Desde as primitivas iniciações, aquelas realizadas às margens dos rios sagrados Nilo, Iliso e Tibre, foram instituídas as festas solsticiais. E desde a Idade Média, a Maçonaria passou a celebrar duas grandes festas em homenagem aos seus santos padroeiros: no solstício de Verão, no hemisfério norte, a 24 de Junho, dedicada a São João Baptista, e outra, no solstício de Inverno, no hemisfério sul, a de 27 de Dezembro, dedicada a São João Evangelista.
É oportuno ressaltar que solstício é a época em que o sol passa pela maior declinação, boreal ou austral, e durante a qual cessa de se afastar do esquadro. Este fenómeno acontece nos dias 22 ou 23 de Junho, na maior declinação boreal, e nos dias 22 ou 23 de Dezembro, na maior declinação austral. São fases em que a Natureza patenteia transformações, contrastes notáveis e opostos, ensejando serem comemoradas por vários religiões, cultos e outras instituições, sob diversas formas e alegorias.
A Maçonaria, cujos princípios basilares baseiam-se nos fenómenos naturais, sobretudo nos solares, adoptou os dois santos como padroeiros, tendo em vista os altivos exemplos deixados por eles, cujos ensinamentos se coadunam com os próprios postulados filosóficos da Ordem.
A impoluta integridade moral, a firme reprovação do vício, a sublimidade da pregação em prol do arrependimento e da virtude, a intensa aversão às práticas de injustiças e a defesa do baptismo pela água como sinal de purificação são alguns motivos que justificaram a escolha do profeta João Baptista como patrono da Maçonaria.
Filho de pais justos, irrepreensíveis, correctos cumpridores da Lei de Moisés e ligados ao ambiente sacerdotal, pois o casal Zacarias e Isabel, além de exemplar fidelidade, era obediente às tradições judaicas, João Baptista herdou vasta sabedoria que lhe deu horizontes na execução das suas ideias tão positivas. O seu nascimento e missão foram anunciadas pelo Anjo Gabriel (Lc 1, 5-25). Apresentado pelos demais evangelistas como precursor do Messias, era seis meses mais velho que Jesus.
Pregando sempre à beira do rio Jordão, ele assim fazia descrevendo figuras apocalípticas, exortando a todos à penitência dos pecados através do baptismo pela água, vez que entendia ser esta uma das formas para purificar os fiéis e fazê-los renunciar ao mundo de injustiças.
A imersão na água era um rito de purificação e de mudança de estado de vida da pessoa e também um símbolo utilizado tanto na vida religiosa como na vida civil. Basicamente um processo de limpeza espiritual, significava deixar um passado e começar uma vida nova, diferente. Por este baptismo, João “criava” um sistema capaz de reunir pessoas santificadas, livres e de bons costumes, capazes de resistir às injustiças que tinham as suas raízes no poder, fosse este sagrado ou profano, religioso ou político.
Sabendo das actividades proféticas de João Baptista, Jesus saiu da sua cidade ao norte da Palestina e foi até o rio Jordão para receber o baptismo tão procurado pela multidão. O honrado carpinteiro de Nazaré entendia que receber tal mensagem de João significava reconhecê-lo como enviado de Deus. E a sua passagem pela água seria confissão pública de mudança de compromisso e evidente símbolo de libertação.
As mensagens de João centravam-se no julgamento e na prevenção ao castigo iminente quando ele denunciava a prática de injustiças que as autoridades, tanto romanas quando judaicas, realizavam contra o povo de Israel. As suas críticas, muitas vezes contundentes, não eram vistas pela multidão como um simples resultado de uma visão sócio-religiosa-política do momento, mas consideradas como sendo algo inspirado e querido pelo Mestre Jesus.
É importante observar que a integridade de João Baptista ia de encontro às tramas, concessões, infidelidades, corrupções e outras acções imorais praticadas pelo governo de Herodes Antipas. O profeta incomodava seriamente o libertino rei, que fez calar de vez a voz que gritava no deserto.
Por não concordar com a vida familiar do rei Herodes, em adultério com a sua cunhada Herodíades, João foi preso, encarcerado na floresta de Maqueronte e, mais tarde, degolado para satisfação da esposa adulterina do rei vingador. O martírio de João confirma a originalidade da sua profecia e atesta o seu compromisso com a justiça.
Jesus admirava imensamente o comportamento de João Baptista, a ponto de relacioná-lo com a nova era do Reino de Deus que chegava. E foi assim que o Mestre afirmou:
“Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Baptista, e, no entanto, o menor no Reino de Deus é o maior do que ele. Quem tem ouvidos, ouça!”
Anibal Silva, 33º – Membro da Academia Goiana Maçónica de Letras
Fonte
- Revista Astrea

- Presença de Deus nas lojas maçónicas
- Caminho para Venerável
- Porquê “Loja” maçónica???
- De uma Loja de S. João
- O futuro da Maçonaria em Inglaterra – um relatório

