O simbolismo maçónico em Stonehenge

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Stonehenge

Introdução

Stonehenge, o famoso círculo de pedras localizado a sudoeste da Inglaterra, foi erigido por um povo há muito esquecido, que não deixou vestígios escritos ou registros formais. Ninguém sabe como tal obra era chamada pelos construtores originais, nem mesmo como se nomeava esta comunidade.

Não existe nada igual em parte alguma. Foi construído antes do surgimento de qualquer cidade, do desenvolvimento da escrita, e muito antes de qualquer estado ou rei ter se estabelecido. Quem teria projectado tal estrutura, como e por que são algumas das perguntas que fascinam a todos. Representa um lampejo de uma era que se foi.

Testemunha concreta de um passado místico, repleto de mistérios, Stonehenge foi palco de cerimónias complexas e ritos mitológicos elaborados. Integrando diversos elementos conceituais no mesmo projecto, os mestres-construtores demonstraram possuir pleno domínio nas ciências da Arquitectura, Geometria e Astronomia, muito antes da eclosão das culturas egípcias e mesopotâmicas. Alguns conceitos matemáticos como o valor de Pi, que seria estabelecido 2500 anos mais tarde por Pitágoras, foram utilizados no projecto original. Também incorporaram, com ajuda dos sacerdotes, valores simbólicos que formariam a base de vários sistemas religiosos e doutrinários.

Recentes estudos arqueológicos começam a esclarecer o que passava pelas mentes dos antigos habitantes da região ao construírem tão imponente obra, uma das mais significativas manifestações da capacidade humana de expressar ideias através de edificações. O que surge deste conjunto de descobertas começa a intrigar os espíritos dos modernos adeptos das práticas esotéricas. Ao desvendar parte dos enigmáticos segredos de Stonehenge percebemos que entramos num universo rico em elementos arquetípicos e mitológicos, criados para desbravar alguns dos mais tortuosos labirintos psíquicos da alma humana.

Incrivelmente, grande parte do que tem emergido à superfície nos parece familiar. A antiga doutrina e liturgia desta era parecem reverberar solenemente em vários aspectos das nossas Sessões Ritualísticas, em pleno século XXI, estabelecendo uma forma inesperada de conexão mística. Tal fenómeno sugere que o Simbolismo Maçónico contemporâneo e o universo mágico da Grã Bretanha ancestral seriam partes da mesma ciência, da mesma alquimia misteriosa, que tendo surgido numa época remota permaneceria viva e operante até os dias actuais.

Esta poderosa especulação, que contorce as dimensões de tempo e espaço da tradição histórica da nossa Sublime Fraternidade, representa mais um capítulo a ser desbravado na nossa longa jornada de aprendizagem.

Meditação preliminar: templos simbólicos

Na aurora do Homem, quando os grandes questionamentos sobre a existência floresceram, o espírito indómito dos primeiros especuladores incentivou a eclosão de uma revolução criativa que marcaria a Humanidade para sempre. Uma nova maneira de encarar o universo, como algo mais do que a mera realidade visível, se cristalizava nas mentes dos poderosos magos do passado. Esta perspectiva inovadora da realidade levou ao surgimento de magníficas obras, na tentativa de elaboração concreta destes dramas que passavam a afligir a alma humana. Surgiam, assim, os primeiros templos, as primeiras catedrais.

A palavra “templo” se deriva do latim templum. Refere-se a uma edificação dedicada ao serviço religioso ou transcendental. Rizzardo da Camino define tal conceito de forma similar, como sendo o local onde se cultua uma divindade. Os egípcios os consideravam as “mansões dos deuses” ou os lugares mortuários, quando dedicados aos antepassados.

No início eram espaços delimitados em meio às florestas ou cavernas. Neste período os pensadores só tinham a abóbada celeste acima, as doze constelações como colunas de sustentação em volta, a fraternidade no coração, o infinito nas mentes e uma inquietação angustiante clamando pela compreensão plena dos mundos – o visível e o oculto.

Na fase seguinte, com a melhoria nas técnicas de arquitectura, os pedreiros ancestrais começaram a construir as primeiras estruturas dedicadas exclusivamente aos cultos. Surgiram obras complexas, nas quais aquela realidade natural que circundava os templos em meio às matas passava a ser retratada por alegorias, metáforas e por uma série de símbolos que ainda hoje interagem activamente no nosso subconsciente.

Templos, enquanto entidades físicas, e os símbolos, como instrumentos e método para desenvolvimento dos trabalhos, tornaram-se figuras inseparáveis neste processo de aprimoramento pessoal e filosófico a que nos propomos a partir do momento que passamos a integrar uma sociedade esotérica. Esta conjunção se apresenta claramente nas mais antigas fraternidades, como a ordem dos antigos mistérios dos Essénios, das sacerdotisas de Inanna, na Suméria, das Thesmophorias de Deméter, em Atenas, das Vestais de Roma, e até na enigmática ordem de Malek-Tsedeq ou Melquisedec. Onde encontramos sinais da existência de um destes elementos, certamente o outro estará em Pé e a Ordem, apesar de, às vezes, não percebermos a sua presença imediatamente.

No caso específico das Oficinas Maçónicas, que são os espaços consagrados nos quais são desenvolvidas as nossas Sessões, tal magia certamente se faz presente. Estas estruturas arquitectónicas, dedicadas aos grandes mistérios, possibilitam uma identificação pessoal dos iniciados com todo simbolismo ali existente, estabelecendo uma simbiose que transforma as metáforas em reflexos da nossa própria persona enquanto seres que questionam a si mesmos e toda existência.

As figuras simbólicas operando entre Colunas são ferramentas psíquicas poderosas que nos orientam na nossa longa aprendizagem – a chamada jornada em busca do autoconhecimento. Só sabendo exactamente quem somos podemos ter a esperança de entrar subtilmente no mundo do oculto, tacteando os significados dos grandes mistérios – como a sabedoria das religiões primordiais, os segredos do mundo perdido, a compreensão da primeira trindade, a busca pela palavra perdida, o enigma das grandes diferenciações e assim por diante. Os Templos com os seus signos representam a nossa psique, os quatro planos do universo retratando o princípio, o meio e o fim de tudo.

Mais conhecidos, actualmente, pelas fachadas em estilo clássico greco-romano e pelos adereços típicos que os adornam, estas entidades indispensáveis ao desenvolvimento da Ars Regia se compõe de dois elementos fundamentais, distintos na forma, mas unidos na mesma essência mística. O primeiro elemento é representado pela construção em si, com os móveis, utensílios, instalações e toda gama de entes concretos que formam esta metade inicial, chamada de porção física. Sendo uma construção elaborada, com detalhes arquitectónicos e ornamentais específicos, apresenta um valor estético-cultural que a qualquer um é acessível. Um profano, entrando neste local, vai captar exactamente estas sensações – com os seus cinco sentidos – e nada mais.

O segundo elemento, por outro lado, não está disponível com tanta facilidade. Muito menos aos meros visitantes eventuais. Apenas os iniciados nos mistérios mais sagrados podem captar tais emanações. Falamos da bagagem intangível que complementa a estrutura de pedras e cimento. É a percepção subtil, o sentimento, a energia que vai muito além dos sentidos básicos. Como mensagens subliminares, instigam o nosso lado mais profundo, o nosso subconsciente, tornando a nossa jornada pelos caminhos da Sublime Arte uma experiência única e irreversível, enquanto processo de transformação. Esta capacidade mística, chamada por uns de espiritualidade esotérica, aflora apenas nas almas daqueles que realmente entendem o significado da simbologia utilizada. Todo verdadeiro Maçom, ao entrar no Templo, independentemente do rito praticado, sente o contacto transcendental com este universo paralelo, que opera com força e vigor entre Colunas. Os legítimos iniciados sabem que muito além do universo sensível e dos símbolos que abrilhantam as nossas edificações, existe algo mais, que vai além do que imagina a nossa vã filosofia – como dizia Shakespeare.

Partindo deste princípio, surge uma inquietante constatação. Para alguns é possível captar sutilmente estas reverberações em locais que, teoricamente, nada tem a ver com a nossa Fraternidade. Em determinados lugares, sejam obras perfeitamente conservadas ou apenas ruínas antigas de monumentos abandonados, podemos vivenciar esta mesma sensação, esta aura de espiritualidade iniciática. A presença inesperada desta percepção sugere que as conexões místicas entre todos os Irmãos através das eras podem ser muito mais significativas do que poderíamos supor. Os laços de união fraternal vão além da formalidade regular, das instituições e regulamentos em vigência, dos títulos ou sistemas normativos contemporâneos – atravessam as gerações, sobrevivem às diferentes revoluções culturais e se mantém sólidos como blocos de rocha indestrutíveis.

Assim, fica claro que, independentemente do local ou da época – por mais remotos que sejam – o que determina se estamos ou não perante um legítimo templo é a presença destes componentes intangíveis, que só aquele que verdadeiramente foi iniciado nos mistérios sagrados da nossa Ordem é capaz de vivenciar.

Stonehenge, a obra

Stonehenge, do inglês arcaico stan = rochas, e hencg = eixo, se localiza na planície de Salisbury, no sudoeste da Inglaterra, próximo à cidade de Amesbury. A mais antiga referência a esta maravilha do mundo antigo foi feita por Hecateu de Abdera, na sua magnífica obra “História dos Hiperbóreos”, datada de 350 a.C. Trata-se de um conjunto de pedras, algumas com mais de 45 toneladas, agrupadas num arranjo circular parcialmente conservado. Integra um conjunto de obras erigidas pelas chamadas civilizações megalíticas, surgidas na Europa a partir de 8.000 anos a.C.. Estas comunidades embrionárias, que conquistaram a Europa no final da última glaciação, começaram a se fixar nas Ilhas Britânicas à medida que o gelo e frio recuavam, criando um clima mais ameno, propício às culturas agrícolas.

Por volta de 4.300 a.C. grandes levas de agricultores chegando do continente passaram a se estabelecer na região. Tinham certa facilidade para se fixar, pois, dominavam técnicas de cultivo de trigo e de criação de gado, e utilizavam instrumentos de pedras, ossos e cerâmica. Logo depois, no período Neolítico superior, imigrantes da actual França conquistaram a Planície, e em 2500 a.C. comunidades vindas do Vale do Reno e da Holanda chegaram. Estas últimas, também chamadas de Povo Beaker, tornaram-se hegemónicas na área até 1800 a.C., quando foram sobrepujados por uma nova cultura, denominada Wessex – que dominaria a maior parte da região.

Nesta época floresceram vários cultos místicos, no contexto da citada eclosão criativa. No final do 4o século a C. os antigos sacerdotes, motivados por ideias e conceitos originais, começaram a construção de um grande arranjo em forma circular, com quase cem metros de diâmetro. Era o início da epopeia de Stonehenge, cujo processo de elaboração foi dividido, pelos arqueólogos modernos, em três fases ou momentos distintos.

A chamada 1ª FASE (3.100 a.C.) é marcada pela construção da estrutura circular primordial. Constituída por um grande morro redondo, com 97,54 m de diâmetro, era circundada externamente por uma vala. Apresentando algumas descontinuidades e uma “entrada” principal, logo foi preenchida por um arranjo circular com 56 troncos fixados no solo, chamado de “Círculo de Aubrey”, em homenagem ao seu descobridor. Esta fase, só com o morro redondo e os troncos, durou apenas 50 anos.

Em seguida entramos na 2ª FASE (3.000 a.C.). Nesta etapa observamos, inicialmente, a colocação de 168 troncos fixados no solo, dispersos pelo interior do círculo. Formavam a sustentação de uma cobertura, com uma abertura no centro, por onde as pessoas podiam observar o céu e que servia de saída para a fumaça das fogueiras. Foram realizadas descobertas extremamente interessantes na vala circular, incluindo a identificação de restos humanos cremados e objectos sagrados, localizados em pontos estratégicos. Neste período foram criados outros círculos ritualísticos muito semelhantes a Stonehenge, como o chamado Woodhenge, construído ao norte. Na última ou 3ª FASE (2600 a.C.), registra-se a remoção dos troncos e a chegada das chamadas Pedras Azuis, trazidas das Montanhas Preseli (País de Gales), localizadas a 160 km em linha recta. Os arquitectos elaboraram dois semicírculos com estas enormes rochas, em forma de ferradura, um no interior do outro, com a abertura em frente à entrada original do círculo. Cerca de 80 peças compunham este arranjo. Um caminho, espécie de “avenida”, formado por uma recta ladeada por duas valas paralelas, com cerca de 14 metros de largura, foi confeccionado à entrada principal do círculo. O seu posicionamento toma o ciclo solar como referencial, sendo exactamente alinhado com os raios solares no poente do solstício de Inverno, ou com o nascer do Sol no solstício de Verão. Este caminho levava directamente às margens do Rio Avon, o principal curso de água da região. Cem anos mais tarde removeram as Pedras Azuis e elaboraram o grande círculo contínuo com as chamadas pedras Sarcens, as maiores e que mais chamam a nossa atenção por ainda estarem posicionadas nos locus originais – pelo menos algumas delas. Com mais de 4 metros de comprimento e 25 toneladas de peso, foram trazidas do afloramento Marlborough Dows, distante 32 km ao norte. Eram colocadas de modo que a cada duas na vertical fosse possível apoiar uma na horizontal, chamada lintel. Alguns destes arranjos, formados por rochas imensas de até 7,3 m de comprimento e 45 toneladas foram denominados Trilitos. Uma pedra grande, instalada na horizontal bem no centro do círculo, foi baptizada como Altar. Devia ser usada para colocação ritualística de objectos sagrados ou restos mortais. Em 2100 a.C. trouxeram de volta as antigas Pedras Azuis.

Todo este espaço místico foi utilizado até o final do segundo milénio a.C. Por volta de 1100 a.C., o santuário foi abandonado. Não há consenso sobre os motivos deste facto. Provavelmente, os cultos passaram a ser relacionados aos rios e pântanos, e a poderosa catedral que operava em Pé e a Ordem há quase 2000 anos se reduziu a um estado dormente, assim permanecendo por muitos séculos.

Em 1918 alguns festivais e eventos esdrúxulos coordenados por sacerdotes ou “druidas contemporâneos” começaram a actuar nas ruínas, realizando cerimónias em que tentavam resgatar alguns conceitos do passado remoto. Em 1985 o English Heritage, órgão do governo inglês responsável pelo monumento, proibiu tais celebrações.

Universo simbólico

Várias teorias foram lançadas na tentativa de desvendar os objectivos que levaram à construção de tão imponente obra. A utilização do sítio variava conforme a época, uma vez que diferentes culturas dominaram a região, cada qual com costumes e tradições distintas. Vamos analisar resumidamente apenas cinco dos inúmeros aspectos que sugerem existir esta conexão de sentidos entre a nossa realidade actual e a magia deste mundo perdido.

Reproduzindo o Universo

Analisando detalhadamente o projecto, na primeira fase, percebemos que toda estrutura, principalmente o morro circular com as “falhas” ou descontinuidades poderiam ser detalhes precisos de uma grande reprodução em escala, de alguma região geográfica. Esta ideia de Stonehenge ser um mapa cartográfico estilizado foi recentemente comprovada. Ao compararmos o arranjo com a conformação ambiental da Planície de Salisbury, ao redor, vemos que a real intenção dos arquitectos foi reproduzir a plenitude do seu mundo visível. Os 56 troncos representariam as florestas, o morro elevado personificaria as montanhas ao longe, e a vala seria o final do mundo, o horizonte amedrontador, o abismo do limite da perspectiva que poderia “engolir” os aventureiros. No interior da estrutura teríamos enclausurados os parâmetros da existência humana, com o céu formando o “tecto”, estando presentes o Sol, a Lua e as constelações do zodíaco. O Rio Avon, que dava sustento a todas as comunidades da região, também se mostra retratado no círculo. O seu curso sinuoso coincide exactamente com a existência das entradas ou “falhas” no morro. Estabelecendo esta conexão, que é cientificamente comprovada e facilmente observável, percebemos quantos enigmas se apresentam apenas nesta primeira fase, que é considerada a mais “primitiva” do processo de aprimoramento místico da comunidade.

Esta preocupação em reproduzir o Universo conhecido também se mostra presente no nosso Simbolismo. Sabemos que, entre Colunas, estamos situados sob a abóbada celeste, tendo a infinitude dos pontos cardeais circundando-nos, e as doze colunas ou constelações do firmamento também se fazem presentes.

Círculos

Continuando na primeira fase, notamos que os místicos primordiais manifestavam uma grande fixação pelas formas circulares. Os círculos são expressões matemáticas utilizadas desde o princípio dos tempos. Esta perfeita forma geométrica estabelece diversas conexões arquetípicas na mente humana, sendo elemento propulsor da fé e da vida em movimento. Representa a essência dos mistérios da natureza. Faz o tempo se retorcer em si mesmo, orientando todos pelos caminhos contínuos do reinício e fim constantes, tornam os pontos de partida e de chegada coincidentes neste processo único de ser e existir.

Stonehenge
Stonehenge

Os mais antigos povos, de todas as culturas e locais do planeta dançavam ritualisticamente em círculos, meditavam diante de formas circulares, reverenciavam corpos celestes, percorriam labirintos e se sentavam em rodas elípticas para orar. Os Celtas consideravam o tempo como sendo uma das triplas linhas da existência, e o representavam como um círculo no qual todos os enigmas se revelavam. Os Astecas veneravam as flores com forma circular, pois personificariam a alegria e felicidade, além do ciclo solar diário e anual, com as suas jornadas eternas de nascimento e renovação. Os índios americanos da tribo Sioux afirmam que toda fonte de poder do mundo se manifesta em círculos, como o céu, as estrelas, o vento em forma de furacões, os ninhos dos pássaros e a própria vida dos homens, da infância à morte.

A nossa vida e ambiente são repletos de símbolos circulares ou espiralados. A íris dos olhos, a forma dos rostos, o horizonte distante, a Lua e o Sol se apresentam nesta forma – além das galáxias distantes e das moléculas de DNA, síntese da vida. O próprio universo físico, com as constelações, buracos negros e demais entes astronómicos, tem conformação circular. Forma uma imensa “bolha” que deve interagir, de acordo com a física quântica, com infinitos universos paralelos que também são arredondados.

Em nosso mais profundo íntimo também vamos encontrar esta geometria. Jung (1875-1961) dizia que o ponto mais central da nossa alma, o self, é um círculo. Por isso, ele o representou com mandalas, que são figuras com várias formas geométricas em torno do mesmo centro. Para a teoria do Eterno Retorno (Nietzsche, 1844-1900), segundo a qual tudo ocorre infinitamente, ao longo do tempo, como uma perene repetição de todos os eventos, o círculo também se recobre de profundo simbolismo. Não há outra figura que melhor represente este ciclo infinito de experiências contínuas, que devem ser moralmente justificáveis e “nobres” para que se perpetuem por todo o sempre.

O círculo, tal quais as formas essenciais da natureza, assume uma aura sagrada e misteriosa. Tem infinitos lados e nenhum ao mesmo tempo. Neles se encontram o princípio e o fim na mesma estrutura, fazendo referência à semente ou embrião original e ao final escatológico, sem definir onde exactamente se posicionam. Centraliza, portanto, as mais primitivas leis da natureza, os mais profundos sentimentos de continuidade e a terrível inevitabilidade do “pêndulo do relógio”.

A forma circular de Stonehenge, por si só, já representa uma profunda e complexa comunhão dos universos simbólicos que fundamentam a cultura esotérica do passado e a actual. Esta característica está presente na arquitectura de diversas obras utilizadas por ordens iniciáticas, como as catedrais dos Cavaleiros Templários, e nos nossos templos – nos inúmeros símbolos que seguem este traçado, como o círculo místico em torno do Altar dos Juramentos.

Giros Ritualísticos

Os antigos sábios constataram, em tempos imemoriais, que movimento é sinónimo de vida. Os mortos apresentam, como primeira e óbvia característica, a imobilidade corporal. Os enfermos tendem a se recolher em repouso absoluto. A água, um dos quatro elementos, para ser de boa qualidade deve ficar em constante movimento. Se permanecer estagnada torna-se inadequada ao uso. O oposto da paralisia mórbida e funesta é o movimento. Deste raciocínio surgem todos os cultos e festejos à vida, à ressurreição e à renovação da natureza, carregados de danças, músicas e alta dinâmica de movimentação. Em Stonehenge as celebrações eram realizadas com grande volume de pessoas se movimentando ritualisticamente em torno do eixo principal, que era o centro do culto, e provavelmente circulavam no sentido horário.

Certamente os participantes assumiam grande rigor na ordenação dos trabalhos, em relação ao sentido de giro em volta do altar. Sabemos que quando giramos no sentido horário, desejamos absorver a energia do universo, trazendo do macrocosmo todas as emanações e influxos positivos. Caminhando no sentido anti-horário, levamos as nossas energias ao universo externo, tirando do microcosmo local e elevando as vibrações ao infinito. No primeiro caso buscamos, metaforicamente, salvação a nós mesmos, e no segundo oferecemos salvação aos outros.

Esta é uma característica presente ainda hoje nas nossas práticas ritualísticas, notadamente em relação à circunvolução praticada Mestres de Cerimónias no transcorrer das Sessões. A mesma liturgia e os significados sacramentados nos cultos ancestrais da velha Inglaterra ainda se mostram presentes nos movimentos regulares dos obreiros actuais.

Mitos de Ressurreição: Ciclos Solares e Lunares

As celebrações em Stonehenge ocorriam em datas específicas do calendário. A razão para estas reuniões, nestes momentos determinados, se explica pela própria arquitectura do monumento. O perfeito alinhamento da entrada do morro circular e da “avenida” com os raios solares no poente do solstício de Inverno e na alvorada do solstício de Verão, e com a descida da Lua na posição mais meridional, a Sul Sudoeste, comprova que ali ocorriam cultos devotados aos ciclos lunares e solares.

Na noite do solstício de Inverno (21 ou 22 de Dezembro) é celebrada a “morte” do Sol, e o início – na manhã seguinte – da longa jornada rumo ao seu apogeu, que ocorre no equinócio da Primavera. O ciclo solar, tal como uma criança recém nascida sob a égide da constelação de Virgo ou Virgem, se inicia neste dia, trazendo as boas novas a todos – que seriam as perspectivas de renovação da natureza e de toda vida, através das dádivas dos raios solares incidindo gloriosamente sobre a mãe-terra. A longa noite de espera pelo renascimento do astro-rei, por aquele que traz a vida, o sustento e toda renovação da natureza ao longo das estações, era marcada por celebrações intensas, carregadas de grande significado esotérico e transcendental.

A Lua também teria um papel interessante neste universo metafórico. Foram detectados restos de animais, cerâmicas e objectos diversos na vala, no ponto exacto, a Su-sudoeste onde ela desaparece no horizonte na última noite da fase Cheia. Uma intrigante teoria sugere que nesta noite, ao visualizarem a Lua descendo no horizonte, os magos posicionavam os corpos dos mortos sobre a pedra “Altar”. Esta rocha, com tons claros que reflectiam ao luar, criava um amálgama visual entre a sua imagem e a da Lua. As almas dos falecidos, em meio a esta fusão mística, seriam carregadas juntamente com a Lua para o mundo da eternidade. Sabemos que tal corpo celeste personifica uma dramática jornada mitológica, “morrendo” ao final de cada ciclo e descendo ao mundo das trevas. Ali permanece oculta por um breve período (três dias) e renasce espectacularmente na terceira noite. Aqueles que “pegam carona” com a Lua, vencem a morte e ressurgem triunfalmente, atingindo uma outra dimensão, uma nova vida num mundo além deste.

Toda essa saga representa o eterno retorno e o milagre da ressurreição. Tal arquétipo foi exaustivamente incorporado por muitos sistemas religiosos posteriores, como, por exemplo, no culto ao deus-menino persa Mitra, na epopeia de Hércules, na saga descrita no Mahabharata daquele que é considerado a oitava encarnação do deus Vishnu, o semi-deus Mitra, e na lenda de Ísis e o seu filho divino, Hórus.

Na nossa doutrina utilizamos como método e objecto de estudos diversas formas de mitos de ressurreição/transformação. Destacamos o Tronco de Beneficência e a própria lenda mater da nossa Sagrada Ordem, Hiram Abiff.

Mitos de Ressurreição: Culto aos antepassados

A religião dos antigos britânicos seria um culto aos antepassados? Esta pergunta foi uma das primeiras a serem formuladas pelos pesquisadores, no início do século XIX. Várias vertentes religioso-filosóficas englobam este componente, e isto também deveria ocorrer nas comunidades ancestrais da Europa. De acordo com esta hipótese, recentemente lançada, toda estrutura de Stonehenge se relacionaria a um complexo ritualístico mais amplo, abrangendo uma extensa área geográfica, voltado ao culto dos mortos, a sua passagem para outra dimensão e o seu posterior renascimento. O círculo de pedras seria parte de um elaborado rito com vários capítulos, que se iniciaria a exactos 3,2 quilómetros dali, em Woodhenge – o outro círculo místico, feito em madeira. Da sua única entrada sai um caminho ou curso ladeado por monólitos – similar ao de Stonehenge – que leva às margens do rio Avon. Esta “trilha” está precisamente alinhada com os primeiros raios de Sol no solstício de Inverno, ao contrário de Stonehenge que se alinha com poente.

Os arqueólogos estabeleceram uma intrigante relação entre estes dois círculos. Faziam parte de um elaborado culto que atravessaria a noite e o dia inteiro, da alvorada ao poente. Pessoas de toda região se dirigiriam inicialmente a Woodhenge, no final da noite anterior aos solstícios de Inverno, permanecendo ali até a alvorada do dia seguinte. As edificações em madeira representam a vida, a mortalidade, a finitude, ou seja, o portal dos vivos. As celebrações ali desenvolvidas transcorriam com imenso consumo de comida e bebida. A grande quantidade de dentes de porcos achados no local, todos com nove meses de idade, comprova a ideia de que os eventos eram realizados exactamente nos solstícios de Inverno. Marcando o início da fase seguinte do ritual, teríamos o nascer do Sol, com os primeiros raios incidindo exactamente pela entrada do grande anel e na avenida, directamente sobre o altar de Woodhenge. As pessoas, então, seguiriam rumo às margens do rio Avon, caminhando pela avenida ou caminho, com o Sol orientando a marcha. Ali teriam contacto com o elemento água, tal qual um baptismo ou uma purificação aos vivos e mortos. O cortejo, em procissão, percorreria o curso do rio, até a altura de Stonehenge. Então, seguiriam a outra “trilha”, ladeada por megálitos, seguindo até o conjunto de pedras. Como já se finda o dia, o Sol agora se alinhava exactamente neste caminho. Chegando a Stonehenge, havia a coroação da celebração, começando no poente e transcorrendo por toda noite. Stonehenge simbolizaria o portal dos mortos – a imortalidade e perenidade das rochas, frias, imutáveis, resistentes, representam a eternidade. A entrada das almas nos reinos subterrâneos e o seu posterior renascimento glorioso, juntamente com o novo ciclo solar pós-solstício, estaria garantida através deste rito.

Vemos, nestas narrativas, a clara associação entre os magos do passado e do presente. Todos se voltam ao culto à existência de uma outra vida além da terrena, e à necessidade de elaborar adequadamente os mitos de ressurreição e transformação.

Conclusão

Como legítimos inquisidores da Verdade – ou phree-messen, conforme a tradição do antigo Egipto – devemos atentar para a importância histórica de Stonehenge no processo de compreensão da construção mística do nosso simbolismo. A maior parte da obra se desfez nas intempéries dos tempos. Entretanto, a essência dos cultos primordiais que ali se desenvolviam se manteve incólume à passagem das eras.

Os povos surgiam e pereciam, mas os mitos fundamentais, as lendas magnas e todo simbolismo desta era mística se cristalizaram de forma alquímica e inexorável nas almas daqueles que voltavam as suas mentes para além do mundo visível. Os seus inúmeros significados, recentemente compreendidos, trazem conclusões inesperadas e intrigantes. Os magos-arquitectos das eras ancestrais, que projectaram tal monumento, determinaram ali as bases seminais do simbolismo esotérico que fundamenta grande parte dos princípios das sociedades iniciáticas actuais.

Erigido muito antes das primeiras iniciações no vale do Nilo e das celebrações a Elêusis, Orfeu e Dionísio, e mais de 2000 anos antes do surgimento do lendário rei Salomão, o enigmático círculo de rochas pode ser considerado um legítimo Templo Maçónico, que operava a plena força e vigor, de forma justa e perfeita, de acordo com a ritualística primordial – que, basicamente, continua a mesma.

Ao buscarmos a compreensão dos mistérios de Stonehenge, estamos, na realidade, trilhando mais alguns degraus em busca da nossa própria identidade.

Carlos Alberto Carvalho Pires, M. M. – ARLS Acácia de Jaú nº 308 a Or. de Jaú – SP, Brasil

Referências

  • Camino, Rizzardo D, “Dicionário Maçónico”, 1ª Edição, Editora Madras, 2006.
  • Doucet, Friedich W., “O Livro de Ouro do Ocultismo”, 1ª Edição, Ediouro Publicações, 1990.
  • Dyer, Colin, “O Simbolismo na Maçonaria”, 1ª Edição, Editora Madras, 2006
  • Lomas, Robert, “Girando a chave de Hiram – Tornando a Escuridão Visível”, 1ª Edição, Editora Madras, 2006.
  • Meaden, Terence “Stonehenge: the Secret of the Solstice”, 1ª Edição, Editora Souvenir, 1997.
  • Niel, Ferdinand “Stonehenge: Arqueologia do Templo Secreto” 1ª Edição, Editora Hemus, 2004.
  • North, John D “Stonehenge: A New Interpretation of Prehistoric Man and the Cosmos”, 2ª Edição, Editora Free Press, 1997.
  • Souden, David “Stonehenge Revealed” 3ª Edição, Editora Facts on File, 1998
  • english-heritage.org.uk

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2 thoughts on “O simbolismo maçónico em Stonehenge”

  1. Um texto bem feito que demonstra pesquisa.

    MAS…. não sei se rio, ou se choro diante da inversão óbvia, demonstrada pela adjetivação de maçônico (que só tem sentido a partir do século XVII) a um assunto milenar.

    Talvez se o título fosse mudado para “Elementos da tradição encontrados em Stonehenge que informam o universo simbólico maçônico”

  2. FRANCISCO CEZAR DE LUCA PUCCI

    Começa estabelecendo que não há nenhuma evidência sobre o local e “deduz” sacerdotes, rituais e doutrinas. Verdadeira mágica.

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