Os números 1, 2, 3 e 4

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Os números estão em absolutamente tudo. Eles expressam uma verdade muito além do véu suave que conseguimos tirar nos primeiros passos da nossa história de seres universais. O que quero dizer é que os números vão muito além da nossa vã filosofia, das nossas interpretações discretas sobre temas voláteis.

O homem mede o tamanho e o número dos objectos, séries, ciclos e relações de tempo e espaço. Leis e princípios científicos podem ser expressos em símbolos numéricos e matemáticos. Na religião e mitologia, o homem utiliza números para identificar os seus deuses em unidade, dualidade ou trindade. Atribuem conceitos e símbolos filosóficos, metafísicos e místicos aos números e suas naturezas. O homem até mesmo organizou à música em ritmos e harmonias numéricas.

Como não poderia ser diferente, a nossa Augusta Arte Real é fundamentalmente constituída sob a Ciência dos Números, na sua forma mais ampla e abrangente. Os números constituem a Maçonaria, e nós devemos conhecê-los ou, não aprenderemos a Construir.

Escrever sobre os Números é sempre muito, muito difícil.

Os Números

1. Ciência dos Números

Indubitavelmente não há como negar que os números representam uma ordem exterior – no universo – e uma ordem interior, psicológica e psíquica. A Harmonia do Universo só é constituída através da regência dos números.

Os números são a expressão da relação entre a unidade e a multiplicidade, e da ordem da multiplicidade. Estudar os conceitos da natureza da unidade e da díade, por exemplo, auxilia-nos à compreensão da natureza da Unidade como representação do Absoluto, e a natureza da dualidade homem-universo. Da mesma forma, inverter o processo e estudar as representações do Absoluto pode elucidar a natureza da Unidade.

Assim como os números constituem uma ordem no Universo no sentido Macrocosmo, o Maçom cria uma própria ordem interna ao buscar a harmonização da multiplicidade na unidade. Tudo o que há em cima é como o que está em baixo, frase conhecidíssima de Hermes Trismegistus.

Deste Sistema e Ordem, nasce uma Ciência dos Números, a tão profanada Numerologia:

O número é ordem e limitação, e só ele torna o cosmos possível. A natureza move-se por números e compreender os números é dominar a natureza. Daí porque Pitágoras procurava compreender a natureza dos números e investigar a sua operação no Universo, tanto nos vãos movimentos ordenados nos ceias como nas disposições da terra  [1].
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Numerologia é a ciência que define o valor dos números e tem em Pitágoras, filósofo grego, a sua máxima expressão. Na Maçonaria, a Numerologia é estudada minuciosamente, contendo os Rituais o significado esotérico da mesma. Os Números comprovam a existência de uma Ordem no Universo; embora possam ser multiplicados ao infinito, estabelecem regras inalteráveis, equilibrando desde o pensamento até os actos mais simples da vida. Na Maçonaria, os Números tidos como “primários” são: Unidade, Binário, Ternário, Quaternário, Quinário, Senário, Septenário, Octonário e Novenário  [2].

O Evangelho de São João lembra que no Princípio, era o Verbo. Este Verbo compreende todo o mistério dos números. Este Verbo é a unidade absoluta. Dele decorrem, por emanação, todos os números ou particularidades que existem na Criação. Esta complexidade torna-se uma ciência, que neste caso, até hoje permanece inalterada. Quando ela for completamente compreendida, far-nos-á constatar que tudo o que existe tem um número, um peso e uma medida. Esta Ciência dos Números é a fonte e origem de todas as outras.

Os números não são apenas “signos de quantidades”. Em si mesmos, expressam Princípios eternos que são as emanações e qualidades invariáveis da Divindade. Constituem um alfabeto inteligível e altamente inteligente por meio do qual as relações de Deus, do Homem e da Natureza podem ser instauradas e as verdades encarnadas dessas relações demonstradas.

Contudo, neste seara, há que se ter cuidado. Há ordens místicas, iniciáticas, seitas, doutrinas e até religiões que chegam mesmo a afirmar que é possível, por meio de uma análise “oculta” da nossa data de nascimento, nome e outras informações, a traçar um perfil da nossa personalidade e até mesmo definir o que o futuro nos reserva. Ora, é facto que a nossa vida segue ciclos e ritmos baseados em números, mas esses ciclos e ritmos, quando se referem à nossa evolução, não são fixos. O nosso futuro não depende em caso algum de cálculos fantasistas fundamentados em referências que só se relacionam com o aspecto material da nossa existência. A Prudência, nesse campo, impede que obriguemos os números a dizer o que eles nunca quiseram.

2. Pitágoras e a Santíssima Tetraktys

“Deus actua através das Suas leis, e as Suas leis actuam através dos Números”, dizia Pitágoras, que nasceu na Ilha de Samos, localizada no mar Egeu, na Grécia, a mais ou menos 575 a.C.. Era discípulo de Perecides, que era discípulo de Tales. Era estudioso de Anaxímedes e Anaximandro. Deixou a terra natal por aversão à tirania de Polícrates. Viajou Egipto, Fenícia, Babilónia, Índia e Pérsia. Estudou nas Escolas de Mistérios do Egipto. Era grande filósofo e matemático. Famoso pela criação de fórmulas matemáticas. Famoso pela Redução Teosófica. Era astrónomo. Foi admitido como discípulo na Escola de Tebas em 531 a.C.. Na Caldeia, Babilónia, foi instruído na ciência dos magos. Foi para Creta e estudou as doutrinas filosóficas de Epiménides. Volto a Samos e, revoltado pela tirania, exilou-se em Crotona, na Itália, onde fundo a Escola Italiana. Os seus ensinamentos eram basicamente repassados aos seus discípulos em três graus.

  • Primeiro Grau: consagrado ao estudo da matemática, tal como ela se manifestava no micro e macrocosmos. Ensinava que Deus não cessa de Geometrizar, e foi ele quem deu origem ao nome “Grande Arquitecto do Universo”.
  • Segundo Grau: estudo da ética, da moral, e da política. Pitágoras era grande legislador, e portanto, ensinava as seus discípulos a legislar. Pitágoras ensinava o equilíbrio entre a aplicação dos direitos dos cidadãos e os seus deveres cívicos.
  • Terceiro Grau: Pitágoras ensinava todas as doutrinas esotéricas àqueles que se mostravam dignos de tanto. Abrangiam as leis cósmicas que regem os planos visíveis e invisíveis da Criação. Envolvia o estudo dos símbolos.

Pitágoras, nos dias de hoje, é essencialmente lembrado pelo seu Teorema e Tabuada de Multiplicação por ele desenvolvida. Mas devemos-lhe especialmente todos os grandes estudos metafísicos dos Números, uma ciência que constituiu a Geometria Sagrada. Os números eram-lhe tão sagrados e especiais, que ao se comunicar com os seus adeptos, usava-os tão singularmente como as palavras do nosso vocabulário quotidiano. Ele foi o primeiro filósofo a falar do Número de Ouro, que só descobriu ao vê-lo aplicado em construções bem anteriores ao seu tempo, e foi o primeiro a explicitá-lo através da sua doutrina. O Número de Ouro é irracional e corresponde à fórmula (1+^5) ^ 2, que dá aproximadamente 1,618.

Durante cinco anos sem conhecer o seu Mestre, os discípulos que eram admitidos ao primeiro grau eram submetidos por Pitágoras ao estudo da Santíssima Tetraktys, constituída por 1 + 2 + 3 + 4, cujo resultado é 10, e a sua mais simples significação diz respeito à essência do Todo e o Todo em essência.

Os pitagóricos simbolizavam esta Santíssima com dez pequenas pedras, colocadas de modo a formar um triângulo equilátero, cuja representação remete à perfeição harmónica da geometria sagrada na sequência dos quatro primeiro números da década. Dez é o número que contém em si todos os outros, e por isso, sempre representou Deus e o Universo.

No ensinamento pitagórico, a mónada ou a unidade é o primeiro de todas as coisas e é o início do número. O plano divino ou Um e o plano humano, mundano ou muitos, estão relacionados. Um torna-se muitos; os muitos retornam ao Um. Isto é simbolizado pela Tretactys, o dez retorna à unidade. A relação entre a unidade e a multiplicidade se compara à queda do mundo cósmico, e pelos domínios do real e do material [3].

A respeito do tema, Carlos Brasílio Conte transmite-nos que:

Segundo Arquitas, discípulo de Pitágoras, a Santíssima Tetraktys é o símbolo dos supremos processos e forças do Cosmos, e a chave de todas as proporções harmónicas. Também conhecida como a pirâmide dos pontos pitagóricos, obre ela os iniciados de Krotona prestavam o seu juramento de nada revelar aos profanos, com relação aos Mistérios Sagrados  [4].

Dentro da Tretaktys há todos os desdobramentos de formas geométricas possíveis, como o triângulo, rectângulo perfeito, hexágono, triângulo com um ponto (olho) no meio, o triângulo com a ligação de nove pontos formando um 3 x 3, um dado aberto com todos os seus números de 1 a 6; aduz ainda à Unidade Cósmica (1); Equilíbrio Cósmico e a Lei da Dualidade (2), a Lei do Triângulo (3) e a Estabilidade Terrestre (4), resultando na Ubiquidade Divina ou Retorno à Unidade (10).

O número 1

Este número remete-nos ao “início”, “começo”. Há diferentes formas de interpretar este “início”. O próprio Deus pode ser assim interpretado, pois Ele é a fonte e causa de todas as coisas.

Tratando da criação do mundo, Moisés trata o primeiro dia um e não primeiro, expressando assim a natureza da unidade ou um, e o elemento predominante que é o mundo inteligível ou arquétipo. Assim, Deus formou o mundo-arquétipo de forma a ter um plano divino, incorpóreo, para o mundo sensível.

Quando a Bíblia diz: “No começo, Deus criou céu e a Terra”, o começo indicam tempo mas uma ordem numérica, uma sequência, neste caso, no padrão ou projecto do Criador. O Criador formou um céu incorpóreo e uma Terra invisível, e fez o ar e o vácuo. Deu ao primeiro o nome de trevas e ao outro de abismo. Criou então a essência da água, sopro da vida e a luz, que é a sétima pela ordem:

  1. Céu incorpóreo;
  2. Terra invisível;
  3. Ar ou trevas;
  4. Vácuo ou abismo.

Para os Rosacruzes, o número 1 é chamado de mónada. A Unidade Cósmica e o Começo. Considera-se que ele existe sozinho e independente de todos os outros números. E a unidade nunca é chamada de número, embora todos os números dela emanem e ela os contenha a todos. A Unidade é o Princípio.

O que é um princípio? É uma base da palavra, é uma razão de ser do verbo. A essência do verbo está no princípio: o princípio é o que é; a inteligência é um princípio que fala  [5].

O conceito místico do Um e dos muitos, do retorno dos muitos ao Um, também é encontrado na Cabala. Afirma ela que o sephira mais inferior (Malkuth) retorna ao primeiro (Kether). A aparição das dês esferas é com um relâmpago, sem começo nem fim visíveis. A sua palavra está nelas, quando vão e quando retornam. Por outras palavras, as esferas, além de serem unas com Deus, não têm fim e retornam a Ele. A década tem o seu fim ligado ao seu começo e o seu começo ligado ao seu fim, assim como a chama está ligada à brasa. A primeira esfera ou sephira é o Espírito de Deus vivente, que vive por toda a eternidade. O mundo articulado do poder criativo, o espírito e a palavra, são o que a Cabala chama de Espírito Santo.

Para Tomas Vaughan, antigo Mestre Maçom e Rosa-Cruz, o Um é o número de Deus e da felicidade. É o número da concórdia, da amizade e da forma. A Unidade é a fonte e o original de todos os números, o início de toda a multiplicidade. É indivisível e não tem partes. É o início e o fim de todas as coisas. Todas as coisas desejam aquele um e se esforçam por retornar a ele.

Por fim, ressaltamos o que nos diz o Ritual de Aprendiz do REAA:

O número UM, a unidade, é o primeiro dos números mas, a unidade só existe pelos outros números. Todos os sistemas religiosos orientais começaram por um ser “primitivo”. Conquanto esta abstracção não tenha, positivamente, uma existência real, tem contudo um lado positivo, que o torna susceptível de uma existência definida: é o que os antigos dominavam de “Pathos”, isto é, o desejo ou a acção de sair do “absoluto”, a fim de entrar no real – considerado por nós concreto. A Unidade só é compreendida por efeito do número DOIS; sem este, ela torna-se idêntica ao Todo, isto é, identifica-se com o próprio número.

O renomado Teósofo e Maçom Carlos Brasílio Conte [6] ensina-nos o seguinte:

Cumpre salientar que os pitagóricos não reconheciam o número Um como número (filosoficamente falando), pois para eles o Um seria, ao mesmo tempo, a Unidade e o Todo, representando Deus e o Universo antes da Manifestação (criação do mundo). Tal conceito equivale, as filosofias orientais, a Parabrahman ou Tao, ideação suprema da qual tudo provém e para qual, um dia, tudo retornará. Pela nossa absoluta incapacidade de perceber a “Divindade” nesse estado imanifestado (Deus em Si Mesmo), representamo-Lo por vários nomes> Unidade, Todo, Mónada, Autogerado, Princípio Criador dos Números, Número dos Números, etc.. Sendo “Tudo”, a Unidade não pode produzir nada (porque se produzisse algo além dela, ela deixaria de ser o “Tudo”), a não ser opondo-se a si mesma, ou seja, desdobrando-se na Díada (número dois). A Mónada, adicionada a si mesma, produz o número Dois; porém multiplicada por si mesma, permanece una e inalterada.

O número 2

Para os Rosacruzes, o número 2 é a díada. O Equilíbrio Cósmico e a Dualidade de tudo o que há. É o primeiro número que designa a separação da unidade. Representa a oposição, a passividade que se opõe à actividade.

Para Tomas Vaughan, o Dois é o número da matéria e une as artes e a natureza. É chamado indeterminado, amorfo, ilimitado, pois assim é a matéria até que a forma dela se apodere. Dois é o número do homem, chamado de mundo menor. É a primeira multiplicidade; daí, um é o início da multiplicidade, sendo dois a primeira multiplicidade. Ele representa a caridade, o amor mútuo, casamento e sociedade.

Para o Maçom Teúrgico Martinez de Paqually [7], o Dois representa o Binário. É o número da confusão, controla a associação da vontade do homem com a sugestão do daimon. É esta combinação que causou a primeira queda de Adão e efectuou a “operação da confusão” que trouxe à tona o outro aspecto, a Heva; assim o número da confusão pertence ao aspecto feminino.

Neste ensejo ocultista, Eliphas Lévi [8] foi ainda mais fundo, quando declarou:

O binário é a unidade multiplicando-se a si mesma para criar, e é por isso que os símbolos sagrados fazem Eva emergir do próprio peito de Adão. Adão é o tetragrama humano que se resume no iod, imagem misteriosa do cabalístico falo. Ajunta a esse iod o nome ternário de Eva e formarás o nome de Jeová, o tetragrama divino, que é a palavra cabalística por excelência e que o grande sacerdote do templo pronunciava Iodchéva.

Filosofando sobre o binário, podemos dizer que a divindade é uma na sua essência, tem duas condições essenciais como bases fundamentais do seu ser: a necessidade e a liberdade. As leis da razão suprema são necessárias em Deus e regulam a liberdade, que é necessariamente razoável e sábia. Deus impôs a sombra unicamente para tornar a luz visível. A sombra é a repulsão da luz e a possibilidade do erro é necessária para manifestação temporal da verdade.

Para Rizzardo da Camino [9]:

Dualidade caracteriza a função do número dois, significando, de um lado, a duplicidade, e de outro, o antagonismo. A vida é formada de dualismos que representam o equilíbrio. Viver seria monótono se não surgissem momentos alternativos. A lição bíblica de Jó é absorvida pela Maçonaria, pois sendo temente a Deus, sabia, sabia que os momentos de provação cessariam para dar lugar aos de felicidade; o episódio egípcio, de José, um dos doze filhos de Jacó, reflecte bem a filosofia do dualismo, com o episódio das “sete vacas gordas e das sete vacas magras”, sonho que vaticinava um período de sete anos de fartura seguidos por sete anos de penúria, sendo que Faraó armazenou o trigo da época de fartura para à de escassez.

A maioria dos autores maçónicos relata que o número Dois representa os contrários. Contudo, creio que não se trata de “contrários” propriamente ditos. No mundo não há contrários em si mesmos , há a dualidade, fruto de uma cisão da Unidade o que, consequentemente, produziu a Multiplicidade. O que queremos dizer é que o Dois foi o início do mundo, do Homem, pois é dele que os outros números resultam, impossibilitando a Unidade de facto. Mas se o Dois saiu do Um, então a Multiplicidade obviamente saiu da Unidade. E aqui também há oposição “aparente”: a Multiplicidade versus a Unidade, a primeira saiu da segunda, contudo, se não fosse esta reflexão de antagónicos, ou um ou outro não seriam percebidos. Neste sentido:

Jamais saberíamos o que é o Bem, se não conhecêssemos o Mal! Não conheceríamos o Justo se não entendêssemos o que é Injusto! Não apreciáramos a Luz se não provássemos as Trevas! Não exercitaríamos o Movimento se não estacionássemos na Inércia! E assim por diante. Não há, pois, ao que nos aprece, que se falar em número terrível, em número fatídico acerca do Dois. Antes, há que se compreender os perigos que envolvem o aspecto negativo dos “contrários” e para esta compreensão necessário se torna o conhecimento do seu aspecto positivo [10].

Parece-nos que os “contrários” são diferentes expressões de dois princípios básicos dos quais se originam todas as coisas e que estão em todas as coisas. A dualidade do limitado e ilimitado é a base de uma séria de dez pares ou opostos:

  1. Limitado – Ilimitado;
  2. Impar – Par;
  3. Unidade – Multiplicidade;
  4. Direito – Esquerdo;
  5. Masculino – Feminino;
  6. Em repouso – Em movimento;
  7. Reto – Curvo;
  8. Luz – Trevas;
  9. Bem – Mal;
  10. Quadrado – Oblongo.

Para Carlos Brasílio Conte [11] a Díada:

Vem ser o primeiro dos números pitagóricos, pois eles não consideravam o “um” como número. É também o primeiro número par e o mais passivo de todos os números, por ser dual e polarizado; simboliza por esse motivo, as Energias Opostas do Universo Manifestado; Bem e Mal, Luz e Trevas, Negativo e Positivo, etc. É também chamado de Espelho, Reflexo, Binário, Desdobramento, Oposição; Pitágoras referia-se a ele como o número da Audácia, por ser o primeiro a ter a coragem de separar-se do Divino Um. Diferentemente da Mónada, é um número que, somado ou multiplicado por si mesmo, permanece com o mesmo resultado, 4.

O número 3

Para os Rosacruzes, o número 3 é a tríada. É aceito universalmente para representar os fenómenos resultantes do encontro de 1 e 2. No mundo imaterial, representa a trindade que constitui a Divindade; no mundo material representa os três reinos da natureza: mineral, vegetal e animal; os três corpos: físicos; psíquico e anímico; as três partes do corpo: cabeça; tronco e ventre.

O número três representa a lei de causa, efeito e resultado; acção, reacção e efeito.

Neste sentido, o Teúrgico Martinez de Pasqually estuda que:

O Ternário marca o carácter da matéria. Representa as três substâncias fundamentais da Alquimia: o enxofre, o sal e o mercúrio, emanadas da imaginação e intenção do Criador. As diferentes combinações destas substâncias produziriam os elementos que constituem os corpos celestes e terrestres assim como os organismos vivos. Embora o infinito possa ser abundância dos “princípios espirituais” e as suas manifestações, em última análise, eles sempre nos trazem de volta as três substâncias primárias. O número Ternário ensina-nos a conhecer a Unidade Ternária das essências espirituais, usadas pelo Criador, para a criação das diferentes formas materiais (visíveis) aparentes.

Joaquim Gervásio de Figueiredo [12] remete-nos para o Ternário na Maçonaria:

Termo bastante usado na Maçonaria para designar um número formado de três unidades ou um todo constituído de três princípios ou elementos, como por exemplo, o Espírito que é a Tríada Superior manifestando-se através da Vontade-Amor- Inteligência. O Três é um número muito associado à simbologia e hermenêutica maçónicas: as Três Luzes da Loja, os três graus simbólicos, os três pontos, o triângulo, etc. Sobre a Trindade, podemos declarar que ela constitui os três aspectos do todo, tal como energia, resistência e movimento; energia, matéria e vida; começo, meio e fim; tese, antítese e síntese. O número três exprime a seriação e organização, sem as quais não é possível nenhuma manifestação ou actividade. As religiões são acordes em reconhecer estes três aspectos no Criador do mundo: Vontade, Ideia e Acção, correspondentes ao Pai, Filho e Espírito Santo do Cristianismo; ao Brahma, Vishnu e Shiva do Hinduísmo; ao Osíris, Ísis e Horus, ou Ammon, Maat e Khons entre os egípcios.

No Três, na Trindade, nós vemos a perfeita Lei do Triângulo. Esta Lei consiste no princípio de que tudo vem do Dois. Consiste em saber que o produto do Um mais o Um é distinto, muitas vezes independente, e constitui outra individualidade. Tudo no mundo, a princípio, é Dual. Mas do Dual nasce o Terceiro. Assim como a noite e o dia tem a aurora, e o dia e a noite tem o crepúsculo, assim como a Terra e a Lua tem o Sol, assim como o Sol e a Chuva tem a nublagem, assim como o homem e a mulher tem o filho, o Homem tem Deus e o Espírito Santo, como o sagrado manifestado. É que a diferença, o desequilíbrio, o antagonismo que existem no número Dois, terminam quando, ao se juntar, surge o Terceiro. A instabilidade da divisão ou da diferença, aniquilada pelo acréscimo de uma Terceira condição, faz com que simbolicamente, o número Três converta em junção e individualidade.

Assim, se expressa a Lei do Triângulo, em que, para se chegar à determinada solução, precisamos de uma causa e de algo que rebata à causa para daí, tirarmos o julgamento, o efeito, o resultado. E é impressionante admitirmos isto, porque é justamente conflitando duas condições que poderemos encontrar a harmonia entre elas. Cabe-nos aqui a maestria para podermos realizar este feito, harmonizar opostos resultando numa terceira condição equilibrada. Não é a toa que a condição de equilíbrio é sempre tida como “no meio”. É o Terceiro Caminho, a Terceira Via.

Carlos Brasílio Conte [13] ensina-nos sobre a Tríade que:

Da união da Unidade com a Dualidade (um + dois) nasce o número perfeito, também chamado de Terceiro Princípio, Ternário, Trindade de Todas as Religiões, Deus Manifestado. É o número da Forma, pois nada existe sem ter três dimensões (comprimento, largura e altura) e também o número do Amor, por representar o mistério do produto da união do Activo e do Passivo, que gera o Filho. Representa também a Divindade no seu tríplice aspecto: Força, Beleza e Sabedoria.

O número 4

Para os Rosacruzes, o número 4 é a tétrada. É a Estabilidade. É o número universal da perfeição material. É o tetragrama, ou nome de quatro letras, dos poderes da Divindade. O quatro transmite a solidez, cujas fundações nas coisas artificiais são geralmente quadradas.

Para Paracelsus, depois da Calcinação, Sublimação e Solução, o quarto passo da Transmutação Alquímica tratava da Putrefacção, que apaga a antiga natureza e a tudo transmuta numa nova natureza, dando novos frutos. As coisas vivas morrem, as coisas mortas decaem e ganham nova vida.

Para Rizzardo da Camino [14]:

O Quatro simboliza a Cruz. Como todos os demais Números, o Quatro presta-se ao jogo filosófico das combinações, como por exemplo, a soma da Trindade como a Unidade. Contudo, na Maçonaria, representa o primeiro dos Graus Inefáveis, os ladrilhos que compõem o Tapete de Mosaicos e o número que compõe o nome de Deus, pelas suas quatro letras, bem como o hebraico IHVH.

Para Joaquim Gervásio de Figueiredo [15]:

O Quarternário é designativo da personalidade mortal humana, formada pela união de quatro princípios perecíveis: o corpo físico, a vitalidade, o corpo astral ou emocional, e o corpo mental concreto; tem de se subordinar à Tríada imortal: vontade espiritual, amor intuicional e inteligência superior. No antigo Egipto (e na actual Co-Maçonaria) o candidato, ao penetrar no Templo Maçónico, pisava no quadrado colocado na entrada, e ao fazê-lo, subentendia-se que estava transpondo o quaternário inferior, ou dominando a personalidade humana, a fim de desenvolver a Tríada Superior, a alma imortal. Esta ideia vem explicada no Primeiro Discurso, em que se ensina que um Maçom vem para a Loja “a fim de aprender a governar e dominar as suas paixões, para fazer ulteriores progressos na Maçonaria”.

Nos estudos ocultos, o quatro remete-nos ao Tetragrama, ou seja, à composição e constituição do Nome Sagrado de Deus, em hebraico, YHVH. Este Nome é formado pelo Yod, Hê e Vav, em que cada letra tem infindáveis interpretações, aspecções, simbolismos e significações. Este Nome carrega uma imensurável explicação da existência e criação do mundo, carrega Adão e Eva…

Ainda, o quatro representa:

  • O azoth – águia – ar – João;
  • O mercúrio – homem – água – Lucas;
  • O sal – touro – terra – Marcos;
  • O enxofre – leão – fogo – Matheus.

Por fim, podemos dizer que o Quatro representa a perfeição material, posto que superou a confusão do 2 para com o 1, e reintegrou o 3 aos dois primeiros. Logo, como uma mesa e uma cadeira encontram a sua perfeita estabilidade com quatro pernas, o número Quatro encontra conforto na paridade da sua quantidade, na força do seu equilíbrio ante a superação dos embates antagónicos de outrora.

O Homem terá a sua sublime estabilidade, quando conseguir equilibrar a sua vida emocional, espiritual, profissional e física.

Por fim, cita-se o que Carlos Brasílio Conte [16] lecciona sobre os ensinamentos de Pitágoras acerca da Tétrada:

Pitágoras referia-se a este número como “O Maior Milagre” pelas suas correspondências com a Tetráktys. Quatro é o número da Natureza, pois quatro são os elementos que a compõem: Terra, Água, Ar e Fogo; quatro são os pontos que a controlam: Norte; Sul, Leste e Oeste; quatro são as estações nas quais ela se manifesta: Verão, Outono, Inverno e Primavera. Estas características conferem ao nosso Planeta um “ritmo quaternário”, cuja representação é o Quadrado e a Cruz.

Conclusão

Os Números constituem Princípios e Leis que permeiam a existência da Divindade, os pensamentos que nos sobressaltam a todo o instante, a composição da matéria, a existência da Alma.

É tarefa difícil estudar os Números, pois nunca fomos incitados a reflectir matematicamente, as concepções espirituais e metafísicas sobre os Eles.

Foi-nos ensinado que a Matemática, a Física e a Química não tem absolutamente qualquer ligação com “especulações” sobre Deus, sobre a origem oculta da Natureza ou as Leis pelas quais Deus rege a sua Criação.

Cabe anos conformarmos diante da nossa pequenez ante a vastidão da Grande Obra e a grande inteligência viva dos Números.

André Fossá

Notas

[1] Dicionário de Maçonaria. Pg. 300.

[2] Dicionário Maçónico. Pg. 288.

[3] O Universo dos Números. Pg. 26.

[4] Pitágoras – Ciência e Magia na Antiga Grécia

[5] Dogma e Ritual de Alta Magia. Pg. 67.

[6] Pitágoras – Ciência e Magia na Antiga Grécia. Pg. 138.

[7] Aritmosophia de Martinez de Pasqually

[8] Dogma e Ritual de Alta Magia. Pg. 79.

[9] Dicionário Maçónico. Pg. 146.

[10] Simbolismos dos Números na Maçonaria. Pg. 13.

[11] Pitágoras – Ciência e Magia na Antiga Grécia. Pg. 139.

[12] Dicionário de Maçonaria Pg. 503 e 513.

[13] Pitágoras – Ciência e Magia na Antiga Grécia. Pg. 139.

[14] Dicionário Maçónico. Pg. 328.

[15] Dicionário de Maçonaria. Pg. 370.

[16] Pitágoras – Ciência e Magia na Antiga Grécia. Pg. 139.

Bibliografia

  • AMORC, Ordem Rosacruz. Glossário de Termos e Conceitos da Tradição Rosacruz. 2012. 1a Edição. Curitiba: Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa da Antiga e Mística Ordo Rosae Crucis;
  • AMORC, Ordem Rosacruz. Monografias Rosacruzes. 2013. Curitiba: Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa da Antiga e Mística Ordo Rosae Crucis;
  • TOM, Tradicional Ordem Martinista. Manuscritos do Martinista. 2013. Curitiba: Grande Heptada Martinista da Jurisdição de Língua Portuguesa da Tradicional Ordem Martinista;
  • Bíblia de Jerusalém. Génesis, Cap. 1, Vers. 1 e 2. 2012. 8a Impressão. São Paulo: Paulus;
  • Bíblia de Jerusalém. Evangelho Segundo São João. Prólogo. Cap. 1, Vers. 1 ao 5. 2012. 8a impressão. São Paulo: Paulus.
  • DA CAMINO, Rizzardo. Dicionário Maçónico. 2010. 3a Edição. São Paulo: Ed. Madras;
  • FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria. 2011. 17a Edição. São Paulo: Pensamento-Cultrix;
  • LÉVI, Eliphas. Dogmae Ritual de Alta Magia. 2001. 5a Edição. São Paulo: Madras;
  • CASTRO, Boanerges B. Simbolismo dos Números na Maçonaria. 2002. 3a Edição. São Paulo: Livraria Maçónica Paulo Fuchs;
  • AMORC, Ordem Rosacruz. O Universo dos Números. 2005. 6a Edição. Curitiba: Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa da Antiga e Mística Ordo Rosae Crucis;
  • CONTE, Carlos Brasílio. Pitágoras – Ciência e Magia na Antiga Grécia. 2010. 4a Edição. São Paulo: Madras.

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