O que significa “Maçons Antigos Livres e Aceites”?

livres antigos e aceites

A palavra “Maçom” foi definida de muitas maneiras fantasiosas, como quando um escritor a deriva de uma palavra grega que significa “no meio do céu”, e outro encontra nela uma expressão egípcia antiga que significa “filhos do sol”; mas é quase certo que o termo surgiu durante a Idade Média para significar um homem empenhado na ocupação da construção. Originalmente, tinha apenas este significado comercial; foi somente depois da Maçonaria se tornar uma sociedade secreta que ela adquiriu um significado mais amplo. Claro, havia construtores muito antes da Idade Média, mas eles tinham outros nomes, assim como hoje costumamos chamá-los de “arquitectos”, um termo que entrou em uso na época da Rainha Elizabeth.

Os Construtores da Idade Média, como todos os outros trabalhadores, estavam organizados em sociedades, um tanto semelhantes, mas de forma alguma identificáveis com os nossos sindicatos, conhecidos como guildas. Essas guildas foram autorizadas a fazer as suas próprias regras e receberam o monopólio do trabalho feito dentro do seu próprio território. As guildas de construtores eram geralmente mais importantes do que outras porque o seu trabalho era mais difícil e exigia um alto grau de habilidade e inteligência; aqueles que tiveram em mãos a construção das grandes catedrais possuíam entre os seus membros os génios notáveis da época e realizaram obras que até hoje merecem a nossa admiração.

A arte de construir era, segundo os costumes da época, tida como segredo comercial. Portanto, os jovens que entravam numa guilda de construtores eram solenemente obrigados a não divulgar os segredos do ofício. Visto que o trabalho era difícil, esses jovens recebiam um longo curso de educação sob a direcção de um Mestre Maçom, ou assim se acredita. As ferramentas e os processos de construção foram usados simbolicamente e para imprimir certas verdades na mente do membro. Desta forma, e porque os construtores estavam em contacto próximo com a igreja, que empregava sistemas de simbolismo como hoje usamos os livros (as pessoas não sabiam ler, mas podiam entender imagens), as corporações de construtores chegaram a tempo de acumular uma grande riqueza de ensino simbólico e um ritual elaborado. No século XVIII, este elemento simbólico deslocou completamente a arte original da construção real, e a Maçonaria tornou-se “especulativa”, como a conhecemos agora, de modo que somos maçons apenas no sentido simbólico.

Somos chamados de Maçons, portanto, porque somos membros de uma organização que remonta à época em que construtores e arquitectos eram unidos em guildas bem guardadas. Mas por que somos chamados de Maçons “Livres”? Esta é uma pergunta mais difícil de responder, como todos os nossos eruditos Maçónicos descobriram, pois apesar de uma grande quantidade de pesquisas cuidadosas, eles nunca chegaram a um acordo entre si sobre como a pergunta deveria ser respondida. Temos registros da palavra como tendo sido usada seiscentos anos atrás, mas é evidente que, mesmo então, “Maçom” era um termo de longa data, de modo que a sua origem se desvanece na obscuridade de um passado muito remoto.

Uma das teorias mais comuns é que o Maçom era originalmente o pedreiro que trabalhava em “pedra livre”, ou seja, pedra pronta para ser talhada e moldada para a construção em contraste com a pedra não minerada. Tal pedreiro era superior em habilidade aos pedreiros que extraíam a pedra da pedreira, e isso está em harmonia com o facto de que nos primeiros dias os Maçons eram considerados um tipo superior de operário e recebiam salários mais altos do que “os pedreiros brutos”; mas não explica por que carpinteiros, alfaiates e outros trabalhadores também eram chamados de “livres”.

Outra teoria comum diz que os primeiros Maçons passaram a ser chamados de “livres” porque estavam isentos de muitos dos deveres cansativos que cercavam o trabalhador da Idade Média e gozavam de liberdades como o direito de viajar (proibido para a maioria dos trabalhadores daquele período) e isenção do serviço militar, etc. É sustentado por alguns escritores que os primeiros Papas concederam bulas aos Maçons que os libertavam das restrições da Igreja, mas nenhuma pesquisa (e foram feitas inúmeras) em todas as bibliotecas da Europa, ou nos registros da Igreja Romana (essa igreja não lançou bulas contra a Maçonaria antes de 1738), já conseguiu desenterrar uma única bula ou qualquer registro dela.

Existem outras teorias. Diz-se que um Maçom era livre quando saía dos laços da aprendizagem e estava pronto para desfrutar de todos os privilégios de ser membro da sua guilda. Outra, que havia operários dentro das corporações de construção e apenas o nível mais elevado tinha permissão para ter todos esses privilégios, e que estes eram chamados de “livres” em contraste com os seus irmãos menos avançados.

Uma das mais aceitáveis de todas estas teorias é aquela apresentada de maneira tão brilhante por G. W. Speth no século XIX, na qual aquele erudito irmão sustentava que, na Idade Média, havia dois tipos de guildas de construtores, aquelas que eram estacionárias em cada cidade e aqueles que eram empregados nas catedrais e, portanto, tinham permissão para se mover de um lugar para outro, ou onde quer que as catedrais estivessem em construção. Visto que as catedrais representavam o auge da habilidade e da aprendizagem naquela época, esses trabalhadores eram muito superiores aos que eram empregados nas estruturas mais humildes da comunidade, como moradias, armazéns, docas, estradas, etc., de modo que a Maçonaria descendia da aristocracia do trabalho medieval.

Eu nunca fui capaz de me decidir entre essas várias teorias, excepto que me parece que a de Speth é a mais plausível. Pode ser que várias delas sejam verdadeiras ao mesmo tempo; tal coisa não seria impossível porque a Maçonaria desenvolveu-se numa grande extensão de território e por um longo período de tempo.

Não há dúvida de que, em alguns casos, esta palavra tem o seu significado próprio e serve para nos lembrar que a nossa Arte é muito antiga. A primeira Grande Loja de Maçons Especulativos foi estabelecida em Londres em 1717, mas a Maçonaria, mesmo da variedade especulativa, era muito antiga já naquela data. Boswell foi aceita na Arte em 1600, Moray em 1641 e Ashmole em 1646. O nosso manuscrito mais antigo, geralmente datado de cerca de 1390, remonta a tempos muito anteriores a si mesmo. Não há como dizer a idade da Maçonaria; talvez não estejam tão errados, os que a dataram na antiguidade. Em qualquer caso, é “antiga” e tem todo o direito ao uso dessa palavra.

Mas na maioria dos casos, esta palavra sem dúvida refere-se à Grande Loja que veio a ser organizada na Inglaterra logo após 1750. Quando a primeira Grande Loja (a de 1717) foi formada, foi planeado que ela deveria ter jurisdição apenas sobre umas poucas lojas em Londres; mas, à medida que essas lojas aumentaram em número, estendeu o seu território para incluir o condado e, mais tarde, para incluir todo o país. Um grande número de lojas permaneceu independente – muitas vezes eram chamadas de lojas de S. João – muitas no norte da Inglaterra e outras na Escócia e na Irlanda. Com o passar do tempo, cresceu entre os irmãos de várias dessas lojas independentes um sentimento de que a nova Grande Loja estava a tornar-se culpada de fazer inovações no corpo da Maçonaria; portanto, depois de muita agitação, uma Grande Loja rival foi formada e, como a sua irmã mais velha, a Grande Loja, fez alterações, apelidaram-na de “Moderna” e porque eles próprios afirmavam preservar a obra de acordo com a sua forma original, eles se autodenominavam “Antigos”. Esta Antiga Grande Loja teve a sorte de ter como seu Grande Secretário, Laurence Dermott, que teve tal génio para a organizar que, com o passar do tempo, esta nova Grande Loja começou a ofuscar a mais antiga. A rivalidade, muitas vezes amarga o suficiente para ser descrita como uma rixa, durou até 1813, quando o primeiro passo em direcção a uma união foi dado; desse esforço de reconciliação, surgiu finalmente “A Grande Loja Unida da Inglaterra”.

Enquanto isso, os Antigos criaram muitas lojas nas colónias da América. Estas, um grande número delas, continuaram com o nome muito depois das lojas Americanas terem cortado todas as relações com as Grandes Lojas do outro lado do mar. Neste sentido, a palavra “Antigo” entrou em uso geral e permanece hoje embutida nos títulos oficiais de cerca da metade das Grandes Lojas nesta terra.

Muito mistério ainda paira sobre a palavra “Aceite”, mas de uma maneira geral, podemos sentir-nos bem seguros em pensar que ela se refere ao facto de que, depois que as antigas guildas de construtores começaram a se separar e a perder o monopólio do comércio, elas começaram a “aceitar” como membros homens que não tinham intenção de se envolver na construção propriamente dita, mas que procuravam ser membros para fins sociais, ou para tirar proveito do rico simbolismo, do ritual e da filosofia da Ordem. Assim, o primeiro homem admitido de quem temos um registro é Boswell, que foi feito Maçom em 1600, como já observamos, mas é quase certo que outros tinham sido aceites de forma semelhante muito antes. Na verdade, há boas razões para acreditar que os não-operários foram admitidos como membros desde os primeiros tempos. É possível que a palavra também tenha sido aplicada aos membros que se dedicaram à supervisão e planeamento, mas não ao trabalho físico. Ao longo do século XVII, o número de aceites aumentou até o início do século XVIII. Muitas lojas eram quase inteiramente compostas por tais membros, e em 1717 toda a Arte foi transformada numa ciência especulativa, embora seja verdade que muitas lojas operativas continuaram a existir, e algumas ainda estão a funcionar e a reivindicar para si a linhagem antiga.

Teremos que esperar com paciência até que todos os problemas relativos a estas várias palavras sejam esclarecidos, mas, enquanto isto, podemos usá-las com um grau de certeza satisfatório, pois conectam-nos historicamente com um processo de crescimento e desenvolvimento que começou bem na Idade Média, ou antes, e continuou até agora. Na verdade, tem sido uma história repleta de maravilhas e, mesmo agora, poucos são os que têm plena noção da altura, profundidade, comprimento, largura e enorme riqueza da Maçonaria.

H. L. Haywood

Tradução de António Jorge

Publicado originalmente em THE BUILDER, 1923 – What means Free and Accepted Masons?

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