No momento em que a R∴ L∴ Voltaire decide a qual dos II∴ Mestres Maçons deve ser confiado o testemunho da direcção dos seus trabalhos para o Veneralato de 6023-24, afigura-se-me oportuno partilhar uma outra perspectiva sobre as funções dos Oficiais em Loja – aqui apresentada na forma de observação astronómica.
Assim, nos Trabalhos Maçónicos, como no firmamento, há um espaço próprio destinado ao Sol, à Terra e à Lua. E há naturalmente muitos outros corpos celestes, estacionários ou em trânsito orbital, sendo todos eles importantes porque cumprem funções específicas a nível táctico e estratégico. A título de exemplo destacam-se Mercúrio, Vénus e Plutão: os dois primeiros pela grande visibilidade resultante da elevada frequência das suas revoluções, e pela maior proximidade do Sol; e o último pela singularidade da sua remota localização que, periodicamente, se dá também a ver.
Mas o Sol, a Terra e a Lua assumem funções naturalmente centrais nos Trabalhos pela dinâmica que o GADU lhes conferiu e que a simbólica Maçónica tomou para nortear a instrução dos Obreiros e para reger a organização das actividades realizadas em Loja.
O Sol, fonte de luz incandescente, corresponde ao fogo do Venerável Mestre no encaminhamento iniciático dos Irmãos para um estado superior de consciência humana. Dele provém também a autoridade executiva, emanada do M∴R∴G∴M∴, que determina a ordem e o progresso da Loja.
A Terra, reservatório de água que é fonte de vida, corresponde ao 1º Vigilante. A sua movimentação permite equilibrar, por translação, a intensa força gravitacional a que está sujeita; e por rotação, consegue receber o feixe de luz solar, numa calote, e beneficiar de algum brilho das outras estrelas, na calote contrária. É um centro de competências e um polo de universalidade.
A Lua, satélite natural da Terra, corresponde ao 2º Vigilante. Gravita na órbita terrestre e condiciona o movimento dos mares e os ciclos da gestação. É parteira e educadora.
A função do Sol é, portanto, de poder e de controlo. A vida na Terra é o elemento primordial e a espiritualidade é o valor maior. A função da Lua é de mera influência. Mas a sustentabilidade da Loja assenta num perfeito alinhamento de Sol – Terra – Lua.
Ocasionalmente a dinâmica dos corpos celestes proporciona fenómenos de ocultação temporária de um astro por interposição de outro; são os chamados eclipses. Esses fenómenos devem ser relevados porque não suscitam qualquer obscurecimento moral ou intelectual das fontes luminosas principais e cuja ordem de prevalência é inequívoca.
Não obstante, uma das perspectivas terrestres mais apreciadas é a ocorrência simultânea do Sol e da Lua Cheia no céu diurno. Porque o Sol e a Lua não são verdadeiros opostos. Astronomicamente, e para bem da Maçonaria
J. Mendonça de Carvalho, M∴ M∴ – R∴ L∴ Voltaire n° 159 (GLLP / GLRP)
20 de Junho de 2023

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Opinião pessoal interessante que expressa exatamente isso: Uma opinião (e eventualmente um desejo) pessoal.
Uma boa síntese do registo factual do que foi a iniciação de Voltaire, complementado por uma análise exaustiva mas discricionária do que deverá ser uma iniciação maçónica em determinado rito.
Todo texto falha, na minha opinião, em dois pontos:
O primeiro é a análise e deconstrução do próprio conceito de iniciação em si.
É factual, e muito bem documentado por Lalande [1], que a iniciação de Voltaire não seguiu o ritual, nem sequer as normas em prática na altura (contextualizar que o contexto em 1778 será radicalmente diferente da realidade de 2023). Contudo, assumir que a única forma de se atingir uma iniciação é por execução de uma formula única e estanque é: 1) Reduzir todo o percurso inciático a um par de momentos; 2) Sugerir que só existe uma forma de atingir o objectivo da iniciação.
A maçonaria ensina exactamente o contrário: Que não existem formulas pré concebidas no percurso, antes pelo contrário. Que os caminhos são múltiplos e que o próprio branco e preto não são absolutos. Mais ainda, é reduzir outras praticas iniciáticas à ineficácia e mesmo a uma fraude, o que sabemos que não é verdade. Muito antes da prática da maçonaria moderna, inúmeras ordens e cultos praticavam a iniciação, com mecanismos diversos e distintos.
Como corolário do significado da definição de iniciação, cada homem, mediante as suas circunstâncias, terá forçosamente um campo de desenvolvimento individual e essa mesma iniciação pode ser conseguida de formas distintas e em alturas distintas. Com disse Ortega Y Gasset ““o homem é o homem e a sua circunstância”.
Voltaire terá tido a sua circunstância muito especial.
O segundo ponto, é o simplesmente ignorar a riqueza da prancha apresentada, em todas as suas camadas de complexidade e mensagens ocultas, focando apenas no obreiro e na sua RL de prática maçónica.
A maçonaria especulativa não é uma ciência exacta. Se fosse, chamar-se-ia “matemática” ou “física”. Nunca maçonaria especulativa
Achar que Voltaire era um profano só porque não esteve numa C:.R:. é absolutamente redutor para a maçonaria e para a essência humana.
[1] INITIATION DE VOLTAIRE DANS L A LOGE DES NEUF SOEURS – Lalande, Paris, 1874
Bonjour,
juste pour info : au sujet du profane Voltaire.
François-Marie Arouet fut-il jamais initié à la franc-maçonnerie ?
Non. Voltaire n’a manifesté, à aucun moment, le désir préalable d’entrer en franc-maçonnerie.
Son secrétaire, le frère Wagnière, certifie dans ses Mémoires que, pour Voltaire, son initiation « avait été une chose très-indifférente ». Aucun désir, donc, et ce manque absolu de motivation est attesté à de très nombreuses reprises. Le désir est la première attitude à déceler chez un « cherchant », qui se muera en « persévérant » puis en « souffrant ». Voltaire ricane de tout cela. Voltaire fut embrigadé pour des raisons familiales (le Frère de Villette, membre des Neuf Sœurs, est le mari de sa nièce Belle et Bonne), et sociales (on lui révèle à l’avance, en sa qualité de profane illustre, les noms de ceux qu’il rencontrera aux Neuf Sœurs, ce qui est, une fois de plus, contraire à toutes les règles). De surcroît, quarante frères étaient venus le solliciter à visage découvert. Sa vanité, mille fois encouragée et stimulée lors de son séjour parisien, lui fera accepter tout ce que l’on veut de lui. Pourvu, par-dessus tout, que le roi le reçoive à Versailles ! C’est cela qu’attendait le « gentilhomme ordinaire ».
Non. Voltaire est introduit en loge les yeux non bandés.
Ce pourrait donc être au grade de Maître, mais dans ce cas, le candidat « avance » obligatoirement et rituellement à reculons, ce qui n’est pas le cas en l’occurrence. Et tout le reste de « l’initiation » prouve à suffisance que nous nous trouvons au cœur de la parodie abrégée d’une réception au grade d’apprenti. Les yeux bandés figurent symboliquement les ténèbres morales et intellectuelles dans lesquelles tâtonne le candidat. Cette notion est rituellement essentielle lors d’une réception au premier grade. Elle en est même le point culminant qui, en priorité, donne du sens à cette cérémonie. Sans elle, il n’y a pas de passage des ténèbres vers la Lumière, ce qui est la vocation et la signification même d’une loge de Saint Jean. On peut comprendre que Lalande en ait dispensé le vieillard Voltaire, mais cette amputation enlève toute dimension initiatique à ce cérémonial.
Non. Voltaire n’est aucunement isolé dans une chambre de préparation.
Voltaire est accueilli comme il le fut peu auparavant à l’Académie française, par des membres distingués et empressés. Il n’y eut ni isolement, ni méditation profonde lors de la rédaction d’un testament, ni mise à l’écart du monde, circonstances méditatives et impératives de presque toutes les initiations du monde. Mais singulièrement en franc-maçonnerie.
Non. Voltaire ne rédige aucun « testament philosophique » ni aucun document similaire alors en usage dans toutes les loges européennes.
On pourrait arguer du fait que le candidat avait 84 ans, et qu’il eût été indécent de l’obliger à cette morbide « formalité ». Mais ce n’est pas une formalité ! C’est un geste symbolique essentiel à accomplir par un homme intelligent, cultivé et critique qui prétend commencer une nouvelle vie et renoncer à l’ancienne. Ce rite est universel en franc-maçonnerie. Mais lui en a-t-on seulement parlé ? Et de quoi lui ont parlé ses quarante visiteurs ? Et par-dessus tout, de quoi ne lui ont-ils pas parlé ? Peut-on prétendre avoir initié un homme qui n’est pas mort à la vie profane ?
Non. Voltaire est interrogé en public à travers deux rideaux séparant l’espace de la loge en deux parties.
L’interrogatoire qui se déroule pour Voltaire devant un rideau fermé tourne en sa faveur grâce à la conférence brillante qu’il improvise, et c’est l’auditoire qui est ébloui par l’éclat des réponses de Voltaire. Ce qui, en d’autres circonstances, est destiné à inciter un récipiendaire à rentrer humblement au fond de lui-même, est travesti ici en une exhibition tournant à son avantage. C’est le contraire absolu de l’humilité exigée en d’autres lieux, et à laquelle se sont soumis des rois, des princes comme les plus grands artistes et savants du monde. Le nouveau Vénérable élu d’une loge rectifiée est introduit en loge par les mots : « Quiconque s’élève sera abaissé ». Auxquels il répond : « Quiconque s’abaisse sera élevé ». Luc 14 :1-11
Non. Ces deux rideaux sont entr’ouverts et lui font alors apercevoir les personnalités placées à l’Orient.
C’est bien de cela qu’il s’agit en réalité. On en impose à Voltaire en exhibant les illustres personnalités composant les Neuf Sœurs, dont on lui avait de toute façon déjà révélé les noms avant sa réception, en violation de tous les usages, et dont Bachaumont [1] nous révèle qu’une quarantaine se sont présentés à son domicile peu auparavant. Il s’agit pour les Neuf Sœurs d’ajouter Voltaire et sa gloire au palmarès prestigieux déjà étalé à l’Orient. Le don de la Lumière ? Nous en sommes très loin. Un des assistants rimailleurs ne commettra-t-il pas un quatrain flagorneur assurant que ce sont au contraire les maçons qui reçoivent la Lumière de Voltaire ? Voici posé le début d’une légende qui connaîtra de beaux jours.
Non. Voltaire n’est pas introduit par l’Officier préposé à cet effet, mais s’appuie sur Benjamin Franklin et Court de Gébelin.
On substitue une fois encore un usage profane et une modalité mondaine à l’usage qui désigne à cet effet un officier (expert ou deuxième surveillant selon le rite) chargé de faire franchir les obstacles contrariant la marche du cherchant vers la Lumière d’Orient. Voltaire ensuite est conduit par le chevalier de Villars. Pourquoi ? Le tableau de la loge pour 1778 nous montre que cet ancien mousquetaire noir n’occupe aucune fonction aux Neuf Sœurs cette année-là. Il est ce que l’on nomme « un simple frère sur les colonnes ». Mais… il est, comme Voltaire, membre de l’Académie française ! Pour les Neuf Sœurs, cela compte ! Nous serions tenté d’écrire : c’est cela qui compte !
Non. Voltaire n’accomplit aucun voyage rituel et ne subit aucune épreuve physique.
L’usage du temps voulait que le candidat subisse les épreuves de l’eau et du feu, par allusion aux Ecritures qui mentionnent le baptême par l’eau de Saint Jean le Baptiste, et le baptême par le feu institué par le Christ. Plus tard, lorsque les rituels souffriront non pas du vide mais du trop plein, on ajoutera la terre et l’air, belle trouvaille qui permettra de réintégrer les quatre éléments de l’Antiquité, qui feront oublier l’allusion à l’Evangile. De plus, les « épreuves », destinées simplement à tester le courage et la détermination du candidat dans les anciens rituels, deviendront des « purifications » par les éléments, et fonctionneront un peu comme le baptême, qui efface la tache originelle. Rien de cet usage impératif n’est retenu pour le déiste Voltaire ; tout ceci est escamoté. « Il est trop âgé », dit-on, lui qui apparaîtra l’après-midi même de cette journée à son balcon pour saluer la foule assemblée, et passera ensuite la soirée au spectacle.
Non. Voltaire se voit présenter le tablier peint dit d’Helvétius, qui ne peut être qu’un tablier de Maître, [2] tablier auquel on ajoute les bijoux de Maître d’Helvétius.
Aucun commentaire n’est ici nécessaire. C’est une pure mascarade mondaine et une hérésie rituelle et initiatique. Le tablier blanc et les gants blancs sont traditionnellement impératifs en ce moment. Ils sont chargés d’un sens symbolique puissant, dont la signification est dévoilée ultérieurement au néophyte, et leur substitution par un tablier de maître peint, qui semble en effet avoir été celui d’Helvétius, fait la démonstration de ce que toute cette cérémonie est purement académique, avec une coloration pseudo maçonnique. La remise de gants blancs pour le nouveau frère, et d’une paire de gants de femme destinée à celle qu’il estime le plus, apporte une preuve supplémentaire que c’est au grade d’apprenti que l’on prétend organiser la cérémonie, et aucunement au grade de maître, comme l’ont parfois soutenu plusieurs auteurs, même maçons, en se laissant égarer par l’incongruité du tablier et des bijoux d’Helvétius.
Non. Voltaire est enfin installé à l’Orient, ce qui est contraire à tous les usages qui placent un apprenti nouvellement reçu en tête de la colonne du Septentrion.
Le dernier initié d’une loge maçonnique est le plus humble de tous. Il devra se taire un an durant. Il est traditionnellement placé en tête de la colonne du Nord, là où la lumière est la plus faible, puisque le soleil n’y passe jamais. Mais aussi vers l’Est, là où commence à poindre imperceptiblement la lumière d’un jour nouveau. Lalande commet une fois encore une violation des usages maçonniques. Non pas que ceci constitue une simple erreur de protocole, mais une cérémonie défigurée à ce point perd tout son sens symbolique, ne signifie plus rien, et perd tout caractère initiatique au seul profit d’une célébration mondaine et académique.
La loge des Neuf Sœurs a pris une initiative fort critiquable et hautement répréhensible, alors qu’il lui était loisible de nommer simplement Voltaire membre d’honneur ; cela se faisait couramment aux XVIIIe et XIXe siècles avec des personnalités qu’une loge voulait honorer. Le futur roi Léopold 1er de Belgique, par exemple, fut « reçu à vue » en 1813 par l’amant de sa sœur qui en avait le privilège en sa qualité de Chevalier Rose Croix du Rite Français ; vingt sept ans durant, Léopold figura comme maître-maçon sur le tableau d’une loge suisse du Grand Orient de France [3], mais n’a jamais mis les pieds dans aucune loge au monde, n’a jamais passé de grade, et, après avoir brièvement tenté de s’en servir, n’a jamais parlé de maçonnerie que pour la critiquer avec acrimonie, car l’anticléricalisme militant de la maçonnerie belge dérangeait la politique unitariste du roi. Cette dernière s’appuyait, pour une très large part, sur l’Eglise catholique romaine. Mais outre sa qualité pseudo maçonnique, le roi possédait aussi celle de luthérien fidèle. Comprenne qui pourra les impénétrables contraintes et contradictions de la politique.
La loge des Neuf Sœurs a violé la tradition et les méthodes maçonniques. Le tout au profit d’un acte mondain et provocateur ; le Grand Orient de France le lui reprochera bientôt vigoureusement, et même la punira, parmi divers autres griefs qui démontrent le caractère vraiment atypique de cette loge qui, par l’excellence de certains de ses membres dûment sélectionnés, se croyait au-dessus des lois maçonniques, aussi relâchées que fussent ces dernières à cette époque.
Ce n’est pas Voltaire qui est devenu franc-maçon à la veille de sa mort.
C’est une certaine maçonnerie qui, en un certain territoire, en un certain temps, a cru bon de devenir voltairienne.
Jean van Win
[1] Célèbre chroniqueur parisien ; voir « Voltaire et la franc-maçonnerie, sous l’éclairage des rituels du temps » Jean van Win, éditions Télètes, Paris, 2012, et sur Le Bandeau.
[2] Les Apprentis et les Compagnons portent un tablier uniformément blanc, dont la blancheur immaculée est expliquée lors du grade de Maître Maçon.
[3] « Zur Hoffnung », ou « L’Espérance », à l’orient de Bern.