“ Os soldados hospitalares, que renunciaram à sua própria vontade, e aos demais, que servem por tempo assinalado, lhes mandamos com todo encarecimento, que, sem Licença do Mestre, se não atrevam a sair do lugar, salvo para ir ao Santo Sepulcro, e aos Santos Lugares, que se visitam dentro dos muros da cidade.” Regra 35 – Regula pauperum Commilitonum Templi in Sancta Civitae. ( Regra dos Cavaleiros Templários).
Templários – Os Cavaleiros de Deus – Edward B. Burman
Os cruzados
No ano de 1099 o exército cruzado conquistou Jerusalém e um reino cristão foi fundado na Terra Santa. A Europa estava mergulhada na miséria e na ignorância. Aventureiros de todos os cantos da cristandade passaram a ver no Oriente Médio uma oportunidade para uma vida melhor. Uma multidão de peregrinos cristãos desembarca na Palestina, provocando nos habitantes locais, muçulmanos na sua esmagadora maioria, uma onde de protesto e violência sem paralelo na história. Os doentes e os feridos se amontoavam nas cidades.
Para resolver a questão da protecção aos peregrinos que buscavam a terra santa para viver, ou mesmo somente para visitar os lugares santos, foi fundada a Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, mais conhecida como Ordem dos Templários. E para tratar dos doentes e dos feridos, foi fundada a Ordem dos Cavaleiros do Hospital de São João, conhecida popularmente como Ordem dos Hospitalários.
Enquanto os cavaleiros templários estabeleceram a sua sede nas ruínas do antigo Templo, os hospitalários montaram a sua num mosteiro pertencente à Ordem dos Beneditinos, uma vez que era etsa ordem que prestava, já desde o início das Cruzadas, serviços médicos à multidão de cristãos que se deslocaram para a Terra Santa por causa deste movimento. Este mosteiro, conhecido como Hospital cruzado, foi fundado pelo monge beneditino, João, O Esmoleiro, filho do rei de Rodes, que tinha chegado junto com os primeiros cruzados a Jerusalém. Este hospital recebeu o nome de Hospital dos Cavaleiros de São João Batista, e pode-se dizer que foi o primeiro hospital filantrópico do mundo.
Com a fundação da Ordem dos Hospitalários, a direcção desse hospital passou para estes irmãos. À semelhança da Ordem dos Templários, os irmãos hospitalários também cresceram e se tornaram muito poderosos, tanto política quanto economicamente. Mas diferentemente dos seus congéneres templários, os cavaleiros do Hospital de São João se mantiveram fiéis aos seus propósitos e nunca se desviaram da sua missão institucional, que era a construção e a manutenção de hospitais e proporcionar asilo e abrigo à pobreza necessitada.
Com o fim das Cruzadas, os Irmãos do Hospital de São João deixaram a Terra Santa e se estabeleceram em Rodes. A partir desta ilha espalharam-se por todo o mundo cristão, fundando asilos e hospitais, tornando-se a principal referência em serviços médicos e filantropia em toda a Europa Ocidental. Em função disto jamais foram incomodados pela Igreja, que, ao contrário dos cavaleiros templários, sofreu feroz perseguição em princípios do século XIV, que ocasionou, inclusive, a extinção da Ordem em 1314 e à morte na fogueira dos seus principais lideres, inclusive o seu Grão-Mestre, Jacques de Molay.
Os Templários e Hospitalários em Portugal
Muitos cavaleiros templários, para escapar da perseguição que lhes movia a Igreja, filiaram-se nos hospitalários. O recém criado reino de Portugal foi um dos territórios onde esses proscritos cavaleiros se homiziaram. Em terras portuguesas, o jovem rei Afonso Henriques deu-lhes asilo e protecção. Em troca, os Cavaleiros do Hospital de São João prestaram-lhe uma preciosa ajuda na campanha de reconquista que o primeiro monarca português empreendeu contra os mouros, recuperando para a cristandade esse importante território que hoje abriga a pátria portuguesa.
Afonso Henriques era Cavaleiro Templário, como ele próprio afirma, em carta que assinou em 1129, doando à Ordem do Templo, entre outros bens, uma possessão no condado de Soure, próximo à cidade de Guimarães. A presença templária no território português é um episódio bastante marcante na história daquele país e a sua participação na expulsão dos mouros foi deveras relevante, como registram os historiadores portugueses.
Com a extinção da sua ordem, os sobreviventes templários refugiaram-se em reinos onde os soberanos concordaram em lhes dar abrigo e protecção. Estes países foram justamente aqueles que estavam em guerra com os muçulmanos – caso de Espanha, Portugal, e Escócia – principalmente, esta última em razão da guerra pela independência, que aquele país travava contra os ingleses. Em Portugal, os cavaleiros Templários e Hospitalários foram reunidos numa única Ordem, fundada por Afonso Henriques, denominada Ordem dos Cavaleiros de Cristo, da mesma forma que na Escócia eles receberam o nome de Ordem dos Cavaleiros de Santo André.
Bastante conhecida é a participação dos cavaleiros templários e hospitalários na formação do reino de Portugal. Sabe-se, inclusive, que boa parte das riquezas dos templários serviu para o financiamento das grandes navegações iniciadas no século XVI, e que fez de Portugal a maior potência marítima da época. E também os conhecimentos de navegação trazidos pelos irmãos templários e hospitalários foram de extrema utilidade para os portugueses, fazendo com que o pequeno reino lusitano cumprisse um papel tão importante no descobrimento e colonização do novo mundo.
A grande maioria dos navegadores portugueses, (Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Diogo Cão, entre outros), pertenciam à Ordem dos Cavaleiros de Cristo, sucessora dos Templários e Hospitalários em Portugal. As próprias naus portuguesas singravam os mares sobre a protecção da cruz templária (que era também o símbolo da Ordem dos Hospitalários).
Quanto à Ordem dos Hospitalários propriamente dita, em face da conquista daquela ilha pelos turcos otomanos, em 1530, ela deixou a sua sede em Rodes e estabeleceu-se na ilha de Malta, mudando o seu nome para Ordem dos Cavaleiros de Malta, com o qual sobrevive ainda hoje.
Em 1798 a ilha de Malta foi capturada pelos soldados de Napoleão. Os Cavaleiros de Malta foram praticamente absorvidos pelos maçons franceses. Quando Napoleão foi derrotado e os ingleses ocuparam a ilha, a Ordem foi dissolvida e a maioria dos seus membros encarcerados. Os que conseguiram escapar fugiram para a Itália onde refundaram a Ordem de Malta e estabeleceram a sua nova sede em 1834.
Hoje a Ordem dos Cavaleiros de Malta, sucessora dos Irmãos Hospitalários, está estabelecida em Roma e o prédio onde ela está sediada tem status de estado livre, semelhante ao Vaticano.
Os Irmãos Hospitalários continuam até hoje cumprindo a finalidade pela qual a Ordem foi fundada: cuidar dos doentes e oferecer asilo aos necessitados. Comandam a Cruz Vermelha e diversos hospitais por todo o mundo, principalmente Santas Casas de Misericórdia. A sua principal actuação está centrada em Portugal, França e Itália, onde uma grande parte dos hospitais filantrópicos está sob sua direcção.
A Ordem dos Cavaleiros de S. João e as Santas Casas de Misericórdia
Foram os cavaleiros hospitalários que fundaram as primeiras Santas Casas de Misericórdia que se tem notícia. Evidentemente não com esse nome, mas com o mesmo propósito que norteia essas entidades até os dias de hoje: oferecer abrigo aos pobres e cuidados médicos à população carente em geral.
Foi, aliás, com este propósito que João, o Esmoler, fundou o Hospital de Jerusalém, na época da Primeira Cruzada, e deu origem à Ordem dos Cavaleiros de São João do Hospital, hoje conhecida como Ordem dos Cavaleiros de Malta.
Muitas das actuais Santas Casas de Misericórdia, especialmente em Portugal, tiveram a sua origem em hospitais fundados pelos cavaleiros templários e hospitalários. Entre elas podemos citar as Santas Casas de Braga, Évora, Santa Maria da Vitória na Batalha e Proença Velha, entre tantas outras que ainda hoje servem à população de Portugal.
Foi o Rei D. Manuel I, o Venturoso, que também pertencia à Ordem dos Cavaleiros de Cristo, que mudou o nome dos antigos hospitais filantrópicos para Santas Casas de Misericórdia. No seu governo muitas Misericórdias foram fundadas, inclusive nos territórios ultramarinos, para onde elas foram levadas pelas mãos, principalmente dos jesuítas e beneditinos.
No Brasil, a primeira Misericórdia foi fundada em 1534, na então vila de Santos, por Tomé de Souza. Logo em seguida, em 1560, foi fundada a Santa Casa de São Paulo. Durante o período colonial, as Misericórdias, sempre ligadas à Igreja, eram os únicos hospitais existentes nas povoações brasileiras.
Hoje elas respondem por cerca de 60 º dos serviços médicos e hospitalares prestados pelo estado português e no Brasil este percentual está próximo de 42 º, segundo a Confederação Brasileira das Santas Casas de Misericórdia.
A Maçonaria e as Santas Casas de Misericórdia
É inegável a responsabilidade da Igreja Católica na fundação e manutenção das Santas Casas de Misericórdia. Em praticamente todas elas iremos encontrar a mão eclesiástica a dirigir esse trabalho.
Mas desde a sua origem, a Maçonaria tem exercido um importante papel nesta instituição, como bem mostram os registros históricos, apontando sempre a presença dos maçons operativos, seja na construção dos prédios onde os hospitais eram instalados, seja na própria gestão destas entidades.
Era a estes irmãos que o Cavaleiro André Michel de Ransay se referia no seu famoso discurso de 26 de Dezembro de 1736. Disse ele que
“os nossos antepassados, os Cruzados, reunidos de todas as partes da Cristandade na Terra Santa quiseram reunir assim, numa só Confraria, os indivíduos de todas as nações (….). Certo tempo depois, (a) Ordem se uniu aos Cavaleiros de São João de Jerusalém. Desde então as nossas Lojas trouxeram todas o nome de Lojas de São João. Esta união foi feita a exemplo dos israelitas, quando construíram o Segundo Templo. Enquanto manejavam a trolha e a argamassa com uma mão, traziam na outra a espada e o escudo.(….) [1]
Eis aí, portanto, a razão das Lojas maçónicas, até hoje, serem conhecidas como Lojas de São João. Vem destes irmãos cavaleiros, não só a tradição arquitectónica, propriamente dita, aplicada especialmente na construção de asilos, hospitais, mosteiros e outras obras públicas, mas principalmente a actuação filantrópica que se observa na Ordem maçónica. Tanto que Lojas de hoje ainda se mantém a tradição de nomear um irmão “hospitaleiro” para recolher as contribuições dos irmãos para o “hospital” [2].
Assim, a história dos hospitais filantrópicos está intimamente ligado as origens e às tradições da Maçonaria. Podemos dizer, sem nenhum constrangimento, que foi o braço filantrópico e piedoso dos irmãos cavaleiros que deram origem a esse importante equipamento de saúde, que ainda hoje responde por uma boa parte dos serviços médicos e assistenciais que servem à população carente do mundo ocidental.
Destarte, embora as Santas Casas de Misericórdia sejam, inegavelmente, uma concepção da Igreja Católica, delas não se pode isolar a valiosa contribuição maçónica. Principalmente nos dias de hoje, há uma grande participação da Ordem na gestão dessas entidades. Na grande maioria das cidades brasileiras são maçons os dirigentes das Misericórdias. Este é um trabalho que engrandece a Maçonaria e enche os maçons de todo o mundo de justo orgulho.
Notas
[1] Jean Palou – Maçonaria Simbólica e Iniciática- Ed. Pensamento, 1968
[2] Hospital, na Maçonaria, refere-se às obras filantrópicas praticadas pela Loja.
Bibliografia
- Burman, Edwuard – Templários, os Cavaleiros de Deus- Ed Nova Era-1998
- Gomes, Saul Antonio – Livro do Compromisso da Confraria e Hospital de Santa Maria da Vitória – Ed. Ícone – Portugal- 2002
- Palou, Jean -A Maçonaria Simbólica e Iniciática – Ed. Pensamento 1964

- O Condado Portucalense, a Infância de D. Afonso Henriques e a Relação com os Templários
- A Maçonaria ainda é relevante?
- Revista Ciência & Maçonaria
- Uma breve história das Misericórdias
- Será a Maçonaria ainda relevante?


Infelizmente cheiinho de erros históricos.
Cabe lembrar que a Ordem dos Templários (extinta/adormecida) e a Ordem dos Hospitalários (em atividade desde a fundação), assim como a Ordem dos Cavaleiros do Santo Sepulcro (em atividade desde a fundação), são única e exclusivamente de fato e Direito, sob a égide da Santa Sé, ou seja, do Vaticano.
O uso de graus, nomenclaturas, símbolos, indumentárias e outros elementos que estejam sendo usados por outras e entidades, fraternidades ou ordens iniciáticas/esotéricas de em ser considerados como “perpetuadores” da memória daquelas Ordens católicas. Há também de ser lembrado que há Ordens “de São João”, derivadas da Ordem dos Hospitalários e que essas constam na página oficial do Vaticano.