Tradução da carta escrita pelo Cardeal Gianfranco Ravasi sobre as relações entre a Igreja Católica e a Maçonaria

Papa Francisco e o Cardeal Gianfranco Ravasi
Papa Francisco e o Cardeal Gianfranco Ravasi

A Igreja e a Loja

Caros irmãos maçons

Para além da identidade diferente, não faltam valores comuns: comunitarismo, caridade, luta contra o materialismo

Há algum tempo, li numa revista americana que a bibliografia internacional sobre a Maçonaria ultrapassa os cem mil títulos. A aura de segredo e mistério certamente contribui para este interesse. mais ou menos com razão, envolve numa espécie de nebulosa as várias “obediências” e “ritos” Maçónicos, sem falar na mesma génese que, segundo a historiadora inglesa Frances Yates, “é uma das mais discutidas e discutíveis todo o campo da pesquisa histórica “(curiosamente, o ensaio da estudiosa foi dedicado ao Iluminismo dos Rosacruzes, traduzido por Einaudi em 1976). Obviamente não queremos entrar neste arquipélago de “lojas”, de “oriente”, de “artes”, de “afiliações” e denominações, cuja história muitas vezes se confunde – para melhor ou para pior – com aquela política de muitas nações (estou a pensar, por exemplo, no Uruguai, onde recentemente participei em vários diálogos com expoentes da sociedade e da cultura da tradição Maçónica), assim como não é possível traçar linhas de demarcação entre o autêntico e o falso, a degeneração ou a para-Maçonaria e vários círculos esotéricos ou teosóficos.

Também é difícil traçar um mapa da ideologia que governa um universo tão fragmentado. Portanto, talvez possamos falar de um horizonte e um método, em vez de um sistema doutrinário codificado. Dentro deste ambiente fluido existem algumas encruzilhadas bem delineadas, como uma antropologia baseada na liberdade de consciência e intelecto e na igualdade de direitos, e um deísmo que reconhece a resistência de Deus enquanto deixa móveis as definições da sua identidade. O antropocentrismo e o espiritualismo são, portanto, dois caminhos bastante escavados dentro de um mapa muito variável e móvel que não podemos traçar de forma rigorosa.

Nós, no entanto, contentamo-nos apenas em apontar um interessante pequeno volume que tem um propósito muito limitado: o de definir a relação entre a Maçonaria e a Igreja Católica. Sejamos claros: não se trata de uma análise histórica dessa relação nem de qualquer possível contaminação entre os dois sujeitos. É, verdadeiramente claro que a Maçonaria assumiu até modelos litúrgicos cristãos. Não deve ser esquecido, por exemplo, que no século XVII muitas Lojas Inglesas recrutaram membros e professores do clero anglicano, tanto que uma das primeiras e fundamentais “constituições” Maçónicas foi redigida pelo pastor presbiteriano James Anderson, que morreu em 1739, e que afirmou que um membro “nunca será um ateu estúpido ou um libertino irreligioso”, mesmo que o credo proposto fosse o mais vago possível, “o de uma religião com a qual todos concordam”.

Ora, a oscilação dos contactos entre a Igreja Católica e a Maçonaria teve movimentos muito variados, chegando mesmo a atingir claras hostilidades, marcadas pelo anticlericalismo de um lado e excomunhões do outro. De facto, em 28 de Abril de 1738, o Papa Clemente XII, o florentino Lorenzo Corsini, promulgou o primeiro documento explícito sobre a Maçonaria, a Carta Apostólica In eminentia postolatus specula na qual declarou “devemos condenar e proibir… as mencionadas Sociedades, Uniões, Reuniões, Encontros, Agregações ou Conventículos de Maçons e dos Franco Maçons ou por qualquer outro nome que os queiram chamar”. Uma condenação repetida por sucessivos papas, de Bento XIV a Pio IX e Leão XI, que afirmaram a incompatibilidade entre pertencer à Igreja Católica e à obediência Maçónica. Lapidário era o Código de Direito Canónico de 1917, cujo cânon 2335 dizia: “Quem se inscrever na seita maçónica ou noutras associações do mesmo tipo que conspiram contra a Igreja ou autoridades civis legítimas incorre ipso facto na excomunhão reservada simplesmente à Santa Sé”.

O novo Código de 1983 temperou a fórmula, evitando a referência explícita à Maçonaria, preservando a substância da pena, embora destinada num sentido mais geral a “quem dá o seu nome a uma associação que conspira contra a Igreja” (cânon 1374). Mas o texto eclesial mais articulado sobre a incompatibilidade entre a adesão à Igreja Católica e a Maçonaria é a Declaratio de associationibus masonicis emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano em 26 de Novembro de 1983, assinada pelo Prefeito da época, Cardeal Joseph Ratzinger . Especifica com precisão o valor da afirmação do novo Código de Direito Canónico, reiterando que “o julgamento da Igreja a respeito das associações maçónicas permaneceu inalterado, pois os seus princípios sempre foram considerados inconciliáveis ​​com a doutrina da Igreja e, portanto, a inscrição neles permanece proibida”.

O pequeno volume a que agora nos referimos é interessante porque inclui, além de uma introdução do actual Prefeito da Congregação, Cardeal Gerhard Miiller – e dois artigos comentando esta Declaratio publicada na época pelo “Osservatore Romano” e pela “Civiltà Cattolica”, ambos de tantos episcopados locais, a Conferência Episcopal Alemã (1980) e a das Filipinas (2003). Trata-se de testar os significados – porque abordam as razões teóricas e práticas da inconciliabilidade entre a Maçonaria e o Catolicismo, tais como os conceitos de verdade, religião, de Deus, do homem e do mundo, espiritualidade, ética, ritualidade, tolerância. Em particular, é significativo o método adoptado pelos bispos filipinos, articulando o seu discurso por meio de três trajectórias: a histórica, a mais explicitamente doutrinária e a das orientações pastorais. E tudo se articula de acordo com o género catequético de perguntas-respostas: são 47 e permitem entrar em detalhes, como a cerimónia de iniciação, os símbolos, o uso da Bíblia, o relacionamento com outras religiões, o juramento de irmandade, os graus hierárquicos e assim por diante.

Estas várias declarações de incompatibilidade entre as duas associações da Igreja e da Maçonaria não impedem no entanto o diálogo, como é explicitamente afirmado no documento dos bispos alemães que já listavam áreas específicas de comparação como a dimensão comunitária, a caridade, a luta contra o materialismo, a dignidade humana, o conhecimento mútuo. É necessário também superar a atitude de certos círculos católicos integralistas que – para atingir alguns mesmo expoentes hierárquicos da Igreja de que eles não gostavam – recorreram à acusação apodíctica da sua filiação maçónica. Em conclusão, como já escreveram os bispos da Alemanha, é necessário ir para além das “hostilidades, ultrajes, preconceitos” mútuos, porque “em comparação com os séculos passados, o tom, o nível e a forma de expressar as diferenças e mudaram e melhoraram”, e que também continuam a persistir de forma clara.

Cardeal Gianfranco Ravasi

Carta enviada ao Jornal Il Sole 24 Ore, datada de 14 de Fevereiro de 2016

Tradução de António Jorge

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