Instado a responder a pergunta-título deste texto, a primeira ideia que me ocorreu foi pesquisar os trabalhos específicos sobre o tema já produzidos no Brasil … inexistem (e tampouco referências nos textos sobre Maçonaria em geral), à excepção do discurso de posse da Cadeira 33 da Academia Maçónica de Letras do Distrito Federal, em 2014, pelo Irmão Kennyo Ismail, cujo texto foi compartilhado através do periódico No Esquadro [1].
Recorri, então, a segunda estratégia que me parecia ser a mais indicada: consultar os Estatutos das Academias afins hoje actuantes no Brasil; com efeito, por exemplo, o Art. 2º do seu Estatuto [2] estabelece que:
São finalidades da Academia Maçónica de Letras do Rio Grande do Sul – AMLERS:
- difundir e preservar a cultura e as letras maçónicas;
- actuar e cooperar com outras instituições, no escopo da evolução, da paz e união de todos os maçons e a sociedade em geral;
- reivindicar e produzir literatura e cultura maçónica e literatura e cultura em geral;
- promover, organizar, executar, cooperar em pesquisas, conferências, palestras, debates, recitais, encontros, congressos, seminários, cursos, concursos literários, painéis e outras manifestações culturais, envolvendo a cultura e literatura maçónica e a cultura e a literatura em geral;
- amparar e defender os associados nos seus direitos.
No que tange à Academia Maçónica de Artes, Ciências e Letras do Estado do Rio de Janeiro – AMACLERJ, consta que tem por finalidade [3]:
[…] promover e estimular o cultivo e divulgação das artes, das ciências e das letras, e o estudo da filosofia maçónica através de peças de arquitectura maçónicas, bem como a conservação e o desenvolvimento da Cultura Nacional em geral e as Artes, Ciências e Letras do Estado do Rio de Janeiro, em especial do GOB-RJ;
enquanto que a Academia Maçónica de Letras de Rondónia – AMLRO [4] objectiva:
[…] fomentar a produção literária, valorizar a cultura rondoniense no âmbito maçónico e difundir o cultivo das letras, obras e trabalhos culturais no seio da população maçónica e na sociedade. Visa ainda estabelecer contactos de cooperação com as demais instituições congéneres no País, no propósito de incentivar e promover a aproximação literário-cultural e a paz entre os homens; almeja planear, organizar, executar e cooperar em pesquisas, trabalhos culturais, eventos literários, debates, seminários, cursos, simpósios, encontros, palestras, recitais nas esferas cultural e literária maçónica, bem ainda prestar o apoio, amparo e defesa dos direitos e anseios dos membros associados à instituição.
Detém, ademais, o fim de promover iniciativas, propostas, reivindicações, ideias, participação e projectos junto ao Poder Público, sempre voltados às aspirações culturais e literárias de interesse da sociedade no Estado.
Finalmente, mas sem pretensão de exaurir o tema, o Art. 30 do Estatuto da Academia Goiana Maçónica de Letras [5] estabelece os seguintes objectivos:
- congregar intelectuais membros de Lojas Maçónicas, sem discriminação da potência maçónica a que estejam jurisdicionadas, desde que estejam comprovadamente em situação de regularidade, eles e elas, e, de consequência, em pleno gozo dos seus direitos maçónicos;
- promover palestras, conferências, reuniões e simpósios literários e actividades afins, principalmente de cunho maçónico;
- associar-se e manter intercâmbio com entidades congéneres do país ou do exterior;
- editar, por conta própria ou de terceiros, sem fins lucrativos, obras literárias maçónicas, monografias e um jornal ou revista, cuja periodicidade será objecto de resolução da Directoria;
- divulgar, em jornais e periódicos, as actividades e programas da Academia.
Como é dado a perceber, em linhas gerais, à excepção da AMACLERJ, os objectivos são semelhantes, podendo-se dizer praticamente os mesmos, e se de um lado abrangentes, do outro auto-explicativos enquanto desdobramentos da missão institucional mais ampla dessas organizações; assim, no curso dessa estratégia quase nada há para propriamente esclarecer. Em essência, respeitadas as autonomias das demais unidades do sistema (Lojas, Potências, Entidades Paramaçónicas, Fundações de Apoio, Federações e Confederações), as Academias podem ser vistas como unidades de coordenação e fomento às tantas actividades elencadas nos seus respectivos estatutos. Adicionalmente, dado o perfil dos integrantes, notadamente dos seus membros efectivos (“confrades imortais”) elas próprias actuam como efectivas usinas geradoras de ideias e também como produtoras de conhecimento genuíno. De outro lado, a realização das actividades de fomento sugere intenso relacionamento com as organizações que embora externas ao sistema maçónico mantêm com este interesses directos em razão das suas actividades, a exemplo dos editores gráficos, promotores de eventos, fornecedores de materiais específicos, entre outras mais directamente ligadas a projectos institucionais específicos (educação, cultura, etc.), com as quais podem ser firmadas parcerias, algumas certamente com o envolvimento do sector público.
O destaque à AMACLERJ deve-se à menção “[…] a conservação e o desenvolvimento da Cultura Nacional em geral e as Artes, Ciências e Letras do Estado do Rio de Janeiro […]”; assim, se a análise dos poucos casos considerados já permitiu considerar demasiado abrangente o escopo de actuação das Academias, o caso fluminense possui amplitude praticamente ilimitada e, por conseguinte, não só maior dificuldade operacional (por exemplo, na selecção de projectos e iniciativas merecedoras de apoio), mas sobretudo por ocasião do reconhecimento e mérito das realizações dos eventuais homenageados posto que estatutariamente nada impede que “qualquer um” possa vir a ser homenageado ainda que nenhum legado tenha deixado à Maçonaria propriamente dita. Assim, no limite, em cenário hipotético a AMACLERJ pode vir a ser instrumento para concessões de prebendas com interesses estranhos à Ordem.
Se as Academias instituídas no Brasil estão ou não cumprindo o desiderato estabelecido nos respectivos estatutos é tarefa a ser averiguada pois, conforme já mencionado, não foram encontrados textos de estudos e pesquisas referentes à matéria no universo editorial maçónico brasileiro. Entre tantas, uma das questões que de imediato chamou a atenção quando da realização deste breve levantamento foi a constatação de que enquanto há Academias que restringem a admissão ao universo de Mestres vinculados à determinada Potência (como é o caso da AMACLERJ); outras abrem as portas para até duas Potências (a exemplo da de Rondónia que admite membros da Grande Loja e do Oriente Independente); e, há mesmo aquelas que das quais se pode dizer que o de acesso é universal (caso da Academia Goiana e também da AMLERS). Assim, de pronto cabe a pergunta: abrir a participação aos integrantes de outra Potência que não a dos fundadores teria, em algum grau, impacto na concretização dos objectivos da Academia, quer na perspectiva quantitativa mas sobretudo qualitativa? Ainda: de algum modo essa realidade restringiria a sua inserção social? Nessa linha, em tese e frente à realidade nacional, nada impede que uma unidade federada possua 3 (três) Academias Maçónicas “do Estado”, cada uma considerando representar a intelectualidade maçónica regional; algo no mínimo curioso inclusive para os próprios nativos.
Ademais, este brevíssimo levantamento revelou que as Academias estão em diferentes estágios de liberação do acesso externo às suas informações (elemento fulcral à própria natureza dessas organizações), sem que se possa afirmar que isto se deve apenas ao facto de serem novas, de ainda não terem tido tempo para a devida organização. Assim, em algumas sequer ao Estatuto se conseguiu o acesso, enquanto que em outras as páginas web estão incompletas a ponto de não constituírem mesmo informações de utilidade. Em síntese: se os Estatutos, ainda que abrangentes, são claros quanto ao que se espera de uma Academia Maçónica de Letras, elas mesmas (no que concerne ao seu funcionamento – estruturas, processos de gestão, projectos, inserção social, etc.), assim como as entregas à Fraternidade e à sociedade em geral, ainda constituem um amplo espaço à realização de estudos e pesquisas para a acreditação pois, como diz o popular: “o papel aceita tudo”.
Se inexistem trabalhos que possam iluminar o tema e tampouco a análise dos estatutos permite delimitar o foco, a fim de enriquecer a resposta à pergunta-título voltemos então os olhos para a denominação mesma da organização ora objecto de estudo: Academia Maçónica de Letras, Ciências, Artes e Ofício. Para tal convém seguir as recomendações de Descartes (1596-1650), em especial o seu segundo preceito de lógica, qual seja: “[…] o de dividir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias, a fim de melhor resolvê-las.” (s.d, p. 27) Nestes termos cabe analisar cada um dos elementos:
- Academia: no contexto, eu creio que a primeira ideia que vem à mente é a célebre escola fundada por Platão (séc. IV a.C.) em Atenas, “uma instituição permanente voltada para a pesquisa original e concebida como conjugação de esforços de um grupo que vê no conhecimento algo vivo e dinâmico e não um corpo de doutrinas a serem simplesmente resguardadas e transmitidas” (PESSANHA, 1979, p. XII). Mas para que se tenha uma ideia ainda mais acurada dos trabalhos na Academia, é interessante fazer o contraponto com outro estabelecimento de educação superior que, à época, era dirigido por Isócrates que:
seguindo a linha dos sofistas – pretendia educar o aspirante à vida pública, dotando-o de recursos retóricos. Nada de ciência abstracta: bastava munir o educando de “pontos de vista”, que ele deveria saber defender de forma persuasiva […] Mas é outra a perspectiva da Academia […] investigação sistemática dos fundamentos da conduta humana – como Sócrates ensinara […] os fundamentos da acção requeriam uma explicação global da realidade na qual aquela conduta se desenrola […] A educação deveria, em última instância, basear-se numa episteme (ciência) e ultrapassar o plano instável da opinião (doxa). (op.cit., ibidem)
Estas breves citações parecem suficientes para chamar a atenção sobre as directrizes que devem orientar a condução da Academia (e, por extensão, a postura dos seus membros) também em decorrência das expectativas quanto ao impacto da sua acção no perímetro de relevância – regional, nacional ou mesmo internacional.
(A título de curiosidade: a escola era constituída por uma biblioteca, uma residência e um jardim, jardim este que teria pertencido a Academus, herói ateniense da guerra de Tróia (séc. 12 a.C.). Na Antiguidade era hábito que os Mestres, ao invés de ficarem nas salas de aula, fossem seguidos pelos discípulos em longas caminhadas, não só nos jardins, mas também pelas ruas, praças, espaços públicos em geral (feiras, templos, etc.) durante as quais eram passados os ensinamentos [6] na maioria das vezes motivados por circunstâncias fortuitas e prosaicas surgidas durante mesmo a caminhada, o que revela o carácter pragmático que acompanhava o estudo dos fundamentos últimos. O grupo – mestre e discípulos (alguns Iniciados nas “escolas de mistérios”) -, assemelhado a uma troupe, ficou conhecido como “os peripatéticos”, figuras celebrizadas nos ambientes dos diálogos de Platão, mas também reproduzidos em tantos filmes sobre a vida e obra de Sócrates [7] (Mestre de Platão), Aristóteles (discípulo de Platão), Sidarta Gautama (o Buda) e outros. Também neste aspecto os Antigos deixaram valiosas lições nas quais muitos Modernos souberam sorver o proveitoso sumo, como bem ilustra Gros (2010) em obra cujo título é sugestivo: Caminhar, uma filosofia.)
- Maçónica: expressão que dispensa comentários adicionais à excepção da necessidade de estar atento às idiossincrasias locais, acerca das quais, inclusive, já se chamou a atenção neste texto.
- Letras: no contexto, “letras” remete à primeira das Artes para uma Educação Liberal – a Gramática – no sentido à libertação “o quanto possível, dos condicionamentos ambientais e psíquicos, a fim de que pudesse exercer o julgamento racional e agir em sociedade de forma óptima.” (FERNANDES, COSTA e CARBONERA, 2020, p. 119). E são estes mesmos autores que trazem tesouros que se encaixam tal como peças que compõem um rico mosaico quando reflectimos sobre a Maçonaria, os seus métodos e objectivos:
Poderá soar extremamente estranho para muitos que Platão, na República, insira o estudo da Gramática e da literatura no estudo da Música. Mas, pensando bem, não é tão estranho: a palavra “música” vem das Musas, e quer dizer originalmente algo como “aquilo que pertence às musas”. Para os gregos, as Musas presidem não apenas àquilo que conhecemos hoje como música, isto é, a ordenação de sons melodiosos entre si; também há musas que presidem a poesia, tanto lírica como épica: de facto, a líder das musas era a que presidia a poesia épica, Calíope.
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Complementarmente, a gramática lida em primeiro lugar com os sons da língua, sons esses que estão subordinados ao tempo e ao ritmo, assim como a música. Não admirará a ninguém, portanto, que o vocabulário técnico da gramática e da literatura se aproxime deveras do vocabulário da música. Há frase, período, ritmo, estilo, tom, etc., em ambas as artes […] A música e a língua seriam, nessa visão, duas formas de linguagem. (op. cit., p. 123)
Contudo, para além da função comunicativa que requer ainda o zelo com os seus desdobramentos (sintaxe, semântica e etimologia), e tão importante quanto, é a função formativa do pensamento (da cognição) exercida pela gramática:
[…] a literatura é início, meio e fim do estudo da gramática. E principalmente início. Ora, sempre se entendeu que as fábulas, lendas e mitos devem estar na origem da educação. Se possível, desde a mais tenra idade […] (op. cit., p. 126)
[se ao adulto] falta esse fundo imaginativo dado pelas fábulas e contos de fada, é indicado que os leia, ainda que lhe soem bobos e infantis. Se soam não deveriam soar. Como muito bem mostra o escritor G. K. Chesterton em Ortodoxia, arbitrariedade dos fenómenos “mágicos” nos contos de fada serve muito bem de paralelo à “arbitrariedade” dos fenómenos que consideramos naturais […] sem essa percepção [mágica] imediata do mundo, a possibilidade de cair no cientificismo mais chão é praticamente certa. É a “magia” que transforma a abóbora em carruagem, assim como é a magia que faz o pé de abóbora produzir abóboras. E a magia subentende um mago. Admitirmos isso é uma condição para nos instalarmos na realidade. (op. cit., p. 127)
Por oportuno, cabe lembrar que a gramática (as letras) é parte de um subconjunto das disciplinas que constituem as Artes Liberais – o trivium – tendo a sua importância também destacada por Durkheim (apud PEINADO, 2011, p. 4)
O trivium tinha por objectivo ensinar a própria mente, isto é, as leis às quais obedece ao pensar e expressar o seu pensamento, e, reciprocamente, as regras às quais deve sujeitar-se para pensar e expressar-se correctamente. Tal é, com efeito, a meta da gramática, da retórica e da dialéctica. Este triplo ensino é, pois, totalmente formal. Manipula unicamente as formas gerais do raciocínio, abstracção feita da sua aplicação às coisas, ou com o que é ainda mais formal do que o pensamento, ou seja, a linguagem.
Portanto, se conclui que a importância das “letras” não se circunscreve enquanto instrumento da e para a comunicação, mas antes e acima de tudo, como ordenadora do pensamento em geral, da razão crítica, da imaginação (que inclui a magia e a transcendência), e, da criatividade. Tendo em vista o público leitor especifico não parece ser necessário estabelecer os nexos que relacionam a gramática e as letras à formação do Maçom muito antes de ele se reconhecer enquanto tal.
- Ciências: K. Ismail [8], entre outros (COOPER, 2009), reiteradamente tem manifestado, não sem pesar, que parte expressiva da literatura maçónica é auto-referente, carente de visão crítica, presa a factos pretéritos e segue a Escola Romântica, isto é, não mantém compromisso com as evidências, com dados e factos documentados, antes atendo-se às lendas, aos mitos, aos episódios e narrativas heróicas que sobretudo enaltecem e rejubilam a Ordem e, por extensão, os seus integrantes. Assim, durante muito tempo os pensadores livres e buscadores da verdade não encontraram ao longo do seu processo de formação os conhecimentos lastreados em fontes comprovadas, razão pela qual são incontáveis as narrativas que pretendem revelar a legítima e verdadeira história da Maçonaria – origem, fundadores, princípios, segredos, objectivos, etc. Já próximo ao final do séc. XIX surge em Londres a primeira Loja de Estudos e Pesquisas, a Quatuor Coronati, que inaugura, então, a chamada Escola Autêntica com a proposta de só admitir como verdadeiros os factos e episódios documentados (testemunhados, com registros escritos, etc.) ou validados por algum dos procedimentos reconhecidos, portanto em nítida contraposição à Escola Romântica. À guisa de síntese, a Escola Autêntica adoptará como condição sine qua non à construção (descoberta) da verdade, a utilização do método científico [9] em todos os estudos e pesquisas no âmbito da Ordem. Assim, a doxa (Escola Romântica) cede lugar a episteme (Escola Autêntica). Com as excepções que apenas confirmam a regra, o mercado editorial brasileiro ainda se encontra maioritariamente dominado pelos autores românticos; todavia, beneficiadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação (plataformas web, sites, blogs, redes sociais, etc.) aos poucos cresce o número de publicações de toda natureza (documentários em vídeos com recursos de realidade ampliada, simulação, podcasts, etc.), inclusive de periódicos indexados e ao abrigo das Universidades, todas seguidoras da Escola Autêntica, isto é, com a exigência de que os relatos de estudos e pesquisas submetidos tenham explicitado os procedimentos metodológicos básicos bem como indicadas as fontes para, finalmente, avaliar e seleccionar os trabalhos a partir da revisão double blind peer review, eliminando, assim, a possibilidade de favorecimento por relações de compadrio. Há aí, pois, um extraordinário espaço para a actuação das Academias como efectivos faróis – luzes na escuridão que hoje impede a geração qualificada de conhecimento.
- Artes & Ofícios: a nítida separação entre as ciências e as artes, assim como as artes dos ofícios, nem sempre é clara:
Com efeito, as ciências e as artes são hábitos intelectuais que se distinguem porque aquelas têm um fim em si – saber, superar a ignorância -, enquanto estas não buscam saber senão para fazer algo: são as disciplinas do facere. É verdade que, enquanto e na medida em que também fazem algo, muitas ciências podem dizer-se em sentido lato artes: assim, por exemplo, quando a Matemática faz equações. De modo análogo, as artes podem dizer-se ciência enquanto estudam o seu sujeito em universal: assim, por exemplo, quando a música estuda a harmonia. Isso porém não se identifica com a distinção entre ciências e artes em sentido próprio […] É que as mesmas artes (em sentido próprio) se dividem: há as servis, e há-as liberais, e tanto aquelas como estas se subdividem em espécies que, por sua vez, serão géneros de outras espécies. Sem nos determos aqui em tais divisões, diga-se porém que as artes servis são as mais propriamente do facere e se dizem tais porque se valem do corpo ou de algo corpóreo em ordem ao corpo ou a algo corpóreo: e, com efeito, o corpo é servo da alma. As artes liberais, todavia, dizem-se tais porque se ordenam à alma enquanto livre do corpo. (NOUGUÉ, 2018, p. 491-2) DESTAQUES NO ORIGINAL
Esta longa citação teve por objectivo deixar à evidência o quanto são imbricadas as noções de ciências, artes & ofícios, sendo pois indissociáveis, assim como o quanto estas encontram-se directamente relacionadas com o múnus do Maçom e, por extensão, de uma Academia.
Encaminhando pois, as considerações finais:
- inexistem, no universo editorial maçónico brasileiro, trabalhos referentes às Academias de Letras e temas correlatos (ciências, artes, cultura, etc.) que possam orientar acerca do papel que delas se espera, sendo, pois, um campo de estudos e pesquisas ainda a ser explorado;
- a análise de uma pequena amostra dos Estatutos das Academias em actuação trouxe à evidência que escopo das intenções de realizações (missão e objectivos) é demasiado amplo a ponto de não incorrer em erro quem afirma que abrange praticamente todas as actividades humanas – havendo é claro, variações entre os casos apreciados;
- circunstância corroborada quando o foco da análise foi dirigido aos elementos que descrevem e identificam, pela denominação, a própria Academia objecto de estudo.
Destarte, baseando-se sobretudo nas reflexões a partir da decomposição dos termos, creio que o que se espera de uma Academia é que venha a ser um farol, um guia orientador e responsável, uma efectiva referência (intelectual e moral), mas também um agente de motivação aos pensadores e produtores mais jovens, os que iniciam na actividade, ajudando-os a superar as dificuldades do empreendimento intelectual tão claramente evidenciadas por Adler e Doren (2010), Sowel (2011), Payot (2018) e Sertillanges (2019) entre outros.
Finalmente, o caso também admite a definição de expectativas pela via apofática: tudo o que não se espera de uma Academia é que seja um mero ponto de chegada, um prémio (ainda que por merecimento) já no fim da carreira, uma entidade passiva, omissa ou reactiva, espaço recreativo para homenagear biografias distantes dos principais assuntos pertinentes à Ordem em geral e à Academia em particular.
Ivan A. Pinheiro
| Mestre Maçom. O autor não expressa o ponto de vista das Lojas, Obediências, Potências e Instituições das quais participa, mas tão somente exerce a sua liberdade de pensamento e expressão. E-mail: [email protected]. |
Notas
[1] Disponível em: https://www.noesquadro.com.br/noticias/posse-na-academia-maconica-de-letras-df/. Acesso em: 18.02.21.
[2] Disponível em: https://amlers.blogspot.com/p/institucional.html. Acesso em: 18.02.21.
[3] Disponível em: https://www.slideshare.net/AMACLERJ/estatuto-social-2010-registrado. Acesso em: 18.02.21.
[4] Disponível em: https://www.glomaron.org.br/academia-maconica-de-letras. Acesso em: 18.02.21.
[5] Disponível em: http://agml.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Estatudo-regimento-da-academia-Ma%C3%A7%C3%B4nica-1.pdf. Acesso em: 18.02.21.
[6] A pedagogia básica era a maiêutica (por alguns também referida como anamnese) socrática, porém Platão foi além das aporias com as quais o seu Mestre habitualmente dava por concluído os diálogos, trazendo ao final dos seus Diálogos quando não uma solução ou resposta ao problema em tela, evidências dos caminhos a seguir no sentido a. A maiêutica socrática tem como significado “dar à luz”, “dar parto”, “parir” o conhecimento. É um método ou técnica que pressupõe que “a verdade está latente em todo ser humano, podendo aflorar aos poucos na medida em que se responde a uma série de perguntas simples, quase ingénuas, porém perspicazes”. Disponível em: https://www.google.com/search?q=mai%C3%AAutica&oq=mai%C3%AAutica&aqs=chrome..69i57j0l9.4499j0j15&sourceid=chrome&ie=UTF-8. Acesso: 21.02.21.
[7] Entre tantos, vide, por exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=5TaaT30L8yg. Acesso em 20.02.21.
[8] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IgipWU70Pbg&feature=youtu.be. Acesso em: 19.02.21.
[9] Construto demasiado amplo que, para o devido esclarecimento considerando as abordagens, procedimentos, técnicas, etc., eu teria que me afastar sobremodo do objectivo principal, razão pela qual deixo apenas o registro
Bibliografia citada
- ADLER, Mortimer J., DOREN, Charles V. Como ler livros – o guia clássico para a leitura inteligente. São Paulo: É Realizações, 2010.
- COOPER, Robert L. D. Revelando o código da franco-maçonaria: a verdade sobre a Chave de Salomão e a irmandade. São Paulo: Madras, 2009.
- DESCARTES, René. Discurso do Método. São Paulo: Escala, s.d. Colecção: Grandes Obras do Pensamento Universal, Vol. 10.
- FERNANDES, Clístenes H.; COSTA, Eduardo R.; CARBONERA, Mário L. Trivium e Quadrivium – a doutrina das 7 Artes Liberais. Porto Alegre: Inst. Hugo de São Vítor, 2020. Colecção de Artes Liberais, Vol. I.
- GROS, Frédéric. Caminhar, uma filosofia. São Paulo: É Realizações, 2010.
- NOUGUÉ, Carlos. Das Artes Liberais: a necessária revisão. In: NOUGUÉ, Carlos. Da arte do belo. Formosa, GO: Santo Tomás, 2018. Apêndice, p. 487-493.
- PAYOT, Jules. A educação da vontade. Campinas, SP: CEDET, 2018.
- PEINADO, Maria R. S. de S. O ensino do Trivium e do Quadrivium, a linguagem e a história na proposta de educação agostiniana. Anais. X Jornada de Estudos Antigos e Medievais, Universidade Estadual de Maringá, 21 a 23 de Setembro de 2011. Acesso em: 19.02.21.
- PESSANHA, José A. M. Introdução à Vida e Obra de Platão. In: Platão. 2ª Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. Colecção: Os Pensadores.
- SERTILLANGES, A.-D. A vida intelectual. Campinas, SP: CEDET, 2019.
- SOWELL, Thomas. Os intelectuais e a sociedade. São Paulo: É Realizações, 2011.

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