O Maçom Francisco Grandella (o do Chiado)

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Francisco de Almeida Grandella (23 de junho de 1853 – 20 de setembro de 1934)

Francisco de Almeida Grandella foi um Republicano iniciado na maçonaria em 1911 na Loja José Estevão usando o pseudónimo de “Pilatos“, que tinha sido eleito vereador da câmara municipal de Lisboa em 1908, quando o Partido Republicano Português (PRP) conseguiu nove mil votos, o que lhe assegurou nove vereadores.

Grandella, um comerciante e industrial abastado, proprietário dos famosos Armazéns Grandella, pouco compareceu às sessões camarárias, quase sempre por “motivos de saúde”, sendo frequentemente substituído por José Nunes Loureiro. Grandella não era um político, mas foi decidido incluí-lo nas listas do PRP porque se admitia que isso poderia trazer votos, já que se tratava de alguém sobejamente conhecido que empregava centenas de funcionários, quer nos Armazéns, quer nas fábricas em São Domingos de Benfica.

Dado o seu desinteresse, decidiu em Maio de 1912 resignar ao mandato. Contudo, nas poucas sessões em que esteve presente, recorreu frequentemente ao seu espírito criativo, tão demostrado nos anúncios que os seus Armazéns publicavam e que eram idealizados por ele.

Na sessão camarária de 31 de Agosto, propôs a constituição de grupos de vigilância, designados de “Os Amigos da Cidade”, que visavam “evitar vandalismos e outros actos menos correctos” dos residentes, denunciar os “desmazelos” e “zelar pelos estrangeiros”.

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Armazéns Grandella

Em 14 de Setembro, o jornal A Capital – um vespertino alinhado com as ideias republicanas, noticiou que ele pretendia acabar com os mendigos existentes nas rua da capital, recorrendo “aos ricos e às heranças”. Preocupado com o crescente número de pedintes que andavam pelas ruas da Capital, Grandella propôs a criação de um imposto sobre os indigentes e a publicação de um decreto que atribuísse ao Estado o direito de retirar a tutela dos filhos àqueles que se dedicassem à mendicidade. Propôs também que se recorresse aos “ricos” e ao dinheiro das “heranças”, para se acudir aos que eram verdadeiramente pobres, não se sabendo como distinguia entre uns e outros. As suas propostas fora aprovadas pela vereação da Câmara e enviadas para o Governo da Nação.

Preocupou-se também com a limpeza das ruas, defendendo uma campanha publicitária nos jornais para que os habitantes não jogassem papéis e outros objectos para a via pública; pediu também que fossem colocados “três sacos de arame” (caixotes do lixo) na Avenida da Liberdade, “para não se encontrar enxovalhada aquela via pública”.

Grandella não se tornou conhecido por ter sido vereador na Câmara de Lisboa. Os seus Armazéns e os seus métodos de trabalho transformaram o comércio lisboeta e nacional:

  • Instituiu a protecção social e a assistência médica aos seus empregados.
  • Criou em 1883 a Caixa Previdente do Futuro em 1883.
  • Construiu fábricas e um bairro operário para os trabalhadores, cobrando-lhes rendas baixas.
  • Instituiu um dia de descanso semanal (domingo) nas suas lojas.
  • Pagava anualmente uma semana de férias aos seus funcionários.
  • Promoveu e pagou a construção de escolas, todas ostentando símbolos maçónicos (um frontão triangular suportado por colunas) – uma em Aveiras de Cima, sua terra natal, a que deu o nome do seu pai, Francisco Maria de Almeida Grandella, e outra na Foz do Arelho.
  • Lançou o conceito das escolas móveis, sendo os professores pagos por si.
  • Construiu uma creche para os empregados.

Sobre ele, Raul Brandão escreveu nas suas memórias: “Autoritário e severo, só assim conseguiu levar a cabo aquela monstruosa loja onde há de tudo, desde a literatura ao farrapo, enriquecendo extraordinariamente“.

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Bairro Grandella

Durante a sua vida, assistiu a alguns dos momentos mais relevantes do voltar do século XIX para o século XX – a Regeneração, o Fontismo, o Ultimato, a revolta republicana no Porto, o Regicídio, a Instauração da República, a I Guerra Mundial, o golpe de 1926, a ditadura militar, a chegada de Salazar ao poder e a Constituição de 1933 – por ele, passaram quatro reis e diversos governos republicanos.

Oriundo de Aveiras de Cima, filho de Matilde Libânia e Francisco Maria Grandella, Francisco Grandella nasceu a 23 de Junho de 1853 e aos 11 anos mudou-se para Lisboa, para trabalhar como marçano numa loja na Rua dos Fanqueiros. Tinha terminado a instrução primária, e ali permaneceu durante três anos. Quando a loja foi trespassada e lhe recusaram a promoção a caixeiro, o seu pai mandou que regressasse a casa.

Voltou para Lisboa em 1870 e após ter sido despedido de um emprego onde permaneceu por oito ou nove anos, comprou o trespasse de uma loja na Rua da Prata, com a ajuda de um amigo. Já com a ajuda do seu irmão Luís, mandou imprimir cartões-de-visita com o nome Grandella & Cª e escolheu o apelativo nome de Fazendas Baratas para o estabelecimento que ali abriu. Foi aí que iniciou a revolução no comércio tradicional de então, ao começar a vender por correspondência. Começou a enviar amostras de fazendas para a província e as encomendas não se fizeram esperar. Daí até à publicação de catálogos que enviava para todo o país, ilhas e colónias, foi um passo. Em 1888, iniciou as entregas ao domicílio.

O passo seguinte foi comprar o trespasse de uma loja de fazendas e linhos a Benjamim Aflalo, um judeu, situada no Rossio, a que deu o nome de Loja do Povo. Fez publicidade nos jornais, mas o seu espírito inovador levou-o a contratar um porteiro que vestiu de soldado inglês, com a farda vermelha. Isto teve como resultado atrair dezenas de crianças ao local, que gostavam de troçar do manequim vivo, mas que vinham com as suas famílias e faziam com que a sua loja fosse falada. Deste sucesso, resultou mais uma loja – O Novo Mundo, na Rua do Ouro.

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Escola Grandella, na Foz do Arelho

Entretanto, tinha comprado e reconstruído o Teatro Novo da Rua dos Condes (actual Hard Rock Café), dando assim origem a uma “das mais elegantes e confortáveis” salas de espectáculos da cidade, conforme noticiava o DN de 24.12.1888. O grupo de boémios de que Grandella fazia parte – o Clube dos Makavenkos – instalou-se nas salas subterrâneas do teatro, assumindo-se como uma sociedade gastronómica. Do dia a dia do Clube dos Makavenkos, resultou o seu livro Memórias e Receitas Culinárias dos Makavenkos, que escreveu em 1919.

Nos últimos anos do Século XIX, Francisco Grandella abriu fábricas de fiação, tecidos, malhas e de móveis de ferro em Benfica. Tinha o sonho de abrir em Lisboa uma sucursal dos Armazéns Printemps, tendo chegado a deslocar-se a Paris. Regressou sem sequer apresentar a proposta e decidiu adquirir em 1903 um edifício na Rua do Carmo, que tinha traseiras com o da Rua do Ouro que adquirira em 1890 e no qual tinha instalado os primeiros Armazéns Grandella, na altura já com 40 secções de artigos.

Deu assim início a construção da versão portuguesa dos Armazens Printemps, liderado pelo mesmo arquitecto do projecto original em Paris, Georges Demay. A 7 de Abril de 1907, foram inaugurados os Grandes Armazens Grandella, uma obra marcante para a cidade, dispondo de dez pisos e de um dos primeiros elevadores eléctricos. Na revista “A Cidade e os Campos” editada pelos Armazéns, Grandella escreveu ”o interior faz lembrar um conto de fadas, uma lenda das Mil e Uma Noites”.

Num livro editado anos mais tarde, intitulado “O Assalto”, procurou refutar as acusações feitas por três dos seus filhos, que, em 1924, pediram em tribunal que o pai fosse considerado incapaz de gerir o seu património. O tribunal acabou por dar razão ao empresário que passou a viver no seu palácio da Foz do Arelho, após ter entregue a gestão dos Armazéns ao seu filho Luís.

Algumas dificuldades financeiras, que se iniciaram com a 1ª Guerre Mundial, levaram a que o Banco Porto Covo & Cª se tornasse em 1932, o accionista maioritário da Grandella & C.ª. Em 1935, Luciana Maria de Oliveira Croft, condessa de Porto Covo, tornou-se a única proprietária, tendo Francisco Grandella morrido um ano antes, a 20 de Setembro.

Os Armazéns Grandella viriam a desaparecer após um incêndio em 25 de Agosto de 1988 que destruiu uma parte importante da baixa de Lisboa.

António Jorge

Fontes

  • Wikipedia
  • Diário de Notícias
  • Jornal Expresso
  • Marques, A. H. de Oliveira (1986). Dicionário de maçonaria portuguesa. 2. Lisboa: Editorial Delta
  • Mateus, Luís Manuel (2003). Franco-Mações Ilustres nas Ruas de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa.
  • Pereira, Esteves; Guilherme Rodrigues (1904–1915).
  • Portugal: Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico. 7. Lisboa: João Romano Torres Editor

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