Irmãos, não tenho necessidade de dizer a esta audiência que há pouco mais de uma década muitas novas Grandes Lojas foram criadas, e que as relações que há muito tempo existiam entre as Grandes Lojas mudaram de forma dramática.
A necessidade de estreitar laços e os perigos da ignorância, são claros.
E importante que, de tempos a tempos, nos relembremos dos princípios básicos em que assentam uma Grande Loja e, deste modo, decidirmos se queremos ou não o seu reconhecimento. E igualmente importante que nós, neste grupo, mantenhamos os outros informados do que se está a passar.
A Inglaterra codificou os seus Princípios Básicos para o Reconhecimento de Grandes Lojas em 1929, mas essa codificação não foi uma mera declaração, mas o conjunto de princípios que foram desenvolvidos e testados desde a imergência da novas Grandes Lojas no século XVIII. Creio que todas as Grandes Lojas aqui representadas partilham desses mesmos princípios básicos. Cada Grande Loja, no entanto, tem (ou deveria ter) a sua soberania, independência, organização própria com o direito de determinar as suas orientações e as suas condutas. A Inglaterra não procura impor os seus pontos de vista sobre a regularidade (ou sobre qualquer outro assunto) ou sobre outra qualquer Grande Loja, deixando-a, por si só, controlar os seus assuntos. Se uma Grande Loja escolhe adoptar outros princípios em vez destes (os quais, como corpo independente tem o direito de fazer) a consequência poderá ser que a UGLE a considere irregular.
Antes de me debruçar detalhadamente sobre o reconhecimento e regularidade, gostaria, talvez, de explicar a posição da Inglaterra sobre a soberania. Para nós, a soberania e a jurisdição exclusiva do território não são um mesmo conceito. Cremos que a soberania significa que uma Grande Loja tem o exclusivo e autoridade completa sobre os seus membros e Lojas. Essa soberania pode ser tal que a sua autoridade se estenda sobre uma área geográfica definida, mas tal não basta para que nós a consideremos uma Grande Loja possuidora de soberania. De facto, seria impossível para nós considerarmos a jurisdição territorial exclusiva como sendo uma parte da soberania quanto mais que desde há 250 anos nós temos felizmente partilhado, e continuado a partilhar, territórios por todo o mundo com as nossas Grandes Lojas irmãs da Irlanda e da Escócia. Na Austrália, Nova Zelândia, índia e África do Sul as três “Grandes Lojas Mães” dividem a jurisdição territorial não só entre si como também, e por acordo com as Grandes Lojas locais que foram estabelecidas logo após a Grande loja Mãe ter introduzido a Maçonaria nos seus territórios.
A expressão-chave aqui é “por acordo”. No nosso ponto de vista, se uma Grande Loja concorda com a divisão do seu território com uma ou mais Grandes Lojas isso não significa que diminua a soberania das Grandes lojas envolvidas. Bons exemplos como o da Colômbia onde, devido a problemas de acessibilidades e de comunicações, quatro Grandes Lojas dividem o território, ou como no Brasil onde há muito foi reconhecido o Grande Oriente e agora reconhecemos três Grandes Lojas Estaduais, que se reconhecem mutuamente e ao Grande Oriente.
Em comum com a Irlanda e a Escócia, a Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE) possuem mais de 700 lojas além-mar, principalmente como um resultado da propagação da Maçonaria através do antigo Império Britânico. Com o passar dos anos, Grandes Lojas indígenas foram regularmente formadas em territórios onde as lojas originalmente estiveram sob a influência jurisdicional de uma ou mais Grandes Lojas existentes nas Ilhas Britânicas, com muitas dessas lojas a transferirem a sua responsabilidade para essas Grandes Lojas locais. Algumas Lojas, no entanto, optaram por permanecer sob a jurisdição da Grande Loja Mãe que as formou, não obstante em muitos dos casos os seus membros sejam hoje cidadãos de um estado independente. Essa decisão é uma posição peculiar que cada Loja toma; a UGLE não pode e não forçará nenhuma das suas Lojas a transferir-se para a submissão a uma Grande Loja local (nem as impedirá de o fazerem) e continuará a administrar e apoiar essas Lojas sob a jurisdição da UGLE. O que a UGLE faz é suspender a autorização de novas Lojas para essa área, onde foi fundada uma Grande Loja relativamente ao território ocupado por um corpo maçónico soberano.
Devia, talvez, fazer aqui uma breve resenha para comentar os conceitos de território ocupado e não ocupado. Há um par de anos que temos vindo a ser acusados pela Grande Loja de França de consagrar Lojas em territórios ocupados (as acusações têm sido feitas, mas, estranhamente, nunca foi dado algum exemplo actual em que a sua reclamação se fundamentasse – quando nós, por outro lado os acusamos de invasão, podemos citar os casos de Espanha, da República Checa, e acreditem ou não, são muitos mais os exemplos). Temos tido uma longa política de contenção e de recusa em consagrar novas Lojas em territórios onde a Maçonaria já existe, independentemente dessa Maçonaria ser regular, reconhecida ou irregular. Mais, pode surpreender-vos que mesmo na situação em que a Maçonaria existente num determinado território seja irregular, ainda que a nós não nos agrade, ela é uma espécie de Maçonaria, e bem capaz de vir a ser regularizada e o seu território não pode ser considerado “aberto”. Nos últimos quinze anos foi-nos pedido para instalarmos Lojas inglesas em Espanha, na Sérvia, no Montenegro, na Ucrânia e na Roménia. Em cada caso, nós recusamo-nos a fazê-lo pelo facto de existirem autoridades maçónicas nesses países e poderíamos ser considerados culpados pela invasão desses territórios. Fora do nosso próprio espaço de jurisdição, as únicas áreas de além-mar nas quais nós criamos novas Lojas nos últimos 50 anos foram: no Mónaco (que era um território aberto e que só foram criadas com o acordo das autoridades civis); nas Ilhas Seychelles (que era um território aberto); Portugal (onde as nossas lojas existem com o assentimento da GLLP/GLRP; e na Macedónia (que não possuía qualquer tipo de actividade Maçónica, regular ou irregular, há mais de 80 anos).
A regularidade é um termo absoluto. Não pode ser condicional. Um corpo não pode ser quase ou aproximadamente regular – ou é regular ou não o é. Como afirmei numa comunicação em Paris, há quase dois anos, parece-se um pouco com uma mulher pouco grávida. Como alguns dos que aqui estão presentes sabem, quando nós nos aproximamos do reconhecimento através de uma nova ou de uma ressurgida Grande Loja, enviamos-lhe um questionário solicitando informação detalhada que garanta que todos os nossos oito Princípios Básicos são cumpridos. Se a Grande Loja peticionária não reúne todos os Princípios Básicos, o processo não pode continuar, embora o diálogo possa continuar na esperança de que a Grande Loja peticionária possa dar os passos necessários para que fique alinhada com os Princípios Básicos.
O Reconhecimento é um acto bilateral entre duas partes soberanas. Quando se alarga o reconhecimento a uma Grande Loja, declaramos que cremos que tal satisfaça os nossos Princípios Básicos, as práticas da Maçonaria regular e que não tenhamos dificuldade em que os nossos membros visitem as Lojas que se encontrem sob essa Grande loja e sejam bem vindos os seus membros como visitantes das nossas Lojas. O reconhecimento não é um direito, mas um privilégio. A regularidade não confere automaticamente o reconhecimento, há outros factores envolvidos:
- se a UGLE já reconheceu uma Grande Loja normalmente não reconhece uma segunda, no mesmo território, sem o consenso de ambas;
- num território ocupado por duas Grandes Lojas ( sem que ambas ainda não tenham sido reconhecidas) e em que ambas não se reconheçam, a UGLE espera que as diferenças entre elas possam ser reconciliáveis antes de reconhecer uma ou as duas (na esperança que ao fazê-lo de outro modo poderia resolver posteriormente os problemas locais, e tal é geralmente preferível para que haja em cada território uma Grande Loja que represente a maioria da Maçonaria regular ;
- a menos que uma Grande loja tenha sido instalada pela UGLE, ou que tenhamos sido envolvidos com o projecto, a UGLE normalmente não concederá o reconhecimento até a nova Grande Loja tenha uma prática regular durante algum tempo. Então, mesmo que a Grande Loja tenha sido formada regularmente (de uma das duas formas de acordo com os Princípios Básicos) a UGLE normalmente espera para ver se as suas práticas são tão regulares como a sua origem, antes de tomar a decisão sobre o seu reconhecimento.
A UGLE lamenta que algumas das recentes decisões em matéria de relações internacionais nem sempre tenham encontrado o apoio ou a compreensão das outras Grandes Lojas regulares com as quais partilharam relações harmoniosas e duradouras. Algumas vezes, também, alguns amigos mais próximos da UGLE optaram por reconhecer Grandes Lojas e a UGLE não entendeu fazê-lo ou não concordou com as suas razões para o fazer e não os seguiu. Deixando de parte as causas destas decisões (porque mentiram no passado e durante vários anos, poderemos, creio, concentrar nas realidades de hoje (e nas oportunidades para o futuro) é claro para mim que alguns de nós , aqui presentes hoje, interpretaram os princípios básicos para o reconhecimento de diferentes maneiras; alguns de nós necessitaram de mudar mais depressa do que outros e muitos de nós provavelmente falharam em algo que impediu que consultassem os nossos amigos antes de decidir quais as Grandes lojas a reconhecer, ou até, a deixar de reconhecer. Nós nem sempre somos capazes de darmos um passo a seguir a outro – mas penso que as lições do passado recente indicam a necessidade de existirem melhores comunicações entre as Grandes Lojas regulares, e por prudência – o conselho “olha antes de saltares” é certamente o que tenho em mente quando aconselho a minha Grande Loja em mudar alguma das suas relações internacionais.
Há frequentemente muitas vozes apelando para a criação de um corpo internacional que aja, como numa casa arrumada, em matéria de reconhecimento. Julgo que esse não é o caminho a seguir. O reconhecimento, não faço apologias para não me repetir, é um acordo bilateral entre duas potências soberanas que devem colocar as suas questões e tomar as suas decisões. A comunicação é a chave, e foi a raison d’etre para a formação desta informal reunião anual. Nós, como Grandes Secretários e Grandes Chanceleres deveríamos ser os canais para recolhermos e trocarmos informações e para aconselhar as nossas respectivas Grandes Lojas sobre as orientações que devem tomar ao nível das relações internacionais. Nós não temos, tão pouco, a necessidade de um Secretariado formal ou um sub-comité para tentar controlar esse processo.
Robert Morrow
Antigo Grande Secretário da Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE)

- Ninguém é Maçom, somos reconhecidos como tal
- Reconhecimento de Corpos Maçónicos
- Maçonaria Universal – Princípios de reconhecimento
- Decidir em Loja
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