Onde estás, meu novo Irmão?

irmão

Talvez seja muita pretensão falar desse tema tendo menos de uma década de ingresso e  actividade na Maçonaria. Por outro lado, como o debate é dinâmico e necessário, não tenho a pretensão de concretizar uma verdade, mas somente colocar um pequeno tijolo na edificação da sua busca.

O objecto desse debate versa sobre o ingresso de novos Irmãos, semeando perguntas para alcançarmos uma ampla reflexão. A motivação para abordar tal tema surge com a observação da gradativa redução do número de iniciações nos Orientes, sem entrar no mérito da continuidade de criação de novas lojas, pois o resultado de uma forma geral vem sendo uma média cada vez menor de Irmãos por oficina, alcançando o extremo de muitas dessas não conseguirem com o seu próprio quadro iniciar os trabalhos de uma sessão, dada a falta de obreiros.

O que mudou? A Maçonaria?

Parece-me oportuno iniciar por esta ampla pergunta. Afinal, pensemos, a Maçonaria mudou? Num primeiro momento penso que não, visto que os valores e tradições permanecem os mesmos, o que abrange a sua discrição. No entanto, se avaliarmos pelas obras, vejamos. Nos dois séculos anteriores quantos países conquistaram a sua independência através de movimentos maçónicos? Quantos factos históricos e acções políticas tiveram nos seus bastidores a harmonia de uma orquestra de nossos virtuosos irmãos?

Bem, a lista de exemplos para justificar a resposta positiva nas duas perguntas acima daria um outro relevante trabalho, e podemos imaginar a sua extensão. Pois, agora pensemos em responder a essas perguntas olhando o século actual. Seria igualmente extensa a lista de realizações? Creio que não, talvez por desconhecimento, e lamento por isso.

O facto é que tais realizações abrilhantam os livros de história e durante muitos anos ingressar na Ordem era, dentre outras coisas, um acto nobre, pois o novo membro juntar-se-ia à galeria desses valorosos Obreiros.

Não que isto tenha mudado, mas as páginas da história vão amarelando ano após ano e esse encanto adormecendo ao calor do manto do esquecimento, pois a dinâmica das informações nos dias actuais é tamanha que um facto importante pode ser esquecido em dias ou meses, o que dirá em anos ou décadas.

Aliada a dinâmica das informações, o próprio posicionamento da Maçonaria na Era da Informação e do Conhecimento é algo que requer planeamento e constante avaliação. Qual o limite para actuação na internet e nas diversas redes sociais? Ao menos podemos convencionar a certeza de que dificilmente o futuro de uma organização será escrito sem que haja uma estratégia de comunicação, pois cada vez mais para existir não basta apenas estar erguido, mas é necessário ser percebido e destaca-se… adequadamente percebido.

Esta breve constatação responde em parte a pergunta que inicia esse tópico. Afinal, a Maçonaria mudou? Não! Porém a forma das suas obras serem percebidas e a percepção sobre a própria instituição em si, isso sim mudou. E por que é que isto ocorreu? Simplesmente porque o homem, que é quem percebe, também mudou e muda cada vez mais rápido.

O homem muda em alta velocidade e sem freio

Muitas são as formas de abordar e perceber as mudanças do homo sapiens. Certamente é outro tema que seja pela Sociologia ou Antropologia, daria um relevante trabalho. Daí, me deterei a partir da visão do homo sapiens utilizando o conceito de “mundo, modernidade e sociedade líquidos” do saudoso pensador Zygmunt Bauman. Na visão desse sociólogo, o homem assumiu uma posição de individualidade e ao mesmo tempo dependência do consumismo e da necessidade de percepção da sua existência pelos outros. De certo que não citei nem 1/10 da sua ampla e preciosa obra, mas para o propósito do presente trabalho será suficiente.

Nos dias actuais, o homem vive uma contínua saga de sobrevivência e esgotamento. Primeiramente, não tem tempo, ou melhor dizendo, o tempo é constantemente insuficiente para fazer tudo aquilo que considera necessário fazer.

Ainda nos dias actuais, e no clima de sobrevivência, o homem está cada vez mais distanciando-se da necessidade de ser colectivo e apostando alto na individualidade como forma de sobressair nas batalhas profissionais.

Trabalhando incansavelmente e escalando os méritos da individualidade, os brindes desse homem são com as taças do consumismo, disfrutando quando pode os prazeres que a sua posição oferece. Todavia, nem todos que trabalham e não tem tempo estão numa posição tão favorável assim, e aqui reside a grande massa, pois o consumismo aparece como forma de agrupar as pessoas e criar redes de relacionamento ou simplesmente de exclusão ou inclusão. Nessa teia, o homem está constantemente se refazendo e desfazendo, pois do contrário é excluído do meio em que interage no dia-a-dia.

Bem, mas porque é que isto tem relação com o ingresso de novos irmãos na Maçonaria? Optando por uma das várias vias, podemos dizer que durante décadas havia um perfil que era estudado, avaliado e com cautela ocorriam as indicações, o que levava tempo. Nos dias actuais, uma das primeiras constatações é que “esse perfil” está cada vez mais escasso já que o homem está constantemente mudando, e o tempo de estudar e avaliar colide com a ansiedade e imediatismo dessa geração. Logo, o que antes levava um ou dois anos agora deveria levar um ou dois meses.

Levar um ou dois meses não seria o maior problema, mas sim se esse período seria necessário para uma avaliação assertiva sobre as qualidades do candidato que o tornaria digno de ingressar na Ordem. Daí, além da escassez do perfil, temos o crescente risco de acolher irmãos que em pouco tempo estariam deixando o quadro, não só da sua oficina, mas da Ordem. Não é por menos que umas das características predominantes no perfil do ingressante nos dias actuais compreende homens aposentados ou no mínimo acima dos 40 anos, pois essa fatia da sociedade ainda pertence a gerações pré-ansiosas e imediatistas.

Como a tolerância e a serenidade do perfil maçónico podem duelar com o imediatismo e ansiedade dessa geração? Esta pergunta é apenas a ponta de um iceberg ainda maior, mas a sua resposta ficará para outro trabalho. O facto é que em regra geral o time que vem sendo formado está cada vez mais veterano, o que pode preocupar a longo prazo. Se de um lado temos essas constantes mudanças no comportamento humano criando uma névoa que impede identificar novos possíveis Irmãos dessa geração, por outro lado temos o ingresso maduro, porém com capacidade de produção/actividade menor, pois poucos mantém o vigor no período de aposentadoria. Agrava um pouco mais esse quadro a perspectiva da reforma previdenciária que aumenta a idade para 65 anos, deixando aqui mais um tema de análise. Todavia, outro ponto merece destaque.

Só se aproxima ou desperta interesse quando alguém conheceu algum parente Maçom ou pessoa próxima. Esta pessoa, sem muita dúvida, vem correspondendo ao maior percentual de ingressantes. Do contrário, se a pessoa não teve contacto com “nada” de maçonaria, mesmo que se interesse quanto aos aspectos filosóficos, acaba por desanimar quando é informado dos compromissos financeiros a serem assumidos, que por mais que não sejam exorbitantes, essa pessoa coloca tais compromissos no mesmo nível das contas que já possui ficando no mesmo grau da conta de condomínio, energia, financiamento, etc. Daí pensa: – Mais uma conta para quê?

Quantas agulhas temos no palheiro?

Depois de abordar que a percepção sobre a Maçonaria (e as suas obras) mudou ao longo dos anos e que o homem segue uma “metamorfose ambulante e sem freio”, a pergunta permanece ardente: Como encontrar novos Irmãos?

Obviamente que em se tratando de opinião, podem existir muitas maneiras, porém irei abraçar algumas pequenas sugestões.

A primeira é que devemos atrair possíveis candidatos com os nossos exemplos e atitudes. Afinal, onde teríamos maior chance de conhecer alguém: numa jornada de bares ou num grupo que realiza trabalhos de caridade? São extremos, mas serve como exemplo.

Imagine que você como Maçom carrega a imagem da Ordem contigo em qualquer lugar. A embriaguez, a exposição pública não é só sua, mas também da instituição que representa. Além disto, se por um instante havia alguém interessado em ingressar, certamente que com o seu desastroso exemplo, essa pessoa irá pensar mais algumas vezes…antes de desistir.

Ainda exemplificando, recordo-me que durante algumas fases da Operação Lava Jacto, recebi várias vezes informações no WhatsApp de que o Juiz Sérgio Moro era Maçom. Sem entrar no mérito se há verdade nessa afirmação, me chama a atenção o quanto a atitude dele em fazer justiça se tornou uma moldura para colocarmos um “exemplo” de líder Maçom. Certamente, muitos teriam orgulho de ingressar numa organização e poder chamar alguém como ele de Irmão.

Agora, pensemos o inverso e veja qual seria o efeito de alguém condenado na Lava Jacto ser identificado como membro da Ordem. Que efeito isto causaria?

Quantos desejariam manter a maior distância possível de uma organização que possui pessoas dessa estirpe?

A segunda sugestão passa pela comunicação e divulgação das obras, pois em tempos de crise, você conseguir força para manter e/ou administrar hospitais, escolas, asilos, creches (etc.) é algo muito positivo que desperta no mínimo a curiosidade em conhecer como que uma organização sem fins políticos e lucrativos consegue fazer tais obras. Importante destacar que a divulgação é das obras e não das pessoas envolvidas, sendo muito mais um balanço social do que uma propaganda.

Por fim, não se trata de uma sugestão, mas de um desafio. Quando foi abordado as condições do comportamento humano, que fique claro não existir uma linha divisória entre a organização maçónica e a sociedade. Estamos juntos e misturados e por assim ser, temos um desafio diário de não se deixar vencer pelas patologias sociais desses nossos tempos, quais sejam, o individualismo, consumismo, imediatismo, dentre outros. Pois do contrário, além de um número menor de ingressantes, a maçonaria, enquanto instituição poderá adoecer se tais sintomas estiverem presentes nas nossas oficinas.

Considerações Finais

Este breve relato ou ensaio teve por objectivo apresentar algumas reflexões sobre “o ingresso de novos Irmãos”. O propósito é provocar e situar o leitor em alguma(s) das abordagens apresentadas e abrir caminho para novos debates acerca do tema.

É sabido que potencialmente o novo Irmão pode estar em todo o lugar, ou seja, nas Universidades, ambientes de trabalho, ambientes religiosos, grupos sociais e outros.

A diferença quando comparamos com épocas passadas é que a percepção sobre a Maçonaria enquanto instituição e as suas obras está amarelada e empoeirada, o que nos remete a cautela de destacar os valores no mínimo das Lojas que fazemos parte.

O que não mudou é a nossa responsabilidade de ser a principal propaganda da Ordem, e isso sem dúvida é um poderoso íman para reunir as poucas agulhas num palheiro em constante movimento.

Por fim, a comunicação e a actuação na internet e redes sociais pode também ser uma estrada ou uma janela para inovar ou actualizar a percepção sobre a instituição, realçando as suas obras sem prejudicar a discrição como valor sólido.

É certo que em nenhum momento as reflexões desse ensaio não desejaram apontar a necessidade quantitativa de ingressos, mas antes da quantidade, discorrer sobre a dificuldade qualitativa dos ingressos, pois o amanhã e o longo prazo dependem dessas sementes.

Na esperança de ter contribuído e na certeza de não esgotar o tema, acredito que o debate deve se manter com a chama acesa, e que novas páginas sejam preenchidas com o valor dos actuais e novos obreiros.

Franklin dos Santos Moura

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3 thoughts on “Onde estás, meu novo Irmão?

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    A tecnologia tem contribudo imensamente para o desenvolvimento sócio econômico das pessoas, no entanto ao homem natural existe uma forte atração pelo poder material que lhe é peculiar, e lamentavelmente temos sentido o resultado deste fenômeno como o afastamento das relações familiares e afetiva. Podemos relacionar também como causa do enfraquecimento das nossas instituições.

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    Gratidão

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      Boa tarde tudo o que está escrito está como eu penso e acho que está ser tô

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