O Martírio de Jacques De Molay

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Martírio de Jacques De Molay

O sol está a pôr-se e uma multidão junta-se no pátio diante da Catedral. Apesar do fim do Inverno, esta segunda-feira de Primavera parece fria como nunca. As flores já brotaram, mas o vento corta como navalha.

É uma pena que a fogueira fique tão distante de nós. Seria bom para me aquecer – diz um mendigo de idade já avançada, ou talvez apenas castigado pela vida.

Acredite, você não aguentaria ficar perto do calor infernal e o cheiro de carne herege a queimr – responde um senhor com roupas um pouco melhores, um pouco mais limpo, mas com um destino não muito diferente da mendicância. Afinal, a França está falida e quase ninguém tem emprego.

Com o crepúsculo, os postes começam a ser acesos e o cheiro de óleo queimando sente-se no pátio. Sangue, óleo, fogo, suor, lixo, os seus cheiros estão sempre misturados na não tão bela Paris do século XIV.

Soldados montados vão-se aproximando e posicionando-se, o que indica que o momento de mais uma execução está a chegar.

Quem será desta vez? – perguntam-se alguns. As execuções apresentam sempre um bom número de espectadores, mas esta tem superado as anteriores: nem sinal das autoridades e dos condenados e a Ilha da Cidade já está lotada. Isto porque todos esperam assistir à execução daquele que o povo considerava acima dos reis e abaixo apenas do Papa – o Grão-Mestre dos Templários, Jacques de Molay.

Já fazia 7 anos que ninguém o via, desde aquela escura sexta-feira 13 que o povo tratou de guardar como maldita. Uns diziam que ele tinha morrido nas torturas da Santa Inquisição. Outros que ele conseguira fugir para a Escócia como tantos outros Cavaleiros. A única coisa que todos concordavam é que era impossível um homem com os seus 70 anos de idade sobreviver por tanto tempo a tanto tormento. Este era o motivo para tanta gente estar ali: ver a queda de um homem que liderava reis e que sobreviveu ao insuportável.

As carruagens começaram a chegar. Um dos primeiros foi Vossa Santidade, o Papa Clemente V. Os parisienses aclamaram-no quando ele desceu da sua carruagem, afinal de contas, é o primeiro Papa francês, que transferiu o Papado da Itália para a França, tornando-a o centro do que é mais sagrado no mundo cristão. Infelizmente, isto não tem ajudado a França a sair de um caminho de degradação. Logo de seguida, a carruagem do Rei Felipe IV aproxima-se da Catedral, acompanhada de forte escolta. Era necessário, pois a vontade de cada cidadão ali presente era de linchá-lo e, quem sabe, queimá-lo na sua própria fogueira preparada para Jacques de Molay e os seus Preceptores.

Com a presença do Papa e do Rei, a multidão não teve mais dúvidas: seria a tão comentada execução, talvez a mais polémica realizada naquele local. O rei e o Papa posicionaram-se confortavelmente no camarote improvisado para aquilo que mais parecia um show no Coliseu. Em volta deles, estava toda a espécie de Arcebispos, Bispos, Ministros, Condes, Duques e bajuladores. O circo estava completo, mas… onde está o gladiador? Nesse momento, vê-se a carruagem negra e fortificada a aproximar-se com os condenados. Quando a carruagem pára, próximo da pequena ponte, os soldados têm dificuldade de conter a multidão que tenta aproximar-se para vê-los mais de perto. Isto não estava previsto. – Como será que eles estão? – era o que todos pensavam.

Da carruagem saiu de Molay e os seus Preceptores. Magros como Gandhi e com barbas e cabelos longos e sujos, os seus mantos templários, antes tendo a sua brancura como símbolo da pureza de pensamentos e actos, agora em estado de podridão. Os soldados não estavam ali para impedi-los de uma tentativa de fuga, senão que para mantê-los em pé e ajudá-los a andar.

Os condenados foram postos no pequeno barco, acompanhados de três carrascos e conduzidos até ao palanque preparado para servir como fogueira. Ali foram silenciosamente amarrados. O carrasco principal fez a devida leitura do acto de execução, destacando os crimes de heresia e traição. O silêncio não é apenas dos condenados, mas de toda a multidão. Após a leitura, o principal aguarda o sinal do Rei, o Belo, que responde positivamente. Então o carrasco-principal pegou na tocha acesa da mão de um dos seus sequazes e atirou-a sobre o entulho de palha, troncos e óleo. O fogo rapidamente alastrou.

Os já acostumados a acompanhar as execuções preparam-se para escutar os costumeiros e agonizantes gritos. Para eles, aquele sofrimento final dos condenados reduzia o sofrimento eterno que os mesmos teriam no Inferno, e quanto maior o pecado, maior a dor sentida na fogueira. Mas o que presenciaram foi algo ainda mais aterrorizante: um total silêncio e serenidade no semblante de cada um daqueles senhores tão humilhados e maltratados, e agora à beira da morte. Via-se o fogo a consumir as suas pernas e vestes e sentia-se o cheiro de carne queimada no ar, mas eles não demonstravam nenhum sinal de sofrimento.

Assim, o silêncio foi quebrado pela própria multidão, que murmurava sem acreditar no que estava a ver. Foi então que todos viram que o grande líder dos condenados, Jacques De Molay, estava a dizer algo. Não se podia ouvir, pela distância em que a fogueira se encontrava, o barulho das pessoas e o tom sereno com que De Molay falava. Mas ele disse algo, olhando para a multidão, para o camarote, e logo se calou, fechando os seus olhos para a vida terrena.

As pessoas começaram a sair rapidamente dali, incomodadas com o que acabavam de presenciar. Algumas, supersticiosas, julgaram presenciar uma maldição. Outras entenderam aquelas palavras inaudíveis, como uma oração, uma despedida, ou mesmo um prelúdio do que estava por vir. O que todos sabiam é que tinham presenciado a morte de um grande homem, algo que ficaria para a história.

Aquela segunda-feira, 18 de Março de 1314, jamais seria esquecida.

Jacques de Molay estava acima dos Reis e abaixo do Papa enquanto Grão-Mestre. Mas enquanto prisioneiro, enquanto líder que protegeu os seus Companheiros e não traiu os seus princípios, ele esteve acima de qualquer homem. Um reinado ganha-se com um sobrenome, um papado ganha-se com uma eleição. Um herói e mártir não depende de posição, prestígio e poder. É definido por escolhas e atitudes.

As de Jacques de Molay servem de exemplo até hoje para milhões de jovens e homens de todo o mundo.

18 de Março de 2013: 699 anos desde aquela noite.

Kennyo Smail

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3 thoughts on “O Martírio de Jacques De Molay”

  1. Leandro Farias

    Primeiramente uma boa tarde a todos irmãos ! Ano após ano a humanidade vem sempre a escolher os gênios ruins como exemplos, os piores em todos os aspectos. O corrupto o criminoso, mentiroso e desleal. Mas ainda quem venera os grandes e fico muito emocionado com os feitos e acontecimentos aos nossos antepassados que tanto nos enche de orgulho com seus cantos e suas histórias. Dediquei minha vida ao próximo e sinto muita dor ao saber que caminhamos para o mesmo fim em períodos diferente… O bom sendo crucificado e queimado enquanto as leis a cada dia beneficia o augoz ! Que mude os tempos e com isso mude a maneira de pensar do ser humano. Feliz Natal a todos ! Leandro Farias SD PM 6BAEP ações especiais de polícia Estado de São Paulo.

  2. Flavio Kleber da Silva Costa

    Estudar e conhecer a história e algum muito importante, para o crescimento do intelectual do ser humano, principalmente histórias tão interessante como essas onde poucos tem conhecimento de fatos históricos tão marcantes do nosso passado bem presente no futuro.

  3. Inácio Tarcísio Kugik

    Muito importante conhecer os fatos históricos!
    Fatos esses que certamente não aprenderíamos nos bancos escolares!
    A história é a base importante para melhor interpretamos os acontecimentos atuais.

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