Há uma diferença notável entre a Loja e o Templo. Esta diferença será após mais largamente explicada.
A Loja entra no quadro material, exotérico, por símbolos, os utensílios, a decoração, a reunião dos Irmãos que a compõem. É dito que:
- 3 a formam
- 5 a compõem
- 7 a tornam Justa e Perfeita
Este simbolismo torna-se então o objecto de estudo particular para o Maçom que encontrará uma correspondência com a idade simbólica do próprio grau (a título de exemplo, profano, pode pensar-se que uma criança de 3 anos começa a compreender o mundo que a rodeia, que ela a apreende melhor aos 5 anos e que a idade da razão, fixada aos 7 anos, lhe dará a primeira mestria.
- 3 anos : Aprendiz
- 5 anos : Companheiro
- 7 anos: Mestre
Nenhuma janela ilumina a Loja porque o Universo que ela representa se situa fora do espaço e do tempo e não é apreendido senão do interior; donde uma intensidade que é ao mesmo tempo do indivíduo e do grupo ao qual pertence. O que nos conduz ao sentido esotérico da Loja construída à imagem do Homem: emanação do Logos (do qual procede a palavra Loja) pelo que todos os Irmãos são do mesmo modo células organizadas, diferentes em correspondência, umas com as outras, pela iniciação e por participarem nos mesmos rituais, de apreenderem a mesma simbólica da decoração, das jóias, dos utensílios, etc.
Não se trata já de compreender a maneira intelectiva mais cognitiva: é um dos segredos maçónicos que se percebe por três graus:
- o dom da inteligência (a qualificação ‘qualitativa’) que o Aprendiz pode obter observando a Justiça,
- o segundo degrau figura o dom da Sensatez, fruto da Temperança,
- o terceiro degrau designa o dom do Discernimento, que só a Prudência
Estas possibilidades são simbolizadas por um certo número de utensílios e decoração:
- as colunas J e B
- os três pilares : Sensatez, Força e Beleza;
- o tapete da Loja
- o pavimento de mosaico (segundo certos rituais), etc. .
Podem ainda citar-se os símbolos distintivos que ornamentam o Venerável Mestre (presidente da Loja), o Primeiro e o Segundo Vigilantes.
O Esquadro é atribuído ao Venerável Mestre, o Nível ao Primeiro Vigilante e a Perpendicular (fio de prumo) ao Segundo Vigilante (nos Ritos Escoceses).
O Esquadro simboliza a equidade: a acção humana sobre a matéria, isto é, a função principal do Venerável corresponde ao domínio de si próprio, à eliminação de todos os sentimentos pessoais e passionais. O símbolo do Esquadro é passivo, encontra a sua complementaridade no simbolismo activo do Compasso.
Nota-se que o Esquadro do Venerável é constituído por dois braços de comprimentos desiguais numa proporção de 3 para 4, ou sejam os dois lados do triângulo rectângulo de Pitágoras. Simbolismo significando a autoridade: 3 + 4 = 7 e o ternário relativo à unidade: 3×4=12 ou seja 1+2 = 3. Esta ciência dos números contém em si própria a ciência dos sons A qual está ligado o tetragrama impronunciável que em certos Ritos, se encontra gravado sobre o Esquadro do Venerável Mestre, até mesmo inscrito no Delta luminoso.
Num estudo exaustivo (que aqui não tem lugar) esta simbólica conduz muito longe, até uma profundeza do septenário que se poderá chamar astro musical.
- Saturno – Si
- Júpiter – Dó
- Marte – Ré
- Sol – Mi
- Vénus – Fá
- Mercúrio – Sol
- Lua – Lá
Segundo este conjunto reduzido do septenário, uma tradição oculta dá a correspondência quaternária seguinte:
- Sol – Mi
- Mercúrio – Sol
- Marte – Ré
- Lua – Lá
(garantimos que os Veneráveis Mestres músicos encontrarão aqui um belo motivo de reflexão quanto ao Esquadro que levam ao peito e o Tetragrama que por vezes aí está gravado)
A Perpendicular e o Nível simbolizam ainda o Activo e o Passivo, a verticalidade e a horizontalidade. Estas duas oposições encontram a sua harmonia na Justa Medida dita entre o Esquadro e o Compasso.
Constata-se que o ternário está sempre presente, no seu centro reside a omnipresença da Unidade.
Do exoterismo e do esoterismo da decoração e dos utensílios maçónicos, procede uma terceira dimensão: o hermetismo (a metafísica, que quer dizer prolongamento do físico’, o prefixo meta exprime a sucessão, a mudança, o prolongamento assim como a participação).
A palavra hermetismo procede do nome de Hermes, que, na Roma Antiga, foi identificado a Mercúrio e a Thot do Antigo Egipto.
A Grécia glorificou-o como deus da sorte ao Falo – emblema da fecundidade.
Os neoplatónicos deram-lhe o título de TRIMEGISTO, o Três Vezes Grande, e tornou- se desde então o patrono dos alquimistas.
O cepticismo imagina que a alquimia é um sonho ou um logro, ela permanece, porém, uma realidade na Franco-Maçonaria, nomeadamente para o iniciado que recusa confundir química e alquimia. Pode dizer-se que todos os erros humanos são, sem o saberem e em si, verdadeiros Athanores (fomos dos alquimistas) que a Iniciação inflama. Mas na visão maçónica seria justo estabelecer as correspondências seguintes:
- O Templo – Athanor
- A Loja – o Fogo Subtil (Luz)
- a Matéria-prima – O Iniciado
Este hermetismo maçónico corresponde de facto a um corpo de síntese, a que alguns chamam Egrégore, e ao qual voltaremos.
O hermetismo (outro termo impróprio do que se queria definir perfeitamente) não considera o universo como uma emanação do Desconhecível. A parte egípcia do seu ensino teria desaparecido com o incêndio da Biblioteca de Alexandria: sublinho o condicional porque a total destruição da célebre Biblioteca apresenta-se como muito incerta. Seja como for, o número de papiros descobertos sobre as margens do Nilo em 1952, evocam este Hermetismo ao qual desde então o Rito de Memphis-Misraim permanece ligado. Não conhecemos actualmente senão fragmentos tradicionais:
- O Evangelho Segundo S. João
- Os Apócrifos
- Pitágoras, Aristóteles, Platão
- O Gnosticismo Ismaelita
- A Cabala ( a árvore sefirótica)
- O Tao (o Yin e o Yang)
- O Hinduísmo
- Os Alfabetos Ideográficos Egípcios, Hebraicos, Chineses
- A Arquitectura Romana e Gótica
- Os Quadrados Mágicos
O fragmento mais conhecido do Hermetismo é a Tábua da Esmeralda, dividida nas seguintes doze partes:
- E verdade, sem mentira, é verdade
- O que está em baixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está em baixo, para fazer milagres de uma só coisa.
- E como todas as coisas foram e são provenientes de uma, assim todas as coisas são nascidas dessa coisa única, por adaptação.
- O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o Vento levou-a no seu ventre, a Terra é o seu alimento.
- O Pai de todo o Télesme está aqui; a sua força está completa e está convertida em terra.
- Separarás a Terra do Fogo, o subtil do espesso, docemente, com grande astúcia.
- Ele sobe da Terra ao Céu e desce outra vez à Terra e recebe a força das coisas superiores e inferiores.
- Terás por este meio toda a glória do mundo e toda a obscuridade se afastará de ti.
- E A força forte, a força toda, porque ele vencerá todas as coisas subtis e penetrará em todas as coisas sólidas.
- Assim o Universo foi criado
- Daqui sairão inumeráveis adaptações das quais o meio está aqui.
- Foi porque chamei Hermes Trismegisto, tendo as três partes da filosofia do mundo. O que disse da operação do Sol é completo e concluído.
Estes doze pontos da Tábua Smaragdina contêm esquematicamente todos os ensinamentos herméticos: o Kibalion ou as sete leis fundamentais de Hermes, cujo texto gravado sobre uma esmeralda teria sido encontrado na sepultura de Hermes, transmitido aos Gregos e recuperado pelos Árabes do século IV, que o resumiram na forma actual.
Este hermetismo refere-se ao Templo Maçónico, dito inacabado, por estar em perpétua construção, com cinco correspondências:
- As Fundações – a Fé
- A sua Altura – a Esperança
- A sua Língua – a Caridade
- O seu Comprimento – a Perseverança
- Os seus Lados – a Paz
A construção do Templo inacabado, implica a reunião dos Maçons na Fé e é o Ideal maçónico que os anima; assim, vibram com um só coração que faz bater o mesmo Amor donde, a emergência de um Egrégore.
Jules Boucher faz luz nesta ocorrência:
“Egrégores ( do grego egrêgorien), esta palavra designa no livro de Enoch os anjos que tinham jurado velar sobre o monte Hermon e traduziu-os por veladores. Chama-se égrégore a uma entidade, um ser colectivo resultante de uma assembleia.
.
Cada Loja possui o seu égrégore, cada obediência o seu e a reunião de todos os égré- gores formam o Grande Egrégore Maçónico”.
E preciso todavia considerar que a palavra égrégore é muitas vezes empregada pelos vendedores de ilusões. Esta recuperação comercial não nos deve iludir.
Os Áugures da Antiguidade chamavam aos Egrégores o espírito do povo porque se tratava de uma energia gerada quer por uma potente corrente espiritual, quer por uma não menos potente corrente materialista, a propósito da qual se poderia citar um grande número de exemplos.
Esta energia auto alimenta-se segundo a Lei dos Ritmos Universais e com uma reunião das entidades unidas por um carácter comum, favorável ou nefasto conforme as ideologias postas em movimento.
Por intermédio da física quântica, a ciência estuda este fenómeno que pode comparar-se, no plano energético, às ondas hertzianas que utilizamos sem sabermos muito bem o que são, já que são exteriores ao nosso campo perceptivo. As reuniões humanas são verdadeiras geradoras de energias que se podiam aproximadamente classificar de electromagnéticas; elas criam, de qualquer modo, entidades informais capazes de originar a devoção, o entusiasmo, o fanatismo, a violência, etc. de facto, este inconsciente colectivo origina um Egrégore, e melhor ainda quando esta colectividade se mostra perfeitamente consciente do que faz.
A Igreja mística, a Jerusalém celeste, o Corpo de Cristo, asa religiões, a Franco- Maçonaria, geram o seu próprio egrégore. Pode supor-se o mesmo fenómeno para os movimentos políticos.
Integrado iniciaticamente no égrégore do Templo Maçónico, o filiado torna-se uma das células constituintes e aumentará a potência do égrégore pelas suas Qualidades. Poderá ele diminuir a potência pelos seus defeitos? é difícil responder a esta questão, mas, de facto, percebe-se que certas Lojas degradam-se sob o efeito de reacções egoístas. Diz- se que a Loja explode. Perde Força e Vigor, mas pode reconstituir-se de forma diferente com novos membros e reencontrar a sua função inicial.
A avaliação do número em Loja difere consoante a soberania desta. Algumas Lojas contam até uma centena de Irmãos. Outras preferem trabalhar com um número mais reduzido. Pode estabelecer-se uma média geral de trinta a quarenta participantes, par além disso, prevê-se a criação de um novo enxame, ou por outras palavras, de uma nova Loja.
Este aparte não nos afasta nada do assunto porque ele demonstra a importância do égrégore que se desagrega à medida que as suas vias não são respeitadas. É preciso não esquecer que os Franco-Mações são também homens, que nada são perfeitos, que cada um é falível: a virtude é a ciência do bem, o vicio corresponde à ignorância.
Mas aquele que nunca falhou atire a primeira pedra…
Entrar no Templo implica deixar os metais (riqueza material) A porta, assim como todas as ideias feitas, a fim de reencontrar a pureza da Iniciação que corresponde à harmonia, ao acordo, ao equilíbrio. E então que a Esperança aparece simbolicamente da altura do Templo, esperança antes de mais de conhecer: tal o verdadeiro salário do Maçon que então apreende o sentido da palavra AMOR, simbolizada pela largura do Templo. Nada mais resta do que longamente perseverar.
Tudo isto, claro está, não é senão o esquisso de um traçado espiritual, uma interpretação entre muitas outras, relativas à simbólica da Loja e do Templo; outras existem muito mais aprofundadas.
Os símbolos maçónicos não são dogmas, mas meios de chamar a atenção, de a reter, e de a incitar a retirar o manto que a cobre; são comparáveis aos graus de uma escala que o Maçon sobe mais ou menos rapidamente, segundo as capacidades de apreensão e se muitas vezes não permanece senão no fim da escala, ao menos que não se imagine chegado ao cimo.
No seu conjunto, o simbolismo maçónico não parte do desconhecível, mas, ao contrário do conhecido: o homem, a natureza; uma dualidade a partir da qual o simbolismo do triângulo abrirá a porta duma terceira dimensão que permite o acesso a outras dimensões infinitas…
Este simbolismo procede de uma verdadeira alquimia, a Arte do Traçado [1] (de forma especulativa):
- a base do triângulo é uma recta
- duas paralelas encontram-se no cimo formando um ângulo de 60°
- as duas paralelas são : uma positiva, outra negativa
- a base (neutra) atinge o cimo na sua neutralidade. Isto é, os extremos juntam-se e podem harmonizar-se
Este par de forças age conjuntamente visando uma resultante da sua acção e não o positivo ou o negativo, o que seria uma resultante profana.
Esta demonstração permanece aqui especulativa, torna-se operativa no Templo, no seio da Loja, no coração do iniciado : outro segredo maçónico.
O triângulo aparece desde então com a forma do informal, o símbolo inelutável da iniciação, que permite encontrar a natureza autêntica do Homem, o que Spinoza tinha pressentido:
“O homem concebe uma natureza humana muito superior à sua, ou nada, o que, parece-lhe, não o impede de se elevar, ele procura todos os meios que podem conduzi-lo a esta nova perfeição. A tudo o que lhe parece ser um meio de a atingir chama um verdadeiro bem e o que será o bem supremo, será o entrar na posse, com outros eleitos, se possível, desta natureza superior. Ora, que natureza é esta? E o conhecimento da união da alma humana com a natureza inteira?”
A mais importante simbólica do Templo corresponde ao Reino de Deus que é necessário não confundir com a manifestação expansiva: a quantidade não é a qualidade. O Templo é assim a imagem da pura unidade esotérica, a coisa interior simbolizada na Bíblia pelo grão de mostarda.
Este triângulo que se encontra no Rito Escocês Rectificado, suspenso sobre a Cadeira do Venerável Mestre, corresponde ao Evangelho de S. João:
- No PRINCÍPIO era o VERBO
- E o Verbo estava com DEUS
- E DEUS era (então) o VERBO
- Tudo estava desde o PRINCÍPIO com DEUS
- O TODO por isto mesmo foi feito
- E por isto mesmo não foi feito NADA
- DO QUE FORA FEITO
- Nisto mesmo estava a VIDA
- E a VIDA era a LUZ para os Homens
- E a LUZ brilha entre as TREVAS
- E as TREVAS não a absorvem:
- ET TENEBRAE EAM NOM COMPREHENDERUNT
Notar-se -á uma certa correspondência entre este texto e o da Tábua da Esmeralda.
A unidade do esoterismo: entre dois símbolos maçónicos aparecem as três religiões fundamentais : árabe, judaica, hindu. Precisemos que esta simbólica é intrínseca, não aparece na Franco-Maçonaria de modo ideográfico.
Texto recolhido e traduzido da obra de Roger Luc Mary Le Symbolisme dans la Franco-Maçonnerie, Paris, Editions de Vecchi, 1993
Fonte
- Cadernos de Cultura Maçónica nº 2 organizados pela Loja Astrolábio nº 51, a Oriente de Palmela (GLLP / GLRP), com coordenação de Alberto Trovão do Rosário, Antigo Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP.
Notas
[1] Art du Trait, no original (N. T.)


