Considerações e levantamentos históricos sobre o Padre Francisco de Sales Pereira da Silva
Trabalho do Grau de Aprendiz sobre a actuação do Padre Francisco de Sales, pároco colado da Vila de Limoeiro, Província de Pernambuco, na Revolução Pernambucana de 1817
“Quem bebe da minha caneca tem sede de liberdade”
(CANECA, Frei, 1823, MM)
“… O patriota não morre, Vive além da eternidade; a Sua glória, o seu renome São troféus da humanidade…”.
(A CANÇÃO PERNAMBUCANA, 1817)
Introdução
Amados Irmãos, busquei no texto aqui proposto trazer ao conhecimento e a razão, os factos da actuação do Padre Francisco de Sales, sobre a sua actuação no contexto da revolução pernambucana de 1817, a sua ligação com a Maçonaria e a interiorização da revolução através dos irmãos maçons.
A Maçonaria em Pernambuco
O ideal maçónico chega a Pernambuco
O Iluminismo ou Ilustração caracterizou-se no século XVIII, também chamado ”século da luzes” pelas suas influências culturais em todos os segmentos da sociedade humana da época ensinando o Homem a liberar-se dos excessos das autoridades, dos preconceitos das tradições das convenções e retirando-lhe a viseira intelectual que lhe embaçava a mente, fazendo com que ele enxergasse o mundo de forma real, pelo menos mais real do que vislumbrava naquela época tão sufocada pela ignorância quando os homens do poder espiritual e temporal faziam questão de submeter a humanidade incauta a toda sorte de escravidão talvez até como autodefesa dos seus interesses. Sabiam que se o Homem se instruísse por pouco que fosse ele acabaria por modificar o mundo e esse mesmo poder ruiria por terra.
Este movimento caracterizou-se por apresentar várias tendências, tornando a Filosofia mais divulgada, fazendo com que o povo tivesse mais conhecimento da razão, vulgarizou a ciência empírica, divulgou conceitos sociais e políticos adequados e entre eles o respeito ao ser humano e a liberdade dos povos.
As ideias liberais e a propagação do conceito de democracias livres, alguns dos frutos imediatos e directos da cultura iluminista, que pautou pelo domínio da razão, revisaram todos os valores que até então norteavam o pensamento humano. Esta transformação social tomou conta de toda a Europa alem de, como consequência se propagar por todas as colónias que a maioria dos países daquele continente possuía em outras partes do mundo aonde exploravam os seus míseros habitantes, exaurindo-lhes todas as riquezas naturais e a maioria das vezes, escravizando-os física ou culturalmente.
Entre os continentes explorados contavam-se as Américas do Norte e do Sul.
Estas ideias também chegaram a Pernambuco para se implantar aqui definitivamente com muito suor e sangue, através dos estudantes, filhos de brasileiros e de portugueses, um pouco mais abastados que podiam mandar seus filhos estudarem na Europa ou religiosos enviados pela igreja, especialmente para as faculdades de Coimbra em Portugal, Montpellier na França, e de Londres na Inglaterra além de outras universidades.
Estes jovens ao voltar ao Brasil, não trouxeram apenas os seus diplomas de um curso superior, mas trouxeram também um pensamento novo, totalmente liberal, humano, racional de valorização do ser humano em si e essencialmente libertário com relação a sua condição de colónia de Portugal. Instigados por estas ideias e ainda pelos sucessos da Independência dos Estados Unidos em 1776 e pela Revolução Francesa em 1789, nasceu no coração e na mente daqueles jovens um desejo ainda maior de liberdade deste país. O mesmo fenómeno ocorreu mais ou menos na mesma época em toda a América Latina.
As primeiras lojas – a revolução sobre o malhete
A grande maioria destes maçons foi iniciada em lojas maçónicas na Europa. Ao regressarem à Pátria iniciaram uma doutrinação lenta e constante que foi aumentando aos poucos culminando com a Independência do Brasil talvez não da maneira em que eles tanto sonharam, ou seja, na forma republicana, mas de qualquer forma, em fim, livres.
A maneira de propagar estes novos conceitos foi a de se reunirem secretamente, já que eram inimigos da Coroa em potencial e também para se precaver contra a repressão das autoridades portuguesas. As organizações libertárias eram formadas por maçons e não maçons. Havia inicialmente clubes secretos, academias e pseudolojas maçónicas e outras entidades afins. Ressalte-se que as lojas maçónicas fundadas no final de “século das luzes” especialmente no seu último quarto não eram lojas como as conhecemos hoje, pois actualmente funcionamos com uma ritualística bem definida, em templos ornamentados e bem decorados, com todos os símbolos presentes e em tempo de paz. As lojas daquela época eram eminentemente políticas revolucionárias, e eram tempos de revoluções que poderiam acontecer a qualquer momento. Acreditamos mesmo que as iniciações não obedeciam ao rigor que seguimos nos tempos actuais.
Como estes agrupamentos se confundiam especialmente quanto as suas denominações, sabemos que os maçons pertenceram a todos eles alem das lojas maçónicas, as quais eram filiados. Faremos uma listagem cronológica destas lojas aqui em Pernambuco, com alguma dificuldade às vezes, quanto às datas das suas fundações, já que existem discrepâncias entre os autores, justamente por falta de maiores informações da época, pois tudo era secreto.
- Fundação do Areópago de Itambé pelo Dr. Manuel de Arruda Câmara em 1796. Desta instituição nasceu o germe revolucionário de 1817 e também da Confederação do Equador de 1824, sendo que, este último movimento revolucionário ocorreu numa fase em que o Brasil já estava politicamente livre de Portugal Muitos destes movimentos estão citados porque existiu alguma coisa existem registros, houve alguma movimentação, os patriotas tentaram fazer uma revolução, mas na realidade por algum problema não foi levada à acção, sendo que as vezes o movimento morreu no próprio nascedouro. Mas com relação ao Areópago, este foi comprovadamente o berço de verdadeiros patriotas e idealistas dispostos a darem a sua própria vida em favor da causa que abraçaram com tanto ardor e que tiveram sucesso, pois as suas ideias prevaleceram finalmente. O Areópago de Itambé, sociedade secreta criada propositalmente entre a divisa de Pernambuco com a Paraíba, longe dos maiores centros foi a primeira e verdadeira escola de revolucionários do Brasil, onde os ensinamentos foram teóricos, profundos e duradouros. Pregavam uma revolução doutrinada que no seu devido tempo iria inflamar a colónia trazendo a sua liberdade em forma de república. O Areópago foi dissolvido em 1801, mas deixou a sua marca indelével.
- Em 1800 o Bispo Dom José da Cunha Azeredo Coutinho funda o Seminário de Olinda que também foi um núcleo importante de doutrinação, pois no corpo docente se destacaram os Padres João Ribeiro, o Padre Miguel Joaquim de Almeida Castro “Padre Miguelinho” e Frei José Laboreiro, já conhecidos como padres revolucionários e, como tais, puderam influenciar a juventude que estudava no Seminário. Mas não era uma loja maçónica. Era uma organização paramaçónica.
- 1802 funda-se em Pernambuco a Academia Suassuna que veio substituir o Areópago e que passou para a história como a “Conspiração dos Suassunas” Pretendia chamar sobre si a protecção de Napoleão Bonaparte. Esta conspiração não passou para a diante, pois houve delação sendo os principais lideres do movimento, foram presos. Já estava ali, entretanto, a semente do Areópago germinando. Foram seus fundadores, os Padres Francisco de Paula Cavalcanti, Frei Caneca e Padre Miguelinho.
- Em 1809 funda-se em Olinda a Loja “Regeneração”, sendo considerada como a primeira loja regular de Pernambuco. Ela foi fundada pelo Padre João Ribeiro, Padre Luiz José Cavalcanti, Padre Miguel Joaquim de Almeida Castro.
- Em 1813 Cita-se em vários livros uma Grande Loja Provincial de Pernambuco formada pelas Lojas “Restauração”, ’’Patriotismo” e “Guatimozim”, mas não são claras as datas de fundação. Estas Lojas teriam sido fundadas a partir de 1812. Juntamente com estas Lojas foram criadas mais duas “Pernambuco do Oriente” e “Pernambuco do Ocidente”. Os negociantes Antônio Gonçalves da Cruz (Cabugá) e Domingos José Martins teriam fundado as Lojas “Pernambuco do Oriente” e “Pernambuco do Ocidente” depois de 1814.
- Em 1816 é instituída em Olinda a Academia Paraíso, continuadora dos ideais do Areópago de Itambé e da Academia dos Suassunas, fundada pelo padre Miguelinho e o Dr. José Luiz de Mendonça. A ela é atraído o espírito liberal do Padre João Ribeiro e ainda vem se juntar ao grupo Domingos Martins. Trabalharam no Hospital de Paraíso que Paes Barreto administrava e lá surgiu a Academia do Paraíso. Nesta mesma época fundam-se outras academias, a saber: Academia de Igarassu, na residência do capitão- mor Francisco de Moraes Cavalcanti e a Academia Universidade Democrática também chamada de Academia de Rua ou Itinerante ou do Mundo, na residência do Dr. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva. Ele também foi associado à Academia de Paraíso. Algumas destas academias depois se transformaram em lojas.
Todos os participantes destas Academias, foram figuras importantes na Revolução de 1817.
A revolução chega a Limoeiro
A 6 de Março de 1817, de maneira prematura e respondendo a repressão do Governador da Província, a Revolução Pernambucana é deflagrada nas ruas do Recife e ganhando proporção entre a população.
No dia 15 de Março de 1817, o Padre Francisco de Sales recebeu uma carta do ouvidor de Olinda e líder da Academia Universidade Democrática, o Dr. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, que continha o anuncio da Revolução, o mesmo dirigiu- se a Câmara da Vila por volta das 11h, a proclamou aos demais Camaristas, para que todos obedecessem aos rebeldes, e que chamaram o povo, e lhe fizera fazer termo de obediência, e que o mesmo fizesse a Câmara, mandara pôr luminárias por três dias, e ao tesoureiro da Sisa e do Selo, que entregassem o dinheiro que tivesse no tesouro para se mandar para o Recife, e que mandara avisar ao sargento-mor e aos mais comandantes do termo depois de fazer tudo o que fica dito; o que tudo fizera sem primeiro lhes dar parte, tomando assim o governo da terra, e obrigar a obedecer tudo ao governo dos rebeldes. Voltando com a Carta em Mãos tratou de destruí-la e mandou que os escravos tirassem de cima da porta da Matriz da Apresentação o Brasão de Armas da Coroa Portuguesa enquanto repicavam os Sinos, mandou hastear a bandeira da revolução que a este momento era representada por uma bandeira toda branca, mostrando que o levante era pacifico entre aqueles que buscavam a liberdade e a separação da província pernambucana da coroa portuguesa. No dia seguinte na sua matriz entoou um Te Deum em louvor a Revolução.
Nos dias seguintes ao anuncio da revolução, tratou de convocar a população da vila a plantarem macaxeira ao invés do algodão para que pudessem alimentar as tropas durante o período do levante e que só a pátria se deve servir e não as testas coroadas que ele antes queria dar o pescoço ao Cutelo que o pé a corrente.
Dizia também que ele estava pronto para dar 100 mil Réis a sua majestade, a quem chamava de Pai João, começar a sua vida voltando a Portugal como começaram todos os marinheiros, entendendo por essas palavras que ele citava os europeus quando chegaram ao Brasil.
Tendo a Revolução sido sufocada Continuou lutando pela causa revolucionária, mesmo após o capitão-mor da mesma vila e arredores voltar-se para a causa dos realistas. Preso como um dos líderes, no dia 22 de Dezembro de 1817, teria sido julgado pela Alçada, não fosse a sua libertação em virtude da revolução do Porto, em 1821.
Conclusão
A Memória do Padre Francisco de Sales, junto a Frei Caneca e demais irmãos réus, os seus companheiros, todos leais, todos cooperadores da revolução, faço a heróica menção a actuação que ele deu para a glória que cabe à Vila do Limoeiro de ser a segunda que ergueu a voz no meio da usurpação.
Diego Francisco da Silva, A:. M:. – CIM 5966 – ARLS Caridade e Justiça N° 33 – Rito Moderno – Grande Oriente Independente de Pernambuco
Referências
- http://historialuso.an.gov.br/glossario/index.php/verbetes- de-a-a-z/35-verbetes-iniciados-em-s/405-sales-padre-francisco-de
- Conjunto documental: processo original dos réus da rebelião de Pernambuco, notação: códice 7, vol. 09, data- limite: 1819 – 1819, título do fundo: diversos códices – sdh
- Documentos históricos revolução de 1817 vol. CVII – Biblioteca Nacional divisão de obras raras e publicações 1955

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