Os doze trabalhos de Hércules e a Maçonaria

Hércules

A relação de Hercules com a Maçonaria, na coluna do primeiro vigilante representando a força é o assunto em destaque deste trabalho.

Em inúmeras pesquisas, encontramos várias narrativas a respeito de Hercules. Algumas são descritas com muita profundidade, relacionando a lenda com astrologia, misticismo, espiritismo, cabala e outros. Tentamos aqui explicar de modo mais sereno e objectivo, a lenda deste herói que mais se aproxima dos ensinamentos maçónicos sem, contudo, alongar este trabalho. Material para isso, não falta é só pesquisar.

Hércules foi um grande herói da Mitologia Grega. Filho de Zeus e de Alcmena, que era esposa de Anfitrião.

Segundo o mito, aproveitando o facto de Anfitrião estar ausente, em batalha, Zeus caracterizou-se como ele, e fez-se passar pelo mesmo. Teve um encontro amoroso com Alcmena, gerando um filho chamado Hercules. Ao retornar da batalha, Anfitrião descobriu a traição, e, irado construiu uma grande fogueira para queimar Alcmena viva. Zeus então mandou nuvens de chuva para apagar o fogo, o que acabou fazendo com que Anfitrião aceitasse a situação. Hércules, portanto, nasceu do encontro de Zeus e Alcmena.

A Deusa Hera, esposa de Zeus, enciumada pela traição, enviou duas serpentes para matar Hércules ainda no berço. Não teve êxito, pois ainda bebé, Hércules estrangulou as serpentes com as próprias mãos.

Hera provocou em Hércules, já adulto, um ataque de fúria, que o levou a matar a sua esposa Mégara e os seus três filhos. Como punição pelo crime, o oráculo de Delfos incumbiu-o de doze tarefas de extremo risco e aparentemente impossíveis de serem realizadas.

O que é “Oráculo de Delfos”?

Oráculo de Delfos, ou templo de Apolo, serviu como local aonde os peregrinos vindos das mais diversas latitudes do mundo helénico consultavam as pitonisas, as sacerdotisas oraculares, para saber qual o seu destino, da sua família ou da sua pátria. Delfos tornou-se um dos lugares sagrados mais venerados pelos gregos, sendo que as suas previsões e predições tiveram enorme repercussão nos destinos de reis, de tiranos e de muita outra gente famosa daqueles tempos.

A realização destes trabalhos foi uma penitência imposta ao herói.

Essas tarefas são chamadas de “Os doze trabalhos de Hércules”.

  1. Matar o leão de Nemeia
  2. Matar a Hidra de Lerna
  3. Capturar o javali de Erimanto
  4. Capturar a corça de Cerínia
  5. Expulsar as aves do lago Estinfalo
  6. Limpar as estrebarias do Rei Augias
  7. Capturar o touro de Creta
  8. Capturar as éguas de Diomedes
  9. Obter o cinturão de Hipólita, rainha das Amazonas
  10. Buscar os bois de Gerião
  11. Buscar os pomos de ouro do jardim das Hespérides
  12. Capturar o cão Cérbero (cão de duas cabeças)

Matar o Leão de Nemeia

Estrangulou o Leão de Nemeia que devastava a região e que os habitantes do local não conseguiam matar. Na segunda tentativa de matá-lo, tendo a primeira sido infrutífera, estrangulou-o, após com ele lutar. Acabada a luta arrancou a pele do animal com as suas próprias mãos e passou a utilizá-la como peça do vestuário.

Este primeiro trabalho de Hercules simboliza a coragem e a sagacidade que o homem deve ter para vencer dificuldades que, a principio, parecem insuperáveis. Os gregos antigos encareciam tais virtudes nas suas iniciações.

Matar a Hidra de Lerna

A segunda tarefa de Hércules foi a destruição da Hidra de Lerna, monstro horripilante, semelhante a uma serpente de várias cabeças, que, a cada vez que uma delas era cortada, outra brotava imediatamente no lugar. Esse monstro habitava num pântano fétido e sombrio, devorando todos aqueles que se aventuravam a atravessá-lo.

O simbolismo da Hidra de Lerna é particularmente interessante, e tem muito a ver com a prática da Arte Real. Desde os primeiros graus da Maçonaria Azul, nas Lojas simbólicas, afirma-se que o propósito do Maçom ao frequentar uma Loja é submeter as suas paixões e cavar masmorras aos vícios. E todo o desenvolvimento da cadeia iniciática da Ordem jamais deixa de salientar que é esse o objectivo da iniciação maçónica.

Capturar o Javali de Erimanto

Na Arcádia, região pastoril da antiga Grécia, famosa pelas suas bucólicas paisagens, havia um monstruoso javali, que Hércules deveria capturar vivo e trazer ao rei de Argos. Essa criatura fantástica assustava os pastores e destruía as suas florestas, pois se nutria das glandes dos carvalhos, impedindo a sua reprodução.

O simbolismo desta tarefa é bastante apropriado à filosofia maçónica. O javali é o símbolo do poder espiritual. Na tradição druida ele representa a força do espírito, enquanto que o urso é o símbolo da força temporal. O Maçom deve procurar sempre submeter as suas paixões pelo constante progresso que faz nos ensinamentos da Maçonaria. Esta, inclusive, é a resposta que ele dá ao trolhamento que lhe é feito por ocasião de visitas a Lojas irmãs.

Capturar a Corça de Cerínia

Após escalar mais um degrau na escala iniciática, pela conquista do poder espiritual, Hércules foi encarregue pelo rei de Argos de capturar, viva, uma das cinco corças de Cerínia, que vivia no monte Liceu. Eram animais sagrados que tinham os pés de bronze e os chifres de ouro, rápidas e de grande porte. Hércules perseguiu uma delas durante um ano, e finalmente conseguiu capturá-la. Dois deuses, Apolo e Artemis tentaram tomar-lhe o troféu, mas Hercules não o consentiu.

Ela é, portanto, a sabedoria aliada à meiguice e à sensibilidade, virtudes imprescindíveis naqueles que buscam a realização de uma espiritualidade de nível superior.

Expulsar as aves do Lago Estinfalo

Numa floresta escura às margens do lago Estinfalo, a região da Arcádia era habitada por aves de porte gigantesco, que viviam devastando as plantações e matando as pessoas com os dardos envenenados que faziam das suas penas. Como se escondiam nos recantos mais escuros da floresta, era difícil desalojá-las dos seus esconderijos.

Hércules pediu ajuda à deusa Atena e esta mandou o demónio Hefesto fundir-lhes umas castanholas de bronze que provocavam um barulho ensurdecedor. Desta forma, Hércules fez com que as aves deixassem os esconderijos e pode matá-las com flechas envenenadas com sangue da Hidra de Lerna.

A interpretação mais corrente deste mito iniciático é a que as aves do Lago Estinfalo são os desejos múltiplos e perversos que saem do inconsciente, para tentar evitar que o iniciado continue o seu caminho na busca da iluminação. Delas diz o mito grego que o seu vôo obscurecia o sol. E é exactamente isto que os desejos profanos fazem. Se não adequadamente combatidos, toldam a luz que guia o homem na sua jornada para o aprimoramento espiritual.

Limpar as estrebarias do Rei Augias

O rei Augias era o rico monarca de Elis, uma cidade no Peloponeso. Possuía um grande rebanho de animais, que guardava em imensos estábulos. Como não os mandava limpar a trinta anos, o acúmulo de estrume exalava fedor e pestilência por toda a região, despertando a ira dos reinos vizinhos. Eristeu ordenou a Hércules que limpasse os estábulos do rei Augias mesmo contra a vontade dele.

A interpretação simbólica mais comum deste trabalho é que o acúmulo de maus pensamentos acaba por tornar a mente humana um território fétido e pestilento, degenerando em doenças diversas que fazem do individuo um estorvo e um constrangimento, não só para a família, mas também para toda a sociedade. É preciso que a mente seja limpa e irrigada com “água pura” constantemente, para que não pereça numa situação semelhante aos estábulos do Rei Augias.

O rio é constante, perene, representa fertilidade, regeneração e movimento. A mente humana deve ser como ele, não pode ficar estagnada. Não devemos jamais deixar que nela se acumulem maus pensamentos, lembranças de desejos não satisfeitos, inveja, ciúme, rancores, etc. Estes sentimentos são estrumeira que devem ser lavados constantemente.

Capturar o Touro de Creta

O sétimo trabalho de Hércules foi a sua vitória sobre o terrível touro de Creta. Esse animal fantástico tinha sido enfeitiçado pelo Deus Posídon ou Poseidon, para castigar o Rei Minos, de Creta, por este não ter cumprido a sua promessa de sacrificá-lo em sua homenagem.

O touro simboliza a força e a violência que devem ser conquistadas pela razão e a sabedoria. Muitas vezes os homens deixam de cumprir os seus deveres e, em consequência, atraem sobre si e a sociedade em que vivem, os males da violência e do crime, que nada mais são que a pretendida realização das nossas necessidades e desejos da forma mais vil. Esta alegoria nunca foi tão bem empregada evidenciando os dias actuais em que assistimos ao aumento da violência de uma forma tal como nunca se viu antes.

E tudo isto, na nossa opinião, é motivado pelas péssimas condições sociais em que vive o nosso povo, cada vez mais incapacitado de obter, por meios normais, as coisas que necessita para viver. E assim, ao se encontrar cada dia mais pobre, e pressionado por uma comunicação social que o incita ao consumo, parte ele para a violência, tentando obter, à força, aquilo que não conseguiu através do trabalho honesto.

Capturar as Éguas de Diomedes

Diomedes era rei da Trácia. Possuía quatro éguas (Podarga, Lampona, Xanta e Dina), que se alimentavam de carne humana. Eristeu encarregou Hércules de acabar com essa prática selvagem e trazer as éguas para Argos.

Este mito simboliza o facto de que na vida humana há muita perversidade. Há homens que devoram outros para satisfazerem os seus instintos mais vis. Os perversos, quando vencidos, morrem por si mesmos, destruídos pelos próprios inimigos que criou, ou por outras feras iguais a eles. Mas nesse processo ocorre também a morte da beleza, da inocência e da pureza simbolizadas pela rainha Alceste. O trabalho do iniciado é resgatar desse tipo de “morte” moral, as pessoas boas e puras que são vítimas desta perversidade.

Obter o Cinturão de Hipólita, Rainha das Amazonas

Hipólita, rainha das temíveis guerreiras amazonas, ganhara do Deus Áries um cinturão mágico que lhe conferia enorme poder. A filha do rei Euristeu, que também era sacerdotisa da Deusa Hera, exigiu que Hércules obtivesse para ela o cinturão de Hipólita.

São várias as interpretações desse trabalho de Hércules, algumas das quais, inclusive, já renderam especulações da mais alta envergadura intelectual.

Na verdade, porém, o ensinamento iniciático do cinto de Hipólita encerra um símbolo representativo de poder. Os gregos antigos acreditavam que o poder da mulher era exclusivamente fundamentado na sua capacidade de procriar e dar prazer sexual.

O cinto é uma alegoria, representativa da função sexual feminina. Conquistá-la, dominá-la, era condição para que o iniciado pudesse prosseguir na escalada para o seu aprimoramento espiritual, já que jamais poderia fazê-lo sem que a sua descendência estivesse garantida e a sua satisfação sexual normalmente satisfeita.

Na verdade, além dos aspectos psicossociais, políticos e iniciáticos apontados por muitos autores, existem outros, de ordem moral, sociológica e histórica neste mito, que merecem ser comentados ainda que de passagem. Não existe vida humana sem actividade sexual, não há continuidade de existência sem reprodução assexuada. O sexo não pode ser tratado, portanto, como mera actividade lúdica, destinada simplesmente à obtenção de satisfação física.

O facto de a Maçonaria ser uma congregação essencialmente masculina tem raízes históricas, derivadas principalmente das suas influências filosóficas (herméticas), e militares (cavalarianas especialmente), mas não comporta elementos de preconceito contra as mulheres. A Maçonaria não é apenas um conjunto de irmãos que se reúnem num local chamado Loja. A Loja são os irmãos e as suas famílias, incluindo esposas, filhos e parentes.

O homem está na mulher como a mulher está no homem. Não há qualquer evolução possível em caminhos separados, em divisões de virtudes específicas. Não cabe exclusividade aos homens em relação a certos atributos, como força, segurança, competência para comandar etc. nem as mulheres são mais capazes de desenvolver o lado subtil do psiquismo humano. Ambos têm qualidades e atributos que se completam na união dos sexos.

Buscar os Bois de Gerião

Gerião, ou Gericom, era um gigante monstruoso, descendente de uma estirpe de monstros, que incluía a famosa e terrível Medusa, que era sua avó. A sua aparência era terrível. Possuía três troncos e três cabeças, que se bifurcavam logo acima dos quadris. Era dono de um imenso rebanho de bois vermelhos, que eram guardados por um pastor, também monstruoso, e um cão, da mesma espécie. Ele vivia numa ilha muito distante, além do Imenso Oceano.

O significado iniciático desta tarefa tem a ver com a missão do filho do homem, ou seja, a de resgatar, das mãos de um rei malvado, (que é o vicio), o rebanho sagrado (que é a humanidade). Por isso ele é o filho da luz, aquele que foi engendrado no seio da sua mãe virgem, sem o concurso de um pai terreno.

Capturar o Cão Cérbero de duas cabeças

Este é, talvez, uma das tarefas de maior valor iniciático entre todos os trabalhos realizados por Hércules. Para realizá-la ele teve, inclusive, que se iniciar nos Mistérios de Elêusis para aprender a entrar e sair com segurança do mundo dos mortos.

É que o destino das pessoas e o controle dos acontecimentos não estão, na verdade, nas mãos dos homens, mas pertence unicamente ao Grande Arquitecto do Universo. Mas, ainda assim, o herói, como o Maçom, jamais poderá furtar-se de cumprir a sua missão, pois para isso foi escolhido e para isso foi submetido a uma iniciação.

Buscar os Pomos de Ouro do Jardim das Hespérides

As maçãs douradas do Jardim das Hespérides eram os frutos sagrados que Hera, a esposa de Zeus, dele recebera por ocasião das suas núpcias. Ela os plantou num jardim lá pelos lados do extremo ocidente, próximo do local onde o gigante Atlas escorava a abóbada celeste nas suas costas. Hércules obteve os pomos dourados e os entregou ao rei. Este não soube o que fazer com ele por que deles não era merecedor.

Não é preciso especular muito para se interpretar esse grandioso mito. Na verdade, na simbologia comum da maioria dos povos, a sabedoria tem sido comparada a frutos de ouro, guardados ciosamente pelos deuses. E os homens nunca deixaram de cobiçá-los e tentar se apropriar deles. A própria Bíblia utiliza-se deste símbolo para dar a entender que o pecado que causou a queda do homem foi ao facto do casal humano ter comido, indevidamente, o “fruto do conhecimento do bem e do mal” que Deus plantara no Jardim do Éden.

A diferença entre os mitos, bíblico e grego é apenas de forma. Ambos, porém, simbolizam o desejo do homem de adquirir a Gnose, ou seja, o conhecimento total das causas que possibilitam a vida do universo, para que, de posse desse conhecimento, possa controlar e administrar os seus efeitos.

Este é talvez, o grande erro que a Maçonaria, como instituição, tem cometido ao longo dos séculos. É que, para atender a objectivos simplesmente profanos, como o são os interesses políticos e pessoais dos seus membros, tem admitido nos seus quadros pessoas não qualificadas para perseguirem os objectivos da Ordem. Esses iniciados entram para a Confraria, mas jamais alcançam, ainda que subam todos os graus da Escada de Jacob, a verdadeira sabedoria.

José Maria de Oliveira Fontes – M∴ I∴ 32º – Ponte Nova – MG – BR

Fontes

  • Rizzardo da Camino
  • Arte Real
  • Castellani

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2 thoughts on “Os doze trabalhos de Hércules e a Maçonaria

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    Saudações Fraternas, sou Frater e estou estudando as 7 primeiras apostilas de grau da Loja Maçonaria, hj tambem descobri o site de vcs e ele é muito mais completo q as apostilas. Na R-Cruz recebemos todos os estudos em casa e eu nunca estive num Templo, Capitulo, pronaes ou mesmo com outro Frater,,,apenas acho que estou sendo chamado aos estudos, fui conduzido até a RC e me afiliei em Mar/2019 e acho que a Egregora da Ordem me retirou do caos onde vivia no Rio e me colocou confortavelmente com a mamae antes de começar o isolamento social, sou GR, fumante, 59anos,. Anrtes de conhecer ordens iniciaticas comecei me interesando por Saint Germain, depois Hermes Trismegistro, Platão e Socratis que cheguei aqui e estou encantado com o renascimento Maçom, o ideal de fraternidade, as Jóias sempre nos lembrando de nosso compromisso com o Exelente de ser. Então , faço deste o meu primeiro contato nas ordens..Preciso saber se estou tendo revelações, pois apenas estudando a postila 3 e acho que Saint Gerrmain é o Principe Consorte da Maçonaria. É isso?

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