Seita secreta fechada, enclausurada, ou Sociedade aberta, fraternal e social?

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Grande Oficial, maçonaria

Este artigo poderia ter sido intitulado “A Castração da Maçonaria, Parte 2”, mas optei por um novo título para que ambos os artigos se possam manter separadamente, não que não haja uma quantidade razoável de repetição entre os dois. De alguma forma, continuo a ver mais e mais material relacionado com este assunto, quase como se um mensageiro angélico estivesse a enfiar-me novas considerações debaixo do nariz.

O artigo original pode ser lido AQUI. Talvez sirva de base para uma continuação do mesmo tema. O título deste artigo não tem qualquer relação com a realidade; é antes o que é percebido pelo público em geral e não é efectivamente da autoria da fraternidade. Na sua essência, é um exagero que aponta para diferentes escolas de prática Maçónica.

Vários escritores e pensadores maçónicos mencionaram que a Maçonaria em todo o mundo tem prioridades e focos diferentes. Foi salientado que a Maçonaria europeia tem um foco filosófico, a norte-americana tem um foco social e a sul-americana tem um foco político ou, por outras palavras, têm um papel passivo, neutro e proactivo na sociedade. Todas as práticas são caritativas, embora os EUA levem a sua missão de assistência a uma posição extrema.

Será que a Maçonaria europeia, usando a Grã-Bretanha como modelo, ao longo do tempo após o Iluminismo ter sido aceite e codificado na lei e na prática, evoluiu fundindo-se com uma estrutura governamental que promovia uma religião oficial do Estado e que influenciou a Maçonaria a permanecer privada? Se a Maçonaria aqui é uma estrutura quase governamental/religiosa, que alguns dizem ter sido capturada por eles, poderá isso impedi-la de entrar em qualquer tipo de rebelião, reforma ou mudança social e moldá-la numa organização que se retira para dentro de si própria, espelhando a privacidade encontrada nos Gentlemen’s Clubs ingleses? Talvez a França, com a sua Revolução Francesa, seja a excepção, o que pode explicar a sua divisão em várias Grandes Lojas.

Será que a Maçonaria norte-americana, usando os EUA como modelo, se identificou de tal forma com o derrube do domínio britânico, com a reforma, a remodelação e a reestruturação de toda a sociedade, colocando sempre os líderes do Ofício à vista do público, sendo o resultado final um sistema de controlos e equilíbrios e de separação, separação da Igreja e do Estado, que se programou para se afastar de ser aliada da Igreja e do Estado (Washington recusou posições como Presidente vitalício e como Grão-Mestre nacional)? A Constituição dos Estados Unidos, os seus sistemas político, legal e judicial foram todos elaborados democraticamente, com forte influência maçónica, para serem uma nova forma de fazer as coisas que reverteu e corrigiu o odioso despotismo tirânico da sua herança europeia. E por tudo isto, poderemos dizer que a maçonaria norte-americana cumpriu a sua missão de liberdade, igualdade e fraternidade e passou a desenvolver apenas relações sociais?

E será que a Maçonaria da América do Sul, por nunca ter podido aliar-se a uma religião, uma vez que a maior parte da região era católica romana, nem ao governo, por ser na maior parte das vezes antidemocrático e tirânico, nunca se desenvolveu segundo o modelo europeu? Não é verdade que a Igreja Católica Romana se aliou muitas vezes ao governo, de modo que aquilo que a Maçonaria lutou noutros lugares para reformar – liberdade de religião, escolas públicas gratuitas em vez de escolas paroquiais da igreja, democracia e separação da igreja e do estado – nunca foi implementado na América do Sul até muito mais tarde? Então, não poderíamos dizer que a Maçonaria, um produto do Iluminismo, ainda estava a lutar para que o Iluminismo fosse implementado na sociedade da América do Sul? E isso, naturalmente, explicaria o facto de ser classificada como política.

Então, talvez pudéssemos dizer que a Maçonaria Europeia, que implementou o Iluminismo sem uma completa remodelação e reestruturação da Igreja e do Estado, conseguiu aliar-se ou ligar-se a estas instituições e, assim, a Maçonaria tornou-se passiva. E a maçonaria norte-americana, que se tornou a principal influência filosófica sobre o pensamento político e a liderança efectiva de uma remodelação completa da sociedade, revolucionando e escrevendo uma Constituição a partir do zero, cumpriu a sua missão e separou-se de acordo com as regras que elaborou, tornando-se assim neutra. E a maçonaria sul-americana, que não se misturou com os governantes da sociedade nem teve sucesso na implementação do Iluminismo, lutou e tornou-se pró-activa.

Mas tudo isto, como podem ver, são apenas perguntas. E o que eu espero é que outras pessoas mais conhecedoras da Ordem possam corrigir e aperfeiçoar estas reflexões. Há tantas excepções às hipóteses, França e Itália, Canadá e Brasil e outros. Talvez tenhamos estado a falar apenas da Maçonaria Britânica, Americana e Mexicana. Mas parece que o rumo que a sociedade toma tem uma correlação directa com o rumo que a Maçonaria toma.

Mas tem havido outras influências na Maçonaria para além da sociedade. Outra influência sobre a forma como ela vê o seu papel é a origem da Maçonaria. Quais são as raízes da Maçonaria e como é que as suas tradições a transformaram naquilo que vemos hoje? Até agora, duas escolas de pensamento sobre a origem da Maçonaria tiveram a maior proeminência pública. Uma escola dizia que a Maçonaria surgiu das corporações de pedreiros, enquanto uma segunda postulava que a Maçonaria começou com os Cavaleiros Templários. É claro que há quem deseje o melhor dos dois mundos possíveis, afirmando que a Maçonaria foi uma amálgama dos dois.

Mark E. Koltko-Rivera, escrevendo em Heredom, formula outra hipótese. Ele apoia Mackey ao afirmar que as raízes da Maçonaria estão no conhecimento esotérico transmitido de geração em geração sob muitas formas diferentes.

A afirmação de Mackey era:

O conhecimento da realidade de Deus e da imortalidade da alma foi transmitido através de uma linha de personagens bíblicos, de Adão a Salomão e mais além.
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Após o período bíblico, este conhecimento foi preservado, ao longo da história humana, nas civilizações da Antiguidade tardia e até ao Iluminismo europeu, através de sociedades de conhecimento esotérico e de iniciação, culminando na Maçonaria moderna.
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E o modo de transmissão envolveu imitações com recurso a simbolismos e alegorias[1].

Koltko-Rivera refina a avaliação de Mackey dos personagens bíblicos para significar comunidades de filosofia esotérica que operam em nome desses personagens bíblicos, por isso fala das comunidades de Adão, Seth, Enoque, Noé e Abraão. Após o período bíblico, fala dos mistérios iniciáticos eleusinos, da seita de Qumran, dos grupos gnósticos e do rito dos Cinco Selos, do misticismo judeu Hekhalot e Merkavah, das sociedades herméticas no Egipto, de outras escolas de mistérios na Grécia e em Roma, da Cabala, de Elias Asmole, de Isaac Newton e dos Rosa-cruzes. Embora possamos ter deixado de fora alguns grupos ao longo do caminho, temos o suficiente para ter uma ideia clara de onde esta escola de pensamento nos está a levar. Talvez seja um pouco exagerado ligar todas estas partes num todo ou dizer que estavam todas interligadas. A genealogia pessoal já é difícil de pesquisar, mas a genealogia de um grupo ou de uma organização que vai tão longe parece, para muitos instruídos no método científico, um palpite gigantesco. O que é importante, no entanto, não é a veracidade da afirmação, mas que tipo de influência teve este tipo de pensamento na Maçonaria?

Recentemente, tem havido um renascimento da adesão gnóstica desde as descobertas de Nag Hammadi e da Cabala, especialmente entre os maçons. Estes ensinamentos e escolas esotéricas conduzem a Maçonaria a ser uma sociedade filosófica que ensina o pensamento gnóstico, ou seja, que a Maçonaria tem realmente algum conhecimento secreto, especial e superior para além do que a leitura óbvia e literal do seu ritual diz. Até Wilmshurst nos dirá isso. Assim, temos na Maçonaria uma sociedade que possui este conhecimento esotérico gnóstico de uma vida superior, fazendo da Maçonaria uma elite, uma organização fechada que só pode revelar os segredos de uma vida melhor àqueles que se tornam parte do círculo interno. Isto parece-se com o Modelo Europeu acima descrito.

Mas será a Maçonaria mais uma escola de mistérios ou será hoje um criador de líderes? Estará a Maçonaria talvez mais aberta, a declinar qualquer segredo especial ou conhecimento superior? Será que a Maçonaria é mais bem sucedida em reunir um pacote completo de educação e ética, juntamente com a tolerância e a aceitação sem julgamento de todas as escolas de pensamento e prática, raça, religião e posição na vida? Não poderá ela apoiar a justiça e a liberdade e mostrar ao mundo como pode viver em paz? Não poderá a Maçonaria ajudar a guiar a sociedade e a formar líderes das suas fileiras para trabalharem na sociedade em prol de um mundo melhor? Isto assemelha-se mais aos modelos acima referidos da América do Norte e da América do Sul.

Portanto, a questão que realmente se coloca é a seguinte: o objectivo da Maçonaria é apenas melhorar os seus próprios membros, que se tornam guardiães do conhecimento sagrado, ou é preparar homens para serem líderes na sociedade nas várias disciplinas da política, ciência, negócios, medicina e religião, etc., para defenderem o que é justo, correcto e ético num mundo decaído e para serem um farol de luz para a paz e harmonia entre todos os povos e nações e para trabalharem activamente para isso?

O que é mais importante, aquilo em que se acredita ou aquilo que se faz?

Parece o argumento cristão da salvação pela fé ou pelas obras.

Podemos ler em Efésios (2:8-9):

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não é obra vossa, é dom de Deus, e não resultado de obras, para que ninguém se glorie“.

Lemos no livro de Tiago (2,14-17 e 24)

“De que vos serve, meus irmãos, dizerdes que tendes fé, se não tiverdes obras? Poderá a fé salvar-vos? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e lhes faltar o alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e comei à vontade”, e não lhes suprirdes as necessidades corporais, de que serve isso? Assim, a fé, por si só, se não tiver obras, é morta……… Vedes que uma pessoa é justificada pelas obras e não apenas pela fé“.

Um amigo Americano emigrado na Grã-Bretanha há quase 20 anos e iniciado como Maçom Britânico, depois de ler “A Castração da Maçonaria”, enviou-me um e-mail com alguns comentários.

“Há uma diferença real e tangível entre a Maçonaria em Inglaterra/País de Gales e a Maçonaria nos Estados Unidos”, disse ele. “Aqui há uma ligeira ponta de mau cheiro associada ao facto de se ser Maçom. As pessoas não sabem porque é que pensam assim, mas sempre houve a suspeita de que a Maçonaria é um clube de cavalheiros em que uma mão coça as costas da outra. Assim, muitos conselhos locais proíbem os maçons de trabalharem no sector público, e as autoridades policiais e judiciais exigem que os seus membros e empregados revelem a sua filiação maçónica.
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As pessoas aqui geralmente não usam anéis ou ornamentos Maçónicos fora da Loja. Normalmente, não se discute a Maçonaria ou a sua filiação com cada um dos seus melhores amigos. Pode falar-se com amigos íntimos, ou mencioná-lo se alguém mostrar interesse, mas não se fala muito sobre isso. Não há itens como matrículas Maçónicas para os carros, nem há sinais nas fronteiras das cidades a dizer quando a Loja Maçónica local se reúne.
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Acredito que a melhor maneira de combater todas as formas de intolerância é começar por dentro e trabalhar para fora. Cada homem constrói o seu próprio Templo dentro de si, tornando-o forte, estanque e integral. Quando todos tiverem feito isso, o mundo será um lugar melhor.”

De um ponto de vista Americano, eu diria que há um certo preço a pagar por se estar tão intimamente associado aos governantes e à estrutura de poder da sociedade. E o facto de ser tão privado que pode ser rotulado de secreto suscita todo o tipo de ciúmes e suspeitas por parte do público. É o fogo que alimenta as teorias da conspiração. E, finalmente, se esperarmos até que cada um construa um Templo melhor para si próprio, esperaremos até que o inferno congele. Foi Martin Luther King, amigo da Maçonaria, e o Irmão Jesse Jackson que viram a necessidade de se tornarem públicos e de mexerem abertamente com a consciência da sociedade.

Por isso, voltamos a perguntar o que é mais importante: o que se acredita ou o que se faz? E fazemos a mesma pergunta à Maçonaria. O que é mais importante para a Maçonaria, o seu conhecimento privado e o sistema de crenças em que se tem de ser iniciado ou as suas acções públicas em parceria com a sociedade, reforçando assim a liberdade, a igualdade, a oportunidade e a justiça para todos e a sua influência positiva na paz mundial?

Todos nós, enquanto indivíduos, somos produtos das nossas tradições, da nossa cultura e da nossa educação. Somos também produtos da sociedade em que vivemos. O mesmo se pode dizer da Maçonaria. Podemos nós, como indivíduos, mudar e assumir uma personalidade diferente? Não há nada que não possamos fazer, mas refazermo-nos a nós próprios é uma das tarefas mais difíceis que podemos tentar. E assim devemos concluir o mesmo para a Maçonaria.

Frederic L. Milliken

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

Notas

[1] “The Transmission of Esoteric Knowledge & The Origins of Modern Freemasonry: Was Mackey Right” por Mark E. Koltko-Rivera, Heredom, Volume 15, pág. 184

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