frio. Seu principal biógrafo não apresenta informações significativas sobre os seis anos em que viveu na Bahia, mas é possível que sua demora por lá se deva a suas relações com a maçonaria lisboeta e local, que contaria com duas lojas em 1807. Somente a 27 de Outubro de 1807, Câmara Bethencourt tomou posse do cargo em Minas Gerais, quando governava aquela capitania Pedro Xavier d’Ataíde e Melo [77]. Ainda assim, manteve-se sempre ligado política e intelectualmente à Bahia, onde faleceu em 1835.
A anotação feita por Cardoso de que havia opulentas lojas maçónicas na Bahia e em Pernambuco merece ser considerada com seriedade pela historiografia. Deve-se sublinhar que já existia em Salvador a Loja Virtude e Razão, estabelecida a 5 de Julho de 1802 (no calendário maçónico 15/04/5802 A:. V:. L:.), no Rito Moderno. Foram possivelmente seus associados que auxiliaram a fuga do contrabandista inglês Thomas Lindley, também maçom, conforme ele mesmo declarou no seu livro publicado em 1805. Decerto, o caso estava fora da jurisdição de Cardoso, mas trechos traduzidos em português do livro de Lindley chegaram a tramitar pelo Conselho Ultramarino, sem que qualquer investigação fosse levada adiante [78].
Pernambuco também possuía lojas maçónicas, entre elas, o Areópago de Itambé, supostamente estabelecido em 1796 por alguns intelectuais brasílicos. Um dos seus fundadores teria sido Manuel Arruda Câmara (Pombal, 1752 – Goiana, 2 de Outubro de 1810), que era correspondente da Sociedade Literária do Rio de Janeiro (1794), havendo cursado Filosofia Natural pela Universidade de Coimbra e Medicina pela Universidade de Montpellier. Arruda Câmara é tido por “maçom que se correspondia com grandes chefes da maçonaria em Portugal e a quem se deve uma inteligente propaganda revolucionária” [79].
Ao tempo em que Lopes Cardoso redigiu seu relatório, funcionavam lojas maçónicas também no Rio de Janeiro, notadamente a Reunião (1801), fundada por um certo Cavaleiro Laurent, filiada ao Oriente da Ilha de França. O Grande Oriente Lusitano enviou emissário para subordiná-la aos maçons portugueses, não obtendo sucesso. Esse representante do Grande Oriente, Francisco José de Araújo, tomou a iniciativa de fundar, no Rio de Janeiro, as lojas Constância e Philantropia, em meados de 1804 [80].
Conforme pode ser observado nas considerações acima, o relatório de Lopes Cardoso pode ser bem mais do que devaneios de um barruelista convicto. Suas observações possuem fundamentos documentais ou indícios que devem ser considerados a respeito de um projecto, ainda que difuso e obscuro, para sublevar as principais capitanias do Brasil.
Pablo A. Iglesias Magalhães
(Continua – ligação para a parte III)
Notas
[46] BUVALOVAS, Thais. Hipólito da Costa na Filadélfia (1798-1800). São Paulo: Hucitec, 2011.
[47] RIBEIRO, José Vitoriano. A Imprensa Nacional de Lisboa: subsídios para a sua história, 1768-1912. Lisboa: Imprensa Nacional, 1912, p. 19-22.
[48] ANTT. Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa. Processo n° 16.809, fl. 112.
[49] FREITAS, António Gregório de. Memorias em defesa da maçonaria por um maçon português fiel ao rei e à patria. Lisboa: Officina do Rito Escocez ao Oriente da Irlanda, 1861.
[50] MARQUES, Antonio de Oliveira. História da Maçonaria em Portugal: das origens ao triunfo, op. cit., p. 80.
[51] PRESTON, William. Illustrations of Masonry. London: G. and T. Wilkie, 1804, p. 371.
[52] CARVALHO, José Liberato Freire de. Memorias da vida de José Liberato Freire de Carvalho. Lisboa: Typografia de João Batista Morando, 1855, p. 40.
[53] RIZZINI, Carlos. Hipólito da Costa e o Correio Braziliense. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957, p. 8.
[54] IHGB. Manoel da Silva do Coutto, criado de servir morador na caza de seo amo Joze Joaquim Vieira Couto. DL 21, doc. 9, fl. 18, lápis.
[55] ANTT. Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa. Processo de José Joaquim Vieira Couto n° 16.809. f. 127-128.
[56] Ibid., fl. 106.
[57] Ibid., fl. 101-117.
[58] Ibid., fl. 118.
[59] Ibid., fl. 118v e 120.
[60] Ibid., fl. 127-127v e 141. Esse processo e o relatório de Cardoso são as únicas referências sobre a existência de uma Biblioteca Maçônica portuguesa, que Couto afirmou conter mais de duas mil obras cedidas pelos seus confrades.
[61] Ibid., fl. 125v -126.
[62] MAGALHÃES, Pablo Antonio Iglesias. A Parafraze dos Proverbios de Salomão: O código moral dos pedreiros livres impresso na Bahia em 1815. Revista Portuguesa de História do Livro, Lisboa, vol. 35-36, 2015, p. 369-419.
[63] ANTT. Santo Ofício. Papéis de José Joaquim Vieira Couto, processo n° 13.339. 14/12/1805 a 23/02/1808, fl. 12vol.
[64] Ibid., fl. 27.
[65] Já estavam mortos Inácio José de Alvarenga Peixoto (Luanda, 1789), Antonio de Oliveira Lopes (Moçambique, 1794), Domingos de Abreu Vieira (Muxima, 1792), Vicente Vieira da Mota (Moçambique, 1798), Francisco Antônio de Oliveira Lopes (Bié, 1800), José Aires Gomes (Moçambique, 1794), José de Resende Costa (Cabo Verde, 1798), João Dias da Mota (Cabo Verde, 1793), Salvador Carvalho do Amaral Gurgel (Inhambane, 1813), Domingos Vidal de Barbosa Laje (Ilha de São Tiago, 1793), João da Costa Rodrigues (Moçambique, [1810?]) e Vitoriano Gonçalves Veloso (Moçambique, 1803).
[66] MACÊDO, Tania. Angola e Brasil: estudos comparados. São Paulo: Arte & Ciência, 2002, p. 28-30.
[67] MACEDO, Ignacio de. O velho liberal do Douro. Lisboa: Imp. da Rua dos Fanqueiros, 1833, p. 126.
[68] GONÇALVES, Adelto. Gonzaga, um poeta do Iluminismo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 231.
[69] PACHECO, Carlos. José da Silva Maia Ferreira, o homem e sua época. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1991.
[70] Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Minas Gerais. Antonio Seabra da Mota e Silva encerrou seu triênio em 1802. Caixa 162, doc. 16. AHU. Minas Gerais. José Filipe Ferreira Cabral, 26 de outubro de 1803. Caixa 168, doc. 41.
[71] IHGB. Lata 21, doc. 2, fl. 2. A própria marquesa de Alorna e a sua Sociedade da Rosa, ordem paramaçônica andrôgena, seria interceptada por José Anastácio Lopes Cardoso em 1803.
[72] VIANA, Hélio. Correspondência de José Bonifácio (1810-1820). Revista de História, São Paulo, vol. 27, n. 55, 1963, p. 228.
[73] MENDONÇA, Marcos Carneiro de. O Intendente Câmara: Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá, Intendente Geral das Minas e dos Diamantes (1764-1835). São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1958, p. 87.
[74] MENDONÇA, Marcos Carneiro de. , op. cit., p. 101.
[75] IHGB. Lata 21, doc. 2, fl. 30.
[76] GONÇALVES, Adelto. Gonzaga, um poeta do Iluminismo, op. cit., p. 392.
[77] MENDONÇA, Marcos Carneiro de. O Intendente Câmara: Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá, Intendente Geral das Minas e dos Diamantes (1764-1835). São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1958, p. 114-115.
[78] Arquivo Histórico Ultramarino. Bahia. Avulsos, caixa 243, doc. 16.790.
[79] Documentos Históricos da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, vol. 103, 1954, p. III.
[80] MARQUES, Antonio de Oliveira. História da Maçonaria em Portugal: das origens ao triunfo, op. cit., p. 85-86.

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