Vamos falar de espiritualidade

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Espiritualidade

Esta é a qualidade do ser humano que aprendeu a processar as informações no nível mais subtil do seu sistema neurológico.

Arte, religião, filosofia, os mais abstractos conceitos e as mais nobres virtudes reúnem-se neste nível neurológico para formatar uma personalidade que transcende para além do próprio indivíduo e o integra a um sistema maior, que se poderia chamar de humanidade.

O plano espiritual

A espiritualidade é uma característica de personalidade que não pode ser negligenciada, se quisermos realmente ter sucesso na arte de viver. No trabalho, na vida social, na vida familiar, enfim, em tudo que envolver actividade humana, ela é um poderoso diferenciador. Ela significa a presença de preceitos morais sólidos, piedade, caridade, respeito, espírito de cooperação, noção de ética e justiça, sensibilidade para com as dificuldades do próximo e mais uma gama enorme de virtudes que nos faz pensar que a pessoa assim aquinhoada transcendeu da mera condição de ser humano que luta para responder com eficiência aos desafios do ambiente, para uma esfera de valores mais altos onde a noção do “eu” foi superada por uma sensação de estar participando de um sistema maior do que ele próprio..

É bom lembrar, entretanto, que espiritualidade não é sinónimo de conhecimento nem de religiosidade. Aqui não falamos em espiritualidade no sentido religioso, mas psicológico, isto, é estamos tratando de um processo que ocorre no interior da nossa mente, enquanto seres humanos mesmo, e não como entidade que transcendeu para outras esferas, embora essa transcendência fatalmente acabe por acontecer como corolário desse processo.

Não nos referimos, portanto, ao espírito como entidade superior que transcende a matéria, ou seja, aquela entidade imaterial e imortal, pertencente a uma ordem sobrenatural, que a maioria das religiões ensina existir dentro de nós. Espírito, aqui, é informação refinada no mais alto grau. E este refinamento pode também integrar a religião, já que a religião é um estado psíquico gerado nos níveis mais altos do nosso sistema neurológico, pois a sua verdadeira prática exige um considerável grau de abstracção. Especialmente quando se trata de uma religião metafísica, fundamentada em pressupostos filosóficos, como algumas religiões orientais. E quando se trata de outros tipos de religião, como as reveladas, o que se exige é um alto grau de sensibilidade [1].

Mas assim como a religiosidade mal dirigida pode descambar em fanatismo, também o próprio conhecimento, quando é inchado de vaidade, conspira contra a espiritualidade de que falamos aqui, pois aquilo que deveria ser subtileza de espírito acaba se tornando pedantismo, arrogância, mesquinhez, egoísmo e intolerância, que são as marcas do indivíduo que pensa ser o dono da verdade.

O que é espírito?

Esta é minha visão particular do processo que resulta na entidade que conhecemos pelo nome de “espírito”. Isto significa que ele é o resultado da consciência que desenvolvemos no decorrer da nossa experiência de vida. Não sei se ele, como entidade, existe antes de nascermos, mas acredito piamente que quando passamos do nível da consciência pura para o da transcendência, que é o nível mais subtil que o psiquismo humano pode atingir, nós geramos algo com essas propriedades. E quando a vida se extingue, e com ela todos os atributos do ser enquanto criatura humana, inclusive os psíquicos, o que fica é uma marca, um resultado, uma experiência sublimada, como contribuição que aquele ser humano em especial, agregou ao acervo comum de realizações efectuadas pela humanidade. Neste sentido, o espírito pode ser visto como um quantum de energia psíquica que se integra à Noosfera na forma de pensamento e se transforma em recurso que pode ser compartilhado por todos os seres humanos [2].

O que é “ser” humano.

Imensidade na imensidão de um espaço impossível de ser percorrido fisicamente;

Profundidade na rasura de um tempo que nada mais é do que uma fracção insignificante na vida do universo;

Qualidade e novidade, como emergência descontínua num mundo que se forma segundo padrões de desenvolvimento continuados e sempre iguais;

Movimento acelerado na aparente lentidão de uma paisagem que precisa de milhões de anos para trocar de roupagem e mudar os seus actores, eis o ser humano, agindo no ambiente com acções específicas, em resposta às suas necessidades e como reflexo das suas próprias acções!

Aprender a viver num ambiente que se modifica por força dos seus próprios actos;

Aprender a ter consciência dos próprios actos, para praticá-los com uma lógica interna cada vez mais apurada, capaz de atender aos padrões de equilíbrio necessários à saúde do organismo e à manutenção do equilíbrio ecológico do ambiente no qual vive;

Aprender a aprender para que, a partir do sucesso obtido em cada resposta dada, não resulte acomodação e estagnação;

Aprender a “ver-se” como centro convergente de uma esfera, cujos raios se multiplicam e se espalham em todas as direcções, “informando” todas as partes do universo, e dele recebendo informação;

Eis a missão última e inalienável do homem, enquanto sistema, e como criatura estruturada neurologicamente para procurar sempre a melhor resposta.

João Anatalino Rodrigues

  • Do livro “À procura da melhor resposta” – ed. 24×7 – 2ª ed. São Paulo, 2009

Notas

[1] Religiões metafísicas são aquelas que não têm uma Divindade como fonte dos seus ensinamentos. Exemplos: Budismo, Taoísmo, Hinduísmo. Religiões reveladas são aquelas cuja doutrina é ensinada ao homem pela própria Divindade. Exemplos: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.

[2] Noosfera é o termo usado pelo filósofo Teilhard de Chardin para nomear o conjunto das reflexões feitas pela humanidade em todos os tempos. Segundo aquele pensador, essa “massa” de pensamentos forma uma camada semelhante à atmosfera terrestre, que “aureola” a terra, servindo a todas as pessoas como uma fonte inesgotável de inspirações.

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