O perigo das múltiplas filiações a Ordens, uma Reflexão Pessoal

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confusão, múltiplas filiações a Ordens

Ao longo da minha jornada espiritual, sempre busquei novos caminhos, novas ordens e visões de mundo que pudessem iluminar o meu entendimento e potencializar o meu crescimento pessoal. Em 2002, ao ler um texto numa revista da AMORC, deparei-me com a preocupação sobre o perigo das múltiplas filiações a ordens. Naquela época, a minha reacção foi de indignação, pois acreditava que quanto mais cercado de conhecimento e experiências, melhor seria o meu desenvolvimento. Contudo, com o amadurecimento, percebo que havia uma fina sabedoria nas palavras escritas, a qual, à luz de minhas vivências, consigo compreender plenamente.

Já estive activamente vinculado a até 14 ordens diferentes ao mesmo tempo, um verdadeiro labirinto de rituais, compromissos e exigências que, ao invés de me enriquecer, muitas vezes me confundia. Cada uma destas ordens apresentava o seu próprio conjunto de normas e padrões que deveriam ser seguidos, e a pressão para se encaixar em moldes pré-estabelecidos era intensa. Com o passar do tempo, aprendi que esse excesso de compromisso pode ser, de facto, um obstáculo para o verdadeiro crescimento. A vida, como sempre, cobra prioridades.

Nos últimos anos, escolhi dedicar o meu tempo e energia à Maçonaria. Esta decisão não foi casual, mas sim um reconhecimento de que a Maçonaria me oferece liberdade, em contraste com as exigências muitas vezes rígidas de outras ordens. Aqui, encontrei um espaço onde posso ser eu mesmo, sem a necessidade de seguir padrões de comportamento que muitas vezes se assemelham a seitas. Na verdade, a Maçonaria é uma escola que me permite aprender e crescer, ao mesmo tempo em que me incentiva a ser um cidadão melhor, um amigo, um marido e um pai presente.

Reconheço que a verdadeira iniciação de um homem ocorre em sua vida quotidiana, dentro do núcleo familiar. A maneira como agimos em casa reflecte profundamente o nosso carácter e a nossa evolução espiritual. Sendo assim, mesmo que cometamos erros, sempre é possível corrigir o rumo, desde que tenhamos consciência e a vontade de mudar. É fundamental lembrar que não nos devemos perder em busca de seres imaginários ou explicar os nossos problemas com convenções metafísicas que não levam a lugar algum. Muitas vezes, os nossos problemas são fruto de sermos apenas idiotas que fazem escolhas erradas, não de forças externas.

A liberdade é um bem precioso, e quem te priva dela, não pode te oferecer a verdadeira iniciação. O que realmente importa não é estar activamente vinculado a um número incontável de ordens, mas viver plenamente. A vida é efémera e, no grandioso cosmos, o ser humano é apenas uma pequena fracção, um ponto insignificante diante da imensidão do universo, que se mostra indiferente à nossa vontade.

Portanto, escolher uma ordem na qual você se identifica, se doar e viver na plenitude do ser é o caminho mais sábio. O resto é secundário, pois não temos certeza do que vem após o nosso último suspiro. Se é que há algo depois disso.

Há algo a ser valorizado, que é a vida e a experiência que podemos construir no dia a dia, dentro e fora das ordens. E, soberanamente, a Maçonaria ensinou-me isso: que o crescimento acontece na convivência, no amor ao próximo e na busca por um propósito que transcende rituais e obrigações.

Enalteço, assim, a Maçonaria, não apenas como uma ordem, mas como uma verdadeira comunidade de aprendizagem e liberdade. E que todos nós possamos encontrar o nosso lugar neste vasto universo, vivenciando a vida com autenticidade e sabedoria.

Agradeço profundamente a todos os caminhos que percorri ao longo da minha jornada, onde aprendi valiosas lições que moldaram quem sou hoje, mesmo que, neste momento da minha vida, não tenham mais espaço. Cada experiência teve o seu valor e o seu tempo, e sou grato por cada uma delas. Contudo, posso afirmar que um homem realmente sente a plenitude do amor quando pega o seu primeiro filho no colo. A partir desse momento mágico, somos presenteados com uma experiência que nenhum ritual, por mais elaborado que seja, nos pode proporcionar. É nesse instante que compreendemos o verdadeiro significado da vida, do amor e do legado que deixamos, transformando as nossas vivências em algo eternamente significativo.

Diego Franzen, jornalista e escritor
Bento Gonçalves, 1 de Agosto de 2024

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3 thoughts on “O perigo das múltiplas filiações a Ordens, uma Reflexão Pessoal”

  1. Belo texto! Boa reflexão e maravilhosa conclusão. Penso que qualidade e profundidade vale mais que quantidade. Gosto da diversidade para o aprendizado e amplitude do conhecimento, porém adoto o foco e a unidade como doutrina. Parabéns pelo artigo.

  2. Maravilhosa reflexão, julgo que das melhores que tenha lido até agora.
    Uma reflexão “simples”, curta, mas que nos obriga a bastante a refletir o nosso modo de vida e a nossa maneira de ser no dia-a-dia.

    Obrigado ao autor desta reflexão.

  3. Diego Almeida Scherer

    O problema não está em ser membro de várias Ordens iniciáticas ao mesmo tempo, mas na proposta e doutrina que elas apresentam. A incompatibilidade entre rosacrucianismo, o martinismo e a maçonaria, no que tange ao destino da Alma, por exemplo, são divergentes. A primeira tem uma percepção reencarnacionista, a segunda neo-testamentaria e a última, com várias ao tema, onde a Ordem tem sua orientação (negada e deturpada pelos não teístas) como instituição, cada rito tem sua posição (teísta e as estranhas pós a organização especulativa no século XVIII, como o deismo, o agnosticismo e até o ateísmo) e cada membro tem sua crença (aos moldes dos ritos).
    Essa indefinição “aparente” foi influenciada pelo Relativismo, que se enraizou na maçonaria de forma que tudo é contestado. Como encontrar uma verdade assim, se as Verdades não são aceitas?
    Para ser estudante de várias Ordens e Fraternidades ao mesmo tempo há de ser uma elevada compreensão em separar cada ensinamento exatamente dentro dos limites do que cada organização se propõe. Além disso, por exemplo, o significado de um mesmo símbolo pode (e normalmente tem!) ser antagônico e diferente de uma Ordem para a outra.
    Outro fator para se pesar ao desejar estudar vários modelos iniciáticos é a necessidade de práticas particulares como orações e rituais diários e constantes, como no rosacrucianismo e no martinismo, por exemplo.
    Nem todos estão dispostos a esse nível de comprometimento. Assim como as Ordens seculares e monásticas, que não são para qualquer pessoa…

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