Simbolismo dos números na Maçonaria – O Número Três

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Ficou claro, no estudo que até aqui fizemos, que a UNIDADE gera a DUALIDADE e esta é constituída pelos “contrários”, que se afastam na medida em que cresce o ângulo por ela formado para posteriormente se aproximarem novamente, com diminuição daquele ângulo, até à fusão dos dois raios no equilíbrio da UNIDADE.

Mas a existência destes dois aspectos “contrários”, cumprindo a eternidade do movimento perpétuo, nada cria de real. São aspectos metafísicos que não criam nenhuma forma real e nada materializam.

Assim, um terceiro elemento há que ser juntado aos dois primeiros para que a Vontade Suprema, expressa antes apenas pela sua manifestação, se materialize com o aparecimento da “forma”, eis que o ponto (YOD) situado no centro do círculo (ZERO), ou a linha que parte deste ponto (UM) e divide-se nos “contrários” (DOIS) não constituem um sólido com “forma” definida. A adição de um terceiro elemento, originado pela firmeza do pensamento, por uma elevada devoção, regida por sólida Sabedoria e exercitado por louváveis desejos de Ações, cria a “forma” original que é a consequência do elemento formado por aqueles propósitos e que liga aqueles dois raios formando o Triângulo que é a “forma” primitiva e perfeita, geradora de muitas outras formas poligonais. É o TRÊS, número considerado perfeito porque resulta da soma da UNIDADE com a DUALIDADE, conduzindo ao equilíbrio dos “contrários” e realizando os propósitos de Deus, que é a elevação do homem.

Como se verá, no estudo do número TRÊS, o Triângulo é o mais importante símbolo maçónico. Aliás não é só a Maçonaria que cultua o simbolismo desta figura. Outras religiões também o fazem, principalmente porque é a representação simbólica perfeita dos TRÊS aspectos do ABSOLUTO, aspectos estes de absoluta igualdade perfeitamente representada pelos lados do Triângulo equilátero.

Nas religiões cristãs ele representa a Trindade Divina – Pai, Filho e Espírito Santo -; as religiões orientais vêem nele os três aspectos do Logos. Em qualquer delas se vê a Unidade do Todo, a Dualidade da Manifestação e a Trindade Perfeita.

Diz o nosso Ritual do Primeiro Grau que:

A diferença, o desequilíbrio, o antagonismo que existem no número DOIS, cessam repentinamente, quando se lhe ajunta uma TERCEIRA unidade. A instabilidade da divisão ou da diferença, aniquilada pelo acréscimo de uma TERCEIRA unidade, faz com que simbolicamente, o número TRÊS converta em unidade”.

O que há de importância a ser esclarecido neste parágrafo do Ritual é que a unidade que ele diz dever ser junta ao número DOIS e, ainda, a unidade nova em que ela diz se transformar o número TRÊS, não é, de nenhuma forma, a UNIDADE de que até agora vimos falando. Esta, imaterial e incognoscível, que se exterioriza simbolicamente no número UM, é a própria Lei Divina, código regulador do ABSOLUTO, representado pelo ZERO.

A unidade preceituada no ritual é um marco, uma medida nova, destinada a ser comparada pelas coisas do campo material. A medida justa pela qual o homem deve medir os seus actos materiais e as suas acções espirituais. Prossegue o Ritual:

A nova unidade, assim convertida, não é uma unidade vaga, indeterminada, na qual não houve intervenção alguma; não é uma unidade idêntica com o próprio número, como se dá com a unidade primitiva; é uma unidade que absorveu e eliminou a unidade primitiva, definida, verdadeira e perfeita. Foi assim que se formou o número TRÊS, que se tornou a unidade da vida, do que existe por si próprio, do que é perfeito”.

Ainda aqui o trecho do Ritual é obscuro e de difícil interpretação. Quando ele diz que a nova unidade “não é uma unidade vaga, indeterminada, na qual não houve intervenção alguma” ele está dizendo por certo que esta não é a UNIDADE Superiora, incognoscível e infinita, criadora incriada, sem qualquer intervenção externa e que por si mesma se identifica com o número (UM), antes do Princípio. Ela é, segundo o texto, “verdadeira, definida e perfeita” porque “absorveu e eliminou a unidade primitiva” (ou seja a UNIDADE). Para se compreender isto é necessário atentar-se para a última frase: “absorveu e eliminou a unidade primitiva”. Da absorção da UNIDADE imaterial pela unidade material advém a esta o carácter de “verdadeira” e de “perfeita”, mas justamente pelo facto de ser esta unidade “definida” é que foi necessária a eliminação de si mesma, da UNIDADE indefinida. Uma, a UNIDADE incognoscível é infinita; a outra, a UNIDADE definida é finita e é justamente por isto que houve a eliminação, eis que um infinito não pode estar contido num finito! Temos então uma UNIDADE verdadeira e perfeita porque recebeu os influxos da verdadeira e perfeita UNIDADE, e é ainda finita porque dela se retirou o carácter infinito da UNIDADE primitiva.

Constituído pelos dois contrários e pela unidade finita e perfeita, o número TRÊS se tornou então um novo marco unitário para medir a vida, o que existe por si próprio (ou seja a mesma vida) e do que é considerado perfeito no plano material.

Continua o Ritual:

Eis porque o Neófito vê, no Oriente o DELTA SAGRADO, luminoso emblema do ‘Ser’ ou da ‘Vida’, no centro do qual brilha a letra YOD, inicial do tetragrama IEVE”.

Temos para nós que neste ponto o Ritual peca por impropriedade do exemplo. Ele quer aqui ressaltar a excelência do triângulo e chama a atenção do Aprendiz para um símbolo maçónico da mais alta significação e que, este sim, deveria ser silenciado para o Aprendiz, eis que parafraseando o que foi dito a respeito do número DOIS, no próprio Ritual, poderíamos dizer: “O Aprendiz não se deve aprofundar no estudo deste Delta porque, fraco ainda do cabedal científico das nossas tradições, pode enveredar por caminho oposto ao que deveria seguir”. Simplesmente recusamo-nos a penetrar aqui no estudo do DELTA SAGRADO por acharmos a ocasião imprópria, inoportuna e irrelevante para a compreensão simbólica do número TRÊS!

Continuemos, pois, as nossas considerações sobre o número TRÊS, sem nos preocuparmos, por enquanto, com o DELTA SAGRADO, voltando antes a nossa atenção para o Triângulo Maçónico que é a base para o estudo daquele excelso símbolo. Só depois disto, já no estudo sobre o número QUATRO, nos deteremos então no DELTA SAGRADO.

Já vimos, linhas atrás, que o ponto e a linha não têm capacidade para comunicar uma forma real. Enquanto aquele é sem dimensão, simples e isolado, esta é apenas a trajectória do deslocamento daquele pomo quase imaterial. Quando, porém, reúnem-se TRÊS linhas e completa-se o Triângulo, este apresenta-se com forma superficial perfeitamente compreensível e verificável. Aqui, com um pouco de meditação, chegaremos a compreender o fenómeno de transformação do imaterial, do informe, para o aspecto material com forma concreta. Várias linhas isoladas não nos dão qualquer ideia de forma, mas, quando TRÊS delas se reúnem e firmam um Triângulo, temos uma figura de superfície perfeitamente clara e definida. O Aprendiz deve meditar sobre este simbolismo que explica como o transcendente, o espiritual, o imaterial, pode, segundo as determinações da sua Vontade Suprema, manifestar-se e tornar-se perfeitamente claro e compreensível aos nossos olhos. É o que podemos chamar de manifestação do Imanifestado!

Na Maçonaria, o Triângulo assume um simbolismo de capital e transcendental importância. É, pode-se dizer, o fulcro em torno do qual gira toda a simbologia maçónica.

Tenório d’Albuquerque, na sua obra: “O que é a Maçonaria”, cita Iseckson, Eliphas Levi e Dario Velloso, cujas opiniões se completam e combinam para uma explicação sobre o Triângulo. Na página 165, diz:

O Triângulo Maçónico é o triângulo dos Pentáculos cabalísticos, o Triângulo de Salomão dos ocultistas, o Infinito da altura ligado às duas pontas do Oriente e do Ocidente, o triângulo indivisível, isto é, o temário do Verbo, ‘origem do dogma da Trindade’ para os magistas e cabalistas. É, afinal, um ‘Supremo mistério’ da Cabala: ‘imagem simbólica do Absoluto’, ‘a um tempo emblema da Força Criadora e da Matéria Cósmica’, o ‘símbolo maçónico do Livre Pensamento’; pela significação literal, é simples delta ou triângulo; pela significação figurada, é o Equilíbrio, a Perfeição; pela significação esotérica, é energia da Cabala, Trindade na Mística e Deus na Teurgia”.

Toda a Perfeição, no seu mais alto grau, está representada, simbolicamente, na figura ímpar do triângulo equilátero com os seus TRÊS lados e TRÊS ângulos, matemática e absolutamente iguais.

Já os antigos egípcios davam ao triângulo uma interpretação esotérica na qual ele representava a própria natureza, o germe, a genesis, a criação e tudo o mais que, pelas suas próprias qualidades intrínsecas e extrínsecas, é capaz de produzir e de manter a vida. A base do simbolismo egípcio assentava-se no triângulo isósceles, no qual a linha vertical do seu ângulo recto, simbolizava Osíris, o princípio masculino, a linha horizontal representava Ísis, o princípio feminino e a hipotenusa, que une as duas, era Hórus, resultante da fusão daqueles dois princípios criadores.

Pitágoras, conhecedor desta simbologia, confirmou-a na demonstração do teorema por ele proposto de que a soma dos quadrados dos dois lados menores era igual ao quadrado do lado maior, o que pode ser entendido simbolicamente que Hórus é o resultado da conjunção de Osíris e Ísis e representa, assim, a vida.

Este teorema corresponde em todos os sentidos à perfeição preconizada pelo ideal maçónico e, por isto mesmo, a sua representação foi adoptada para o Grau Três da Maçonaria constituindo a jóia do Past-Master, é conhecido como Postulado de Euclides e é a quadragésima sétima proposição de Pitágoras, por ter sido, como já se viu, provada por ele geometricamente.

Na antiga Maçonaria egípcia, o que hoje denominamos de Pitágoras, por ter sido, como já se viu, provada por ele sob a forma de uma prancheta triangular negra, de lados perfeita e absolutamente iguais, representando cada um deles a matéria, o meio e o germe, elementos vitais que, reunidos, formam a germinação da própria vida. Nesta prancheta escreviam-se as três perguntas principais, de cujas respostas muito se interessa a Maçonaria para se aquilatar das condições morais do Candidato. São elas:

  • Quais são os deveres do homem para com Deus?
  • Quais são os deveres do homem para com Humanidade?
  • Quais são os deveres do homem para consigo mesmo?

Estas três perguntas (hoje acrescidas de algumas outras) são, tal como os lados do Triângulo, iguais entre si porque as concepções de Deus, Semelhante e Eu, são as componentes que constituem a Unidade Universal. Quando os anseios do “Eu” se harmonizam com os anseios dos “Semelhantes”, estes anseios vibram em consonância com os anseios de “Deus”. Esta grande verdade já tinha sido declarada pelo Mestre, Senhor Jesus quando disse:

  • Joa X, 30 – “Eu e o Pai somos UM”.

e mais:

  • Joa XVII, 21 – “a fim de que todos sejam UM: e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles um em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste”.

e, ainda:

  • Joa XVII, 22 – “Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam UM, como nós o somos”.

e, finalmente:

  • Joa XVII, 23 – “eu neles e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na UNIDADE, para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim e que os amaste como também amaste a mim”.

Agora podemos sentir, depois de conhecermos o simbolismo do número TRÊS, a igualdade das linhas do triângulo, como é fácil a interpretação daqueles textos bíblicos. O Mestre Jesus tentava explicar o tríplice aspecto – o Pai, Ele e eles – da Universidade da UNIDADE!

O Mestre Jesus já tinha unido DOIS aspectos, isto é, duas das linhas do triângulo – o Pai e Ele – e esta união formava o UM (Eu e o Pai somos UM) e pedia ao Pai que concedesse a união do terceiro aspecto, ou a terceira linha – Eles – para que o Triângulo se completasse “afim de que todos sejam UM”, dizia o Mestre Jesus, mas para isto necessário se tornava que dada a união já existente entre os dois primeiros elementos; o terceiro, isto é, “Eles”, fossem “aperfeiçoados” na UNIDADE”.

Este aperfeiçoamento do Ternário na UNIDADE é, justamente, o Ideal Maçónico. É a Perfeição Maçónica. É, enfim, o perfeito Mestre Maçom.

Daí a responsabilidade do Aprendiz em procurar estudar e penetrar nos mistérios do simbolismo dos números e na simbologia do Ritual Maçónico. Não basta, para ser um Perfeito Maçom, que se frequente as reuniões e que se cumpra a determinações do cerimonial. É necessário que se penetre no simbolismo porque é nele que está o hermetismo da Maçonaria com as suas grandes e elevadas lições. Não basta, também, a simples leitura das Instruções contidas nos Rituais. É necessário que se detenha nelas, procurando, pelo estudo e pela meditação, o seu exacto sentido, os sublimes ensinamentos que elas encerram dentro do simbolismo representado nos instrumentos, nas jóias e nas alfaias que compõem o Templo Maçónico!

É justamente por isto que a Maçonaria se diz uma sociedade secreta! Os seus “segredos” estão velados pelo simbolismo e a chave deste simbolismo só pode ser encontrada no estudo profundo, sério e perseverante!

O Ritual do Aprendiz Maçom tece considerações menores sobre o número TRÊS e descuida-se do seu aspecto principal que é, como vimos, o Triângulo. Para que este estudo não fique incompleto, reportar-nos-emos àquelas considerações.

Conforme a Instrução do Ritual, o número DOIS apresenta desequilíbrio e antagonismo. Anteriormente já o tinha qualificado de terrível e fatídico, terminando por aconselhar ao Aprendiz para que não se aprofundasse no seu estudo. Pusemo-nos contra este conselho e insistimos mesmo no estudo do número DOIS para que o Aprendiz pudesse entendê-lo e ver nele também a possibilidade da UNIDADE. As palavras do Mestre Senhor Jesus mostram-nos que “Ele” e “Deus” estavam, apesar de serem DOIS, em perfeito equilíbrio, sem antagonismos, sem terribilidade e sem fatidicidade, pois que juntos eram UM!

Assim, não é a simples presença de uma terceira unidade que faz cessar o desequilíbrio. Este desequilíbrio pode, como ensina o Mestre Jesus, não existir no número DOIS. O que a terceira unidade faz é converter a unidade dual, inconsistente, vaga e indeterminada, em unidade ternária, perfeita, existente por si mesma, uma unidade de vida enfim!

O número TRÊS é, pois, o primeiro número perfeito e completo e o triângulo é, também, a forma perfeita que apresenta três dimensões necessárias para que o objecto tenha forma e esteja, assim, completo.

TRÊS, diz a Instrução, é o número da Luz, correspondente a Fogo, Chama e Calor. O Maçom deve ter em si o Fogo do amor para com tudo o que é bom, justo e honesto; deve ter mais a Chama da Vontade para cumprir com paciência, resignação e determinação, o programa por ele traçado para a conquista da Perfeição; deve ter, finalmente, o Calor da Inteligência e da Sabedoria, para poder distinguir o Bem, o Belo e o Perfeito nas mínimas coisas que se lhe deparam! Amor, Vontade e Inteligência; constituem o significado dos TRÊS PONTOS que todo Maçom deve ter a honra de apor a sua assinatura, colocando-os de maneira a formarem um triângulo de Perfeição.

Estende-se o Ritual em considerações sucintas sobre os principais pontos de vista em que o temário pode ser apreciado. Ali, nada mais há que citações de ternários que se sucedem, desde a antiguidade, ora constituídos de elementos materiais, ora ainda de procedimentos temporais; ora, por fim, de concepções cabalísticas ou herméticas, filosóficas ou religiosas, que são, para o Aprendiz, de fácil alcance para a sua compreensão.

Concluímos que na Maçonaria Simbólica o número TRÊS representa o ápice da Perfeição. O maior grau que se pode galgar nesta Maçonaria Simbólica é o Grau Três, isto é a condição de Mestre Maçom. Isto quer dizer que ele alcançou o máximo da Sabedoria em todos os seus conhecimentos maçónicos e tem todos os conhecimentos e segredos que a Maçonaria lhe pode oferecer. Supõe-se, também, que nesta altura ele ostente uma personalidade completa, “Justa e Perfeita” e, por isto, está isento de vícios e é um cultor inveterado das Virtudes! Pela sua condição de possuidor do Terceiro Grau é de concluir-se que ele é manso e humilde de coração, é cordato e fraterno, tem gentileza no trato e cultiva com amor a Humildade. Exercita a Fraternidade em toda a sua extensão e trata os seus irmãos com urbanidade e zelo, sabendo desculpar os seus erros e relevar as suas faltas. O Mestre Maçom é, enfim, o homem perfeito e, só assim, poderá ele por a sua assinatura o respeitável emblema dos três pontos que afirmam possuir ele Vontade, Sabedoria e Inteligência!

Boanerges B. Castro

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One thought on “Simbolismo dos números na Maçonaria – O Número Três

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    Ilmos Srs,
    Efetivada leitura acima, venho esclarecer quanto fato do aprendiz utilizar os três pontos, característico simbólico da maçonaria. Estará este cometendo uma falta?
    Atenciosamente,
    Evaldo Gomes.

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